O dia em que choveram corações

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O dia em que choveram corações

Certo dia, começaram a chover corações e Cornélia Augusta apanhou um deles.
E depois outro e mais outro.
Como não eram pesados, a menina foi recolhendo mais alguns.
“Devemos estar perto do Dia de São Valentim,” pensou.

Cornélia Augusta decidiu fazer postais com os corações que tinha apanhado.
Observando-os de todos os ângulos, reparou que os corações eram todos diferentes. E pensou logo que postais se adequariam melhor a cada um dos seus amigos. Continuar a ler

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A maçã verde

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Este é o meu segundo dia na minha nova escola, no meu novo país.
Hoje não vai haver aulas porque vamos para o exterior. Mas os outros dias não serão como este. Amanhã voltarei para a aula em que irei aprender a falar Inglês.
As mães conduzem-nos para um atrelado cheio de feno. Subimos e encostamo-nos aos fardos de feno. O carro é puxado por um trator e todos somos sacudidos de um lado para o outro.
Acho estranho haver rapazes e raparigas sentados, juntos. No meu país não era assim.
Os alunos conhecem-se uns aos outros, mas não me conhecem a mim e eu não os conheço a eles. Quando falam não consigo percebê-los, e eu não posso ainda falar com eles. Alguns são amigáveis. Mas outros olham friamente para mim e sorriem, desdenhosos.
Ouço o meu país ser mencionado, não de forma afetuosa. Preferia ir para casa.
O meu pai tinha-me explicado que aqui nem sempre éramos bem-recebidos.
— O nosso país de origem e o nosso novo país têm tido dificuldade em entender-se — disse ele. — Mas, a seu tempo, tudo aqui será bom para nós!
Quanto tempo, pergunto-me eu…
Eu também sou diferente.
As minhas calças de ganga e a minha T-shirt parecem iguais às dos meus colegas, mas a minha “dupatta” (écharpe comprida e larga) cobre a minha cabeça e os meus ombros. E eu não tenho visto mais ninguém usar “dupatta”, embora no meu país todas as raparigas e mulheres a usem.

A rapariga que está sentada junto a mim sorri e aponta para si mesma.
— Ana — diz ela. Depois, aponta para mim. — Farah!
Eu digo que sim com a cabeça e repito:
— Farah — que é o meu nome.
Depois olho para o imenso campo onde pastam as vacas.
Sinto-me sufocada dentro de mim mesma.
Há três cães que surgem e que correm à nossa frente. Penso que pertencem aqui e que sabem o caminho. Uma vez tive um cão chamado Haddis.
Paramos num sítio onde crescem macieiras. Descubro que estamos aqui para colher fruta. Há velhas árvores que caíram por terra. Os três cães estão a roê-las, crunch, crunch, crunch. E os seus rangidos soam como os de Haddis.
A nossa professora junta-nos à sua volta. Fala para a turma. Depois, olha para mim de um modo carinhoso.
— Uma — diz ela. Toca numa maçã, depois colhe-a.
— Uma — diz ela outra vez.
Sei que devo apanhar apenas uma, como fizeram os outros alunos. Eu digo que sim.
Queria tanto dizer-lhe:
— Compreendo. Não é que eu seja estúpida. Apenas me sinto perdida neste novo lugar.
Mas não sei como.
Afastei-me dos restantes colegas. Junto a mim está uma árvore, mais pequena do que as outras, que não parece enquadrar-se. É pequena e está sozinha, como eu. Algumas maçãs totalmente verdes pendem nos seus ramos. Colho uma. Cabe perfeitamente na minha mão.
Em seguida, seguramos todos nas nossas maçãs e corremos e deslizamos pela colina abaixo. Os cães correm à nossa frente. As orelhas deles voam para trás, com o interior virado para fora, cor-de-rosa e brilhando ao sol.

No sopé da colina está uma pequena casa torta, feita de madeira. Pergunto-me se uma vaca vive nela, ou um bode. Talvez seja a casa de um pastor. Dentro da casa há uma máquina de madeira com um manípulo de metal. Não vejo nenhuma vaca ou bode, nem sequer um pastor.
A nossa professora alinha-nos. Um a um lá deixamos cair as nossas maçãs dentro da máquina. Vou ser a última a largar a minha pequena maçã verde.
A professora parece que vai falar. Depois, encolhe os ombros e sorri. Um rapaz grita:
— Ei!mr

Dirige-se para mim, como se fosse impedir-me de meter a minha pequena maçã verde na máquina. Mas chega atrasado. Ela já lá está.
Dentro da máquina existem lâminas que picam as maçãs, ca-chunk, ca-chunk, ca-chunk.
Os meus colegas começam a empurrar o manípulo. As maçãs picadas são espremidas.
A pele e a polpa ficam no saco enquanto o sumo escorre.
Eu deixo-me ficar para trás, sem ter a certeza se devo estar junto dos outros. Empurrar o manípulo deve ser difícil. Eles inclinam-se sobre ele e gemem.
Mas eu sou forte. E dou um passo na direção deles.
A Ana chama por mim e acena-me para ir para junto dela. Um rapaz abre espaço no manípulo, entre eles. Fico muito contente.
Nós empurramos e empurramos. É difícil, mas estamos a trabalhar juntos e conseguimos fazê-lo. O sumo cai em gotas drip drip drip.

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A nossa professora trouxe copos de papel. Alinhamo-nos outra vez, enchemo-los e bebemos. Lambemos os nossos lábios. Eu sei que saboreio a minha maçã especial…
— Cidra de maçã — diz a Ana.
Deve ser o que estamos a beber. E digo uma palavra para mim própria: Ma-çã.
A outra palavra é muito difícil.
A nossa professora começa a falar. Está a segurar num saco para os nossos copos e a fazer sinais para nos aprontarmos para ir embora.

Quando subimos, a Ana senta-se junto a mim no atrelado. Do outro lado está um rapaz.
— Jim! — diz, e aponta para ele mesmo.
Eu assinto.
— Jim — repito em silêncio.
O feno faz-me cócegas nos braços e faz a Ana espirrar. Cheira a sol seco.
O Jim afaga o estômago, e um arroto solta-se da sua garganta.
Todos riem. Eu rio, também.
Os risos soam iguais aos de casa. Exatamente os mesmos. Tal como os espirros, os arrotos e muitas outras coisas. As palavras é que são estranhas. Mas em breve vou conhecer as palavras. E misturar-me-ei com os meus colegas da mesma forma que a minha maçã se misturou com as demais para fazer cidra. Respiro fundo.
— Ma-çã — digo.
A Ana bate palmas. Eu sorrio … e sorrio … e sorrio.
É a minha primeira palavra fora de mim. Haverá mais. Muitas mais.

Eve Bunting
One green apple
New York, Clarion Books, 2006
(Tradução e adaptação)

A três não há frio!

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A três não há frio

Chegou o inverno e está muito frio. Em casa de Piquepique, o ouriço-cacheiro, o aquecimento não funciona.
Ainda por cima, como já é de noite, o eletricista só amanhã é que poderá vir arranjá-lo.
De repente alguém bate à porta:
Truz, truz.
― Quem é? ― pergunta Piquepique.
― Sou eu, o teu vizinho Quebra-Nozes… o esquilo! Não tenho aquecimento. Podes albergar-me por esta noite?
― Oh, meu amigo, o meu aquecimento também não funciona! Estava mesmo a pensar ir passar a noite a tua casa! Mas entra, entra, és muito bem-vindo. Assim já somos dois e podemos aquecer mais ― responde Piquepique.

Quebra-Nozes e Piquepique encostam-se um ao outro.
Mas quando Piquepique se enrola para dormir, Quebra-Nozes começa a gritar:
― Ai! Estás a picar-me! Os teus picos arranham-me a pele!
Piquepique afasta-se. Vai dormir para mais longe.
Quebra-Nozes diz-lhe:
― Agora que foste para longe, sinto mais frio. Mas quando te aproximas, magoas-me!
Piquepique responde:
― Também eu tenho frio. O que vamos fazer?
Quebra-Nozes tem uma ideia:
― E se fossemos a casa do Fofinho, o coelho angorá?

E é assim que, a meio da noite, Quebra-Nozes e Piquepique batem à porta do Fofinho.
Truz, truz.
Fofinho pergunta:

― Quem está aí?
― Quebra-Nozes e Piquepique, os teus vizinhos. Estamos com frio. Será que podemos aquecer-nos em tua casa?
Fofinho abre a porta e responde:
― Oh, meus amigos, mas eu também não tenho aquecimento!
Piquepique e Quebra-Nozes ficam muito espantados.
Piquepique insiste:
― Mas tu não tens frio?
Fofinho responde:
― Graças ao meu pelo longo, nunca tenho frio. Mas entrem, sejam bem-vindos. Como somos três, podemos aquecer-nos.
Quebra-Nozes explica-lhe então que não consegue dormir junto a Piquepique porque este o magoa com os seus picos.
Fofinho responde:
― Já sei! Vou colocar-me no vosso meio. Como somos três, teremos menos frio. E graças ao meu pelo, não vou sentir os picos do Piquepique!
E assim, Quebra-Nozes, Piquepique e Fofinho, bem juntinhos uns contra os outros, passaram uma noite muito quentinha e aconchegante!

Elsa Devernois ; Michel Gay
À trois on a moins froid
Paris, l’école des loisirs, 1995
(Tradução e adaptação)

Meus presentes de Natal – P. Bandeira

2Meus presentes de Natal – PDF

O Natal já vem aí,
tempo de ganhar presentes.
Muita coisa eu já pedi
e eu sei que vou ganhar.
Mas agora faço a lista
dos presentes que eu vou dar!

Eu vou dar pró meu irmão
um presente de abafar:
vou deixar que ele brinque
com as coisas que eu ganhar!
Mas espero que ele saiba
que dos meus brinquedos todos
eu tenho muito ciúme. Continuar a ler