Um velho carvalho

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Um velho carvalho

Fecha os olhos e respira profundamente, inspira e expira, inspira e expira. Ouve o som do suspirar e do sussurrar da tua respiração. É um som como o vento a assobiar por entre as folhas de uma árvore. Agora pega na tua lanterna mágica e segue pelo Caminho Encantado. Onde irá levar-te esta noite?

O murmúrio fica cada vez mais alto e encontras-te junto à base de um enorme e velho carvalho. Mas as folhas que esvoaçam ao vento não estão na árvore. Estão no chão, à tua volta, secas e castanhas, avançam e recuam, dançam e caem. Ali, de pé, com a árvore despida, começas a desejar que fosse primavera e não o princípio do inverno.

A árvore é antiga — tem mais de quinhentos anos. Balança suavemente ao vento e tu ouves com atenção. Sim, parece mesmo estar a segredar-te algo.

— Repara na linda forma dos meus ramos — murmura. — Olha para o lindo desenho rendilhado que fazem os meus ramos com o céu em fundo. Continuar a ler

O Presente

O Presente

 De todos os ovos da Páscoa que Jacob pintou com cascas de cebola, sobrou um, o mais bonito. Jacob corre a casa de Catarina para lho mostrar. Catarina está no pátio a deitar nas floreiras sementes de salsa.
— Cati, Cati! — grita Jacob — Olha! Nunca viste um ovo tão bonito como este!
— Olha tu! — grita Catarina, mas Jacob já tinha tropeçado na pá e no saco da terra. O ovo cai-lhe das mãos e parte-se.
— Que pena! — diz Catarina. — Devia ser um bonito ovo!
— Oh, o ovo mais bonito de todos! — lamenta-se Jacob. — Ah… estou tão zangado! Gaquicravutchi! Gaquicravutchi!
— O que é que estás para aí a dizer? — pergunta Catarina enquanto apanha do chão o ovo partido.
Gaquicravutchi — responde Jacob. — Acabei de inventar esta palavra para fazer desaparecer a minha raiva.
Gaquicravutchi… Tem graça… — diz Catarina.
— Podes ficar com ela, se quiseres – diz Jacob.
— Ofereço-ta. A tua mãe ralha sempre contigo de cada vez que dizes “porcaria”.
— Ofereces-me a tua Gaquicravutchi?
— Podes dizê-la sempre que estiveres zangada — responde Jacob.
Catarina fica a pensar.
— Também tenho uma prenda para ti, Jacob… mas tens de fazer pouco barulho. Anda!
Leva Jacob até à cerca e aponta para o pátio do vizinho.
— Baixa-te, que já vais ver — murmura.
Jacob dobra-se e olha na direcção do indicador de Cati e vê um pequeno arbusto de glicínias. Na bifurcação de um dos ramos está um ninho com um passarinho a chocar os ovos.
— Descobri-o hoje — diz Catarina. — E agora tu também já sabes onde ele está. Esta é a minha prenda para ti.
— Obrigada! É uma prenda bonita de se ver!

Tradução e adaptação
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986

Pi-shu, o pequeno panda

 

Pi-shu, o pequeno panda

Nas encostas da Montanha Amarela, na China, uma mãe panda fazia festas à sua cria. Escondida no tronco oco de uma velha árvore, lavava-a e alimentava-a com o seu leite quentinho, enquanto o filhote se aninhava contra o seu pelo suave e espesso. O nome da cria era Pi-shu e o seu tamanho não era maior do que uma das manchas que rodeavam os olhos da mãe.

Tinha nascido com uma caudazinha cor-de-rosa, que desapareceria quando crescesse. A mãe, Fei-fei, achava-o o panda mais bonito que já vira.

Pi-shu nunca era deixado sozinho durante muito tempo e Fei-fei embalava-o com frequência nos seus braços fortes.

À medida que o filhote se transformava numa bolinha peluda, Fei-fei costumava transportá-lo às costas. Quando tinha seis meses, começou a andar sozinho e a copiar a mãe mastigando bambu, cujo gosto amargo gostava de sentir na boca. Três meses mais tarde, deixaria de mamar.

Por volta do seu primeiro aniversário, já Pi-shu era forte e aventureiro. Em toda a parte via coisas com que brincar… árvores para trepar… rãs que saltavam quando ele as cheirava… ratazanas que jogavam às escondidas dentro e fora das tocas.

Um dia, quando as tempestades do início do Inverno se fizeram sentir nas montanhas, Pi-shu viu um bando de macacos no cimo das árvores. Seguiu-os, enquanto saltavam graciosamente de ramo em ramo.

Ia atrás deles o mais depressa que podia. Nunca tinha ido tão longe e, à medida que caminhava por entre os fetos densos, apercebeu-se de um cheiro que o fez hesitar. O cheiro provinha de um barulho de que não gostava, acompanhado por vozes que lhe eram estranhas.

Pi-shu estacou quando um baque tremendo fez estremecer o chão que pisava. Caíra uma árvore. Espreitando por entre os fetos espessos, viu, com espanto, que estava na orla da floresta. As árvores tinham sido todas abatidas para dar lugar a plantações de arroz e milho, e havia homens a abaterem mais árvores para arranjar lenha para as fogueiras do Inverno. Assustado, Pi-shu correu em busca da mãe.

Passou por entre a vegetação rasteira, apavorado com a ideia de se ter perdido, e chegou a uma pequena clareira, onde quase esbarrou com uma takin, que pastava com a sua cria. Olharam-se fixamente até que Pi-shu fugiu dali, em busca da mãe.

Quando Pi-shu encontrou Fei-Fei, esta viu que o filho estava muito assustado. Soube logo que esta zona da floresta já não era segura e que era tempo de saírem dali.

Na manhã seguinte, bem cedo, mãe e filho partiram, subindo colinas sem cessar, até que alcançaram o topo de um planalto envolto em brumas. O seu pelo oleoso mantinha-os quentes, mas passar por cima das rochas escorregadias não era tarefa fácil, especialmente para o pequeno Pi-shu.

Sem nada para comer, e com as primeiras neves a cair em torno deles, mãe e filho atravessaram o prado a caminho do próximo vale, onde encontraram um pequeno bosque de bambus. O local parecia sossegado e tranquilo. Aninhados contra um rochedo duro e frio, dormiram o melhor que podiam.

Acordaram no dia seguinte, no meio de uma manto de neve, e desceram devagar a encosta íngreme que conduzia ao vale. Enquanto desciam, iam alimentando-se de bambus.

Era já noite quando atingiram o sopé da montanha. Encontraram um riacho de água cristalina mesmo junto de uma pequena mata de bambus. Comeram até à saciedade e adormeceram, contentes, enquanto caía a noite.

Pi-shu gostaria de encontrar a sua própria casa quando crescesse e de subir as suas próprias montanhas. Por ora, porém, não mudaria nada na sua vida, nem em troca de todo o bambu da China.

 

John Butler
Pi-shu, the little panda
London, Orchard Books, 2001
tradução e adaptação

As quatro estações

Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.

Poderoso, os seus raios são espadas. Majestoso, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generoso, os seus raios são fios de vida.

Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto – os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.

Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade, a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.

Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.

O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo… Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor púrpura, em tons e meios-tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar…

Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.

— Em que desordem isto está — exclamava ele, irritado. E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas, caídas do céu… As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:

— Iremos nós também na cheia? — perguntavam uns para os outros.

O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:

— Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.

E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.

Lá fora, a Primavera impacientava-se. Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:

— Já posso?

Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.

Então, quando ela chegava, era uma festa. Corria a Primavera de lés a lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.

Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.

— Vamos trabalhar — dizia ele, assim que chegava.

E trabalhava-se, pois então! Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.

Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.

— O essencial fica feito. Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono — dizia o Verão, à despedida.

Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho… Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximarem-se. Que nervos!

Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.

E o Sol, risonho, ainda mais resplandece.

António Torrado
http://www.historiadodia.pt