Humberto e a macieira

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Nos arredores de uma pequena cidade viveu em tempos um homem. Chamava-se Humberto. Continuar a ler

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O Presente

O Presente

 De todos os ovos da Páscoa que Jacob pintou com cascas de cebola, sobrou um, o mais bonito. Jacob corre a casa de Catarina para lho mostrar. Catarina está no pátio a deitar nas floreiras sementes de salsa.
— Cati, Cati! — grita Jacob — Olha! Nunca viste um ovo tão bonito como este!
— Olha tu! — grita Catarina, mas Jacob já tinha tropeçado na pá e no saco da terra. O ovo cai-lhe das mãos e parte-se.
— Que pena! — diz Catarina. — Devia ser um bonito ovo!
— Oh, o ovo mais bonito de todos! — lamenta-se Jacob. — Ah… estou tão zangado! Gaquicravutchi! Gaquicravutchi!
— O que é que estás para aí a dizer? — pergunta Catarina enquanto apanha do chão o ovo partido.
Gaquicravutchi — responde Jacob. — Acabei de inventar esta palavra para fazer desaparecer a minha raiva.
Gaquicravutchi… Tem graça… — diz Catarina.
— Podes ficar com ela, se quiseres – diz Jacob.
— Ofereço-ta. A tua mãe ralha sempre contigo de cada vez que dizes “porcaria”.
— Ofereces-me a tua Gaquicravutchi?
— Podes dizê-la sempre que estiveres zangada — responde Jacob.
Catarina fica a pensar.
— Também tenho uma prenda para ti, Jacob… mas tens de fazer pouco barulho. Anda!
Leva Jacob até à cerca e aponta para o pátio do vizinho.
— Baixa-te, que já vais ver — murmura.
Jacob dobra-se e olha na direcção do indicador de Cati e vê um pequeno arbusto de glicínias. Na bifurcação de um dos ramos está um ninho com um passarinho a chocar os ovos.
— Descobri-o hoje — diz Catarina. — E agora tu também já sabes onde ele está. Esta é a minha prenda para ti.
— Obrigada! É uma prenda bonita de se ver!

Tradução e adaptação
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986

Pi-shu, o pequeno panda

 

Pi-shu, o pequeno panda

Nas encostas da Montanha Amarela, na China, uma mãe panda fazia festas à sua cria. Escondida no tronco oco de uma velha árvore, lavava-a e alimentava-a com o seu leite quentinho, enquanto o filhote se aninhava contra o seu pelo suave e espesso. O nome da cria era Pi-shu e o seu tamanho não era maior do que uma das manchas que rodeavam os olhos da mãe.

Tinha nascido com uma caudazinha cor-de-rosa, que desapareceria quando crescesse. A mãe, Fei-fei, achava-o o panda mais bonito que já vira.

Pi-shu nunca era deixado sozinho durante muito tempo e Fei-fei embalava-o com frequência nos seus braços fortes.

À medida que o filhote se transformava numa bolinha peluda, Fei-fei costumava transportá-lo às costas. Quando tinha seis meses, começou a andar sozinho e a copiar a mãe mastigando bambu, cujo gosto amargo gostava de sentir na boca. Três meses mais tarde, deixaria de mamar.

Por volta do seu primeiro aniversário, já Pi-shu era forte e aventureiro. Em toda a parte via coisas com que brincar… árvores para trepar… rãs que saltavam quando ele as cheirava… ratazanas que jogavam às escondidas dentro e fora das tocas.

Um dia, quando as tempestades do início do Inverno se fizeram sentir nas montanhas, Pi-shu viu um bando de macacos no cimo das árvores. Seguiu-os, enquanto saltavam graciosamente de ramo em ramo.

Ia atrás deles o mais depressa que podia. Nunca tinha ido tão longe e, à medida que caminhava por entre os fetos densos, apercebeu-se de um cheiro que o fez hesitar. O cheiro provinha de um barulho de que não gostava, acompanhado por vozes que lhe eram estranhas.

Pi-shu estacou quando um baque tremendo fez estremecer o chão que pisava. Caíra uma árvore. Espreitando por entre os fetos espessos, viu, com espanto, que estava na orla da floresta. As árvores tinham sido todas abatidas para dar lugar a plantações de arroz e milho, e havia homens a abaterem mais árvores para arranjar lenha para as fogueiras do Inverno. Assustado, Pi-shu correu em busca da mãe.

Passou por entre a vegetação rasteira, apavorado com a ideia de se ter perdido, e chegou a uma pequena clareira, onde quase esbarrou com uma takin, que pastava com a sua cria. Olharam-se fixamente até que Pi-shu fugiu dali, em busca da mãe.

Quando Pi-shu encontrou Fei-Fei, esta viu que o filho estava muito assustado. Soube logo que esta zona da floresta já não era segura e que era tempo de saírem dali.

Na manhã seguinte, bem cedo, mãe e filho partiram, subindo colinas sem cessar, até que alcançaram o topo de um planalto envolto em brumas. O seu pelo oleoso mantinha-os quentes, mas passar por cima das rochas escorregadias não era tarefa fácil, especialmente para o pequeno Pi-shu.

Sem nada para comer, e com as primeiras neves a cair em torno deles, mãe e filho atravessaram o prado a caminho do próximo vale, onde encontraram um pequeno bosque de bambus. O local parecia sossegado e tranquilo. Aninhados contra um rochedo duro e frio, dormiram o melhor que podiam.

Acordaram no dia seguinte, no meio de uma manto de neve, e desceram devagar a encosta íngreme que conduzia ao vale. Enquanto desciam, iam alimentando-se de bambus.

Era já noite quando atingiram o sopé da montanha. Encontraram um riacho de água cristalina mesmo junto de uma pequena mata de bambus. Comeram até à saciedade e adormeceram, contentes, enquanto caía a noite.

Pi-shu gostaria de encontrar a sua própria casa quando crescesse e de subir as suas próprias montanhas. Por ora, porém, não mudaria nada na sua vida, nem em troca de todo o bambu da China.

 

John Butler
Pi-shu, the little panda
London, Orchard Books, 2001
tradução e adaptação

As quatro estações

Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.

Poderoso, os seus raios são espadas. Majestoso, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generoso, os seus raios são fios de vida.

Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto – os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.

Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade, a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.

Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.

O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo… Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor púrpura, em tons e meios-tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar…

Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.

— Em que desordem isto está — exclamava ele, irritado. E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas, caídas do céu… As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:

— Iremos nós também na cheia? — perguntavam uns para os outros.

O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:

— Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.

E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.

Lá fora, a Primavera impacientava-se. Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:

— Já posso?

Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.

Então, quando ela chegava, era uma festa. Corria a Primavera de lés a lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.

Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.

— Vamos trabalhar — dizia ele, assim que chegava.

E trabalhava-se, pois então! Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.

Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.

— O essencial fica feito. Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono — dizia o Verão, à despedida.

Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho… Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximarem-se. Que nervos!

Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.

E o Sol, risonho, ainda mais resplandece.

António Torrado
http://www.historiadodia.pt

O Tio Vasculho

Maria Isabel de Mendonça Soares

Maria Maçã e outras histórias

Lisboa, Editorial Verbo, 1986

 

 

 

 

O Tio Vasculho varria, naturalmente. Nem mesmo podia fazer outra coisa porque nunca aprendera a ler nem a escrever.

Como no seu tempo as crianças não tinham obrigação de andar na escola, e o pai achava que ele lhe fazia mais falta para sachar as favas ou para guardar o milho da eira, o cachopito crescera sem saber distinguir um A de um B, mas nunca se tinha ralado muito com isso.

Podia ter aprendido um ofício qualquer, é verdade. Mas, habituado a não ter sujeições, o rapaz sentia-se atabafado entre as quatro paredes da oficina, e volta não volta ia dar um giro pelos campos, o que trazia sempre como resultado ser despedido pelos patrões que lhe davam emprego.

Nisto se foram passando os anos, e, chegado a velho, o Tio Vasculho só servia para varrer.

Quem lhe havia posto o nome tinham sido os garotos do bairro: Tio Vasculho!

Não era por troça; era só por graça. O Tio Vasculho empunhava uma vassoura tão grande e tinha uns bigodes tão façanhudos que o nome lhe estava mesmo a calhar.

O Tio Vasculho não se zangava. Até se ria. E continuava a varrer o largo e as ruas da cidade. Tinha uma autêntica fúria de limpeza.

Papel sujo caído no passeio ao alcance da vassoura – zás! – era papel varrido para o monte e apanhado na pá do lixo. Espinha de carapau, casca de laranja ou de ervilha que as donas de casa desmazeladas atirassem para a rua iam despachadas em grande velocidade com o mesmo destino, à frente do Tio Vasculho. Pratinha de chocolate ou cartucho lambuzado de gelado rodopiavam sem piedade nas barbas da sua vassoura.

O Tio Vasculho não perdoava nem a mais ligeira falta de asseio. E quando via alguém deitar para o chão papéis velhos ou cascas de fruta, ralhava sem cerimónia e fosse lá com quem fosse!

Havia uma única espécie de lixo que o não indignava: as folhas secas do Outono.

O Tio Vasculho tinha por elas uma verdadeira paixão. Eram tão lindas! As folhas das olaias, redondas e doiradas, pareciam-lhe montes de libras enormes. As dos plátanos, cor de cobre, essas eram como estrelas caídas por engano no empedrado dos passeios ou no alcatrão da rua.

E havia muitas outras, miudinhas ou largas, vermelhas ou amarelo-canário, cor de mel ou cor de pinhão…

O Tio Vasculho varria-as também, já se sabe, porque o seu trabalho era varrer e porque as ruas querem-se limpas, mas não o fazia com a fúria que empregava para varrer as coisas sujas. Varria-as com amor, juntando-as cuidadosamente como quem junta um tesouro precioso.

Era para ele o momento melhor do ano, esse tempo do Outono quando caíam as folhas.

E o Tio Vasculho sentia-se poeta, mesmo sem saber fazer versos. (Porque ser poeta é só isto: admirar e amar as coisas lindas que há no mundo à nossa volta.)

E por isso, apesar de velho e trôpego, o Tio Vasculho era feliz.

Até que um dia…

Um dia, a cidadezinha antiga onde morava o Tio Vasculho passou por uma grande transformação: arrasaram-se prédios velhos das ruas estreitas para abrir largas avenidas, as árvores antigas foram também deitadas abaixo porque – diziam certas pessoas – as suas raízes furavam os alicerces dos prédios e os ramos altos iam bater nos fios telefónicos…

A cidade velha modernizou-se, e o próprio lixo passou a ser chupado por máquinas parecidas com motoretas que faziam um barulho dos diabos, mas deixavam o chão capaz de se lamber, tão asseado ficava.

E com todas aquelas modas novas, o Tio Vasculho ficou sem ter nada que fazer.

Coitado do Tio Vasculho! Arrumou a vassoura ao canto da barraquita onde morava. (Porque infelizmente as transformações da cidade não tinham sido tão grandes que não continuasse a haver barraquitas de tábua e lata que serviam de casa aos pobres como o Tio Vasculho.)

Mas ele, que toda a vida só gostara de trabalhar ao ar livre, que ia fazer agora?

E começou a entristecer com saudades. Saudades principalmente das lindas folhas doiradas e vermelhas que eram o seu tesouro do Outono.

Ninguém sabe como aquilo aconteceu.

Talvez o vento tivesse reparado nos olhos tristes do Tio Vasculho. Ou então foi Deus quem o mandou reparar. O certo é que o vento passou palavra às árvores da estrada que saía da cidade, e as árvores, embora distantes da barraca do Tio Vasculho, sacudindo os ramos, disseram logo que sim, que o vento lhes podia arrancar todas as folhas que quisesse para as levar ao velho varredor. E o vento soprou com força, arrastando à sua frente milhares de folhas secas que vieram tombar à porta da barraquita.

O Tio Vasculho sentiu uma grande alegria ao vê-las. Pegou na vassoura e varreu, varreu, como se lhe voltasse aos braços a energia dos vinte anos.

Nunca os habitantes da cidade entenderam (e os senhores do boletim meteorológico ainda menos) por que motivo todos os anos, pontualmente, o vento mudava de direcção e, soprando do lado da estrada que saía da cidade, trazia pelo ar milhões de folhas de todas as cores que não caíam nas avenidas, mas se juntavam todas no bairro de lata que ficava longe do centro.

Então, o Tio Vasculho, de vassoura em punho, voltava a sentir-se poeta, mesmo sem saber escrever versos…