O pequeno rei Ego I

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Ego I, apesar de ter apenas oito anos e um palmo de altura, era a pessoa mais importante do reino.

Tinha mandado colocar espelhos por toda a parte, no salão, no quarto, na sala de jogos, nos quartos de banho, nas despensas, no sótão. Como só via a sua imagem, Ego I atendia somente os seus próprios desejos. Inventava leis apenas para servir os seus interesses. Como gostava muito de pastilhas elásticas e de doces, publicou uma lei, segundo a qual estes eram propriedade exclusiva do reino.

Todas as semanas, as crianças tinham de sacrificar as suas próprias guloseimas e de as levar ao palácio. Quem se atrevia a ficar com alguma coisa em casa, era condenado. Normalmente, as leis são iguais para todos, o que significa que devem fazer toda a gente feliz. Mas Ego I pensava precisamente o oposto: as leis apenas deviam servir os seus interesses particulares. Por isso, eram muito estranhas.

Nos transportes coletivos não havia nenhum lugar reservado para os deficientes e idosos. Só havia lugares reservados para “os pequenos reis com menos de um metro e sessenta de altura e trinta e cinco quilos”. Portanto, todas as pessoas ficavam de pé, mesmo nas horas de ponta, com receio de encontrar algum representante do rei que mandasse decapitá-las. No cinema, podiam sentar-se na primeira e última filas. As restantes estavam reservadas para o pequeno rei, a sua guarda pessoal e amigos. Porém, Ego I nunca lá ia, porque já não tinha amigos.

Ao fim de alguns anos de reinado, deixara de haver habitantes no reino. Todas as crianças tinham ido embora, com os bolsos cheios de guloseimas. Quem é que quer ficar com um rei que só se interessa pelo seu bem-estar e não pelo dos outros? O rei Ego I ficou sozinho no seu reino, sem saber que estava completamente só. Nas últimas semanas, os ministros do rei tinham-se arruinado a comprar bombons e pastilhas elásticas, para lhe fazerem crer que se continuava a fazer a coleta.

Uma manhã, ao consultar o calendário real, Ego deu-se conta de que em breve ia fazer nove anos e teve uma vontade louca de organizar uma festa com as crianças da sua idade. Mandou preparar um milhão de convites onde fez imprimir: 

O pequeno rei Ego I tem a honra de o convidar para vir festejar os seus nove anos, sábado, 17 de junho, entre as 14 e as 20 horas. E, depois de ter refletido, acrescentou: Quem tiver entre 5 e 17 anos deve comparecer diante das portas do reino, sob pena de ser decapitado.

É evidente que ninguém apareceu porque já não existiam crianças. Os ministros tremiam como varas verdes, com medo de que o rei descobrisse que havia já semanas que andavam a mentir-lhe. Então, no dia do aniversário, recolheram os sem-abrigo, prepararam-nos, deram-lhes banho, vestiram-lhes roupas lavadas, para fazerem crer ao rei que eram crianças, mas o pequeno rei Ego I deu pelo engano e, furioso, gritou:

— Castigarei com a pena de morte todos os que se atreverem a enganar-me!

E o rei Ego I ficou-se a resmungar diante dos espelhos, que as pessoas eram mal-educadas, interesseiras e egoístas, e que, afinal, ele tinha ficado sozinho.

— Algo está podre no reino de Ego I — praguejava ele.

Sentia-se tão só, fechado na sua prisão dourada, que decidiu sair sem a guarda pessoal. Quando passou no jardim, as rosas murcharam de repente e o sol escondeu-se. Percorridos alguns quilómetros, Ego I cruzou-se com o jardineiro, que era surdo como uma porta e meio simplório, a ponto de não reconhecer o rei.

— Ei! — gritou Ego I. — Bom homem, perdi-me no caminho. Dizes-me onde posso encontrar abrigo para passar a noite? Um bom reino, com um rei simpático.

O jardineiro indicou-lhe o reino que ficava em frente.

— Dirija-se àquele castelo, onde vive um rei bom, meigo e generoso, que se esforça por fazer os outros felizes. E acrescentou num murmúrio: — Fuja daqui depressa, onde vive o insuportável Ego I, egoísta ao máximo. Tem sorte de não ter sido ainda decapitado pela sua gente!

Grato ao jardineiro pela sua franqueza, Ego deixou-o viver e correu para o reino que ficava em frente. Ali conheceu muitas leis: não se deve fazer rabiscos nas paredes, não se deve mentir, nem bater nos outros, nem faltar-lhes ao respeito. De tempos a tempos, era preciso dar dinheiro, não para o rei, evidentemente, mas para se poder comprar e construir grandes coisas como hospitais, creches, escolas, e muitos edifícios úteis. Àquilo chamavam impostos. Ego I estava pasmado. Como aquelas leis estavam bem-feitas!

Decidiu ficar ali, a viver no meio dos outros, para aprender o ofício de ser rei. Era tão bom ver pessoas bem-dispostas, sorridentes e que não eram decapitadas por causa de uns cêntimos. “Em breve”, pensou Ego I, “quando estiver curado do meu egoísmo insuportável” – porque temos de chamar as coisas pelos seus nomes – “vou voltar para o meu reino e só hei de fazer leis boas, boas para todos!” Cumpriu a palavra dada e quando se tornou um grande rei, e não um reizito ridículo de três palmos, ditou regras dignas desse nome, em lugar de uma série de leis estúpidas que apenas tinham interesse para ele. Criou um grande reino e realizou coisas muito importantes. E toda a gente foi tão feliz ali, que mais ninguém pensou em fugir.

S. C.