A imagem de Lola revolta-se

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O melhor amigo de Lola não se chamava Pedro, nem Albano, nem Clemente. Era, ao mesmo tempo, mudo e falador, simpático e rude. Chamava-se… espelho! Porque Lola passava o melhor do seu tempo a contemplar-se. Não que ela se achasse bonita, não. Se lhe perguntassem, ela diria que não se achava nem bonita nem feia, mas gostava de se olhar, de se examinar. Por vezes, sorria-se a si própria. Outras vezes, franzia o nariz e fazia tais caretas que parecia uma feiticeira cheia de verrugas. Continuar a ler

De quem é este chapéu?

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De quem é este chapéu?

Era Verão outra vez.

Milly e Molly tinha terminado o piquenique quando um grande chapéu de palha castanho apareceu a voar pela praia.

— De quem será? — perguntou Milly.

— Anda, vamos descobrir — sugeriu Molly.

Não foi preciso perguntar aos dois meninos que cavavam buracos na areia. Viam-se as pontas dos seus chapéus.

O chapéu de palha não era deles.

Não foi preciso perguntar ao pescador, que estava sentado numa rocha. Ele tinha o boné bem enfiado na cabeça. O chapéu de palha também não era dele.

Não foi preciso perguntar à senhora que estava a encher o cesto com algas. Ela tinha a mão em cima do seu chapéu pois o vento queria levá-lo. O chapéu de palha também não era dela.

Não foi preciso perguntar às meninas que construíam castelos na areia. Elas tinham os chapéus presos com uma fita debaixo do queixo. O chapéu de palha também não era delas.

Não foi preciso perguntar às pessoas que apanhavam sol e mexiam os pés. Estavam debaixo de um grande chapéu-de-sol e não precisavam de proteger a cabeça. O chapéu de palha também não podia ser delas.

Não foi preciso perguntar ao senhor de bengala. Ele tinha o cabelo revolto a sair debaixo do seu gorro. Não era dele.

Não foi preciso perguntar aos surfistas. Eles tinham creme no nariz e os cabelos ao vento. De certeza que não era deles.

E dos quatro mergulhadores?

Na areia estavam quatro pares de botas mas apenas três chapéus!

Será que o chapéu de palha era de um deles?

Milly e Molly colocaram o grande chapéu de palha por baixo do quarto par de botas e correram para junto do seu cesto de piquenique.

No caminho para casa, passaram por várias pessoas, umas com chapéu, outras sem chapéu.

— Espero que tenhamos encontrado o dono certo — disse Milly.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo II
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Frente ao televisor

Frente ao televisor

Manuel, um amigo de Milly e Molly, era viciado em televisão. O Manuel via televisão na sala.

Via televisão na cama.

Via televisão antes da escola, depois da escola, em dias de chuva e, pior ainda, em dias de sol.

Até que, num dia de sol, quando Milly e Molly estavam lá em casa, a mãe gritou:

— Manuel, vai lá para fora fazer exercício!

— Exercício? Como? — disse Manuel, aborrecido.

— Como quiseres. Não quero tornar a ver-te até ao anoitecer.

E dito isto, a mãe do Manuel mandou os três amigos para fora de casa e fechou a porta.

— Já sei o que vamos fazer — disse Milly, pensativa.

— O quê? — resmungou Manuel.

— Vamos construir uma casa na árvore.

— Como? — perguntou o Manuel.

— Eu sei como — disse Molly.

— Imagino — zombou Manuel. — Quero ver!

Milly encontrou a árvore certa. Molly ajudou Manuel a encontrar todas as coisas de que precisavam.

Pegaram em tábuas, martelo, pregos e um pedaço velho de lona.

Milly, Molly e Manuel treparam, levantaram e trabalharam até ser quase de noite.

— Ora vejam só… — disse a mãe de Manuel. — Mas que bela casa na árvore!

Manuel foi direitinho para a cama. Estava demasiado cansado para ver televisão.

Levantou-se e, antes de ir para a escola, voltou à casa da árvore. Não lhe interessava ver televisão.

Ia para a sua casa na árvore depois da escola, nos dias de chuva e nos dias de sol. Não tinha tempo para ver televisão.

Até que, um dia depois da escola, ouviu barulho. Da sua casa na árvore, conseguia ver os rapazes a jogarem à bola no parque.

— Quero ir jogar futebol — disse ele.

— Ora vejam só… — disse a mãe.

E ajudou-o a inscrever-se na equipa.

Quando o Manuel não estava na casa da árvore, estava a jogar futebol. Esquecera a televisão.

Da casa da árvore, Milly e Molly viam Manuel a jogar futebol no parque. Quando ele ganhou o prémio do Melhor Jogador do Torneio, pareceu-lhes ouvir a mãe do Manuel dizer: “Ora vejam só…”

— Quando crescer, vou ser futebolista — disse Manuel.

— E vais aparecer na televisão? — perguntaram Milly e Molly.

— Claro que sim — disse Manuel. — Não vou ver televisão, mas aparecer na televisão.

— Ora vejam só… — disse a mãe do Manuel. — É espantoso o que o exercício físico pode fazer.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

O Henrique é o Henrique

O Henrique é o Henrique

O que se passa com o Henrique?

O Henrique sabe como se sente e é dono dos seus sentimentos.

Ele diz “não” quando quer e “sim” quando lhe apetece.

O Henrique é amável com as raparigas e simpático com os rapazes.

Não fica corado, nem ri à toa.

Não é intrometido, nem tímido.

Sabe do que gosta e do que não gosta.

Nem sempre precisa de um amigo para brincar, nem de companhia para conversar.

Ri-se das coisas engraçadas e chora com coisas tristes.

Lê muito bem diante da turma e não se importa quando se engana.

O Henrique tem mais dificuldades a Matemática.

Joga ao ‘mata’ com uma mão.

Não se importa que se riam dele, que o arreliem ou o gozem.

O Henrique abre a porta e deixa passar primeiro os mais velhos.

Lembra-se de dizer ‘se faz favor’ e nunca se esquece de dizer ‘obrigado’.

O Henrique sabe reconhecer os seus erros quando faz alguma coisa mal.

O Henrique usa o cabelo direito, quando todos usam espetado.

Quando se usam calças apertadas, o Henrique veste calças largas. Quando as camisas azuis estão na moda, o Henrique usa encarnadas.

E que é o amigo mais disputado da escola?

O Henrique!

O Henrique é o Henrique e pronto!

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Se respeitares os outros – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Se respeitares os outros

Podes correr contra o tempo
sonhando ser campeão,
mas por favor não transformes
a vida em competição.

Mesmo que tenhas o sonho
de em tudo seres o melhor,
percebe que é na diferença
que está o valor maior.

A diferença é que distingue
e distinguindo aproxima
evitando esse fosso
que humilha e desanima.

Com o tempo descobrirás
que a ambição é que cega,
não havendo prazer maior
do que ajudar um colega.

E por favor tem cuidado
quando vais a atravessar;
espera o verde dos peões
para poderes avançar.

Espera da vida os sinais
que não te hão-de enganar
e hás-de chegar a tempo,
mesmo a tempo de chegar.

Por favor, porta-te bem,
que a vida espera de ti
apenas algumas coisas
daquelas que aqui escrevi.

Se respeitares os outros,
a ti te respeitarás,
sendo essa a maneira
de poderes viver em paz.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Tenta agora ser crescido – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Tenta agora ser crescido

Toma nota dos recados
que chegam a tua casa,
algo pode acontecer
se a mensagem se atrasa.

Não abuses do telefone
mesmo à mão de semear,
pois na hora da verdade
não serás tu a pagar.

Tenta agora ser crescido
e ouve o “rock” mais baixinho;
deixas o gato dormir
e não acordas o vizinho.

O que tu ouves aos berros
só serve para te excitar
quando afinal é de calma
que estamos a precisar.

Tenta agora ser crescido
mesmo que ainda o não sejas;
se quiseres, tu podes ser
tudo aquilo que desejas.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Leva o cão a passear – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Leva o cão a passear

Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um acto sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão ?

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Evita roer as unhas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Evita roer as unhas

Evita roer as unhas,
que ficas com dedos feios
e as unhas onde as punhas,
espalhadas pelos passeios ?

Evita roer as unhas
que te podem fazer mal,
andam sujas, carcomidas,
como folhas de um jornal.

Evita roer as unhas
porque não sabem a nada
e as unhas onde as punhas,
numa gaveta fechada?

Evita roer as unhas,
pois não és um roedor,
deixa-as crescer à vontade,
faz-lhes lá esse favor.

Evita roer as unhas
porque não te fica bem;
sem as unhas não te coças
e coçar sabe tão bem.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não vale fazer batota – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não vale fazer batota

Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

A mão a tapar a boca – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

A mão a tapar a boca

Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Mentir é muito feio – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Mentir é muito feio

Mentir é muito feio
porque faz mal à verdade,
deixa a verdade a meio
e instaura a falsidade.

Neste inundo de mentira
dela não faças a regra;
nem sempre nos absolvem
por aquilo que se nega.

E se a mentira é um vício, pode
tornar-se doença
que custa para se curar
muito mais do que se pensa.

O mentiroso altera
aquilo que vê e escuta;
a verdade e a mentira
nele estão sempre em luta.

E no fundo o mentiroso
a si mesmo se desmente
pois falseando a verdade
tudo à mentira consente.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não se lê à mesa – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não se lê à mesa

Não leves livros para a mesa
na hora da refeição;
por muito que a leitura
te encha de satisfação.

Há outros lugares melhores
e por certo apropriados
para tu leres com prazer
os livros mais indicados.

Ler à mesa é a maneira
de esqueceres quem lá está,
é uma falta de respeito
que nenhum consolo dá.

Se o livro for teu amigo,
lê-o num outro lugar,
não o ponhas de castigo
quando estás a almoçar,
pois bem vistas as coisas
até o podes estragar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Deves ser pontual – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Deves ser pontual

Não penses que o relógio
gosta de se atrasar
só porque tu de manhã
te enroscas a dormitar.

Os outros não faças esperar
pois é falta de respeito
e pela tua vida fora
há-de tornar-se um defeito.

Com um esforço pequenino
horários hás-de cumprir
e se fores tu a esperar
mais forte te hás-de sentir.

Verás que não custa nada
tornares-te pontual;
se tens encontro marcado,
ser cumpridor é normal.

E bem podes acreditar,
com o passar da idade,
que se tornou uma virtude
essa pontualidade.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Bom dia, por favor, perdão – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Bom dia, por favor, perdão

Na escada ou no elevador
se te cruzas com um vizinho
vê que não é um estranho
que te salta ao caminho.

Sorri e dá-lhe os bons-dias,
que é acto de educação,
e se o empurras sem querer
pede-lhe logo perdão.

No balcão onde te atende
sempre o mesmo senhor
diz-lhe que bolo é que queres
sem esquecer o “por favor”.

Para entrares numa sala
deves dizer “com licença”
depois de bater à porta
para anunciar a presença.

Pede desculpa se desces
a escada a três e três,
sobretudo se a pressa
te faz pisar quem não vês.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Pouco barulho – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Pouco barulho

Numa sessão de cinema,
mesmo num filme de acção,
não fales alto no escuro
aproveitando a confusão.

Os outros têm direitos
que os seus bilhetes lhes dão
e não gostam do ruído
da falta de educação.

Os meninos ruidosos
lá para fora devem ir
só para não prejudicarem
quem se está a divertir.

Se levares o telemóvel,
não te esqueças de o desligar
pois ninguém é obrigado
a tê-lo no escuro a tocar.

E para abuso já basta,
em terra mal-educada,
ver adultos que atendem
como se não fosse nada.

Cessa a tua liberdade
se a dos outros prejudicas;
vê bem como te comportas
nesse lugar em que ficas.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Viver com os outros tem regras – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Viver com os outros tem regras

Na casa em que vives
marca bem o teu lugar
e pensa que o dos outros
nunca deves ocupar.

Tens tarefas para cumprir
e delas deves dar conta;
uma coisa não se faz
só porque a queres ver pronta.

Divide bem as tarefas
que tens com os teus irmãos;
se a divisão estiver certa,
ainda vos sobram mãos.

Sobra tempo para brincar
depois do dever cumprido,
sobra tempo para sonhar
se o tempo for bem gerido.

E não deixes para amanhã
o que hoje podes fazer;
aquilo que agora adias
dar-te-á menos prazer.

Não sejas desarrumado
com roupas e com cadernos;
tarefas que tu desleixas
para outros são infernos.

Não deites pelas janelas
para depois se apanhar
o lixo que tu produzes
e que nem tentas limpar.

Viver com outros tem regras
que agora irás aprender;
se hoje sem querer as negas,
muito mal hás-de crescer.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Cuida bem dos dentes – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Cuida bem dos dentes

Não há saúde que dure
se for má a dentição;
lava os dentes com cuidado,
com paciência e atenção.

Antes de te deitares,
mesmo com o sono a chegar,
pega na escova e na pasta
com que os dentes vais lavar.

Deixa os dentes bem lavados
em todas as direcções
e verás que assim evitas
as cáries e as infecções.

Antes de ires para a escola
o mesmo deves fazer,
não dando tréguas aos males
que os dentes fazem doer.

E no final das refeições,
se os puderes ir lavar,
não adies esses cuidados
que os dentes te hão-de salvar.

Nestas questões o desleixo
tem uma factura elevada
e não há nada mais feio
que uma boca desdentada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Mãozinhas bem lavadas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Mãozinhas bem lavadas

Antes de te sentares
na mesa onde vais comer
há por certo um cuidado
que em todo o lado deves ter.

É um cuidado normal
de que te hás-de lembrar:
quem se senta para comer
primeiro as mãos vai lavar.

Assim evitas doenças
que podem contagiar;
a água com o sabão
não se deixa enganar.

Seja qual for o micróbio
que te queira ameaçar,
se cuidares da higiene
bem o podes derrotar.

As mãozinhas bem lavadas
são um modo salutar
de pores a saúde à mesa
em que agora te vais sentar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

O coelho da Páscoa

O coelho da Páscoa

Os coelhos da Páscoa não existem!

Pelo menos é o que muita gente pensa. E dizem:

— Um coelho é um coelho, quer esteja na coelheira ou no campo. E não põe ovos. Então como é que podia trazê-los pela Páscoa?

Além do mais, um coelho não consegue abrir uma porta ou saltar uma vedação. E onde é que ia arranjar um cesto para pôr os ovos, se mesmo assim os tivesse?

Ainda por cima, todos os coelhos têm medo dos homens! É triste, mas é assim!

Contudo, seria maravilhoso se imaginasses um coelho da Páscoa só teu.

Ora aqui está ele! Tem mais ou menos a tua altura e umas belas orelhas compridas.

Já está vestido com um fato de todas as cores e traz às costas um cestinho com todas as tuas prendas.

Vem a tua casa! Atravessa prados, bosques e salta por cima de todos os ribeiros. Oh! Olha uma raposa a tentar apanhá-lo!

Mas o coelho não tem medo nenhum.

— Sou o coelho da Páscoa — diz ele calmamente.

— Oh, as minhas desculpas! — responde-lhe a raposa.

O teu coelhinho chega a uma cidadezinha. Vem um cão a ladrar com toda a força, mas quando vê que é o coelho da Páscoa, abana a cauda alegremente.

O coelho da Páscoa passa por cima das sebes, atravessa jardins e chega finalmente à soleira da tua porta.

Mete a ponta de uma das suas longas orelhas na fechadura e roda-a muito devagarinho e com muito cuidado. E pronto, a orta abre-se.

Está agora a esconder os ovos e muitas outras coisinhas que trouxe. E quando tu acordares no domingo de Páscoa e encontrares os ovos, vais ter a certeza de que… foi o teu coelho da Páscoa que trouxe tudo!

Ele fez toda esta longa viagem por tua causa. E é o coelho da Páscoa mais bonito do mundo porque foste só tu que o imaginou!

Tradução e adaptação

Winfred Wolf
Le Lapin de Pâques
Paris, Casterman, 1987

Já pensaste que…

Já alguma vez pensaste
que é bom ter olhos
para ver o mundo

e ouvidos

para ouvir os outros

e boca
para dizer tudo aquilo
que dizemos

e pernas
para nos levar
onde somos precisos

e mãos
para ajudar
os que delas precisam

e braços
para estreitar os outros
num abraço

e ombros
para que alguém neles
recline a cabeça fatigada

e cérebro
para pensar em ajudar os outros

e coração
para sentir as coisas
que nem sempre compreendemos
imediatamente

Já alguma vez pensaste
como tudo isto é maravilhoso?

Leif Kristianson
Já pensaste que…
Lisboa, Editorial Presença, 1981

Ninguém gosta da lua!

Ninguém gosta da lua!

Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

— Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

— Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

A Lua baixou os olhos tristemente.

— Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

— Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

— Acontece que nem me dizem boa noite!

A Noite aclarou a garganta.

— Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

— Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

E a Lua continuava a choramingar.

— Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

A Noite ouvia atentamente.

— Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

— Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

A Noite prosseguiu:

— É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

— Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.

O pequeno vampiro apaixonado

O pequeno vampiro apaixonado

Numa noite de lua cheia, ao sair para o escuro, como sempre fazia para não ser visto, o pequeno vampiro encontrou uma menina vestida de cor-de-rosa a sair de uma casa. Era noite de Natal. A menina tinha os olhos radiantes de felicidade como todas as crianças naquela noite. Trazia o seu mais belo vestido, cor-de-rosa com folhos, e estava a dançar no passeio. O pequeno vampiro tinha os dentes pontiagudos, a pele macilenta e um rosto triste, e ali ficou, de olhos arregalados, a admirar a alegria dela.

Desde o primeiro momento em que a vira, o pequeno vampiro não parava de suspirar. Era uma dor de alma. Queria voltar a vê-la. Não para lhe fazer mal. Apenas para lhe dar um beijinho no pescoço, um beijinho muito, muito pequenino. Mas o que pode esperar um vampiro negro de uma menina cor-de-rosa?

À noite, aproximava-se da casa de Rosina, assim se chamava ela, tentando voltar a vê-la. Mas só conseguia avistar uma menina a lavar os dentes, uns lindos dentinhos brancos como pérolas de nácar, a pentear-se ou a passar uma luva pela sua linda pele. Ou a dormir sorrindo, na sua cama cor-de-rosa. E o vampiro lembrava-se dos seus dentes compridos, da sua pele macilenta, das mãos recurvadas, e pensava: “Um pouco de cor-de-rosa no meu coração cinzento faria um rosa acinzentado que seria muito bonito.”

E escondia-se dentro da sua caixa escura, que é uma forma de os vampiros exprimirem a sua tristeza. As faces pareciam papel enrugado, os olhos reflectiam a tristeza que lhe ia na alma. Colocou um letreiro na caixa: “Desgosto de amor”.

A mãe dizia-lhe:

— Não te preocupes, meu bichaninho. Isto já sucedeu a outros: o príncipe e a pastora, o guardador de ovelhas e a princesa, o gato e a ratinha. Porque não um vampiro e uma menina?

— Oh! — suspirava ele. Como é triste estar-se apaixonado! Naquela noite, mais valia ter partido uma perna! Mexe com tudo cá dentro e não se pensa noutra coisa! Gostava tanto de estar com ela, de lhe falar, de lhe pegar nas mãozinhas rosadas, de a ouvir rir, de lhe ver o brilho dos olhos…

E ficava encostado às paredes do prédio, à noite, a espreitar pela janela, só para ver uma pontinha do tule rosa, o esboço de um sorriso, um pouco de céu azul.

E o pequeno vampiro sonhava, no seu cantinho de céu escuro. Um dia haviam de casar, ela vestida de branco, a menina cor-de-rosa, com os cabelos cheios de flores. Ele levaria um lindo fato creme, e os seus dentes seriam como pérolas. Mas, quando acordava, a vida era como antes. E dentro da sua caixa, dava largas à tristeza.

Tentou diferentes tácticas. Um dia pintou a cara de cor-de-rosa, outro dia escondeu os dedos em forma de garra numas luvas de pele de cordeiro. Fechou a boca a sete chaves para tapar os dois grandes caninos. Uma outra vez, pôs um nariz de palhaço no rosto macilento, mas ficava com um ar tão triste que até fazia chorar. Outro dia ainda, o pequeno vampiro aproximou-se um pouco mais da janela de Rosina. Foi terrível. Ela estava a ter um sonho mau. Chorava enquanto dormia, e gritava. Ele pensou: “É o momento de eu entrar em cena. De qualquer modo, nunca serei pior do que o pesadelo que está a ter”.

O pequeno vampiro entrou no quarto no preciso momento em que ela ia gritar “Mamã!”. Ao vê-lo, arregalou os olhos.

— O que estás aqui a fazer? — exclamou ela. — Como conseguiste entrar no meu quarto?

— Não tenhas medo — disse o pequeno vampiro a tremer. — Eu não faço mal a ninguém. Sou um vampiro simpático. Estou aqui para te ajudar. Não tires nem o dente de alho nem o crucifixo.

A menina desatou a rir às gargalhadas. Ria-se e de que maneira! Até as lágrimas lhe vieram aos olhos.

— O teu disfarce não serve de nada. Não és nenhum vampiro, és um rapaz!

O pequeno vampiro estava mesmo admirado. Em vez de gritar, ela ria-se e dizia que ele era como os outros!

— Eu conheço-te. Às vezes cruzo-me contigo na rua, ou então foi em sonhos, já te vi nalgum sítio — diz a menina. — Quando dizes que és um vampiro, estás enganado. Os vampiros são feios e tristes. Não têm olhos brilhantes como tu.

O pequeno vampiro sentiu que estava a ficar corado, uma mistura de rosa e cinzento. A menina fez uma careta quando ele lhe disse que tinha a cara cinzenta como papel enrugado, e fê-lo aproximar-se do espelho!

— Tens de te bronzear um bocadinho, meu caro, para ficares mais corado. Deve ser de estares fechado em casa, longe dos outros. Volta amanhã, que vamos brincar no jardim, ao sol.

O rapazinho viu, com grande espanto, a sua imagem no espelho.

Era a primeira vez.

— Julgava que os vampiros não podiam ver-se ao espelho.

— Às vezes — disse a menina — julgamos que somos vampiros, feios e cinzentos, mas é só impressão nossa.

E deu-lhe um beijo no nariz.

No dia seguinte, o rapazinho e a menina brincaram juntos no jardim. O pequeno vampiro adquiriu uma linda cor de pele, olhos brilhantes e cheios de luz. E os dentes, curiosamente, começaram a encolher, a encolher… Pareciam pérolas!

— Vês, eu bem te disse. Vês como tinha razão!

E riram-se juntos.

Assim acaba a história do menino que se julgava um vampiro feio. Ou, talvez, a de um vampiro verdadeiro, que se transformou num rapazinho só porque gostava de uma linda menina rosadinha.

Assim nasceu a alegria

Assim nasceu a alegria
contando de um outro jeito o conto de Rubem Alves

Eis a história de uma florzinha que ao nascer, cortou uma das suas pétalas num espinho.
Como a pétala partida não doía e, além de macia, era a sua amiga mais íntima, a florzinha não se preocupou com isso e vivia feliz, muito feliz…

Contudo, certo dia, começou perceber que as outras flores a olhavam com grandes olhos, olhos de espanto! E foi nesse momento que notou que era um pouquinho diferente das outras flores.

Os dias foram passando e ela foi ficando triste, cada vez mais triste e o jardim ia perdendo o viço que tinha antes.

Ela não estava triste por causa da pétala partida. Isso não a incomodava nada. Estava triste pela forma como as outras flores olhavam para ela. 

E foi justamente por causa de tudo isso que a pequena flor começou a chorar.

Chorou tanto, mas tanto… que a terra molhada, já quase alagada, ao perceber que não aguentava nem mais uma lágrima, começou a ficar preocupada e perguntou:

— Porque brota tanta água desses pequeninos olhos? — perguntou à florzinha. Mas a florzinha continuava a chorar…

Assim, a terra decidiu pedir socorro à sua amiga árvore e contou o quanto florzinha chorava. E a árvore contou aos pássaros, seus companheiros. E os pássaros voaram, voaram… e contaram às nuvens sonhadoras. E as nuvens cochicharam aos ouvidos dos anjos que brincavam no céu. E os anjos, os melhores amigos das nuvens, juntaram-se e contaram a Deus. E Deus chorou como a florzinha chorava… Não de tristeza pela pétala partida da florzinha, mas pela indelicadeza e falta de compaixão das outras flores.

E a partir desse instante, o choro da florzinha transformou-se em chuva, a chuva tornou-se rio e o rio num imenso mar.

Os rios transformaram-se na casa dos peixes mais pequenos, que adoraram a ideia de viver em água doce. Os mares abarcaram os peixes maiores, bem maiores… Eles, por sua vez, gostaram imenso de mergulhar nas águas salgadas. Costumavam dizer que, quando fossem pescados, já estavam temperados…

Num pequeno intervalo do choro, a florzinha abriu os olhos e ficou admirada com todo o reboliço à sua volta. Não sabia, que era tão querida pela Natureza.

Naquele momento, a sua tristeza começou a transformar-se em algo estranho. Era uma espécie de ‘cócega’ a serpentear pelo corpo, um tremor que ia e vinha e que, assim que chegou ao coração, o fez bater mais forte. A flor sentiu a boca repuxar-se levemente para cima como que delineando um riso leve.

E ao sorrir pela primeira vez, um delicioso perfume apoderou-se do seu corpo e alastrou pelas entranhas da Natureza, que nunca mais conseguiu viver sem ele. E esse perfume chamou muitos, muitos animaizinhos…

Vieram as abelhas, os beija-flores, as borboletas, as crianças… e um a um começou a cheirar a florzinha que sabia sorrir e que tinha um delicioso perfume que parecia sair exactamente da pétala partida.

— E o que aconteceu às outras flores da história?

— Ah, sabes porque é que as outras flores, belas mas infelizes, não tinham perfume? Porque não sabiam sorrir. O perfume é o sorriso da flor.

Essa é a história da florzinha que aprendeu a sorrir e que recebeu de presente o delicioso perfume que iria permanecer com ela e com todas as outras que viessem depois dela, desde que soubessem sorrir…

E quem não acreditar neste conto que acabo de contar de uma outra maneira, que faça o meu sorriso congelar ao primeiro ar que por aqui passar.

adaptado 

Heleida Nobrega, 2007

O papá urso foi embora

O papá urso foi embora

Naquela manhã, quando os três ursinhos traquinas acordaram da sua noite castanha, quiseram, como todos os dias, andar às cambalhotas, às cavalgadas e às cabriolas no lombo do papá urso.

Era para todos uma grande brincadeira ouvirem o pai a fingir que ralhava, meio a rosnar, com a sua voz de urso:

— Ai se vos apanho, seus ursinhos traquinas!

Nós, ursos, só temos o fim-de-semana para dormir. E o pai urso fingia que lhes dava um sopapo, um bofetão e uma grande patada. Os ursinhos traquinas fartavam-se de rosnar e rolavam no chão de tanto rir, o que era até uma maneira de massajarem as vértebras.

Mas, naquela manhã, quando os três ursinhos acordaram, encontraram a cama vazia e a mãe já a pé, olhando tristemente pela janela, como na história da princesa dos cabelos de ouro.

Mas aquilo não era nenhum conto de fadas.

— O vosso pai foi embora — disse a mãe ursa fungando.

E foi logo para a cozinha fazer crepes com mel.

— Ai sim? — pensaram os ursinhos. — Deve ter ido buscar o mel e o jornal. E algumas ervas para o almoço. E fazer as compras da semana.

E… esperaram todo o dia… Quando a noite estendeu o seu manto de estrelas, compreenderam que o pai urso não voltaria para casa naquela noite. Teria ido hibernar para outro lado? Para a Sibéria? Para onde o mel é mais aromático? Os ursinhos tinham perdido o ar traquina, à força de tanto fazerem perguntas. Teria encontrado no caminho alguma princesa encantada? É assim que entre os ursos se fala dos pais que se vão embora para seguirem um outro caminho, a Ursa Maior, por exemplo.

— Alguns partem para encontrar um pouco mais de fantasia, outros, para tomar ar durante um ou dois meses. Mas nunca ninguém foi embora por causa de um, de dois ou até de três ursinhos traquinas — respondeu-lhes de imediato a mãe ursa.

Se ela sentia vontade de dizer mal do pai urso, a verdade é que nunca o fez.

— Ele gosta muito de vós, sente imenso a vossa falta, eu sei — disse-lhes, olhando-os com os seus olhos castanhos orlados de vermelho.

Os dias continuavam a passar sem voltarem atrás.

Na toca, a vida já não era como dantes. Já não havia aquela voz grossa a acordá-los de manhã, nem aquelas grandes patas que os levavam à escola pela mão. Um pai, quando falta, faz muita falta. Os pêlos da barba mal cortados, as mãos grandes e quadradas, a voz grossa a ralhar, a barriga do pai urso que mexia quando ele se punha a rir, o cheiro a tabaco, os seus bocejos ruidosos que faziam tremer as paredes da toca, e até as grandes cóleras e as grandes zangas.

Os três ursinhos teriam dado tudo para receberem as boas palmadas do costume. Com as mães, a vida é cheia de doçura, de carinho, mas falta, sem dúvida, um pouco de força e de surpresa. Ninguém se atrevia a dizê-lo, mas era o que toda a gente pensava. Até que chegou uma altura em que se deixou de falar no assunto. Nunca mais se pronunciou a palavra “papá”. Sobretudo, porque bastava pronunciar uma só palavra iniciada por “pa” para que os olhos da mãe ursa começassem a ficar perigosamente vermelhos.

Deixaram então de dizer muitac oisa: “papá”, “papagaio”, “papaia”, “papar”, “paparico”, “paparoca”, mas também a palavra “paradoxo”, “parágrafo” e “passado”. Muitas palavras existiam começadas por “pa”! Na toca, deixou de se pronunciar uma grande parte do dicionário.

De tanto, tanto se esperar, o rosto do pai urso começou a ficar menos nítido aos olhos dos ursinhos traquinas. Nos seus sonhos, ele transformou-se no Peter Pan, no Rei Leão, em muitas outras personagens. O rosto do papá urso que ralhava desvanecia-se pouco a pouco.
Um dia, contudo, após tão longa espera, chegou uma carta à toca dos ursinhos traquinas. Depois daquela aventura, já havia passado muito, muito tempo, tanto, que um outro pai urso tinha ido viver lá para casa, os ursinhos tinham regressado às suas lendárias travessuras e os olhos da mãe ursa nunca mais tinham ficado vermelhos.

— Ursinhos! Venham depressa! Uma carta do vosso pai! — gritou a mãe ursa, que conhecia bem a ligação dos três ursinhos ao pai.

Meus três ursinhos queridos, escrevia o pai urso, sinto muito a vossa falta. Apareço sábado para vos visitar e espero que me perdoem. Só quero ver-vos e fazer-vos papas, papinhas, paparicos e paparocas. Contem comigo sábado de manhã.

Havias de ver a alegria dos três ursinhos traquinas. Porque eles sabiam muito bem que, mesmo que o pai urso não voltasse a viver na toca, o amor entre um pai e os seus ursinhos traquinas dura toda uma vida: toda uma vida de “palavras” a dizer, de “paparocas” a comer e de “passados” a refazer!