Pintar a vida

pincel casas m

Era uma vez um homem que habitava uma terra antiga virada para o mar.

Possuía uma casa com uma torre, um cão e uma caixa de madeira com tintas e pincéis.

Considerava-se um homem rico, não tanto pela casa, pelo cão e pela caixa, mas pela alegria que sentia quando pegava nas tintas e nos pincéis e pintava para fazer as coisas acontecerem.

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A História da Vaca Glória

 

Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes,  pelos grossos e duros e  pés pesados. Continuar a ler

Tesouro no fundo do mar

Tesouro no fundo do mar

Fecha os olhos e imagina-te sentado num barco que flutua no mar calmo. Quando olhas para baixo e vês as ondas que se agitam, a tua lanterna mágica capta o luar. Brilha como um Caminho Encantado no azul profundo do mar. Onde irá levar-te esta noite?
Escorregas até à água quente e nadas como um peixe, entrando e saindo do teu próprio trilho de bolhas brilhantes. Depois, como por magia, as bolhas transformam-se em pequenos cavalos-marinhos, andando para cima e para baixo na água ao teu lado. Seguem em frente e param, vão em frente e esperam novamente. Tens a certeza de que querem que os sigas. Por isso vais atrás deles!
Um cardume de peixes prateados brilha à tua volta, centenas e milhares deles fazem cócegas na tua pele. Os cavalos-marinhos nadam à tua frente. É como se estivessem a indicar-te o caminho — ali à frente, estrelas-do-mar cintilam em cavernas submarinas e, mais além, estão ostras cujas pérolas reluzem como pequenas luas.
Vês agora as bonitas cores do recife de coral. O coral parece um castelo gigante guardado por ouriços-do-mar. À medida que vais nadando pelas pequenas e grandes torres do coral, reparas numa coisa que brilha nas profundezas da água. O que será?, interrogas-te.
Cheio de entusiasmo, aproximas-te nadando. É uma arca do tesouro! A tampa não está bem fechada e vês pequeninos pares de olhos a espreitar por entre aquela escuridão. Devagar, abres completamente a tampa e vários caranguejos pequeninos e engraçados fogem cá para fora.
Depois vês as jóias e os colares cintilantes, as pulseiras e as fivelas. E um monte de moedas de ouro. Um dos cavalos-marinhos roça com a cauda num anel de rubi. “Experimenta”, parece estar a dizer-te. A jóia reluz no teu dedo e interrogas-te a quem terá pertencido. A um grande duque que navegou pelo oceano com os seus navios? Ou talvez a uma princesa, que navegava porque ia casar com um príncipe que vivia num país distante? Os cavalos-marinhos brincam com as jóias e as moedas brilhantes. “Vá, leva uma parte do tesouro”, parecem estar a dizer.
Talvez só uma coisinha, pensas. Afinal, quem iria sentir a falta de uma pequena moeda depois destes anos todos? Mas a moeda não é tua. Decides que é melhor voltar a colocá-la no lugar e deixá-la escondida aqui debaixo do mar. Talvez outra pessoa possa gostar de a encontrar um dia.
Agora é tempo de partir. Despedes-te dos cavalos-marinhos e sobes velozmente mar acima, deixando um rasto de bolhas. Ao chegares a superfície, vês o sol nascente refletido no mar. Parece um disco brilhante, como a moeda de ouro que tiveste na mão.
Apesar de a moeda já aqui lido estar, lembras-te dela na tua cabeça. Sabes que estará sempre lá para te recordar a arca do tesouro e o lindo mundo que viste nas profundezas do mar.
  
Afirmações
 Podes apreciar muito uma coisa bonita sem que tenha de ser tua. Podes lembrar-te das coisas de que gostar na tua cabeça.
 Serás mais feliz se não deixares que os teus amigos ou qualquer outra pessoa te convençam a fazer uma coisa que não deves — algo que penses estar errado.
 Se realmente não sabes o que e certo e o que é errado, tenta que sejam os teus sentimentos a decidir.
 Nunca leves contigo algo que não te pertence, mesmo que penses que não vai fazer falta ao dono.

Anne Civardi, Joyce Dunbar, Kate Pety, Louisa Somerville
Dorme Bem
Lisboa, Editorial Estampa, 2008

Actividades com imagens

 

  • As aves anunciam o sol, e com ele, a vida escrever poema
  • Entre lençóis de nuvens, o menino dorme escrever poema
  • Da branca janela enfeitada de petúnias, um gato olha o mundo
  • O menino ouve, atento, a voz da mãe
  • As rosas crescem
  • Como é agradável ouvir uma história
  • Sempre mal humorado, o gato Plácido
  • Liberdade de nascer de novo
  • Uma janela que se abre
  • Procura colocar-te na pele do cão
  • Descreve, de uma forma expressiva, a presente imagem
  • Os quatro amigos, juntos …
  • As preocupações do Billy

    As preocupações do Billy

    Billy costumava andar preocupado.

    O Billy preocupava-se com muitas coisas…

    Preocupava-se com chapéus, e preocupava-se com sapatos.

    O Billy preocupava-se com nuvens, e chuva e pássaros gigantes.

    O pai tentava ajudar:

    — Não te preocupes, rapaz — disse ele. — Nenhuma dessas coisas pode acontecer. É tudo imaginação tua.

    A mãe também tentava ajudar.

    — Não te preocupes, querido — dizia ela. — Nós não deixamos que nada te magoe.

    Mas mesmo assim o Billy continuava preocupado.

    A sua maior preocupação era ficar em casa de outras pessoas.

    Uma noite, teve de ficar com a avó. Mas o Billy não conseguia dormir. Estava muito preocupado.

    Sentiu-se um pouco idiota, mas por fim levantou-se e foi contar à avó.

    — Que grande imaginação, querido — disse ela. — Quando eu tinha a tua idade também me preocupava. Tenho uma coisa para ti.

    A avó foi ao quarto e voltou com uma coisa nas mãos.

    — Estes são os bonecos das preocupações — explicou ela enquanto lhe mostrava uns bonequinhos coloridos do tamanho do dedo mindinho feitos de tecido. — Diz a cada um deles uma das tuas preocupações e põe-os debaixo da almofada. Eles preocupam-se por ti enquanto dormes.

    O Billy contou todas as preocupações aos bonecos das preocupações.

    E dormiu como um anjo.

    Na manhã seguinte, o Billy foi para casa. Nessa noite, ele contou novamente todas as suas preocupações aos bonecos.

    E dormiu como uma pedra.

    Mas na noite seguinte o Billy começou a preocupar-se.

    Ele não conseguia parar de pensar nos bonecos. Todas aquelas preocupações que ele lhes tinha dado…

    Não lhe parecia justo.

    No dia seguinte, o Billy teve uma ideia. Passou o dia a trabalhar na mesa da cozinha. Era um trabalho difícil e a princípio saía-lhe tudo mal e teve de recomeçar muitas vezes.

    Mas por fim o Billy produziu algo muito especial…

    Alguns bonecos das preocupações para os bonecos das preocupações.

    Nessa noite, TODOS dormiram bem, o Billy e todos os bonecos das preocupações.

    Anthony Browne
    As preocupações do Billy
    Lisboa, Kalandraka, 2006
    adaptado

    O presente

    O presente

    De todos os ovos da Páscoa que Jacob pintou com cascas de cebola, sobrou um, o mais bonito. Jacob corre a casa de Catarina para lho mostrar. Catarina está no pátio a deitar nas floreiras sementes de salsa.

    — Cati, Cati! — grita Jacob — Olha! Nunca viste um ovo tão bonito como este!

    — Olha tu! — grita Catarina, mas Jacob já tinha tropeçado na pá e no saco da terra. O ovo cai-lhe das mãos e parte-se.

    — Que pena! — diz Catarina. — Devia ser um bonito ovo!

    — Oh, o ovo mais bonito de todos! — lamenta-se Jacob. — Ah… estou tão zangado! Gaquicravutchi! Gaquicravutchi!

    — O que é que estás para aí a dizer? — pergunta Catarina enquanto apanha do chão o ovo partido.

    Gaquicravutchi — responde Jacob. — Acabei de inventar esta palavra para fazer desaparecer a minha raiva.

    Gaquicravutchi… Tem graça… — diz Catarina.

    — Podes ficar com ela, se quiseres – diz Jacob.

    — Ofereço-ta. A tua mãe ralha sempre contigo de cada vez que dizes “porcaria”.

    — Ofereces-me a tua Gaquicravutchi?

    — Podes dizê-la sempre que estiveres zangada — responde Jacob.

    Catarina fica a pensar.

    — Também tenho uma prenda para ti, Jacob… mas tens de fazer pouco barulho. Anda!

    Leva Jacob até à cerca e aponta para o pátio do vizinho.

    — Baixa-te, que já vais ver — murmura.

    Jacob dobra-se e olha na direcção do indicador de Cati e vê um pequeno arbusto de glicínias. Na bifurcação de um dos ramos está um ninho com um passarinho a chocar os ovos.

    — Descobri-o hoje — diz Catarina. — E agora tu também já sabes onde ele está. Esta é a minha prenda para ti.

    — Obrigada! É uma prenda bonita de se ver!

    Tradução e adaptação

    Lene Mayer-Skumanz (org.)
    Jakob und Katharina
    Wien, Herder Verlag, 1986
    Texto adaptado

    O coelho da Páscoa

    O coelho da Páscoa

    Os coelhos da Páscoa não existem!

    Pelo menos é o que muita gente pensa. E dizem:

    — Um coelho é um coelho, quer esteja na coelheira ou no campo. E não põe ovos. Então como é que podia trazê-los pela Páscoa?

    Além do mais, um coelho não consegue abrir uma porta ou saltar uma vedação. E onde é que ia arranjar um cesto para pôr os ovos, se mesmo assim os tivesse?

    Ainda por cima, todos os coelhos têm medo dos homens! É triste, mas é assim!

    Contudo, seria maravilhoso se imaginasses um coelho da Páscoa só teu.

    Ora aqui está ele! Tem mais ou menos a tua altura e umas belas orelhas compridas.

    Já está vestido com um fato de todas as cores e traz às costas um cestinho com todas as tuas prendas.

    Vem a tua casa! Atravessa prados, bosques e salta por cima de todos os ribeiros. Oh! Olha uma raposa a tentar apanhá-lo!

    Mas o coelho não tem medo nenhum.

    — Sou o coelho da Páscoa — diz ele calmamente.

    — Oh, as minhas desculpas! — responde-lhe a raposa.

    O teu coelhinho chega a uma cidadezinha. Vem um cão a ladrar com toda a força, mas quando vê que é o coelho da Páscoa, abana a cauda alegremente.

    O coelho da Páscoa passa por cima das sebes, atravessa jardins e chega finalmente à soleira da tua porta.

    Mete a ponta de uma das suas longas orelhas na fechadura e roda-a muito devagarinho e com muito cuidado. E pronto, a orta abre-se.

    Está agora a esconder os ovos e muitas outras coisinhas que trouxe. E quando tu acordares no domingo de Páscoa e encontrares os ovos, vais ter a certeza de que… foi o teu coelho da Páscoa que trouxe tudo!

    Ele fez toda esta longa viagem por tua causa. E é o coelho da Páscoa mais bonito do mundo porque foste só tu que o imaginou!

    Tradução e adaptação

    Winfred Wolf
    Le Lapin de Pâques
    Paris, Casterman, 1987

    Ninguém gosta da lua!

    Ninguém gosta da lua!

    Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

    — Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

    Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

    — Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

    A Lua baixou os olhos tristemente.

    — Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

    — Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

    — Acontece que nem me dizem boa noite!

    A Noite aclarou a garganta.

    — Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

    — Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

    E a Lua continuava a choramingar.

    — Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

    A Noite ouvia atentamente.

    — Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

    — Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

    A Noite prosseguiu:

    — É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

    A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

    — Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

    A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

    E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.

    O pequeno vampiro apaixonado

    O pequeno vampiro apaixonado

    Numa noite de lua cheia, ao sair para o escuro, como sempre fazia para não ser visto, o pequeno vampiro encontrou uma menina vestida de cor-de-rosa a sair de uma casa. Era noite de Natal. A menina tinha os olhos radiantes de felicidade como todas as crianças naquela noite. Trazia o seu mais belo vestido, cor-de-rosa com folhos, e estava a dançar no passeio. O pequeno vampiro tinha os dentes pontiagudos, a pele macilenta e um rosto triste, e ali ficou, de olhos arregalados, a admirar a alegria dela.

    Desde o primeiro momento em que a vira, o pequeno vampiro não parava de suspirar. Era uma dor de alma. Queria voltar a vê-la. Não para lhe fazer mal. Apenas para lhe dar um beijinho no pescoço, um beijinho muito, muito pequenino. Mas o que pode esperar um vampiro negro de uma menina cor-de-rosa?

    À noite, aproximava-se da casa de Rosina, assim se chamava ela, tentando voltar a vê-la. Mas só conseguia avistar uma menina a lavar os dentes, uns lindos dentinhos brancos como pérolas de nácar, a pentear-se ou a passar uma luva pela sua linda pele. Ou a dormir sorrindo, na sua cama cor-de-rosa. E o vampiro lembrava-se dos seus dentes compridos, da sua pele macilenta, das mãos recurvadas, e pensava: “Um pouco de cor-de-rosa no meu coração cinzento faria um rosa acinzentado que seria muito bonito.”

    E escondia-se dentro da sua caixa escura, que é uma forma de os vampiros exprimirem a sua tristeza. As faces pareciam papel enrugado, os olhos reflectiam a tristeza que lhe ia na alma. Colocou um letreiro na caixa: “Desgosto de amor”.

    A mãe dizia-lhe:

    — Não te preocupes, meu bichaninho. Isto já sucedeu a outros: o príncipe e a pastora, o guardador de ovelhas e a princesa, o gato e a ratinha. Porque não um vampiro e uma menina?

    — Oh! — suspirava ele. Como é triste estar-se apaixonado! Naquela noite, mais valia ter partido uma perna! Mexe com tudo cá dentro e não se pensa noutra coisa! Gostava tanto de estar com ela, de lhe falar, de lhe pegar nas mãozinhas rosadas, de a ouvir rir, de lhe ver o brilho dos olhos…

    E ficava encostado às paredes do prédio, à noite, a espreitar pela janela, só para ver uma pontinha do tule rosa, o esboço de um sorriso, um pouco de céu azul.

    E o pequeno vampiro sonhava, no seu cantinho de céu escuro. Um dia haviam de casar, ela vestida de branco, a menina cor-de-rosa, com os cabelos cheios de flores. Ele levaria um lindo fato creme, e os seus dentes seriam como pérolas. Mas, quando acordava, a vida era como antes. E dentro da sua caixa, dava largas à tristeza.

    Tentou diferentes tácticas. Um dia pintou a cara de cor-de-rosa, outro dia escondeu os dedos em forma de garra numas luvas de pele de cordeiro. Fechou a boca a sete chaves para tapar os dois grandes caninos. Uma outra vez, pôs um nariz de palhaço no rosto macilento, mas ficava com um ar tão triste que até fazia chorar. Outro dia ainda, o pequeno vampiro aproximou-se um pouco mais da janela de Rosina. Foi terrível. Ela estava a ter um sonho mau. Chorava enquanto dormia, e gritava. Ele pensou: “É o momento de eu entrar em cena. De qualquer modo, nunca serei pior do que o pesadelo que está a ter”.

    O pequeno vampiro entrou no quarto no preciso momento em que ela ia gritar “Mamã!”. Ao vê-lo, arregalou os olhos.

    — O que estás aqui a fazer? — exclamou ela. — Como conseguiste entrar no meu quarto?

    — Não tenhas medo — disse o pequeno vampiro a tremer. — Eu não faço mal a ninguém. Sou um vampiro simpático. Estou aqui para te ajudar. Não tires nem o dente de alho nem o crucifixo.

    A menina desatou a rir às gargalhadas. Ria-se e de que maneira! Até as lágrimas lhe vieram aos olhos.

    — O teu disfarce não serve de nada. Não és nenhum vampiro, és um rapaz!

    O pequeno vampiro estava mesmo admirado. Em vez de gritar, ela ria-se e dizia que ele era como os outros!

    — Eu conheço-te. Às vezes cruzo-me contigo na rua, ou então foi em sonhos, já te vi nalgum sítio — diz a menina. — Quando dizes que és um vampiro, estás enganado. Os vampiros são feios e tristes. Não têm olhos brilhantes como tu.

    O pequeno vampiro sentiu que estava a ficar corado, uma mistura de rosa e cinzento. A menina fez uma careta quando ele lhe disse que tinha a cara cinzenta como papel enrugado, e fê-lo aproximar-se do espelho!

    — Tens de te bronzear um bocadinho, meu caro, para ficares mais corado. Deve ser de estares fechado em casa, longe dos outros. Volta amanhã, que vamos brincar no jardim, ao sol.

    O rapazinho viu, com grande espanto, a sua imagem no espelho.

    Era a primeira vez.

    — Julgava que os vampiros não podiam ver-se ao espelho.

    — Às vezes — disse a menina — julgamos que somos vampiros, feios e cinzentos, mas é só impressão nossa.

    E deu-lhe um beijo no nariz.

    No dia seguinte, o rapazinho e a menina brincaram juntos no jardim. O pequeno vampiro adquiriu uma linda cor de pele, olhos brilhantes e cheios de luz. E os dentes, curiosamente, começaram a encolher, a encolher… Pareciam pérolas!

    — Vês, eu bem te disse. Vês como tinha razão!

    E riram-se juntos.

    Assim acaba a história do menino que se julgava um vampiro feio. Ou, talvez, a de um vampiro verdadeiro, que se transformou num rapazinho só porque gostava de uma linda menina rosadinha.

    Assim nasceu a alegria

    Assim nasceu a alegria
    contando de um outro jeito o conto de Rubem Alves

    Eis a história de uma florzinha que ao nascer, cortou uma das suas pétalas num espinho.
    Como a pétala partida não doía e, além de macia, era a sua amiga mais íntima, a florzinha não se preocupou com isso e vivia feliz, muito feliz…

    Contudo, certo dia, começou perceber que as outras flores a olhavam com grandes olhos, olhos de espanto! E foi nesse momento que notou que era um pouquinho diferente das outras flores.

    Os dias foram passando e ela foi ficando triste, cada vez mais triste e o jardim ia perdendo o viço que tinha antes.

    Ela não estava triste por causa da pétala partida. Isso não a incomodava nada. Estava triste pela forma como as outras flores olhavam para ela. 

    E foi justamente por causa de tudo isso que a pequena flor começou a chorar.

    Chorou tanto, mas tanto… que a terra molhada, já quase alagada, ao perceber que não aguentava nem mais uma lágrima, começou a ficar preocupada e perguntou:

    — Porque brota tanta água desses pequeninos olhos? — perguntou à florzinha. Mas a florzinha continuava a chorar…

    Assim, a terra decidiu pedir socorro à sua amiga árvore e contou o quanto florzinha chorava. E a árvore contou aos pássaros, seus companheiros. E os pássaros voaram, voaram… e contaram às nuvens sonhadoras. E as nuvens cochicharam aos ouvidos dos anjos que brincavam no céu. E os anjos, os melhores amigos das nuvens, juntaram-se e contaram a Deus. E Deus chorou como a florzinha chorava… Não de tristeza pela pétala partida da florzinha, mas pela indelicadeza e falta de compaixão das outras flores.

    E a partir desse instante, o choro da florzinha transformou-se em chuva, a chuva tornou-se rio e o rio num imenso mar.

    Os rios transformaram-se na casa dos peixes mais pequenos, que adoraram a ideia de viver em água doce. Os mares abarcaram os peixes maiores, bem maiores… Eles, por sua vez, gostaram imenso de mergulhar nas águas salgadas. Costumavam dizer que, quando fossem pescados, já estavam temperados…

    Num pequeno intervalo do choro, a florzinha abriu os olhos e ficou admirada com todo o reboliço à sua volta. Não sabia, que era tão querida pela Natureza.

    Naquele momento, a sua tristeza começou a transformar-se em algo estranho. Era uma espécie de ‘cócega’ a serpentear pelo corpo, um tremor que ia e vinha e que, assim que chegou ao coração, o fez bater mais forte. A flor sentiu a boca repuxar-se levemente para cima como que delineando um riso leve.

    E ao sorrir pela primeira vez, um delicioso perfume apoderou-se do seu corpo e alastrou pelas entranhas da Natureza, que nunca mais conseguiu viver sem ele. E esse perfume chamou muitos, muitos animaizinhos…

    Vieram as abelhas, os beija-flores, as borboletas, as crianças… e um a um começou a cheirar a florzinha que sabia sorrir e que tinha um delicioso perfume que parecia sair exactamente da pétala partida.

    — E o que aconteceu às outras flores da história?

    — Ah, sabes porque é que as outras flores, belas mas infelizes, não tinham perfume? Porque não sabiam sorrir. O perfume é o sorriso da flor.

    Essa é a história da florzinha que aprendeu a sorrir e que recebeu de presente o delicioso perfume que iria permanecer com ela e com todas as outras que viessem depois dela, desde que soubessem sorrir…

    E quem não acreditar neste conto que acabo de contar de uma outra maneira, que faça o meu sorriso congelar ao primeiro ar que por aqui passar.

    adaptado 

    Heleida Nobrega, 2007

    O bolo-rei

    O bolo-rei

    O bolo-rei tomava-se muito a sério. Não havia discussão: ele era o rei dos bolos.

    Como tal, quando lhe caiu uma passa da coroa, ordenou ao bolo-inglês:

    — Traz-me essa passa de volta.

    O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu:

    Sorry! I don’t understand…

    O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não tinha entendido.

    Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a mesma ordem. Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa.

    O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do excesso de natas.

    — Flá, plefe, pflu, pfló…

    Não se percebia nada.

    O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de amêndoa, que lhe respondeu:

    — Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me queixo.

    O bolo-rei, cada vez mais exasperado, deu a mesma ordem a um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil, muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que quer que fosse.

    — São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos cortados às fatias.

    E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou.

    António torrado
    http://www.historiadodia.pt

    Eu queria ser Pai Natal

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    Eu queria ser Pai Natal
    e ter um carro com renas
    para pousar nos telhados
    mesmo ao pé das antenas.


    Descia com o meu saco
    ao longo da chaminé,
    carregado de brinquedos
    e roupas, pé ante pé.


    Em cada casa trocava
    um sonho por um presente.
    Que profissão mais bonita
    Fazer a gente contente.

    Luísa Ducla Soares
    Poemas da Mentira e da Verdade
    Lisboa, Livros Horizonte, 1999

     

     

    De: Preparando o Natal

    Os génios do parque

    Os génios do parque

    O Paulo tivera uma nota má na escola e era o pior aluno da sua turma. Ele queria muito ter boas notas, mas não conseguia aprender o suficiente para isso. Preferia brincar, ver televisão ou simplesmente sonhar olhando para as nuvens.

    Ao voltar para casa, o Paulo encontrou um lindo esquilo que lhe pediu se partia uma noz grande. O Paulo partiu a noz com o pé e entregou-a ao esquilo que lhe disse:

    — Eu sou um génio do parque e, como tu foste amável comigo, vou ajudar-te com os teus estudos. Esta noite, lerás três vezes a lição e amanhã terás uma boa nota.

    O Paulo agradeceu ao esquilo, voltou para casa e, bem sentado na sua secretária, leu três vezes a lição. No dia seguinte leu a lição na escola sem dificuldade e a professora deu-lhe uma boa nota.

    No dia seguinte, o Paulo viu uma rã cheia de areia no caminho. Pegou nela e pousou-a delicadamente sobre uma grande folha de nenúfar no lago do parque.

    — Eu sou um génio do parque — disse-lhe a rã. — Eu não podia saltar e tu ajudaste-me. Para te agradecer, vou ajudar-te nos estudos. Esta noite, lerás três vezes o texto e amanhã terás uma boa nota.

    O Paulo voltou depressa para casa e leu três vezes o texto. No dia seguinte, o Paulo teve a melhor nota da turma e recebeu ainda felicitações por parte da professora.

    Alguns dias mais tarde, um pequeno pintarroxo pediu ao Paulo que colocasse no seu ninho um pedaço de pão demasiado pesado para ele. O Paulo assim fez.

    — Eu sou um génio do parque — disse-lhe o pintarroxo. — Como foste bondoso comigo vou ajudar-te na tua lição de geografia. Esta noite, lerás três vezes a lição e amanhã terás uma boa nota.

    Como das outras vezes, o Paulo obedeceu ao pássaro e leu três vezes a sua lição e, como de costume, obteve uma boa nota.

    Nos dias seguintes, o Paulo continuou a atravessar o parque sempre que voltava para casa, mas não encontrou mais nenhum génio. Apesar de tudo, para lhes agradar, continuou a ler, todas as noites, três vezes as suas lições e no fim do mês era já o melhor aluno da sua turma. A professora apresentou-o aos outros como exemplo de aluno aplicado e explicou a todos que é preciso ler as lições todos os dias para ter bons resultados.

    Sempre que o Paulo vê um esquilo, uma rã ou um pintarroxo, pensa nos génios do parque e agradece-lhes por o terem encorajado a estudar. Agora, o Paulo já não precisa da ajuda deles, pois sente-se capaz de ter sucesso apenas com a sua força de vontade.

    Mireille Saver

    Histórias para sonhar
    Porto, Civilização Editora, 2004

    Os poderes da fada Miriam

    Os poderes da fada Miriam

    Certa manhã, o rei das fadas sentiu-se muito mal porque se tinha dado conta de que as pessoas andavam muito tristes e de que o mundo estava feio. Então, para resolver isso, convocou as fadas e confiou-lhes uma missão: voltar a dar às pessoas e ao mundo a alegria, a claridade, a beleza e o bem-estar. A tarefa era gigantesca e foi distribuída por todas as fadas. Cada uma delas dispôs de dez dias para realizar uma parte da tarefa. A Míriam, uma jovem fada, ficou encarregada de transformar uma velha cabana de madeira num magnífico palácio.

    A Miriam, que era jovem e tinha acabado de receber o seu diploma de fada, estava cheia de vontade de cumprir muito bem a sua missão e apressou-se a chegar ao lugar que lhe fora confiado.

    Quando lá chegou, a Miriam encontrou um lugar triste e desolado. Só um pequeno ribeiro atravessava o vale. E no meio do vale, no cimo de uma montanha agreste, estava a cabana. Nem um só animal, nem uma flor. Só se viam pedras. A Miriam quis começar logo o seu trabalho.

    Mas era uma fada inexperiente e tinha-se esquecido da fórmula mágica.

    “Como reagirá o rei das fadas se eu não cumprir a minha missão?”, pensava ela.

    Então, fez um esforço suplementar, reflectiu… pensou… concentrou-se… e disse:

    A cra zim bom bom! Não! Não é esta!

    A cra zim bom bom — voltou ela a tentar. — Não! Estou enganada outra vez.

    A cra zim bom, cra zim bom, cra zim bom bom, bom! — tentou novamente.

    — Ah! Encontrei. É esta a fórmula mágica, estou certa disso.

    Cheia de coragem, a fada Míriam pegou em pedras grandes, colocou-as num carro de mão e levou-as até ao cimo da montanha, onde estava a cabana. Sem parar, do nascer ao pôr do Sol, dia após dia, a pequena fada transportou toneladas de pedras para o cimo da montanha.

    Todas as vezes que chegava ao cimo da montanha com uma carga de pedras, a Míriam pronunciava a fórmula mágica:

    A cra zim bom, cra zim bom, cra zim bom bom, bom!

    — Que este pardieiro se transforme num palácio!

    Pouco a pouco, a cabana foi-se transformando.

    Uma tarde, cansada, a jovem fada perdeu as forças, sentiu os braços fracos e deixou que o carro de mão se virasse. As pedras rolaram até ao fundo da montanha. A Míriam, esgotada, adormeceu.

    Logo que acordou, um novo espectáculo apareceu diante dos seus olhos. Ao rolarem pela montanha abaixo, as pedras tinham-se juntado numa parte do ribeiro e formado uma grande barragem que deu origem a um imenso lago que fervilhava de peixes, rãs, libelinhas e outros animais.

    Durante o seu sono, as flores cresceram e transformaram com as suas cores vivas o conjunto de pedras que era o vale num maravilhoso tapete multicolor.

    O décimo dia chegou e a Míriam tinha de regressar para junto do rei das fadas.

    — Míriam — disse-lhe o rei —, fizeste um trabalho muito bom. Que fórmula mágica utilizaste para realizar a tua tarefa?

    A cra zim bom, cra zim bom, cra zim bom bom, bom! — respondeu timidamente a fada.

    A cra zim bom, cra zim bom, cra zim bom bom, bom?! — admirou-se o rei. — Mas essa fórmula não existe! Não está inscrita no livro das fórmulas mágicas. Foi então só com a tua força de vontade que conseguiste a transformação maravilhosa do vale. Felicito-te!

    Diante de todas as fadas reunidas, o rei explicou que a Míriam, sem ter utilizado os seus poderes, mas somente com a sua força de vontade, tinha conseguido cumprir a sua tarefa. E o rei disse ainda que ela era um exemplo para todas as outras fadas.

    Com o coração cheio de alegria, a pequena fada Míriam compreendeu que podia fazer coisas belas sem ter de recorrer à magia. Depois juntou-se às outras fadas, pronta para outra missão.

    Mireille Saver

    Histórias para sonhar
    Porto, Civilização Editora, 2004

    Um Natal muito especial

    Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio.

    Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite.

    — O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita.

    — Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas.

    — Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita.

    — E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela.

    A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura.

    Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuraram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca.

    — É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore!

    Mas a boneca já tinha dono.

    — Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha!

    — Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.

    O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças, junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado.

    Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta.

    — Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita.

    Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou…

    Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.

    — Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal.

    Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo.

    Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.

    — É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante!

    Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.

    — Essas cerejas são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio.

    — Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo.

    A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma cereja e a levasse com ela.

    O sol começava a pôr-se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa clareira, encontraram uma árvore verde muito grande.

    — A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita.

    E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a cereja.

    — Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi.

    Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.

    A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes.

    — Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa.

    Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direcção à floresta.

    Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa.

    Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes.

    — Oh, vejam aquilo! — exclamou.

    Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão.

    — A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz.

    E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

    Christine Leeson
    Um Natal muito especial
    V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2006

    Um hóspede de fazer fugir

    Aquele senhor não tinha nada bom aspecto. Havia qualquer coisa nele que intimidava. Talvez fosse da capa que usava sempre, quer de dia quer fosse noite. Talvez fosse do cabelo preto e lustroso, muito colado ao crânio e apartado em risco ao meio. Talvez fosse da dentição alva e impecável, onde sobressaíam dois caninos que metiam impressão…

    Quando, na estalagem do senhor Pestana, este senhor impressionante pedia ao jantar:

    — Um bife muito mal passado. Em sangue…

    E ria-se, exibindo os tais caninos pontiagudos… Os outros hóspedes arrepiavam-se todos.

    — V. Exª quer com acompanhamento de batatas ou de arroz? — perguntava, a medo, o senhor Pestana.

    — Tanto faz – respondia o senhor de cabelo abrilhantinado. — Desde que seja em sangue… E não me trate por V. Exª. Prefiro que me trate por conde.

    Nessa noite, os restantes hóspedes fecharam as portas dos quartos à chave e empurraram cómodas e maples que, encostados às portas, impedissem qualquer entrada indesejável. E não pregaram olho.

    No dia seguinte, todos pediram as respectivas contas e saíram, num grande alarme.

    — Podemos lá continuar numa casa onde está o conde Drácula, o terrível vampiro, chupa-sangue — diziam os hóspedes, despedindo-se apressadamente do senhor Pestana.

    O dono da estalagem estava desolado. Ficava com a casa às moscas. Que prejuízo!

    O senhor Pestana encheu-se de coragem e foi bater à porta do conde Drácula, que acordava tarde.

    — Para o pequeno-almoço quero chá, leite e torradas — disse o conde, quando o senhor Pestana entrou.

    Assim, em pijama, não parecia nada assustador.

    — Não prefere um bifinho em sangue? — perguntou, desconfiado, o senhor Pestana.

    — Ao pequeno-almoço, que horror! — exclamou o conde, repugnado.

    — E para o almoço? — perguntou o senhor Pestana.

    — Pode ser peixe grelhado, se houver — respondeu o conde.

    — Fica o bife em sangue para o jantar… — concluiu o senhor Pestana.

    — Chega de bife em sangue — riu-se o conde, sem que no riso sobressaíssem os dentes pontiagudos. — Isso foi só ontem, para o ensaio, a ver se surtia efeito.

    O senhor Pestana não estava a perceber, mas o conde explicou. Ele era actor e, quando acabasse as férias, iria representar uma peça, onde desempenhava o papel de Drácula, o tal conde guloso do sangue das suas vítimas.

    Trouxera os preparos para o seu desempenho e apurara-se a ensaiar. Só isso.

    O senhor Pestana não achou graça. Quem o indemnizava da súbita perda de clientela, assustada pelo falso Drácula?

    — Tudo se resolverá — disse o actor. — Hoje mesmo vou encher-lhe a estalagem com os restantes colegas da companhia.

    Assim aconteceu. Mas como a peça era de terror, a sala de jantar da estalagem encheu-se de uma estranha população, vestida a rigor. Uns de vampiros, outros de fantasmas, um de Frankenstein e vários de monstros, numa alegre algazarra, poriam os cabelos em pé a quem, desprevenidamente, entrasse para jantar. Muito agitado, a servi-los, o senhor Pestana não se importava. Tinha a estalagem cheia. Isso é que era importante.

    António Torrado

    www.historiadodia.pt

    Setembro

    Julho

  • Os amigos não se abandonam amizade
  • Os negociantes de velharias comportamentos-rectidão-continuar história
  • Os ratos da Ópera morte-saudade
  • Quando eu era rapaz medo
  • Quando eu tinha medo do escuro medo
  • Quando os olhos da noite mudam de sítio medo
  • Querido Greenpeace natureza-animais
  • Que idade tens?
  • Quem é quem? 
  • Remorso natureza-comportamento
  • Ricos ou pobres? família
  • Ser irmão mais velho nascimento
  • Ser pai 
  • Tenho inveja 
  • Tenho medo 
  • Tenho um tigre imaginação
  • Um farol só meu saudade
  • Um rapazinho como tu 
  • Um urso à caça natureza-respeito pelos animais
  • Uma mãe como o vento morte-amizade
  • Uma nova casa mudança-integração
  • Uma prenda para o Menino Jesus Natal-responsabilidade
  • Uma visita fora do normal continuar história – hospitalidade
  • Vês aquela árvore ali? amizade-crianças-diferença (invisuais)
  • Viva o Outono – Outono/avôs-netos
  • Um, dois, três… soninho!

    Esta noite, Carneirinho não tem fome, só tem muito sono. Passou o dia inteiro a brincar, a correr e a saltar por todo o lado, e agora, sentado na sua cadeirinha, adormeceu com o nariz em cima do prato dos espinafres.

    A mãe pega nele ao colo com muito cuidado para não o acordar e leva-o para o quarto.

    Muito devagar, deita o Carneirinho na cama, mas ele acorda e abre os olhos.

    — Não tenho sono nenhum! Eu ainda quero brincar mais!

    A mãe explica que são horas de dormir e que os brinquedos também precisam de descansar. Beija-o com muita ternura e deseja-lhe, assim como ao seu ursinho, sonhos bonitos.

    Carneirinho encolhe os ombros. Como é que há-de de sonhar se não tem sono? E tenta convencer a mãe:

    — Por favor, deixa-me brincar só mais um bocadinho…

    A mãe acaricia-lhe a cabeça cheia de caracóis:

    — Para seres um carneiro grande como o teu pai, lindo e cheio de força, precisas de ter sono. Tu bem sabes que dormir faz crescer. Vamos fazer um jogo: fechas os olhos e imaginas um rebanho de cordeirinhos brancos muito alegres, a saltarem uma cancela, uns atrás dos outros. Quando o décimo carneiro tiver saltado, já estás a dormir.

    Carneirinho faz como a mãe disse. Fecha os olhos, apertando as pálpebras com força, e espera.

    Primeiro, não acontece nada. De repente, aparece a espreitar à janela a cabeça de um cordeiro branco, com um gorro vermelho e cara de brincalhão. Com um ar intrigado, espreita para dentro do quarto e pergunta:

    — Olha, deixas-me entrar?

    — Com certeza — responde Carneirinho, surpreendido.

    O cordeirinho branco de gorro vermelho salta para o tapete. Corre para a arca dos brinquedos, abre a caixa dos cubos e começa a construir uma torre muito alta.

    Ainda não tinha acabado, quando um segundo cordeiro branco bate à janela.

    — Também posso entrar? — pergunta.

    — Claro — responde Carneirinho, já sem se admirar.

    Este cordeiro traz calçadas umas lindas botas amarelas de borracha. Levanta as pernas e salta com destreza para dentro do quarto. Corre, decidido, para a arca dos brinquedos e tira um jogo de construções.

    Enquanto escolhe as peças e hesita entre construir uma casa, um avião, ou uma nave espacial, um terceiro cordeirinho branco mostra a ponta do focinho atrás do vidro.

    — Entra — diz Carneirinho — faz de conta que estás em tua casa.

    Este cordeiro é mais desastrado e estatela-se em cima do tapete. Catrapumba! A torre de cubos desmorona-se debaixo dele. Estonteado, pega num livro para se recompor.

    Enquanto vira as páginas, um quarto cordeiro pula para dentro do quarto, mesmo sem ser convidado. Pega no violino e põe-se a tocar uma música endiabrada.

    Imediatamente a seguir, surge o quinto, de cartola, muito elegante. Logo depois, o sexto aterra suavemente, com um guarda-chuva verde a servir de pára-quedas.

    O sétimo cordeiro traz um cachecol garrido; o oitavo já está preparado para saltar, e o nono não deve estar longe, porque o décimo já está a chegar.

    Num piscar de olhos, dez cordeiros brancos, dez cordeirinhos alegres e despreocupados, andam às voltas no quarto. Dez cordeirinhos traquinas andam aos pinotes pelo quarto todo. Estes malandros põem o comboio eléctrico a andar, jogam ao berlinde, à bola ou à cabra-cega, organizam corridas de carros e concursos de saltos de obstáculos.

    O cordeiro número quatro toca sem parar no violino dourado, e os números nove e dez, fazem uma barulheira infernal.

    Que algazarra! Carneirinho já está farto.

    — Parem com isso! — grita ele. — Chega! Não consigo dormir com esta barulheira!

    Dez cabeças encaracoladas viram-se para ele:

    — Méé, méé, méé! Foste tu que nos chamaste. Tens de saber o que queres!

    — Quero dormir — diz Carneirinho — se não nunca mais vou ser grande e forte como o meu pai.

    Então, em silêncio, os alegres cordeirinhos brancos desaparecem um a um pela janela, da mesma forma que vieram, à excepção do primeiro, o do gorro vermelho, que fica para trás:

    — Sabes para onde foram? — pergunta Carneirinho.

    — Para o país dos sonhos — responde o cordeiro do gorro vermelho. — Vem, eu levo-te para lá também.

    Carneirinho dá a pata ao cordeiro branco, que a aperta com muita força, e voam pela janela fora em direcção ao céu estrelado. Voam tão rápido e para tão longe, que se confundem com duas estrelinhas a brilhar na noite.

    Antes de se deitar, a mãe de Carneirinho vem dar-lhe um último beijo. Quando entra no quarto, em bicos de pés, fica muito admirada ao ver os brinquedos espalhados pelo chão. Porém, Carneirinho dorme profundamente, com um gorro vermelho na cabeça. Em cima da colcha, um raio de luar faz brilhar o seu violino dourado…

    Anne-Isabelle le Touzé
    Un, deux trois, sommeil!
    Paris, Actes Sud, 1998
    Tradução e adaptação

    Matilde não tem medo

    Pouco passa das oito horas, e Carla, a irmã de Matilde, já dorme a sono solto. A mãe costuma deitá-la cedo e Carla adormece sem fazer grandes birras. Matilde acha que é por ser ainda bebé que ela não se interessa pelo que as pessoas crescidas fazem à noite.

    Matilde, essa, não dorme. Em bicos de pés, esgueirou-se para o quarto de banho com o pretexto de ter uma grande vontade de fazer chichi. Mas a verdade é que gosta muito de ver a mãe a pintar-se diante do espelho, a desenhar cuidadosamente a boca com o baton. Matilde acha divertido e também gostava de experimentar.

    Mas o pai chega e fá-la ir para a cama:

    — Vamos lá, Matilde, rápido, vai deitar-te. A tua mãe e eu vamos chegar atrasados a casa da tia Sabina!

    Também ele mudou de roupa para sair, e até fez a barba!

    O pai pega em Matilde pela mão e leva-a até à entrada, junto do telefone.

    — Percebeste bem? — pergunta-lhe, apontando com o dedo para um papel afixado por cima do telefone. O pai escreveu um número de telefone e ao lado pôs a fotografia da tia Sabina. Assim, Matilde não pode enganar-se. Sabe que aquele é o número de telefone da tia Sabina.

    — Confiamos em ti. E lembra-te: se precisares de nós, telefonas para este número e em menos de dez minutos estaremos em casa.

    — Está bem — repete Matilde. — Se eu precisar, telefono, e vocês vêm logo a correr. Mas não te preocupes: eu já sou grande e sei cuidar da mana, sobretudo quando ela está a dormir.

    Já metida na cama, Matilde ouve a porta de casa fechar-se atrás dos pais. Finalmente partiram! Espreguiça-se de contente e enterra saborosamente a cabeça na almofada. Ao ouvir a respiração regular de Carla, que dorme profundamente no canto oposto do quarto, Matilde espera pelo sono que tarda em chegar. Hesita ainda um instante, mas depois decide levantar-se.

    As persianas não estão descidas, mas o quarto está mergulhado na obscuridade. Só um ténue fio de luz passa pela porta entreaberta. Os pais deixaram acesa a luz de vigia da entrada.

    Matilde escapa-se para a sala de visitas e vai instalar-se no grande e confortável sofá. Um sofá imenso, onde é muito agradável estender-se sem ser obrigada a partilhá-lo com o pai ou com a mãe.

    Liga a televisão. Naquela noite vai poder ver o que quiser!

    No ecrã também é noite. De repente, surge um homem em grande plano. Trepa pelo muro de uma casa, agarrando-se à grade que suporta uma videira. Matilde consegue ver-lhe o rosto de perto. Tem uma cara que mete medo, o olhar é mau, um esgar torce-lhe a boca:

    — Não perdes pela demora — diz ele entre dentes. — Vou mostrar-te quem sou e prometo que nos vamos divertir!

    — Deve ser um homem mau, alguém que está a preparar alguma coisa má — diz Matilde para si. De repente, deixa de ter vontade de ver televisão. Ela prefere não saber como é que este homem se vai dar a conhecer às pessoas que moram naquela casa. E a maneira como diz que se vão divertir não tem graça nenhuma. Não, mais vale ir dormir.

    Salta do sofá, desliga a televisão e vai aninhar-se debaixo dos cobertores.

    Na cama, Matilde não consegue afastar as imagens da televisão. Tenta adivinhar quem seria o homem. Um ladrão? Não, não quer saber, é melhor não pensar nisso, decide ela, escondendo a cabeça debaixo da almofada.

    “Em nossa casa também há uma videira que trepa pela parede acima”, pensa ela por uma última vez. “Mas o pai proibiu-me de me agarrar à grade porque não é lá muito forte.”

    Carla vira-se suavemente na cama sem acordar.

    “Tem sorte de nunca ter dificuldade de adormecer”, pensa Matilde. “Assim, não lhe vêm à cabeça aqueles pensamentos que nos assaltam quando está tudo escuro e silencioso, e não nos deixam dormir.”

    De repente, Matilde sobressalta-se. Acabou de ouvir um barulho de folhas, lá fora, mesmo junto à parede da casa!

    Levanta-se devagarinho, senta-se na cama e põe-se à escuta.

    Depois começa a rir baixinho. Enganou-se, era só o vento. Além disso, ouve-se o ribombar de uma trovoada a ralhar algures, muito longe. Não há que ter medo. O homem que viu trepar pela parede coberta de videira só existe na televisão.

    E como ela desligou a televisão…

    Mais sossegada, deita-se na cama, muito quentinha.

    “Os moradores daquela casa, a da televisão, se calhar não tinham um cão”, pensou. “Porque se tivessem um, ele tinha ladrado. E quando um cão ladra, os ladrões ficam com medo e fogem a correr.”

    “Por que é que aquelas pessoas não tinham um cão? E nós, por que é que não temos um cão?”, interroga-se Matilde. “Eu gostava muito de ter um. Um cão meigo e brincalhão, que me protegesse. Se tivesse um, passava a dormir lindamente!”

    Matilde fecha os olhos e imagina como seria o seu cão.

    Havia de ter o pêlo castanho, ondulado, e os olhos cor de avelã. De cada vez que a visse, viria a correr aos latidos. Lambia-lhe a mão com a língua rosada.

    De repente, uma luz branca rasga a noite, seguida de um trovão.

    Matilde assusta-se e senta-se na cama.

    O clarão não durou mais do que uma fracção de segundo, mas pareceu-lhe ver um rosto do outro lado do vidro.

    Um rosto parecido com o do homem da televisão. Tudo volta a ficar sombrio e silencioso.

    No escuro, Matilde tenta raciocinar:
    “És uma autêntica galinha, cheia de medo do vento e do barulho dos trovões. Chega!”, diz para si. “Pára de imaginar tolices!”

    Como está com formigueiros nas pernas, atravessa o quarto para ter a certeza de que Carla continua a dormir.

    Carla dorme serenamente, como se nada acontecesse. A calma da irmãzinha dá uma ideia a Matilde, uma ideia que a faz rir. Quando Carla tem medo, faz-se rodear dos seus peluches preferidos para se acalmar. Mas afinal por que não há-de ela fazer o mesmo?

    No armário de Carla, Matilde procura às apalpadelas os seus dois cães pretos e o tigre, aquele que tem uma pata estragada.

    Matilde vai até à janela com os três animais debaixo do braço. A trovoada foi ralhar para outro lado.

    Redonda como uma bola, a lua brilha no céu. Matilde abre a janela e esconde o tigre debaixo da folhagem. Daquele sítio, ele pode guardar a casa. Com a pata partida, é incapaz de correr atrás dos maus.

    Em seguida, Matilde atira os dois cães o mais longe possível para o jardim.

    — Tomai bem conta da Carla! — recomenda-lhes Matilde.

    Um dos cães aterra num canteiro de flores, o outro desaparece no escuro.

    “Está muito bem assim”, pensa. “Nada melhor do que um bom esconderijo para apanhar os maus.”

    Matilde torna a fechar a janela com cuidado. Já não era sem tempo, pois o temporal volta a atacar. Um relâmpago rasga o céu escuro aos ziguezagues, seguido de um grande trovão.

    Metida na cama, Matilde imagina o homem da televisão a escalar a cerca que rodeia a casa. Depois, vê-o avançar em direcção ao caminho que leva à porta da entrada. Ele nem imagina que no escuro estão dois cães à espreita, prontos para defender Carla!

    De repente, Matilde é assaltada por uma terrível dúvida. “Será que o homem tem medo de cães? E se os mata com a faca, ou se lhes prende as patas com uma corda, ou lhes ata um lenço à volta do focinho”, aflige-se ela, “quem é que vai defender a Carla?”

    Num ápice, Matilde salta da cama e lança-se numa corrida para o quarto dos pais. Sabe que em cima da cómoda está guardada a colecção de soldadinhos de chumbo do pai. São soldados de chumbo que o pai dele lhe oferecera. Matilde não tem autorização de brincar com eles, nem sequer de lhes tocar. Mas agora já não é um jogo, é um assunto sério!

    Matilde pega em tantos soldados quantos lhe cabem nas mãos e volta para o quarto. Coloca-os uns atrás dos outros, no parapeito da janela. Na primeira fila, alinha os cavaleiros. Sob a luz fria da lua não parecem muito confiantes. Os rostos parecem mais severos e os uniformes menos coloridos do que em pleno dia. Atrás dos cavaleiros, Matilde perfila os soldados com os canhões, e, atrás, os que empunham espadas e espingardas.

    Passa revista ao exército e diz baixinho:

    — O mau da televisão já pode vir. Vai ser bem recebido!

    E volta para a cama, contente por ter pensado em tudo.

    A tempestade voltou, com relâmpagos e trovões. Está cada vez mais perto e cada vez mais forte. Matilde tem vontade de chorar, mas repete, de punhos cerrados, que já é grande, que é a irmã crescida de Carla, que, essa sim, é ainda um pouco bebé.

    Matilde torna a sentar-se na cama. Do outro lado do quarto, Carla continua a dormir calmamente. Que sorte tem em dormir assim! Será que ela tem frio?

    Matilde atravessa o quarto em pezinhos de lã e, com cuidado, empurra a irmã contra a parede para fazer um lugar para ela. Depois deita-se encostada a Carla e abraça-a. Para a aquecer.

    Um raio torna a iluminar o céu.

    Desta vez Matilde não vê cara nenhuma à janela mas pensa que o homem deve ter retirado a cabeça a tempo para não ser visto.

    Outro raio! Desta vez Matilde tem a certeza de que os cães ladraram, de que ouviu o tigre a rugir e a arranhar os ladrilhos, de que os soldados de chumbo gritaram todos “Ao ataque!”.

    Chega-se mais para junto de Carla e aperta-a contra si, cada vez com mais força. Abana-a um bocadinho. Carla vira a cabeça e abre os olhos:

    — Matilde — murmura meio ensonada. Sorri à irmã, volta a fechar os olhos e adormece com um suspiro de satisfação.

    — Foi a trovoada que te acordou — sussurra Matilde, que abana Carla com um pouco mais de força.

    Carla acorda completamente.

    — Matilde — balbucia. — Matilde — continua mais alto e com mais força — tenho medo da trovoada; quero a mamã!

    — Bem sabes que o papá e a mamã foram passar o serão a casa da tia Sabina.

    — Mas eu quero vê-los — choraminga Carla. — O papá disse para telefonarmos se precisarmos deles.

    Puxando-a pela mão, Matilde leva-a até junto do telefone.

    Carla segura o papel com o telefone e a fotografia da tia Sabina, para que Matilde veja bem. Matilde marca, número a número, tecla a tecla, exactamente como treinou com os pais.

    Primeiro, só ouve o sinal de chamar, depois alguém atende.
    Matilde reconhece a voz da mãe.

    — Estou? — inquieta-se a mãe. — És tu, Matilde? O que é que aconteceu?

    Aliviada, Matilde explica:

    — Mamã, aqui há trovoada. Há raios e trovões muito fortes que acordaram a Carla, e agora ela está a chorar. Está com muito medo.

    — Dentro de poucos minutos estamos aí. Até lá, deita-te ao lado da tua irmã e abraça-a com força para a sossegares, querida. Tu não tens medo da trovoada. És uma menina crescida!

    — Está bem, não te preocupes, que eu vou tratar da Carla — assegura Matilde antes de desligar.

    Matilde leva Carla para o quarto, com cuidado.

    Deita-se ao lado da irmã e abraça-a com carinho, sussurrando-lhe baixinho ao ouvido que tem de adormecer depressa. E que não deve ter medo da trovoada!

    Mirjam Pressler
    Mathilde n’a pas peur de l’orage
    Actes Sud Junior, 1998
    Tradução e adaptação

    As quatro estações

    Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.

    Poderoso, os seus raios são espadas. Majestoso, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generoso, os seus raios são fios de vida.

    Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto – os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.

    Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade, a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.

    Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.

    O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo… Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor púrpura, em tons e meios-tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar…

    Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.

    — Em que desordem isto está — exclamava ele, irritado. E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas, caídas do céu… As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:

    — Iremos nós também na cheia? — perguntavam uns para os outros.

    O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:

    — Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.

    E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.

    Lá fora, a Primavera impacientava-se. Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:

    — Já posso?

    Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.

    Então, quando ela chegava, era uma festa. Corria a Primavera de lés a lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.

    Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.

    — Vamos trabalhar — dizia ele, assim que chegava.

    E trabalhava-se, pois então! Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.

    Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.

    — O essencial fica feito. Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono — dizia o Verão, à despedida.

    Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho… Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximarem-se. Que nervos!

    Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.

    E o Sol, risonho, ainda mais resplandece.

    António Torrado
    http://www.historiadodia.pt

    A boneca e o cavalo branco

    Era uma vez uma fada que morava numa casa feita de nuvem por detrás das montanhas brancas. Essa fada apanhava os brinquedos que os meninos deitavam fora.
    — Pobre cavalinho — disse, ao descobrir o pequeno cavalo branco caído no chão. — Vem comigo para minha casa. Quero cuidar de ti. Precisas de uma perna nova, de ferraduras, uma sela e arreios novos.
    A fada penteou-lhe as crinas e escovou-lhe o pêlo até ele voltar a brilhar.
    — E agora — disse — tens de conhecer os teus novos amigos.
    — Boa tarde! — disse a boneca.
    — Boa tarde! — disse também a raposa.
    — De onde é que tu vens? — rugiu o urso.
    — Um menino deitou-me fora — respondeu o cavalinho branco.
    — A mim foi uma menina que me deixou ficar à chuva — disse o urso.
    — Eu fiquei esquecida na praia! — exclamou a boneca.
    — A mim, um menino perdeu-me na rua — disse a raposa.
    Mas a fada sentia-se triste.
    “A minha casa não é suficientemente grande para todos os brinquedos do mundo deitados fora, esquecidos e perdidos”, pensava ela.
    — Temos de consolá-la! — disse o cavalinho. — Afinal, ela salvou-nos a todos.
    — Exactamente! — disseram também o urso, a raposa e a boneca. — Temos de fazer alguma coisa.
    — Eu conheço um prado com flores de estrelas — disse o cavalinho branco. — Podemos ir lá colher um ramo para a fada.
    — Isso pode ser perigoso — disse a raposa. — O campo das flores é vigiado pela noite negra.
    — Eu não tenho medo nenhum — disse o cavalinho branco.
    — Eu também não tenho medo — disse a boneca, pondo a capa vermelha. Sentou-se em cima do cavalo e saíram os dois a galope.
    A raposa abanava a cabeça.
    — Eu conheço a noite — disse ela e, às escondidas, foi atrás deles.
    — Eu — disse o urso — prefiro ficar em casa.
    No campo das flores, o sol brilhava.
    — Oh, que flores tão lindas! — exclamou a boneca, começando a colher o ramo. O cavalo branco descobriu erva tensa e água no ribeiro. Estavam tão entretidos, que se esqueceram do que a raposa lhes tinha dito.
    De repente, diante deles, ergueram-se umas grandes asas negras.
    — Quem está a tirar as minhas flores? — disse uma voz ameaçadora.
    Era a noite.
    A boneca e o cavalo branco quiseram fugir, mas já era tarde de mais. A noite tinha engolido não só as flores mas também o cavalo branco.
    A boneca desatou a chorar e chamava por socorro. Apareceu então a raposa.
    — Não tenhas medo — disse ela. — Eu conheço a noite. Ela parece perigosa, mas nós conseguimos ser mais fortes do que ela. Aliás, nem é preciso ter medo. Ela só nos cobre com as suas asas negras para nos deixar sonhar à vontade.
    A boneca pensou na fada e na casa feita de nuvem, e o medo fugiu, juntamente com a noite. Ouviu então um tilintar suave. O cavalinho branco estava de volta e, no prado, as flores começaram novamente a florir.
    O cavalinho branco, a raposa e a boneca regressaram a casa de madrugada. A fada esperava-os à porta.
    — Estava à vossa espera — disse ela.
    A boneca estendeu-lhe o ramo. A fada ficou muito contente e tomou-os a todos nos braços.

    Max Bolliger, Helge Aichinger
    Die Puppe auf dem Pferd
    Zürich/München, Artemis Verlag, 1975
    Texto adaptado

    Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

    bemol-saltitante.JPG

    O ratinho Bemol Saltitante adorava música. Por isso, vivia dentro de um piano. Era um lugar amplo, elegante e quentinho, mas o que mais lhe agradava era que todos os dias podia ouvir música durante horas.

    O dono do piano era um pianista que adorava a sua profissão, pelo que passava dias inteiros a tocar e tocar. Sonatas, rapsódias, partitas e outras peças de música ecoavam na enorme sala, e escapavam pelas janelas.

    Bemol gostava de se sentar num cantinho tranquilo ao fundo da caixa de ressonância e desfrutar das baladas de amor.

    Gostava também de dançar entre os abafadores quando o pianista tocava uma marcha.

    O pianista estava radiante com o seu piano. Tinha um som estupendo e, surpreendentemente, não o afinava havia anos. O que o pianista não sabia era que, durante as noites, o pequeno Bemol se encarregava de esticar e afinar as cordas e de limpar o pó que se acumulava entre as teclas. Bemol gostava de ter a sua casa em boas condições.
    Algumas noites, o ratinho divertia-se a patinar sobre a tampa do piano, outras passava-as lendo e decorando as partituras que o pianista deixava sobre a estante.

    Os outros ratos que viviam na casa consideravam Bemol um louco. Em vez das pequenas frestas nas paredes, das caixas no sótão ou dos livros ao fundo da biblioteca, preferia viver num piano. Isso era de doidos. Além de que o risco de ser descoberto pelo pianista era enorme e, se tal acontecesse, o homem saberia que tinha ratos em casa, o que seria uma desgraça para todos.

    O Conselho dos Ratos reuniu-se para tratar do assunto e pôr na ordem o rato rebelde.

    — Bemol Saltitante — disse o rato mais velho da casa. — É decisão deste conselho que, a partir desta mesma noite, abandones o piano como tua residência. Pões toda a comunidade em risco e isso não podemos permitir. De modo que terás de viver aqui connosco.

    Bemol tentou argumentar, mas o ancião interrompeu-o:

    — Bemol, não se fala mais nisto, já está decidido. Contudo, preparámos-te uma das caixas mais cómodas da cave. É de madeira e está cheia de novelos de lã. Além disso, encontra-se na última prateleira, um óptimo sítio. Se queres ser um membro desta comunidade, terás de aceitar a nossa decisão.

    Bemol podia estar louco, mas era um bom ratinho, de maneira que aceitou aquela decisão, pensando no bem de todos.

    A caixa não podia ser melhor, cómoda e bem situada. Como forma de lhe desejarem as boas-vindas, outros ratos tinham-lhe deixado três pedacinhos de queijo. Mas Bemol estava triste, e como lhe fazia falta o seu piano!

    Na primeira noite comeu um bocadinho de queijo e, com os outros dois, fez uns tampões para os ouvidos. Funcionou, não ouviu nada toda a noite e depressa adormeceu.

    No dia seguinte, quando lhe deu a fome, comeu um dos tampões de queijo.

    Devagarinho, as notas de uma preciosa melodia que chegavam da sala de música foram entrando pelo seu ouvido direito. Bemol sentiu uma imensa vontade de correr em direcção ao som, mas cerrou os dentes e tapou a orelha com a mão. Assim passou o dia inteiro, com uma mão e um pedaço de queijo a tapar os ouvidos.

    Ao terceiro dia, Bemol comeu o último pedaço de queijo e, assim, ficou sem tampões. Logo chegaram aos seus ouvidos, dos confins da sala de música, as primeiras notas da Fantasia Kortakowsky, sem dúvida a obra musical mais bela e complexa alguma vez escrita para piano.

    A sua primeira reacção foi tapar de novo as orelhinhas, mas, sem querer, começou a trauteá-la. Primeiro retirou uma mão, depois a outra e, sem poder evitá-lo, desatou a correr escada acima em direcção à sala de música.

    Atravessou vários tabiques, subiu pela canalização e chegou até uma pequena fresta na parede da sala de música. E ali estava o pianista, a interpretar aquela peça maravilhosa.

    — Tenho de chegar ali — pensou Bemol.

    E, sem sequer parar para pensar, desatou a correr em direcção ao piano, arriscando-se a ser descoberto.

    Mas Bemol teve sorte e chegou aos enormes pés do piano sem ser visto. O pianista estava concentrado, movendo vertiginosamente as mãos sobre as teclas. O ratinho trepou pelo piano e escondeu-se mesmo atrás da estante. Esse seria o lugar indicado para desfrutar do concerto. Que belo regresso a casa, na primeira fila a ouvir a Fantasia Kortakowsky.

    A música era cada vez mais complexa; o pianista via-se e desejava-se para chegar a todas as teclas. O pequeno Bemol continuava atrás da estante, movendo os seus dedinhos sobre um teclado imaginário. Até que chegou o último andamento, o mais complicado. Nenhum pianista, depois de Kortakowsky, tinha sido capaz de o interpretar correctamente. Bemol respirou fundo e preparou-se para escutar a parte final. As notas multiplicaram-se por dez, cada vez mais rápidas, cada vez mais belas.

    E, então, já no fim da escala mais difícil, aconteceu: uma nota fora de lugar soou como o chiar de uma porta no meio da melodia.

    — Maldição! Não é assim! — gritou o pianista, dando um soco no teclado. — Jamais conseguirei alcançar estas notas.

    Bemol ficou imóvel, cruzando os dedos enquanto repetia a escala mentalmente. Então, o pianista respirou fundo e disse:

    — Está bem, vou tentar mais uma vez. E começou de novo o último andamento.

    As suas mãos foram acariciando as teclas cada vez mais depressa. Em boa verdade, pareciam montes de borboletas voando enlouquecidas. Bemol, com os dedos cruzados, pensava em cada nota, em cada tecla, mesmo antes de o pianista as tocar. E, então, voltou a acontecer: duas notas trocaram de sítio e o resultado foi um som tão desagradável como um puxão de orelhas. Desta vez foi Bemol quem gritou:

    — Maldição! — E, de imediato, tapou a boca assustado. Todavia o pianista não o ouvira. Tinha começado a deambular pela sala, murmurando aborrecido. Além disso, a voz dos ratos não é lá grande coisa.

    O homem voltou a sentar-se, sussurrando:

    — Muito bem, última tentativa.

    Bemol continuava escondido, mas, quando as notas começaram a soar, não conseguiu conter-se. O pianista estava quase a chegar ao mesmo compasso que o fizera falhar e foi então que o ratinho saiu detrás da estante e, com um salto certeiro, foi cair exactamente sobre a nota que o pianista não conseguira alcançar.

    Bemol não acreditava no que acabara de fazer. Estava em cima de uma tecla, de olhos tapados, à espera que um murro o fizesse em puré e, o que seria pior, acabara de pôr em sério risco os outros ratos. No entanto, perante a sua surpresa, o homem falou:

    — Muito bem, ratinho! Importavas-te de repetir?

    Bemol concordou rapidamente com um aceno de cabeça. O pianista começou novamente a tocar e o pequeno roedor saltava e saltava sobre as teclas exactas no momento certo.

    Assim estiveram toda a tarde, tocando a dois, a peça mais complicada e bela alguma vez escrita para piano. Então, o homem compreendeu o segredo da Fantasia Kortakowsky: havia sido escrita para ser tocada por um pianista e um rato. E assim o fizeram a partir de então.

    Então, o músico deixou de tocar e o ratinho pensou que seria o seu fim.

    De modo que, se alguma vez tiverem a sorte de assistir a um recital de piano, prestem bem atenção ao ratinho que salta de tecla em tecla entre as mãos do pianista. Assim saberão que estão a tocar a Fantasia para Pianista e Rato de Kortakowsky.

    António Amago
    Bemol Saltitante, um ratinho ao piano
    Matosinhos, Quidnovi Editora, 2006

    Os amigos não se abandonam

    A gatinha da Antónia desapareceu. Não estava em cima da árvore, nem na caleira da água, nem por debaixo da tábua de passar.

    — Se calhar anda à caça na cave — sugeriu a mãe.

    — De certeza que está a dormir no sótão — disse o pai.

    — Será que foi para o céu? — perguntou-se a avó, preocupada.

    — Vou procurá-la — disse a Antónia. — Se calhar aconteceu-lhe alguma coisa. E os amigos não se abandonam.

    Só que na cave havia apenas bicicletas e, no sótão, sobretudo pó. A gatinha continuava desaparecida.

    — Então vou procurá-la no céu — decidiu Antónia.

    E pôs-se a caminho.

    Antónia passou por uma cabeça no ar e perguntou-lhe:

    — Sabes onde está a minha gata?

    A cabeça estava com muita pressa para chegar a casa e nem olhou para Antónia.

    — Mal-educada — resmungou ela, continuando a andar.

    Pouco depois, encontrou o polidor do sol ocupado a puxar o lustro a um raio de sol embaciado. Ele acenou-lhe com o pano do pó.

    — Ah! Visitas, que bom! — exclamou alegremente. — Aproxima-te, minha filha!

    — Ando à procura da minha gata. Pode ajudar-me? — pediu Antónia.

    O polidor parou para pensar.

    — Não, não vi a tua gata.

    A rajada de vento dobrou a esquina a correr e a silvar.

    — Sabes onde está a minha gatinha? — perguntou-lhe Antónia, tão alto quanto pode.

    — Nem vi gatos nem vi galos — silvou a rajada. E fugiu dali abanando o leque. Antónia ainda ouviu, vindo de longe:

    — Pergunta depressa ao vento!

    — Podes perguntar-lhe agora mesmo. Cacei-o e meti-o dentro da manga — disse-lhe o Catavento por detrás dela.

    — Viste a minha gatinha? — perguntou Antónia.

    O Catavento espreitou para dentro da manga. Lá de dentro saíram sopros e assobios.

    — Aqui não está nenhuma gata, lamento. Mas vou estar atento e, se a vir, digo-te.

    — Obrigada. Ela é minha amiga e eu estou preocupada porque não a encontro em nenhum lado — explicou Antónia.

    Mais adiante, estava alguém sentado e, à sua volta, rodopiavam flocos de neve. Trabalhava com uma faca fina e aguçada e ia contando em voz baixa.

    — O que está a fazer?

    — 1232. Estou a cortar cristais — explicou o talhador de cristais. — 1233 cristaizinhos de gelo. Todos diferentes. Nenhum é igual ao outro.

    E continuava a contar.

    — 1234, 1235… nem de mais, nem de menos — observou. — Tudo tem de ter a sua ordem.

    Deitava carinhosamente o resultado do seu trabalho para um montinho que ia crescendo ao seu lado.

    — Compreendo-te — prosseguiu ele, concentrado no seu trabalho. — Os amigos não se talham. São raros, não caem do céu, como os cristais de neve. Mas, infelizmente, não vi a tua gatinha. 1236, 1237…

    Antónia concordou num aceno de cabeça e continuou o seu caminho.

    Caído do céu, surgiu à sua frente o atirador de raios. Estava de cócoras a fazer pontaria por entre duas pequenas nuvens. Um raio reluziu e, em seguida, chegou-lhes ao nariz um forte cheiro a enxofre.

    — Trovãozinho, onde estás? — gritou o atirador, já impaciente.

    — Já vou! — respondeu uma voz.

    Ouviu-se um ribombar e um trovejar fraco. De seguida alguém tossiu.

    — Desculpe, constipei-me! Aqui há tantas correntes de ar — queixou-se o trovão, rouco. — Às vezes, o ribombar não sai — acrescentou, cabisbaixo.

    E depois espirrou.

    — Raios e coriscos, que aborrecimento! — resmungou o atirador de raios. — Eu aqui a esfalfar-me com os meus raios, e não consegues fazer nenhum barulho de jeito. E tu? — perguntou, virando-se para Antónia. — Por acaso não sabes trovejar e ribombar?

    — Não, acho que não — desculpou-se Antónia. — Só vim à procura da minha gata.

    O atirador de raios pôs-se a pensar.

    — Conheço carneirinhos de nuvens e castelos no ar — respondeu. — Aqui, os gatos não são lá muito bem-vindos.

    Pegou no raio seguinte e começou a dobrá-lo meticulosamente.

    — Mas ela é minha amiga… — disse Antónia em voz baixa.

    O dia passou pela calada da noite puxando a noitinha pela mão.

    — Já chega por hoje! — murmurava ele.

    Atrás de si arrasta-se o anoitecer. O lusco-fusco agita-se, impaciente.

    — Já está a chegar a noite e eu sem ter encontrado a minha gata — lamenta-se Antónia.

    — Pois é, temos de prestar atenção aos amigos — observou a noite. — Eles não aparecem da noite para o dia.

    — Eh, ó lua! — chamou. — Viste a gatinha da Antónia?

    A lua revirou os olhos.

    — Não sei. De noite todos os gatos são pardos… — e perguntou, dirigindo-se ao guardião de estrelas: — Viste uma gata por aí?

    O guardião de estrelas agitou o bastão no ar. Nos seus lugares, a Ursa Maior e a Ursa Menor pararam de brincar, o Touro mugiu, o Sagitário deu um salto e os Peixes emudeceram.

    O acendedor de estrelas passou então, e todos começaram a brilhar.

    O guardião contou rapidamente as cabeças do seu rebanho.

    — Estão aqui todos e não há nenhum a mais.

    Virou-se para Antónia e disse-lhe:

    — A tua gata não está no céu. Vê antes na Terra. Tu vais voltar a encontrar a tua amiga, li nas estrelas — consolou-a.

    E, triste, Antónia seguiu pela estrada de Santiago até casa.

    Diante da porta da cozinha estava, enroscada, uma gata que ergueu a cabeça e bocejou.

    — Por onde andaste este tempo todo? — perguntou-lhe Antónia, num tom um tanto ou quanto admoestador.

    — Fui caçar ratos. Quando voltei, não te encontrei e pensei que te tinha acontecido alguma coisa. Então resolvi ir à tua procura. Os amigos nunca se abandonam.

    Sigrid Laube; Silke Leffler

    Freunde läßt man nicht im Stich

    Wien, Annette Betz Verlag, 2003

    Texto adaptado

    Quando eu era rapaz

     

    À medida que o escritor recorda a sua infância, descobres um jovem igual a ti e a tantos outros. O que acontece, por exemplo, quando se vai ao médico….e se é operado sem contar? E quando, para fugir do colégio, fingimos uma crise de apêndice?

    Uma ida ao médico

    Só tenho uma má recordação das minhas férias de Verão na Noruega. Estávamos em casa dos meus avós em Oslo, e a minha mãe disse:

    Hoje à tarde vamos ao médico. Ele quer examinar o teu nariz e a tua boca.

    Penso que tinha oito anos nessa altura.

    O que se passa com o meu nariz e com a minha boca?

    Nada de especial. Penso que tens adenóides.

    O que é isso?

    Não te preocupes. Não é nada.

    Fomos ao médico a pé, e eu ia de mão dada com a minha mãe. Levámos meia hora a chegar. No consultório, sentaram-me numa cadeira de dentista. O médico tinha um espelho redondo fixado na testa e examinou o interior do meu nariz e da minha boca. Chamou depois a minha mãe à parte e ouvi-os segredar. Reparei no ar sombrio da minha mãe e vi que concordava com o que o médico dizia. O doutor pôs água a ferver num recipiente em alumínio e colocou um instrumento fino e brilhante, em aço, dentro do recipiente. Sentado na minha cadeira, reparei que a água entrava em ebulição, mas não me inquietei. Era demasiado pequeno para compreender o que estava para acontecer.

    Uma enfermeira vestida de branco apareceu com um avental de borracha vermelha e uma pequena bacia em esmalte branco. Colocou o avental sobre o meu peito e apertou-o atrás do meu pescoço. Depois, pôs a bacia debaixo do meu queixo. A curvatura da vasilha adaptava-se perfeitamente ao meu peito. O médico inclinou–se para mim, com o instrumento na mão. Ainda hoje posso descrevê-lo perfeitamente. Era da espessura de um lápis e tinha várias facetas. Na extremidade, apresentava uma lâmina oblíqua. A lâmina era pequena, muito afiada e brilhante.

    Abre a boca pediu o médico, em norueguês.

    Recusei. Pensei que ele ia fazer qualquer coisa nos meus dentes e tudo o que se fazia aos dentes era muito doloroso.

    São só dois segundos insistiu o doutor.

    Falava-me com doçura e deixei-me seduzir pela sua voz. Abri a boca, como um imbecil. A lâmina minúscula brilhou como um relâmpago e desapareceu na minha boca. Colocou-se no fundo do meu palato e a mão que a segurava realizou quatro ou cinco movimentos circulares muito rápidos, o que fez com que uma massa de carne sanguinolenta se soltasse da minha boca e fosse aterrar na bacia.

    Fiquei tão indignado que gritei um pouco. Estava tão horrorizado com os enormes pedaços de carne que pensei que o médico me tinha arrancado metade da cabeça.

    Estas eram as tuas adenóides ouvi-o dizer.

    Quase sufoquei. Tinha o palato em fogo. Peguei na mão da minha mãe e agarrei-a com todas as forças. Não acreditava que me pudessem fazer uma tal coisa.

    Fica quieto aconselhou o médico. Vais ficar bem dentro de um minuto.

    Ainda me saía sangue da boca, sangue esse que caía na bacia que a enfermeira segurava.

    Cospe bem pediu-me ela. És um bom menino…

    Vais respirar muito melhor pelo nariz depois disto garantiu o doutor.

    A enfermeira limpou-me os lábios e lavou-me a cara com uma luva húmida. Desceram-me da cadeira e puseram-me de pé. Sentia-me um pouco tonto.

    Vamos para casa disse a minha mãe, pegando na minha mão.

    Descemos a escada e chegámos à rua. Fomos a pé para casa. Reparem que digo “a pé”. Nada de táxis ou de eléctricos. Andámos meia hora para chegar a casa dos meus avós. Quando chegámos, por fim, lembro-me de a minha mãe dizer:

    Deixem-no sentar-se e descansar um pouco. Afinal de contas, acaba de ser operado.

    Alguém pôs uma cadeira junto da poltrona da minha avó e sentei-me. A minha avó colocou uma das minhas mãos entre as suas.

    Não é a última vez que vais a um médico. Com sorte, não te magoarão muito.

     

    Isto passou-se em 1924. Nessa época, era normal tirar as amígdalas a uma criança sem anestesia. Pergunto-me o que pensariam vocês hoje, se um médico vos fizesse o mesmo.

    Enjoar um lugar….

     

    Durante todo o meu primeiro trimestre no colégio de St. Peter’s, senti enjoos do lugar. Os enjoos do lugar são como os enjoos de barco. Só se sabe quão duros são quando os temos. Parece que nos deram um pontapé no estômago e temos vontade de morrer. O único consolo é que os enjoos do lugar são como os enjoos de barco e curam-se instantaneamente. O primeiro desaparece mal se sai do recinto da escola e o segundo acaba quando o barco entra no porto. Fui tão infeliz no colégio nas duas primeiras semanas que decidi pregar uma partida para poder ir para casa, mesmo que só durante alguns dias. A minha ideia era fingir uma crise de apendicite fulminante.

    De certeza que acharão idiota que um rapazinho de nove anos se ache capaz de um truque destes, mas eu tinha excelentes razões para tentar. Um mês antes, a minha meia-irmã, que tinha mais doze anos do que eu, tinha tido uma apendicite e eu tinha observado a forma como ela se comportava nos dias antes da operação. Reparara que ela se queixava sobretudo de uma intensa dor de barriga, do lado direito. Vomitava sem cessar, recusava comer e tinha febre.

    Talvez gostem de saber que a minha irmã não foi operada numa sala de operações de um bom hospital, rodeada de luzes brilhantes e de enfermeiras vestidas de branco, mas na mesa da nossa salinha de jogos, pelo médico local e pelo seu anestesista. Nessa época, era comum o médico chegar a casa das pessoas com uma mala cheia de instrumentos, cobrir com uma toalha esterilizada a mesa mais cómoda e meter mãos ao trabalho. Nesse dia, fiquei escondido no corredor enquanto a operação durava. As minhas outras irmãs estavam comigo e sentíamo-nos fascinados pelos murmúrios dos médicos por detrás da porta fechada à chave, enquanto imaginávamos a doente com a barriga cortada em duas, como se fosse uma peça de carne. Até conseguíamos sentir o cheiro enjoativo do éter por debaixo da porta.

    No dia seguinte, fomos autorizados a examinar o apêndice, que estava num bocal de vidro. Parecia um verme escuro, muito comprido. Perguntei à minha ama:

    Tenho uma coisa destas na barriga, Nônô?

    Toda a gente tem.

    Para que serve?

    Os caminhos do Senhor são insondáveis respondeu, como sempre fazia quando ignorava a resposta.

    O que faz com que ele fique doente?

    Os pêlos de uma escova de dentes respondeu sem hesitar.

    Os pêlos de uma escova de dentes! exclamei. Como podem os pêlos de uma escova de dentes fazer mal ao apêndice?

    Nônô, que a meus olhos era mais sábia do que Salomão, respondeu:

    Quando um pêlo sai da tua escova de dentes e o engoles, vai para o teu apêndice e fá-lo apodrecer. Durante a guerra, os espiões alemães enfiavam-se nos nossos armazéns, munidos de caixas de escovas de dentes cujos pêlos estavam quase soltos. Foi por isso que milhões de soldados nossos tiveram apendicite.

    Isso é mesmo verdade, Nônô? gritei.

    Eu nunca minto, meu filho. Que te sirva de lição: nunca uses uma escova de dentes velha!

    Assim é que, durante anos, ficava inquieto sempre que descobria um pêlo de escova de dentes na boca. Quando fui bater à porta, depois do pequeno-almoço, nem sequer tive medo da Vigilante.

    Entre! ressoou a sua voz.

    Entrei na sala, com uma mão crispada sobre o lado direito da minha barriga, avançando a passos vacilantes.

    O que desejas? perguntou-me aos berros, e o vigor da sua voz fez tremer-me o peito como se fosse um pudim instantâneo.

    Tenho dores! respondi, numa voz gemebunda. Tenho tantas dores aqui!

     Deves ter comido demais  gritou.  É o que acontece quando uma pessoa se empanturra de bolos todo o dia.

    Há já dias que não como nada fingi. Não consigo engolir nada, Senhora Vigilante!

    Deita-te na cama e baixa os calções! ordenou.

    Deitei-me na cama e ela começou a apalpar-me violentamente a barriga com os dedos. Espiava atentamente os gestos dela e, quando ela apoiou a mão com força no sítio onde eu achava que ficava o apêndice, gritei de tal forma que os vidros tremeram.

    Por favor, pare! Por favor, pare!

    Usei, em seguida, o meu melhor trunfo:

    Vomitei toda a manhã choraminguei e agora estou com dores no peito!

    Vi-a hesitar.

    Fica aqui que eu volto já.

    Era uma mulher abrutalhada e maldosa, mas tinha feito estudos de enfermagem e tinha medo que fosse uma peritonite. O médico chegou em menos de uma hora, apalpou-me a barriga, gestos que eu acompanhava com os gritos da praxe. Depois enfiou-    -me um termómetro na boca.

    Não tens febre. Deixa-me examinar-te de novo.

    Ui! gritei na parte crucial.

    O médico saiu da sala, acompanhado pela Vigilante. Esta voltou meia hora mais tarde e anunciou:

    O Director telefonou à tua mãe e ela vem buscar-te esta tarde.

    Não fiz qualquer comentário. Continuei deitado, fingindo estar muito mal, mas tinha o coração num sino. Atravessei o canal de Bristol de barco, de madrugada. Fiquei tão feliz por sair da escola que me esqueci de que estava “doente”. De tarde, fui examinado pelo Dr. Dunbar, no seu consultório em Cardiff, e usei as mesmas artimanhas. Mas este médico era mais competente e mais esperto do que o da escola. Depois de me apalpar a barriga e de ouvir os meus gritos, disse:

    Veste-te e depois senta-te na cadeira.

    Ele mesmo se sentou à secretária e fixou-me com severidade, embora sem maldade.

    Estás a fingir, não estás?

    Como sabe? balbuciei.

    Porque a tua barriga está mole e normal. Se tivesses uma infecção, estaria dura e tensa. A diferença vê-se com facilidade.

    Fiquei calado.

    Tens saudades de casa?

    Disse que sim, com um sinal da cabeça.

    É normal, nos primeiros tempos. Tens de ser forte. Não deves querer mal à tua mãe por te ter mandado para um colégio interno. Fui eu que a convenci de que era o melhor para ti. Quanto mais depressa aprenderes a desembaraçar-te sozinho, melhor.

    O que vai dizer ao Director? perguntei, a tremer.

    Dir-lhe-ei que tinhas uma infecção intestinal grave que tratei com comprimidos respondeu a sorrir. Isso significa que deves ficar em casa durante dois ou três dias. Mas promete-me que não vais fazer isto outra vez. A tua mãe já tem problemas que cheguem sem ter de ir à escola a correr buscar-te.

    Prometo que nunca mais volto a fazer isto!

     

     

     

    Roald Dahl

    Moi, Boy

    Paris, Gallimard Jeunesse, 1997

    (Excertos adaptados)

    Quando os olhos da noite mudam de sítio

    A Noite acordou. Ainda com os olhos ensonados, olhou pela janela para ver o tempo que fazia.

    As nuvens grossas e cinzentas tapavam o céu, e a Lua, de tanto estar acordada, adormeceu profundamente.

    Com aquele tempo, a Noite escolheu o vestido mais negro que tinha.

    Sim, não julguem que a Noite é uma pobretana qualquer.

    Se ela nos deixasse ver o seu guarda-roupa, ficaríamos deslumbrados com as variedades de tons negros dos seus vestidos.

    Eu, que já lá entrei, vi, com uns olhos emprestados por uma candeia, os lindos vestidos que a Noite usava. Ao todo, eram sete e cada um tinha um tom negro diferente: negro-azulado, escuro-enluarado, breu-estrelado, preto-raiado de luz, enfarruscado-cinzento, pardo-madrugada e negro-sombrio.

    Antes de sair de casa, a Noite foi ver-se ao espelho de um lago de águas serenas, para ver como lhe ficava o vestido. Mirou-se e remirou-se. Estava bonita. O vestido de negro-carvão assentava-lhe bem nos seus largos ombros arredondados. A Noite olhava e tornava a olhar para si e não se cansava de dizer baixinho:

    — Que linda que sou! Que linda que sou!

    Preparava-se para sair quando reparou que tinha um bocado de pó de nevoeiro colado ao umbigo. Pegou numa escova feita de pêlos de rajada de vento e escovou, escovou, até saírem as finas gotas de água que compunham o nevoeiro.

    Mas, o que via ela agora? Dois buracos acesos que mais pareciam dois sóis pequeninos.

    — Os meus olhos mudaram de sítio? — perguntou a si própria a Noite. — Deu a traça no meu vestido, foi o que foi! Tenho de comprar bolas de naftalina, para dar cabo desses bichos comedores de roupa! — disse a Noite muito aborrecida, por ter um vestido tão belo estragado.

    Voltou a tirar o vestido para ver se ainda podia remendá-lo.

    Grande surpresa a sua. Nem os olhos tinham mudado de sítio, nem a traça roera o vestido. Os pontinhos brilhantes eram, nem mais nem menos, os olhos de um menino assustado.

    A Noite foi descendo, descendo, até entrar pelo vidro da janela de uma casa da cidade. Ao encontrar o menino de olhos abertos, perguntou com a sua voz silenciosa:

    — Ainda estás acordado?

    — Tenho medo da noite! — respondeu o menino, assustado e com os olhos cheios de lágrimas brilhantes.

    — Medo de mim?! — insistiu a Noite.

    — Sim, tenho medo de ti porque és medonha e é na escuridão que nascem os medos, os fantasmas, os papões e todos os bichos ruins. Quando tu vens, os sós ficam mais tristes e o teu silêncio dói muito.

    — Olha que não. A cor negra é bela. É sim senhor! — afirmou a Noite. — É a primeira cor que conhecemos no princípio da vida. Lembras-te que cor havia quando estavas dentro da barriga da tua mãe? Eu lembro-me… ora deixa cá ver, era… era negra-negra. Dizem que, quando dormirmos o último sono, regressaremos ao ventre da mãe-terra e, aí, consta-se que é muito escuro. Eu ainda não sei se assim é, mas espero saber um dia. Já me viste com o meu vestido breu-estrelado? Se me vires bem, os teus olhos vão tomar banho num mar de estrelas brancas, amarelas e azuis. As estrelas, às vezes, vão de um lado para o outro e assistimos a uma chuva de riscos luminosos e ficamos todos molhados de luz.

    E quando ponho o meu vestido negro-enluarado? As casas, as árvores e o mar não ficam da cor da  prata? Quando isso acontece, uma pedrinha da rua vale muito dinheiro porque é de prata fina. Já respiraste o silêncio da noite? Esse silêncio é uma nave espacial que te transporta, de mansinho, para o Planeta dos Sonhos. Nele, tu poderás ir aonde quiseres. Poderás visitar a Galáxia das Galinhas-com-Dentes ou dares mergulhos no Lago das Esmeraldas. E já reparaste que só com a minha serenidade consegues ouvir o riso das flores, a conversa dos teus brinquedos e a música do vento?

    Aquela conversa continuou pela noite fora, o menino adormeceu no silêncio tranquilo da Noite e esta ficou feliz por poder usar o seu vestido negro-carvão sem buraquinhos de luz.

    José Vaz

    Quando os olhos da noite mudaram de sítio

    Livraria Arnado, Coimbra

    O Tio Vasculho

    Maria Isabel de Mendonça Soares

    Maria Maçã e outras histórias

    Lisboa, Editorial Verbo, 1986

     

     

     

     

    O Tio Vasculho varria, naturalmente. Nem mesmo podia fazer outra coisa porque nunca aprendera a ler nem a escrever.

    Como no seu tempo as crianças não tinham obrigação de andar na escola, e o pai achava que ele lhe fazia mais falta para sachar as favas ou para guardar o milho da eira, o cachopito crescera sem saber distinguir um A de um B, mas nunca se tinha ralado muito com isso.

    Podia ter aprendido um ofício qualquer, é verdade. Mas, habituado a não ter sujeições, o rapaz sentia-se atabafado entre as quatro paredes da oficina, e volta não volta ia dar um giro pelos campos, o que trazia sempre como resultado ser despedido pelos patrões que lhe davam emprego.

    Nisto se foram passando os anos, e, chegado a velho, o Tio Vasculho só servia para varrer.

    Quem lhe havia posto o nome tinham sido os garotos do bairro: Tio Vasculho!

    Não era por troça; era só por graça. O Tio Vasculho empunhava uma vassoura tão grande e tinha uns bigodes tão façanhudos que o nome lhe estava mesmo a calhar.

    O Tio Vasculho não se zangava. Até se ria. E continuava a varrer o largo e as ruas da cidade. Tinha uma autêntica fúria de limpeza.

    Papel sujo caído no passeio ao alcance da vassoura – zás! – era papel varrido para o monte e apanhado na pá do lixo. Espinha de carapau, casca de laranja ou de ervilha que as donas de casa desmazeladas atirassem para a rua iam despachadas em grande velocidade com o mesmo destino, à frente do Tio Vasculho. Pratinha de chocolate ou cartucho lambuzado de gelado rodopiavam sem piedade nas barbas da sua vassoura.

    O Tio Vasculho não perdoava nem a mais ligeira falta de asseio. E quando via alguém deitar para o chão papéis velhos ou cascas de fruta, ralhava sem cerimónia e fosse lá com quem fosse!

    Havia uma única espécie de lixo que o não indignava: as folhas secas do Outono.

    O Tio Vasculho tinha por elas uma verdadeira paixão. Eram tão lindas! As folhas das olaias, redondas e doiradas, pareciam-lhe montes de libras enormes. As dos plátanos, cor de cobre, essas eram como estrelas caídas por engano no empedrado dos passeios ou no alcatrão da rua.

    E havia muitas outras, miudinhas ou largas, vermelhas ou amarelo-canário, cor de mel ou cor de pinhão…

    O Tio Vasculho varria-as também, já se sabe, porque o seu trabalho era varrer e porque as ruas querem-se limpas, mas não o fazia com a fúria que empregava para varrer as coisas sujas. Varria-as com amor, juntando-as cuidadosamente como quem junta um tesouro precioso.

    Era para ele o momento melhor do ano, esse tempo do Outono quando caíam as folhas.

    E o Tio Vasculho sentia-se poeta, mesmo sem saber fazer versos. (Porque ser poeta é só isto: admirar e amar as coisas lindas que há no mundo à nossa volta.)

    E por isso, apesar de velho e trôpego, o Tio Vasculho era feliz.

    Até que um dia…

    Um dia, a cidadezinha antiga onde morava o Tio Vasculho passou por uma grande transformação: arrasaram-se prédios velhos das ruas estreitas para abrir largas avenidas, as árvores antigas foram também deitadas abaixo porque – diziam certas pessoas – as suas raízes furavam os alicerces dos prédios e os ramos altos iam bater nos fios telefónicos…

    A cidade velha modernizou-se, e o próprio lixo passou a ser chupado por máquinas parecidas com motoretas que faziam um barulho dos diabos, mas deixavam o chão capaz de se lamber, tão asseado ficava.

    E com todas aquelas modas novas, o Tio Vasculho ficou sem ter nada que fazer.

    Coitado do Tio Vasculho! Arrumou a vassoura ao canto da barraquita onde morava. (Porque infelizmente as transformações da cidade não tinham sido tão grandes que não continuasse a haver barraquitas de tábua e lata que serviam de casa aos pobres como o Tio Vasculho.)

    Mas ele, que toda a vida só gostara de trabalhar ao ar livre, que ia fazer agora?

    E começou a entristecer com saudades. Saudades principalmente das lindas folhas doiradas e vermelhas que eram o seu tesouro do Outono.

    Ninguém sabe como aquilo aconteceu.

    Talvez o vento tivesse reparado nos olhos tristes do Tio Vasculho. Ou então foi Deus quem o mandou reparar. O certo é que o vento passou palavra às árvores da estrada que saía da cidade, e as árvores, embora distantes da barraca do Tio Vasculho, sacudindo os ramos, disseram logo que sim, que o vento lhes podia arrancar todas as folhas que quisesse para as levar ao velho varredor. E o vento soprou com força, arrastando à sua frente milhares de folhas secas que vieram tombar à porta da barraquita.

    O Tio Vasculho sentiu uma grande alegria ao vê-las. Pegou na vassoura e varreu, varreu, como se lhe voltasse aos braços a energia dos vinte anos.

    Nunca os habitantes da cidade entenderam (e os senhores do boletim meteorológico ainda menos) por que motivo todos os anos, pontualmente, o vento mudava de direcção e, soprando do lado da estrada que saía da cidade, trazia pelo ar milhões de folhas de todas as cores que não caíam nas avenidas, mas se juntavam todas no bairro de lata que ficava longe do centro.

    Então, o Tio Vasculho, de vassoura em punho, voltava a sentir-se poeta, mesmo sem saber escrever versos…

    Querido Greenpeace

    Simon James

    Dear Greenpeace

    London, Walker Books, 2005

     

    1 de Junho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Gosto muito de baleias e acho que hoje vi uma no meu lago. Por favor, envia-me informações sobre baleias. Penso que ela pode estar ferida.

    Beijos,

    Emily

    8 de Junho de 2005

    Querida Emily,

    Aqui vão algumas informações sobre baleias. Penso que vais dar-te conta de que o que viste não foi uma baleia. As baleias não vivem em lagos; vivem em água salgada.

    Um abraço,

    Greenpeace

    15 de Junho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Todos os dias, antes de ir para a escola, ponho sal no lago. Ontem à noite, vi a minha baleia sorrir. Penso que se sente melhor. Achas que pode estar perdida?

    Beijos,

    Emily

    23 de Junho de 2005

    Querida Emily,

    Não ponhas mais sal na água, por favor. Penso que os teus pais não ficarão contentes.

    Creio que não vive nenhuma baleia no teu lago, porque as baleias não se perdem. Sabem sempre orientar-se nos oceanos.

    Um abraço,

    Greenpeace

    2 de Julho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje sinto-me muito contente porque vi a minha baleia saltar e esguichar imensa água. Parecia azul.

    Será que se trata de uma baleia azul?

    Beijos,

    Emily

    P.S. Como posso alimentá-la?

    8 de Julho de 2005

    Querida Emily,

    As baleias azuis são azuis e alimentam-se de pequenos seres, parecidos com camarões, que vivem no mar. Mas devo avisar-te de que as baleias azuis são grandes demais para viverem em lagos.

    Um abraço,

    Greenpeace

    P.S. Será um peixinho azul?

    20 de Julho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Ontem à noite, li a tua carta à minha baleia. Quando acabei, ela deixou-me acariciar-lhe a cabeça. Foi muito emocionante.

    Em segredo, levei-lhe algumas migalhas de pão e flocos de cereais já mastigados. Hoje olhei para o lago e tinham desaparecido!

    Vou chamar-lhe Oriana. O que te parece?

    Beijos,

    Emily

    29 de Julho de 2005

    Querida Emily,

    Devo insistir no facto de que uma baleia não poderia viver no teu lago. Talvez não saibas que as baleias são animais migratórios, o que significa que viajam muitos quilómetros por dia.

    Lamento desapontar-te.

    Um abraço,

    Greenpeace

    3 de Agosto de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje estou um pouco triste. A Oriana foi-se embora. Penso que percebeu a tua carta e decidiu voltar a ser migratória.

    Beijos,

    Emily

    15 de Agosto de 2005

    Querida Emily,

    Não estejas triste, por favor. Era mesmo impossível que uma baleia vivesse no teu lago. Quando fores mais velha, talvez queiras navegar nos oceanos connosco, para poderes estudar e proteger as baleias.

    Um abraço,

    Greenpeace

    23 de Agosto de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje foi o dia mais feliz da minha vida. Fui até à beira-mar e vi a Oriana! Chamei-a e ela sorriu. Sei que era a Oriana porque deixou-me acariciar-lhe a cabeça.

    Dei-lhe um bocado do meu pão… e depois despedimo-nos.

    Disse-lhe que gostava muito dela e que tu também gostavas. Espero que não te importes.

    Beijos,

    Emily (e Oriana)

    Uma prova de amor

    Uma Prova de Amor

    Num dia radioso de Verão, a Cigarrinha Mili teve uma ideia: preparar uma linda festa.

    — Eu canto, toco guitarra e o Besouro toca rabecão, o Moscardo e as Abelhinhas zumbem e as Borboletas preparam lindos bailados.

    — Então e nós? — perguntaram as Varejeiras e os Mosquitos — Temos actuado em festas e todos apreciam os malabarismos que fazemos no ar, ao mesmo tempo que os acompanhamos com som.

    A Cigarra aceitou. As Flores vieram em grande quantidade e a festa foi lindíssima, lindíssima. Até a água do regato sussurrava de em pedra.

    A música subia aos céus e tudo era harmonia e paz.

    — Mas tudo isto para quê? Uma tão bela festa em honra de quem? — perguntou o Sol admirado.

    — É para te agradecer a luz e o calor que nos dás e que nos faz viver tão felizes — respondeu a Cigarrinha.

    O Sol sorriu e sentiu o coração ainda mais quente e cheio de ternura.

    Isabel Lamas; Célia Fernandes
    Já tenho quatro anos
    Sintra, Impala Editores, 2003

    A que distância está o sol?

    A que distância está o sol?

    — Um barco à vela… montanhas… um castelo — diz Ana, a pintar e a falar consigo mesma. A mãe está no sofá a tricotar uma camisola de malha. O desenho de Ana e a camisola são prendas de anos para o pai.

    Ana desenha no céu um sol com a cara risonha.

    “O sol não tem cara”, pensa Ana.

    Olha pelas janelas. Hoje o sol é um disco pálido por detrás de um véu de nevoeiro.

    — O sol não é um vidro mas uma bola — diz a mãe. — O sol é uma estrela fixa. Os planetas movimentam-se à volta dele, e a terra também.

    — A que distância está o sol? — pergunta Ana.

    — A milhões de quilómetros — responde a mãe a rir-se.

    Ana queria saber exactamente. Numa estante da sala está uma fileira de livros grossos. Por fora está escrita uma palavra que Ana consegue decifrar sozinha: Enciclopédia. A mãe tira um dos volumes e folheia-o.

    — Cento e quarenta e nove milhões e quatrocentos e oitenta mil quilómetros — diz e escreve o número numa folha de papel: 149480000. — O sol é uma enorme bola de fogo em brasa.

    Ana tenta imaginar essa bola. Há muitas coisas que são diferentes da forma como as vemos com os olhos.

    Ana olha para o seu sol e pinta-lhe uns raios em volta da cara risonha.

    Traduzido e adaptado

    Max Bolliger

    30 Geschichten zum Verschenken

    Lahr, Verlag Ernst Kaufmann, 1991