A Cabeça da Luz

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Velhos Álbuns 

Maria da Luz herdara o nome de uma tia que nunca conhecera, por esta ter morrido muito antes do seu nascimento. A sua cara, no entanto, não lhe era estranha, por a ter visto nos velhos álbuns de família, de capa preta e finas folhas de papel vegetal, entre as  fotografias.

A mãe costumava pousá-los nos joelhos e, com o dedo indicador, apontava as pessoas antigas de roupas estranhas dando-lhes nomes e falando de parentescos. Maria da  Luz arregalava os olhitos atentos e pasmava para a sua bisavó aos vinte e cinco anos, roliça e pequenina, empoleirada no estribo de um carro antigo. A par de cada fotografia, a mãe desfiava um rosário de histórias verdadeiras que Maria da Luz situava em ambientes estranhos, por se terem passado há muito tempo. A tia Francisca que morrera de pneumonia (naquele tempo ainda não havia penicilina), a tia Adelaide que caíra do estribo de um elétrico, alto de mais para a sua saia estreita, e o tio João que partira para o Brasil e nunca mais voltara. Da tão falada beleza da tia Maria da Luz, a pequenita não encontrava vestígios nos velhos álbuns. As fotografias que ilustravam a juventude da tia, sempre de grupos, em que a tia era só uma cabeça entre muitas, dificultavam a apreciação. As outras mostravam-na já velha, com roupas escuras e austeras e um camafeu na gola da blusa.

Maria da Luz gostava de histórias e, quando a mãe não podia contar-lhas, corria para a cozinha e pedia às criadas que lhe contassem histórias de santos e santas, aparições e almas  do outro mundo. Além disto, saltava à corda no jardim, corria, andava de patins e bicicleta e trepava a muros e árvores, com risco para roupa e joelhos. Se chovia, fazia recortes que colava a gosto num livrinho e brincava “às casinhas”, com bonecas e loucinhas.

De dia, era uma menina viva, ativa e alegre; à noite, os seus olhos tornavam-se mais atentos e perscrutavam as sombras dos móveis, nas paredes e cantos da velha casa. Na cama, já às escuras, tinha medo de acender a luz da mesa de cabeceira, porque, se houvesse um lobo debaixo da cama, certamente não perderia a oportunidade de lhe comer um braço. Nessas alturas, o seu coração batia apressado e era preciso mergulhar a cabeça nos lençóis para o acalmar. O sono vinha sempre sorrateiro e sem ser esperado, mas Maria da Luz sabia que quem o trazia era o João Pestana, que o pousava com muito jeitinho nas pálpebras cansadas dos meninos pequeninos. A roupa do João Pestana era verde, com um grande gorro  vermelho caído sobre as costas e uma borla amarela presa na ponta. Sempre que conseguia prendê-lo nos seus sonhos, por momentos, ele lutava para sair, talvez porque ainda não adormecera todos os meninos, e aqueles que ficassem acordados não deixariam dormir os  pais – como ela, de uma vez em que estivera doente e em que o João Pestana não viera, decerto por ter ficado preso nos sonhos de algum menino.

Coisas que falam e histórias de  antigamente 

A casa em que vivia era antiga, cheia de sábios móveis de outros tempos, guardadores de interessantes segredos. Maria da Luz não ignorava estas coisas e calculava que eles a olhavam e a comparavam com outros meninos que antes dela haviam habitado aquela casa, onde tudo tinha o seu lugar bem definido e imutável. Quando se levantava de manhã e atravessava a casa silenciosa em direção ao calor da cozinha, sentia os olhos das coisas presos em si.  Então, arranjava maquinalmente o cabelo e verificava se os botões do roupão estavam todos nas suas casas ou se algum estaria em casa do vizinho, e depois avançava resolutamente, fazendo vénias à direita e à esquerda (como lhe ensinara a irmã Iria no primeiro colégio em que andara).

Naquela manhã, deteve-se indecisa na sala de jantar, com os olhos fitos na mesa, que nos dias de festa crescia para dar lugar a todos, e meteu-se debaixo dela, observando atentamente o seu único pé, bojudo e polido. Tudo era silêncio e calma, mas as aparências iludem. Dentro dele, vivia a sua amiga Joana, bem conhecida pelas suas travessuras e pequenas maldades. Puxava o rabo do gato, comia as bolachas de chocolate que estivessem a jeito, espalhava brinquedos pela casa e escondia vassouras, panos do pó e outros objetos de limpeza. Bateu com os nós dos dedos no pé da mesa e perguntou baixinho:

— Joana, estás acordada?

— …

—  Já estás a pentear-te?

— …

— Sim, vou já tomar o pequeno-almoço.

— Menina — era a voz da cozinheira — está outra vez debaixo da mesa!? — E resmungando baixo — Que menina esta, sempre a falar com as coisas!

Maria da Luz seguiu atrás da cozinheira que já tinha um grande fervedor cheio de leite branco e espumoso no fogão. A menina não gostava muito de leite e espantava-a que uma coisa tão bonita tivesse um gosto tão pouco interessante.

Naquele dia, resolveu dedicar-se à busca de tesouros nos armários de brinquedos. Ali havia não só os brinquedos novos que lhe iam dando, mas também brinquedos antigos com que a sua bisavó brincara. Um velho fogão a lenha preto, com portas em latão dourado, e um suporte da mesma cor para os panos. Um lavatório branco com jarro, bacia e saboneteira em porcelana azul. Uma máquina de costura preta com bonecos pintados e os restos de duas bonecas com lindas caras de louça. Mas o mais engraçado de tudo eram as pequenas coisas sem história, aquelas que ninguém sabia porque lá estavam e a que a mãe chamava o lixo. Pequenos recortes de jornais e revistas com mais de cem anos, bonecas de papel vestidas com longas saias armadas em balão e lindos colares ao pescoço.

Entre todos estes papéis,  sobressaía um anúncio de sabão, com mais de cinquenta anos, que representava um campo verde onde uma mulher negra e gorda, com um lenço branco amarrado na cabeça e um grande avental, mexia energicamente o panelão da barrela, ao lado do qual um rapazinho descalço brincava. Maria da Luz maravilhava-se com as cores vivas da gravura e com as histórias que ela  sugeria. Era fácil adivinhar que a mulher negra era mãe do pequenito, que só fazia marotices, o que  se via bem pela vivacidade dos seus olhos. Ambos poderiam ser escravos de uma plantação dos Estados Unidos, mas para Maria da Luz a palavra escravatura não tinha um significado especial. Tratava-se apenas de uma mulher gorda e maternal, num local fresco e alegre onde só podiam acontecer coisas agradáveis, visto que todos estavam tão felizes.

Ao remexer numa gaveta, os seus olhos fixaram uma caixa que não se lembrava de ter visto antes. Era forrada a pano e Maria da Luz não ficaria nada surpreendida se dentro dela houvesse um maravilhoso tesouro. Cheia de curiosidade, abriu a caixa e, rápido como um relâmpago, saltou-lhe de lá um enorme rato cinzento fazendo um ruído aterrador. Maria da Luz ficou paralisada e todo o sangue lhe afluiu ao coração. Mal pôde reagir, virou-se, com medo de ser atacada pelas costas, e viu o rato muito quieto no chão. Aproximando-se com cuidado e receosa, viu, com alívio, que o tal rato que tanto a assustara era afinal feito de pano. Mas por que razão saltara ele com tanta vivacidade de dentro da caixa? Mal lhe pegou, Maria da Luz desvendou o mistério. É que, por dentro do tecido, havia uma mola forte que, devidamente comprimida, tornava o animal semelhante a uma rodela de banana; mal se soltava, a mola distendia-se fazendo-o dar saltos prodigiosos. Ali estava um brinquedo realmente interessante. Fazendo riscos de giz no chão, assinalando as marcas atingidas pelo rato, a menina forçou-o a bater o seu próprio recorde, durante grande parte da tarde. A voz da mãe, chamando para o   lanche, obrigou-a a abandonar a brincadeira. Desceu com o propósito de descobrir a origem daquele rato. Podia ainda servir-se dele para assustar a cozinheira ou a Palmira, que era novita e  tinha medo de tudo.

— Descobri lá em cima um rato de pano que salta imenso — declarou. — A mãe sabe de onde veio?

A mãe olhou para a avó e ambas sorriram.

— Sabem? Digam lá então!

Então a mãe, dirigindo-se à avó, pediu:

— Conte a mãe, que assistiu a tudo.

A avó não se fez rogada. Estava a ficar velhinha e tinha um enorme prazer em recordar o passado, como se isso a rejuvenescesse cinquenta anos ou mais.

— Eu era pequenita, como tu agora, Maria da Luz — disse por fim a avó. — A tua bisavó, minha mãe, era muito bem-disposta e se havia coisa de que gostava era de pregar partidas às pessoas. Nesse dia, lembro-me como se fosse hoje, pegou na caixa de costura e chamou a criada de quartos.

— Que é uma criada de quartos, avó?

— Naquele tempo, havia casas muito grandes e por isso eram precisas muitas criadas. A de quartos arrumava-os e limpava-os todos, e acredita que tinha trabalho para lhe encher o dia. Bom, como eu estava a dizer, a tua bisavó chamou-a e disse-lhe:

— Vou para a casa de banho fazer um rato de pano. Quando eu gritar, você chama o senhor para ele vir matar um rato que lá está.

A criada, que já conhecia muito bem a tua bisavó, achou a ideia engraçadíssima e ficou quieta no corredor, à espera do grito. Para pouca sorte da tua bisavó, apareceu um rato mesmo a sério e ela tinha um medo deles que se pelava. Tratou logo de trepar para a retrete e gritar o mais alto que pôde, por socorro. A criada, no corredor, deve ter achado que a tua bisavó era uma vocação perdida para o teatro, porque os gritos eram muito autênticos,  agudos e estridentes. De acordo com o combinado, chamou o bisavô para matar o bicho. Ele veio, pegou na vassoura e entrou na casa de banho. A porta fechou-se atrás dele, e nós, no corredor, só ouvíamos a vassoura a bater todos os cantos, os passos apressados do bisavô e os gritos da bisavó. Para nosso espanto, a criada ria às gargalhadas e apertava as pernas. Por fim, todo o ruído cessou e o bisavô chamou:

— Silvina, traga a pá para levar o rato para o lixo. Então a Silvina abriu a porta muito afoita e disse:

— Para levar ratos desses, não preciso eu de pá!

Muito nos rimos depois. A pobre rapariga chegou mesmo a pegar no rato morto e por pouco não desmaiou.

Esta história, tal como todas que a mãe ou a avó contavam, pôs a imaginação de Maria da Luz a galopar. Estranhos tempos aqueles em que as casas eram enormes, cheias de criadas, tios, tias, primos e visitas e em que todos se divertiam imenso. É claro que só lhe contavam as histórias engraçadas, as tristes já tinham sido todas esquecidas e ninguém desejava relembrá- las. Maria da Luz imaginava que a sua bisavó não fizera mais nada senão rir-se durante toda a vida.

Ditos e desditas 

O Verão chegava ao fim, as manhãs tornavam-se mais enevoadas e quando o sol, por fim, atravessava o nevoeiro, todas as coisas ganhavam um brilho luminoso, como se tivessem sido lavadas durante a noite. A menina gostava da luz suave das manhãs de outono. Era o tempo em que as folhas dos plátanos adquiriam tonalidades vermelhas e amarelas, contrastando suavemente com as que se mantinham verdes. A brisa da manhã balançava-as e o jardim rumorejava.

O começo das aulas estava próximo e todos lhe diziam que era preciso estudar muito para “ser alguém na vida”.

“Ser alguém na vida” era uma das muitas frases feitas que a mãe usava, embora o sentido de algumas delas escapasse à compreensão de Maria da Luz. Talvez que à força de serem repetidas nas mesmas situações se esvaziassem de sentido. No entanto, tinham tal importância nas relações entre a família, que, se a situação surgisse e a frase não, se podia pôr em dúvida o próprio acontecimento. Assim, quando arranhava um joelho e entrava em casa  a chorar, a mãe dizia invariavelmente, enquanto lhe punha mercurocromo:

— Coitadinha, vai sair a tripa grossa que a fina não cabe!

Um dia de manhã, a mãe fê-la sair da cama mais cedo do que era costume, vestiu-a com cuidado, penteou-a e anunciou:

— Vamos comprar as batas e os livros.

— Quando começam as aulas, mãe?

— Faltam oito dias — explicou a mãe. — Penso que este ano vais ter outra professora. Ouvi dizer que ensina muito bem, mas não é para graças.

— O que é não ser para graças? — perguntou Maria da Luz um pouco inquieta?

— Olha, filha, é querer que todos os meninos sejam muito estudiosos e bem-comportados.

Pois bem, era justo. Não se podia negar que ser estudioso e bem-comportado não era pedir de mais e Maria da Luz sabia que querer o melhor para alguém não podia ser censurável. Esqueceu-se de pensar, e por isso de perguntar, o que aconteceria se os meninos quisessem ser outra coisa. Porém, cedo o descobriu, A professora já não era nova, a sua cara de traços miúdos era dura e uma ruga funda entre as sobrancelhas acentuava-se sempre que alguma coisa a contrariava.

Na segunda semana de aulas, Maria da Luz chegou a casa e, mal viu a mãe, pediu:

— Caí no recreio. Dói-me muito a mão, põe-me uma ligadura?

Depois de a examinar com cuidado, a mãe sentenciou:

— Vai sair a tripa grossa que a fina não cabe.

— Oh mãe, por favor, dói-me tanto! — a frase foi reforçada com uma careta de dor. Maria da Luz receava que a mãe se mostrasse prática como era costume e, não vendo qualquer inchaço, se recusasse a atender o seu pedido. A avó veio salvar a situação:

— Coitadinha da pequena, mal não pode fazer.

A mãe cedeu e a menina viu com prazer que a sua mão esquerda se encontrava convenientemente entrapada pelo pano grosso de ligadura. Pena era não poder fazer o mesmo com a outra. Tinha ainda nos ouvidos o som da palmatória a cair com força na mão  da Lídia, que lutava em vão contra as lágrimas. Tudo por causa do primeiro rei de Portugal. Não que ela não soubesse a História de Portugal toda papagueada, isso não. O seu fraco era o ditado. Cada erro dois bolos. E precisamente o dia seguinte era dia de ditado. Podia estudar o texto, mas só sabia fazer o trabalho de casa, estudar era coisa que nunca precisara de fazer, nem percebia muito bem o que era.

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O irmão, que andava mais adiantado, já estudava muita coisa e, para se sentir mais importante, Maria da Luz resolveu estudar o texto com cuidado. Quando estava já a lê-lo  pela terceira vez, sem quase dar por ela, viu-se outra vez no recreio a fintar as amigas que a queriam apanhar. Jogar ao pilha era um grande divertimento, não só porque gostava de correr, mas porque fintava bem e era quase impossível de apanhar. Durante algum tempo saboreou na lembrança a vitória do recreio. Aqueles pensamentos faziam-na sorrir. Por fim, como que acordando de um sonho, voltou a concentrar-se na leitura. Mas, pensando bem,  era estúpido estar ali a ler o texto, o que não ia adiantar nada, quando havia tantas coisas interessantes e importantes para fazer. Tinha ouvido um cantor no rádio apregoar que a vida é só uma, e assim Maria da Luz refletiu que os momentos de prazer que perdesse hoje nunca mais voltariam, e este pensamento varreu todos os escrúpulos da sua consciência. Estava   até disposta a sujeitar-se com coragem às inevitáveis palmatoadas na mão direita (a esquerda estava ligada), por causa do ditado do dia seguinte. A antecipação do prazer que sentia quando brincava com as bonecas de papel fê-la murmurar um provérbio tantas vezes ouvido:

— Mais vale um pássaro na mão, que dois a voar.

Tinha bonecas de papel de todos os tamanhos e feitios, feitas por ela, pela mãe e pela avó (que as faziam por encomenda) e, nos últimos tempos, conseguira convencer o irmão a desenhar-lhe todas as personagens dos livros d’ “Os Cinco”, sem esquecer o cão.

Que possibilidades de inventar histórias estavam naquele caixote, que já servira para guardar marmelada!

Poças e “barocas” 

O caminho para a escola, embora curto, era fonte de grandes divertimentos. Maria da Luz abria a porta da rua e, em vez de descer a soleira, dava um grande salto que devia terminar rigorosamente no terceiro ladrilho do passeio, não podendo haver hesitações nem desequilíbrios.

Depois era preciso passar pelo pobre do 220, que chegava cedo e esperava pela saída da primeira missa. Era um falso cego, como mais tarde se provou.

A escola ficava situada atrás da igreja e, depois de transpor grandes portões de ferro forjado e atravessar o adro, o resto do caminho era de terra batida. Nos dias de sol, os pés dos meninos levantavam nuvens de poeira e, quando chovia, a lama invadia tudo e então é que era realmente divertido. Os desportos na lama, invenção local, constituíam o principal entretenimento dos recreios. Equipados com pesadas galochas pretas, cruzavam ativamente as grandes poças que a chuva formara, erguendo altas ondas de água castanha e barrenta.  Para tornar a prova mais difícil, os meninos deviam atravessar a poça, carregando, pelo menos, três pastas, enquanto eram perseguidos por crocodilos esfomeados (paus que boiavam na água lamacenta) e caçadores emboscados. Os gritos das meninas mais assustadiças espantavam as pombas da igreja que voavam dispersas em todas as direções.

Naquela manhã, Maria da Luz viu, com prazer, que tudo estava alagado e que era fácil deslizar na terra ensopada. Juntou-se aos outros meninos que à porta da sala discutiam animadamente. A Rosa, uma menina morena e magrita, só dentes e olhos, gritava para quem a quisesse ouvir que havia uma grande “baroca” junto aos muros da escola. Maria da Luz não sabia o que era uma “baroca”, nunca ouvira tal palavra, mas como, pelos vistos, era a única que a ignorava, não quis dar parte de fraca e juntou os seus gritos aos dos outros.

Nesse dia, os meninos chegaram a casa mais molhados e sujos do que nunca. A “baroca” de que a Rosa falava era a maior poça de água lamacenta jamais vista no terreiro da escola.

Além dos recreios, aquilo de que Maria da Luz mais gostava na escola eram as aulas de Religião. O padre Marcelino era um homem magro e bonito, com uma bela voz de barítono, e que ensinava maravilhosos hinos religiosos. Maria da Luz ficava toda arrepiada de prazer, ao ouvir as vozitas agudas dos colegas acompanhadas pela voz profunda e quente do padre Marcelino.

Este homem tinha ainda o dom de contar as histórias da Bíblia, colorindo-as como se mostrasse um quadro. Na opinião de Maria da Luz, a do Rei Salomão era a mais fascinante. O seu trono brilhava de pedrarias e o rei mostrava-se sereno e severo na apreciação  das palavras das duas mulheres que reclamavam o mesmo bebé nu e rosado. Maria da Luz compreendia, embora não fosse capaz de o explicar, que a convicção com que afirmamos qualquer coisa não basta para que sejamos acreditados. A verdadeira mãe do menino era aquela que não queria que lhe fizessem mal, mesmo que ficasse sem ele. O Rei Salomão, símbolo da sabedoria, soubera descobrir a verdade. Pensando bem, todos os adultos eram iguais. A sua mãe era capaz de farejar uma mentira antes mesmo que Maria da Luz acabasse de a dizer, por muito bem planeada que estivesse. Para cúmulo da humilhação, ainda lhe mostrava o dedo mindinho esticado e dizia:

— Tenho este dedinho que adivinha!

O dedo de Maria da Luz não adivinhava nada, mas ela sabia que ele ganharia poderes  mágicos com o passar do tempo e jurava a si própria que nunca os usaria para descobrir as mentiras dos filhos que porventura viesse a ter.

Mais tarde, o padre Marcelino deixou a paróquia e os meninos diziam que já não era padre e se casara. Como nunca soube ao certo o que acontecera e nunca mais o viu, continuou a pensar nele de batina preta e crucifixo ao pescoço, como o conhecera.

Adotaram-me 

Por esta altura da sua vida, pensava muito na morte. Não na sua, evidentemente. Achava-se imortal porque era pequena. Maria da Luz pensava que só os velhos morrem. Em casa nunca falavam de desgraças, desastres e miséria na sua frente, embora não se cansassem de repetir que a “vida não é um mar de rosas”. Maria da Luz só percebeu isto mais tarde, porque na sua infância não entrou nunca a aflição, o desespero, a tristeza ou a saudade, nem mesmo por ouvir dizer. Por isso, acreditava que só se morre de velhice ou de doença que, é claro, só os mais velhos apanham.

Quando estes pensamentos lhe assaltavam o espírito, a sua maior preocupação era pela avó. Como ela se cansava a subir as escadas! A dieta equilibrada que era obrigada a fazer, o descanso depois do almoço e os xailes que nem no verão largava, só podiam ser prenúncio de morte. Estes pensamentos, se por um lado eram dolorosos, por outro, abriam novos  caminhos na imaginação da menina.

E se a avó e a mãe morressem e ela ficasse órfã e abandonada como as princesas das histórias? Então, poderia chorar sozinha numa floresta escura onde as feras a espreitariam com olhos amarelos e ávidos e a baba escorrendo. Nunca mais teria roupas novas e as que trazia ir-se-iam aos poucos transformando em trapos andrajosos. Quando tudo parecesse perdido, viria o príncipe e tudo acabaria bem. Por vezes, a intensidade com que imaginava estas histórias era tal, que chorava lágrimas verdadeiras e abundantes.

Quando era castigada e não queria reconhecer a justiça do castigo, reunia-se à sua amiga ao pé da mesa e confidenciava-lhe:

— Eu vivia com os ciganos, sabes? Tínhamos um cão e um burro e dormíamos numa tenda durante todo o ano. Nem sempre comíamos, mal nos lavávamos, mas cantávamos todo o dia e éramos livres… Quando me lembro da erva fresca nas manhãs de orvalho! Mas tiraram-me de lá e adotaram-me. Agora estão sempre a castigar-me. Vais ver se não fujo de casa! Hão de ver! Ainda se hão de arrepender!

À força de pensar intensamente nas histórias que inventava, começava a acreditar nelas e a precisar que a sossegassem sobre a sua origem.

Se a mãe sem lhe prestar atenção respondia:

— Sei lá, filha!

— Não sabes? Vim dos ciganos, não foi?

— Credo, filha! Onde foste buscar essa ideia? Os olhos da mãe espantavam-se:

— Não sei onde esta criança vai buscar estas coisas! Então não vês como és parecida com a tia Maria da Luz? Se não fosses minha filha, como é que te podias parecer com ela?

Que bom que não houvesse hesitação na voz da mãe e os seus olhos se mostrassem tão surpreendidos! Claro que não era adotada. Era ali que pertencia.

Bolinhas de papel 

Os primos de Maria da Luz moravam noutra cidade, mas vinham muitas vezes passar uns dias a sua casa. Eram crianças habituadas a brincar ao ar livre sem que ninguém as incomodasse e, por isso, lembravam-se de brincadeiras que nunca lhe teriam passado pela cabeça. Naquele Natal, chegaram logo no primeiro dia de férias. Depois de poisarem as malas no quarto e de irem ao quintal cumprimentar os cães, os dois mais velhos meteram-se no quarto de brinquedos a revolver os armários. À mais nova, Maria da Luz emprestou as bonecas para que estivesse quieta e calada. Era uma menina de cinco anos, pequenina e morena, que tinha uma verdadeira paixão por animais. Na família, a brincar, todos achavam que ia ser veterinária.

A prima mais velha queria ir para a janela ver o movimento. Andava sempre vestida de cor-de-rosa e sonhava que um príncipe belo, carinhoso e inteligente a viria buscar, não a cavalo, evidentemente, mas num carro moderno. Este príncipe, só por si, apagaria todas as recordações, todos os desejos, todos os projetos e a sua vida podia acabar no momento em que ele lhe estendesse a mão. Os seus sonhos de adolescente não lhe permitiam ir mais além.

Ver o movimento na rua de uma janela da casa não era a ideia que Maria da Luz, o irmão e o primo faziam de divertimento. Depois de estarem um bocado ali especados e de terem visto passar cavalheiros de chapéu, carecas e senhoras de cabelos armados e tesos de laca, começaram a ter ideias. A prima mais velha cansou-se de esperar pelo príncipe, que nunca mais chegava, e lembrou-se que podiam atirar bolas de papel à cabeça dos transeuntes. As bolas eram muito bem amassadas, para ganharem consistência e peso, e depois eram lançadas com força. A princípio, recuavam com medo de serem vistos pela vítima, mas  depois perceberam que assim perdiam o melhor. Com atrevimento, começaram a espreitar depois do lançamento e as reações excederam o que tinham ousado esperar. As senhoras de cabelos armados raramente sentiam as bolas, os cavalheiros de chapéu só ouviam o barulho que faziam ao bater no feltro que os cobria, mas nunca olhavam para cima, por ser uma zona amplamente povoada de pombas e recearem o pior. Assim, seguiam o seu caminho,  desejando chegar depressa a casa, para limpar o chapéu.

Os melhores eram os carecas. Sobre estes, caíam mais bolas que granizo em dia de tempestade. Não podiam ignorá-las, nem tomá-las pelo que não eram. As arestas do papel, mal amassadas pela pressa com que eram feitas, agrediam rudemente a pele desprotegida das suas cabeças e faziam-nos olhar imediatamente para cima. A brincadeira estava a render tanto que o passeio já estava juncado de bolas de papel. Foi nesta altura que despontou na esquina o melhor de quantos alvos tinham aparecido. Era um bazulaque de fato azul escuro e uma belíssima careca redonda e lustrosa. Incapazes de resistir à atração daquela bola rosada, os primos arremessaram, com entusiasmo, todas as munições ao mesmo tempo.

O digníssimo sujeito, com uma corrente de ouro a sair do bolso do colete para logo desaparecer no bolso das calças, num movimento demasiado ágil para um corpo tão volumoso, olhou para cima e logo divisou quatro caritas risonhas e luminosas de alegria. A seguir, tudo foi rápido e inacreditável. Enquanto o diabo esfrega um olho (como dizia a mãe de Maria da Luz), o sujeito agarrou-se à campainha e só parou quando a Palmira, na sua farda preta de punhos e gola branca, lhe abriu a pesada porta da rua. De cima, da janela, a cena seria cómica se não tivessem medo da descompostura que iam levar. O homem gesticulava agitadamente, apontando ora a janela do primeiro andar ora as bolas no passeio, e  os  meninos não tinham dúvidas sobre o que dizia.

Naquele dia, ficaram confinados ao quarto de brinquedos, embora continuassem a sentir-se orgulhosos, por terem conseguido pensar numa brincadeira tão imaginativa. As palavras razoáveis da avó tinham-lhes entrado por um ouvido e saído pelo outro e ansiavam pelo momento em que pudessem voltar a repetir a graça, embora com algumas variantes. Na vez seguinte, prenderiam as bolas com um fio e assim, pelo menos, o passeio não ficaria sujo.

Natal 

Faltavam quatro dias para o Natal que, de todas as festas do ano, era aquela que todos preferiam.

A avó, sempre agarrada ao cesto das chaves, subia e descia a escada, centenas de vezes  ao dia, nos preparativos para a grande ceia. Eram elaboradas inúmeras listas com tudo o que era preciso comprar e os fornecedores tocavam à campainha de meia em meia hora.

O cheiro do Natal já invadira as ruas. Era um cheiro a bolos e açúcar, de mistura com o aroma dos pinheiros trazido pelo vento agreste do Norte. Para o Natal ser perfeito, o tempo devia estar frio e cinzento, de um cinzento uniforme, parado e gelado. O ideal seria que nevasse, mas na terra onde Maria da Luz morava, isso nunca acontecia. Grinaldas de anjos uniam as casas e os cânticos de Natal enchiam as ruas movimentadas, onde as pessoas faziam as últimas compras.

Maria da Luz queria dar presentes a todos e quase sentia mais prazer em oferecê-los do que em recebê-los. Assim desenhou paisagens com casinhas e chaminés que deitavam fumo e fez pulseiras de relógio em croché.

No dia 24, chegou o pinheiro que media pelo menos dois metros e, depois das criadas o terem espetado num enorme vaso cheio de terra, a avó abriu o armário onde os enfeites do ano anterior ainda dormiam. Os meninos ajudaram a enfeitar a árvore, colocando, do alto de um escadote, as bolas e os anjos, no cocuruto do pinheiro. No fim, o efeito combinado das bolas coloridas, das luzes e das fitas brilhantes transformou-o num objeto mágico que fazia Maria da Luz sonhar acordada.

Não era saber que em redor dele, à noite, haveria dezenas de embrulhos enlaçados de fitas coloridas, nem tão pouco o brilho da festa que a emocionava. A visão da árvore de  Natal, assim majestosa, fazia-a sentir vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Se fosse mais velha, poderia desejar filmar aquela cena não só exteriormente, mas também fotografar o que sentia. Há momentos na vida das pessoas que se deviam poder manter para sempre, intactos, fortes e esmagadores. A felicidade torna-nos vulneráveis, porque sabemos que temos tudo a perder. Mas, como era muito pequena, ainda não sabia que tudo o que começa acaba e há sempre um dia seguinte. Assim, a árvore de Natal era o centro do mundo e o mundo era aquele momento.

A avó, meiga como sempre era, pediu-lhes que fossem brincar, para os adultos poderem preparar a festa em sossego.

Maria da Luz e os primos, embora se sentissem nervosos e excitados, queriam portar-se bem naquele dia especial. Apesar do frio, o tempo estava bonito e puderam brincar toda a tarde no jardim. Ao escurecer, tomaram banho e, com as roupas mais bonitas, esperaram que os chamassem para a ceia.

Eram oito horas quando o gongo soou. Desceram a escada de forma solene, um degrau de cada vez e não de quatro em quatro como era costume.

A porta da sala de jantar estava aberta de par em par e as pratas resplandeciam nos  aparadores polidos e brilhantes. A mesa, que crescera para o dobro, estava coberta por uma alvíssima toalha de renda. A avó colocara a louça azul inglesa, os copos de cristal e, ao lado  de cada prato, um guardanapo dobrado em forma de coroa, com o monograma da família bordado a branco.

Maria da Luz não percebia como os adultos eram capazes de comer numa noite como aquela. Ela sentia um nó na garganta e cada bocado que engolia ficava como que entalado.

À sobremesa, a avó deu a cada neto um embrulho que parecia um enorme rebuçado, metade amarelo, metade cor de laranja em papel crepe. Puxando pelos dois extremos ao mesmo tempo, rebentava com estrondo, e saltava de lá uma surpresa: um carrinho, uma boneca, uma corneta, tudo em plástico. Um após outro, cada menino estourou o seu e a sala encheu-se de gritinhos de prazer. Mais tarde, apagaram-se todas as luzes e só as do   pinheiro ficaram acesas, para orientarem o Pai Natal quando ele descesse pela larga chaminé da cozinha. Na sala ao lado, todos ouviram distintamente os guizos do seu trenó e quando, passados dez minutos, voltaram a entrar na sala, o chão à volta da árvore de Natal estava pejado de brinquedos.

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Maria da Luz recebeu lindas prendas, mas pareceu-lhe, como sempre lhe acontecia, que aquilo que já possuía, por muito que o tivesse desejado, perdia o encanto a partir do  momento em que era seu. A boneca, que na montra lhe parecera maravilhosa, estava agora sem graça em cima da cama. Era tão perfeita que Maria da Luz nada podia fazer para melhorá-la. Sem alma, nem imperfeições, todas as meninas gostariam de ter uma igual.  Maria da Luz admirava-a, no entanto era incapaz de a estimar.

Todo o seu afeto ia para as pedras da rua, de que ninguém gosta, a que ninguém liga, que todos pisam; para as folhas molhadas dos plátanos, que o vento do outono soprava para a sua janela, e para pequenos paus esquecidos no chão. Amava estas coisas e acreditava que sentiam e sofriam. Acarinhava-as e falava-lhes com meiguice, porque tinha a certeza de ser a única pessoa a fazê-lo. As suas imperfeições conferiam-lhes, aos olhos da menina, uma dimensão humana. Colocava as folhas junto ao aquecedor, deitava os paus na cama das bonecas e era capaz de dormir toda a noite agarrada a uma pedra. Nunca explicou a ninguém o que sentia. Por isso, a mãe estava convencida de que ela colecionava pedaços da natureza como quem coleciona selos. As pessoas grandes são tão ignorantes!

Um quarto na penumbra 

Em janeiro, a avó começou a ficar longos períodos na cama e o médico vinha vê-la muitas vezes. A menina costumava sentar-se no seu leito e conversar com ela durante horas seguidas. Mesmo doente, a avó ainda arranjava energia para lhe contar histórias em que Maria da Luz também entrava.

Depois, até estes momentos de agradável intimidade, de que Maria da Luz tanto  gostava, foram acabando. O quarto da avó passou a estar envolvido em penumbra e a menina achava que a avó sentia a falta do sol e, por isso, deixara de falar e rir. Era preciso andar em bicos de pés e tinham-na proibido de cantar e dançar pela casa.

Pela cara dos adultos, ela percebia a evolução do estado de saúde da avó. Segredavam coisas importantes entre eles e Maria da Luz era sempre excluída destes cochichos.

Sem perceber, sentia que a avó se estava a afastar. Como fazer para passar sem as suas histórias, os jogos de canasta à tarde, depois do lanche, os ladrilhos de marmelada retirados da despensa a horas incertas, a sua alegria e as grandes festas que sabia organizar?

E naquela casa, onde tudo tinha o seu lugar bem definido e imutável, algo mudou irremediavelmente e para sempre.

Março, 1989

Isabel Ramalhete
A Cabeça da Luz
Porto, Campo das Letras, 2001