Frente ao televisor

Frente ao televisor

Manuel, um amigo de Milly e Molly, era viciado em televisão. O Manuel via televisão na sala.

Via televisão na cama.

Via televisão antes da escola, depois da escola, em dias de chuva e, pior ainda, em dias de sol.

Até que, num dia de sol, quando Milly e Molly estavam lá em casa, a mãe gritou:

— Manuel, vai lá para fora fazer exercício!

— Exercício? Como? — disse Manuel, aborrecido.

— Como quiseres. Não quero tornar a ver-te até ao anoitecer.

E dito isto, a mãe do Manuel mandou os três amigos para fora de casa e fechou a porta.

— Já sei o que vamos fazer — disse Milly, pensativa.

— O quê? — resmungou Manuel.

— Vamos construir uma casa na árvore.

— Como? — perguntou o Manuel.

— Eu sei como — disse Molly.

— Imagino — zombou Manuel. — Quero ver!

Milly encontrou a árvore certa. Molly ajudou Manuel a encontrar todas as coisas de que precisavam.

Pegaram em tábuas, martelo, pregos e um pedaço velho de lona.

Milly, Molly e Manuel treparam, levantaram e trabalharam até ser quase de noite.

— Ora vejam só… — disse a mãe de Manuel. — Mas que bela casa na árvore!

Manuel foi direitinho para a cama. Estava demasiado cansado para ver televisão.

Levantou-se e, antes de ir para a escola, voltou à casa da árvore. Não lhe interessava ver televisão.

Ia para a sua casa na árvore depois da escola, nos dias de chuva e nos dias de sol. Não tinha tempo para ver televisão.

Até que, um dia depois da escola, ouviu barulho. Da sua casa na árvore, conseguia ver os rapazes a jogarem à bola no parque.

— Quero ir jogar futebol — disse ele.

— Ora vejam só… — disse a mãe.

E ajudou-o a inscrever-se na equipa.

Quando o Manuel não estava na casa da árvore, estava a jogar futebol. Esquecera a televisão.

Da casa da árvore, Milly e Molly viam Manuel a jogar futebol no parque. Quando ele ganhou o prémio do Melhor Jogador do Torneio, pareceu-lhes ouvir a mãe do Manuel dizer: “Ora vejam só…”

— Quando crescer, vou ser futebolista — disse Manuel.

— E vais aparecer na televisão? — perguntaram Milly e Molly.

— Claro que sim — disse Manuel. — Não vou ver televisão, mas aparecer na televisão.

— Ora vejam só… — disse a mãe do Manuel. — É espantoso o que o exercício físico pode fazer.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

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Em casa dos avós

Hoje estavam todos convidados para ir comer a casa dos avós. Assim que Tomás chegou, Rute abriu a porta

— Mara, os nossos netos de Canã já chegaram — gritou Josha, correndo para a porta.

De início, Daniel e Ester estavam um pouco intimidados quando se viram tão de repente em frente dos avós. Mas o avô, com a longa barba, era exactamente como Daniel e Ester o tinham imaginado. Ele observou-os longamente, meneou a cabeça, pousou-lhes as mãos carinhosamente na cabeça.

— Eu vos abençoo, Ester e Daniel — disse. — Deus seja louvado por me permitir ver-vos e receber-vos em minha casa.

Micha reparou que o avô tinha lágrimas nos olhos, de tão feliz que estava.

A avó tomou os dois netos nos braços sem grandes cerimónias, apertou-os a si e deu a cada um beijo efusivo. Não é de admirar que os dois se sentissem logo em casa.

— Fizeste comida a mais! — exclamou Marta, abraçando Mara. — Tanta comida boa de uma só vez. Nem vamos conseguir comer tudo.

— Espera só — disse Josha a rir, indicando a cada um o lugar à mesa. — Na verdade, cada um devia ocupar à mesa um lugar de honra — disse — mas não temos assim tantos na nossa mesa.

Apontou para Tomás.

— Tu sentas-te com a Marta à minha direita. Recebo Jonatan e Rute mais vezes em casa. Hoje vocês têm de contentar-se com a minha esquerda. O meu filho David está sempre comigo e hoje pode, excepcionalmente, afastar-se um pouco mais para o lado.

— E a avó? — pergunta Micha. — Ela senta-se sempre à tua beira!

— Hoje vai sentar-se à minha frente — disse o avô. — Assim temos os filhos todos à nossa volta.

David trouxe para dentro dois jarros, para que houvesse água que chegasse para todos lavarem as mãos antes de comer. Assim, passaram a água e as toalhas em roda até todos estarem prontos para comer.

Mara começou por colocar na mesa pão de trigo fresco, para celebrar o dia. Rute tinha-o cozido de manhã no pequeno forno, com erva seca, palha e carvão. Só às vezes é que havia pão de trigo. De resto, contentavam-se com simples pão de cevada, como a maioria das pessoas.

De seguida, Mara trouxe uma grande panela com guisado. Entusiasmado, Micha gritou “Ah!” quando descobriu que era carne de carneiro com lentilhas. Além disso, havia outra comida de festa: pombos assados.

Quando todos os pratos estavam em cima da mesa, Josha abençoou tudo o que iam comer:

— Bom Deus, abençoado Deus — disse. — Reuniste-nos aqui hoje e estamos-te agradecidos por isso. Todos os dias nos dás de comer e de beber. Quando comermos, não nos esqueceremos de te agradecer pelas tuas dádivas — Depois ergueu as mãos e estendeu-as sobre a comida.

— Graças a Deus — disse Mara.

— Graças a deus — disseram depois todos em coro.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

Leva o cão a passear – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Leva o cão a passear

Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um acto sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão ?

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Evita roer as unhas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Evita roer as unhas

Evita roer as unhas,
que ficas com dedos feios
e as unhas onde as punhas,
espalhadas pelos passeios ?

Evita roer as unhas
que te podem fazer mal,
andam sujas, carcomidas,
como folhas de um jornal.

Evita roer as unhas
porque não sabem a nada
e as unhas onde as punhas,
numa gaveta fechada?

Evita roer as unhas,
pois não és um roedor,
deixa-as crescer à vontade,
faz-lhes lá esse favor.

Evita roer as unhas
porque não te fica bem;
sem as unhas não te coças
e coçar sabe tão bem.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003