Bruno quer o seu presente de Natal

bruno

É véspera de Natal. A árvore está decorada, a mãe pôs música de Natal e o pai pendurou luzinhas por toda a casa.

— Que bonito! — exclama a mãe.  — O Natal é uma festa linda!

— E há muitos presentes, o que é maravilhoso! — diz o Bruno, entusiasmado.

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Todos os pais são diferentes – Milly e Molly – slideshare descarregável

mil

Era uma manhã de inverno, fria e chuvosa.

Professora Adelaide pediu a todos que tirassem os sapatos molhados e os colocassem junto do aquecedor.

— Vamos, venham aquecer-se — disse ela, esfregando as mãos com força.

Ninguém dera pela falta de Sofia, até que a porta se abriu lentamente. 

Sofia estava toda pingada.

Era difícil perceber se tinha a cara molhada da chuva ou das lágrimas.

— Vem cá, Sofia — disse a professora, com voz suave. — Vamos tirar esse casaco e esses sapatos molhados. — Podes contar o que aconteceu?

— Meu pai fez as malas e saiu de casa — soluçou Sofia.

Professora Adelaide apertou Sofia contra o seu casaco quentinho e disse:

— Vamos falar dos nossos pais. CONTINUAR A LER

Frente ao televisor

Frente ao televisor

Manuel, um amigo de Milly e Molly, era viciado em televisão. O Manuel via televisão na sala.

Via televisão na cama.

Via televisão antes da escola, depois da escola, em dias de chuva e, pior ainda, em dias de sol.

Até que, num dia de sol, quando Milly e Molly estavam lá em casa, a mãe gritou:

— Manuel, vai lá para fora fazer exercício!

— Exercício? Como? — disse Manuel, aborrecido.

— Como quiseres. Não quero tornar a ver-te até ao anoitecer.

E dito isto, a mãe do Manuel mandou os três amigos para fora de casa e fechou a porta.

— Já sei o que vamos fazer — disse Milly, pensativa.

— O quê? — resmungou Manuel.

— Vamos construir uma casa na árvore.

— Como? — perguntou o Manuel.

— Eu sei como — disse Molly.

— Imagino — zombou Manuel. — Quero ver!

Milly encontrou a árvore certa. Molly ajudou Manuel a encontrar todas as coisas de que precisavam.

Pegaram em tábuas, martelo, pregos e um pedaço velho de lona.

Milly, Molly e Manuel treparam, levantaram e trabalharam até ser quase de noite.

— Ora vejam só… — disse a mãe de Manuel. — Mas que bela casa na árvore!

Manuel foi direitinho para a cama. Estava demasiado cansado para ver televisão.

Levantou-se e, antes de ir para a escola, voltou à casa da árvore. Não lhe interessava ver televisão.

Ia para a sua casa na árvore depois da escola, nos dias de chuva e nos dias de sol. Não tinha tempo para ver televisão.

Até que, um dia depois da escola, ouviu barulho. Da sua casa na árvore, conseguia ver os rapazes a jogarem à bola no parque.

— Quero ir jogar futebol — disse ele.

— Ora vejam só… — disse a mãe.

E ajudou-o a inscrever-se na equipa.

Quando o Manuel não estava na casa da árvore, estava a jogar futebol. Esquecera a televisão.

Da casa da árvore, Milly e Molly viam Manuel a jogar futebol no parque. Quando ele ganhou o prémio do Melhor Jogador do Torneio, pareceu-lhes ouvir a mãe do Manuel dizer: “Ora vejam só…”

— Quando crescer, vou ser futebolista — disse Manuel.

— E vais aparecer na televisão? — perguntaram Milly e Molly.

— Claro que sim — disse Manuel. — Não vou ver televisão, mas aparecer na televisão.

— Ora vejam só… — disse a mãe do Manuel. — É espantoso o que o exercício físico pode fazer.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

Anterior: Micha e o mistério da Páscoa – Conversas nocturnas (II)

Em casa dos avós

Hoje estavam todos convidados para ir comer a casa dos avós. Assim que Tomás chegou, Rute abriu a porta

— Mara, os nossos netos de Canã já chegaram — gritou Josha, correndo para a porta.

De início, Daniel e Ester estavam um pouco intimidados quando se viram tão de repente em frente dos avós. Mas o avô, com a longa barba, era exactamente como Daniel e Ester o tinham imaginado. Ele observou-os longamente, meneou a cabeça, pousou-lhes as mãos carinhosamente na cabeça.

— Eu vos abençoo, Ester e Daniel — disse. — Deus seja louvado por me permitir ver-vos e receber-vos em minha casa.

Micha reparou que o avô tinha lágrimas nos olhos, de tão feliz que estava.

A avó tomou os dois netos nos braços sem grandes cerimónias, apertou-os a si e deu a cada um beijo efusivo. Não é de admirar que os dois se sentissem logo em casa.

— Fizeste comida a mais! — exclamou Marta, abraçando Mara. — Tanta comida boa de uma só vez. Nem vamos conseguir comer tudo.

— Espera só — disse Josha a rir, indicando a cada um o lugar à mesa. — Na verdade, cada um devia ocupar à mesa um lugar de honra — disse — mas não temos assim tantos na nossa mesa.

Apontou para Tomás.

— Tu sentas-te com a Marta à minha direita. Recebo Jonatan e Rute mais vezes em casa. Hoje vocês têm de contentar-se com a minha esquerda. O meu filho David está sempre comigo e hoje pode, excepcionalmente, afastar-se um pouco mais para o lado.

— E a avó? — pergunta Micha. — Ela senta-se sempre à tua beira!

— Hoje vai sentar-se à minha frente — disse o avô. — Assim temos os filhos todos à nossa volta.

David trouxe para dentro dois jarros, para que houvesse água que chegasse para todos lavarem as mãos antes de comer. Assim, passaram a água e as toalhas em roda até todos estarem prontos para comer.

Mara começou por colocar na mesa pão de trigo fresco, para celebrar o dia. Rute tinha-o cozido de manhã no pequeno forno, com erva seca, palha e carvão. Só às vezes é que havia pão de trigo. De resto, contentavam-se com simples pão de cevada, como a maioria das pessoas.

De seguida, Mara trouxe uma grande panela com guisado. Entusiasmado, Micha gritou “Ah!” quando descobriu que era carne de carneiro com lentilhas. Além disso, havia outra comida de festa: pombos assados.

Quando todos os pratos estavam em cima da mesa, Josha abençoou tudo o que iam comer:

— Bom Deus, abençoado Deus — disse. — Reuniste-nos aqui hoje e estamos-te agradecidos por isso. Todos os dias nos dás de comer e de beber. Quando comermos, não nos esqueceremos de te agradecer pelas tuas dádivas — Depois ergueu as mãos e estendeu-as sobre a comida.

— Graças a Deus — disse Mara.

— Graças a deus — disseram depois todos em coro.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

Leva o cão a passear – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Leva o cão a passear

Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um acto sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão ?

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Evita roer as unhas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Evita roer as unhas

Evita roer as unhas,
que ficas com dedos feios
e as unhas onde as punhas,
espalhadas pelos passeios ?

Evita roer as unhas
que te podem fazer mal,
andam sujas, carcomidas,
como folhas de um jornal.

Evita roer as unhas
porque não sabem a nada
e as unhas onde as punhas,
numa gaveta fechada?

Evita roer as unhas,
pois não és um roedor,
deixa-as crescer à vontade,
faz-lhes lá esse favor.

Evita roer as unhas
porque não te fica bem;
sem as unhas não te coças
e coçar sabe tão bem.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não vale fazer batota – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não vale fazer batota

Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

A mão a tapar a boca – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

A mão a tapar a boca

Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não se lê à mesa – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não se lê à mesa

Não leves livros para a mesa
na hora da refeição;
por muito que a leitura
te encha de satisfação.

Há outros lugares melhores
e por certo apropriados
para tu leres com prazer
os livros mais indicados.

Ler à mesa é a maneira
de esqueceres quem lá está,
é uma falta de respeito
que nenhum consolo dá.

Se o livro for teu amigo,
lê-o num outro lugar,
não o ponhas de castigo
quando estás a almoçar,
pois bem vistas as coisas
até o podes estragar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Pouco barulho – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Pouco barulho

Numa sessão de cinema,
mesmo num filme de acção,
não fales alto no escuro
aproveitando a confusão.

Os outros têm direitos
que os seus bilhetes lhes dão
e não gostam do ruído
da falta de educação.

Os meninos ruidosos
lá para fora devem ir
só para não prejudicarem
quem se está a divertir.

Se levares o telemóvel,
não te esqueças de o desligar
pois ninguém é obrigado
a tê-lo no escuro a tocar.

E para abuso já basta,
em terra mal-educada,
ver adultos que atendem
como se não fosse nada.

Cessa a tua liberdade
se a dos outros prejudicas;
vê bem como te comportas
nesse lugar em que ficas.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Viver com os outros tem regras – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Viver com os outros tem regras

Na casa em que vives
marca bem o teu lugar
e pensa que o dos outros
nunca deves ocupar.

Tens tarefas para cumprir
e delas deves dar conta;
uma coisa não se faz
só porque a queres ver pronta.

Divide bem as tarefas
que tens com os teus irmãos;
se a divisão estiver certa,
ainda vos sobram mãos.

Sobra tempo para brincar
depois do dever cumprido,
sobra tempo para sonhar
se o tempo for bem gerido.

E não deixes para amanhã
o que hoje podes fazer;
aquilo que agora adias
dar-te-á menos prazer.

Não sejas desarrumado
com roupas e com cadernos;
tarefas que tu desleixas
para outros são infernos.

Não deites pelas janelas
para depois se apanhar
o lixo que tu produzes
e que nem tentas limpar.

Viver com outros tem regras
que agora irás aprender;
se hoje sem querer as negas,
muito mal hás-de crescer.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Bons modos à mesa – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Bons modos à mesa

Em casa ou no restaurante,
numa qualquer refeição,
usa bem os talheres
e não comas com a mão.

E evita a algazarra
que por vezes lá se instala
não sobrepondo o ruído
ao prazer que dá a fala.

E presta bem atenção
a uma coisa elementar:
começa só a comer
quando o mais velho começar.

Há coisas que nos distinguem
do reino dos animais
e uma boa educação
nunca há-de estar a mais.

Deseja bom apetite
a quem te faz companhia,
que essa frase é um convite
para que reine a harmonia.

Ser educado à mesa
não é questão de estatuto;
não se educa com riqueza
a criança ou o adulto.

Cuida bem dos dentes – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Cuida bem dos dentes

Não há saúde que dure
se for má a dentição;
lava os dentes com cuidado,
com paciência e atenção.

Antes de te deitares,
mesmo com o sono a chegar,
pega na escova e na pasta
com que os dentes vais lavar.

Deixa os dentes bem lavados
em todas as direcções
e verás que assim evitas
as cáries e as infecções.

Antes de ires para a escola
o mesmo deves fazer,
não dando tréguas aos males
que os dentes fazem doer.

E no final das refeições,
se os puderes ir lavar,
não adies esses cuidados
que os dentes te hão-de salvar.

Nestas questões o desleixo
tem uma factura elevada
e não há nada mais feio
que uma boca desdentada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Ninguém gosta da lua!

Ninguém gosta da lua!

Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

— Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

— Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

A Lua baixou os olhos tristemente.

— Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

— Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

— Acontece que nem me dizem boa noite!

A Noite aclarou a garganta.

— Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

— Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

E a Lua continuava a choramingar.

— Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

A Noite ouvia atentamente.

— Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

— Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

A Noite prosseguiu:

— É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

— Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.

O pequeno vampiro apaixonado

O pequeno vampiro apaixonado

Numa noite de lua cheia, ao sair para o escuro, como sempre fazia para não ser visto, o pequeno vampiro encontrou uma menina vestida de cor-de-rosa a sair de uma casa. Era noite de Natal. A menina tinha os olhos radiantes de felicidade como todas as crianças naquela noite. Trazia o seu mais belo vestido, cor-de-rosa com folhos, e estava a dançar no passeio. O pequeno vampiro tinha os dentes pontiagudos, a pele macilenta e um rosto triste, e ali ficou, de olhos arregalados, a admirar a alegria dela.

Desde o primeiro momento em que a vira, o pequeno vampiro não parava de suspirar. Era uma dor de alma. Queria voltar a vê-la. Não para lhe fazer mal. Apenas para lhe dar um beijinho no pescoço, um beijinho muito, muito pequenino. Mas o que pode esperar um vampiro negro de uma menina cor-de-rosa?

À noite, aproximava-se da casa de Rosina, assim se chamava ela, tentando voltar a vê-la. Mas só conseguia avistar uma menina a lavar os dentes, uns lindos dentinhos brancos como pérolas de nácar, a pentear-se ou a passar uma luva pela sua linda pele. Ou a dormir sorrindo, na sua cama cor-de-rosa. E o vampiro lembrava-se dos seus dentes compridos, da sua pele macilenta, das mãos recurvadas, e pensava: “Um pouco de cor-de-rosa no meu coração cinzento faria um rosa acinzentado que seria muito bonito.”

E escondia-se dentro da sua caixa escura, que é uma forma de os vampiros exprimirem a sua tristeza. As faces pareciam papel enrugado, os olhos reflectiam a tristeza que lhe ia na alma. Colocou um letreiro na caixa: “Desgosto de amor”.

A mãe dizia-lhe:

— Não te preocupes, meu bichaninho. Isto já sucedeu a outros: o príncipe e a pastora, o guardador de ovelhas e a princesa, o gato e a ratinha. Porque não um vampiro e uma menina?

— Oh! — suspirava ele. Como é triste estar-se apaixonado! Naquela noite, mais valia ter partido uma perna! Mexe com tudo cá dentro e não se pensa noutra coisa! Gostava tanto de estar com ela, de lhe falar, de lhe pegar nas mãozinhas rosadas, de a ouvir rir, de lhe ver o brilho dos olhos…

E ficava encostado às paredes do prédio, à noite, a espreitar pela janela, só para ver uma pontinha do tule rosa, o esboço de um sorriso, um pouco de céu azul.

E o pequeno vampiro sonhava, no seu cantinho de céu escuro. Um dia haviam de casar, ela vestida de branco, a menina cor-de-rosa, com os cabelos cheios de flores. Ele levaria um lindo fato creme, e os seus dentes seriam como pérolas. Mas, quando acordava, a vida era como antes. E dentro da sua caixa, dava largas à tristeza.

Tentou diferentes tácticas. Um dia pintou a cara de cor-de-rosa, outro dia escondeu os dedos em forma de garra numas luvas de pele de cordeiro. Fechou a boca a sete chaves para tapar os dois grandes caninos. Uma outra vez, pôs um nariz de palhaço no rosto macilento, mas ficava com um ar tão triste que até fazia chorar. Outro dia ainda, o pequeno vampiro aproximou-se um pouco mais da janela de Rosina. Foi terrível. Ela estava a ter um sonho mau. Chorava enquanto dormia, e gritava. Ele pensou: “É o momento de eu entrar em cena. De qualquer modo, nunca serei pior do que o pesadelo que está a ter”.

O pequeno vampiro entrou no quarto no preciso momento em que ela ia gritar “Mamã!”. Ao vê-lo, arregalou os olhos.

— O que estás aqui a fazer? — exclamou ela. — Como conseguiste entrar no meu quarto?

— Não tenhas medo — disse o pequeno vampiro a tremer. — Eu não faço mal a ninguém. Sou um vampiro simpático. Estou aqui para te ajudar. Não tires nem o dente de alho nem o crucifixo.

A menina desatou a rir às gargalhadas. Ria-se e de que maneira! Até as lágrimas lhe vieram aos olhos.

— O teu disfarce não serve de nada. Não és nenhum vampiro, és um rapaz!

O pequeno vampiro estava mesmo admirado. Em vez de gritar, ela ria-se e dizia que ele era como os outros!

— Eu conheço-te. Às vezes cruzo-me contigo na rua, ou então foi em sonhos, já te vi nalgum sítio — diz a menina. — Quando dizes que és um vampiro, estás enganado. Os vampiros são feios e tristes. Não têm olhos brilhantes como tu.

O pequeno vampiro sentiu que estava a ficar corado, uma mistura de rosa e cinzento. A menina fez uma careta quando ele lhe disse que tinha a cara cinzenta como papel enrugado, e fê-lo aproximar-se do espelho!

— Tens de te bronzear um bocadinho, meu caro, para ficares mais corado. Deve ser de estares fechado em casa, longe dos outros. Volta amanhã, que vamos brincar no jardim, ao sol.

O rapazinho viu, com grande espanto, a sua imagem no espelho.

Era a primeira vez.

— Julgava que os vampiros não podiam ver-se ao espelho.

— Às vezes — disse a menina — julgamos que somos vampiros, feios e cinzentos, mas é só impressão nossa.

E deu-lhe um beijo no nariz.

No dia seguinte, o rapazinho e a menina brincaram juntos no jardim. O pequeno vampiro adquiriu uma linda cor de pele, olhos brilhantes e cheios de luz. E os dentes, curiosamente, começaram a encolher, a encolher… Pareciam pérolas!

— Vês, eu bem te disse. Vês como tinha razão!

E riram-se juntos.

Assim acaba a história do menino que se julgava um vampiro feio. Ou, talvez, a de um vampiro verdadeiro, que se transformou num rapazinho só porque gostava de uma linda menina rosadinha.

O papá urso foi embora

O papá urso foi embora

Naquela manhã, quando os três ursinhos traquinas acordaram da sua noite castanha, quiseram, como todos os dias, andar às cambalhotas, às cavalgadas e às cabriolas no lombo do papá urso.

Era para todos uma grande brincadeira ouvirem o pai a fingir que ralhava, meio a rosnar, com a sua voz de urso:

— Ai se vos apanho, seus ursinhos traquinas!

Nós, ursos, só temos o fim-de-semana para dormir. E o pai urso fingia que lhes dava um sopapo, um bofetão e uma grande patada. Os ursinhos traquinas fartavam-se de rosnar e rolavam no chão de tanto rir, o que era até uma maneira de massajarem as vértebras.

Mas, naquela manhã, quando os três ursinhos acordaram, encontraram a cama vazia e a mãe já a pé, olhando tristemente pela janela, como na história da princesa dos cabelos de ouro.

Mas aquilo não era nenhum conto de fadas.

— O vosso pai foi embora — disse a mãe ursa fungando.

E foi logo para a cozinha fazer crepes com mel.

— Ai sim? — pensaram os ursinhos. — Deve ter ido buscar o mel e o jornal. E algumas ervas para o almoço. E fazer as compras da semana.

E… esperaram todo o dia… Quando a noite estendeu o seu manto de estrelas, compreenderam que o pai urso não voltaria para casa naquela noite. Teria ido hibernar para outro lado? Para a Sibéria? Para onde o mel é mais aromático? Os ursinhos tinham perdido o ar traquina, à força de tanto fazerem perguntas. Teria encontrado no caminho alguma princesa encantada? É assim que entre os ursos se fala dos pais que se vão embora para seguirem um outro caminho, a Ursa Maior, por exemplo.

— Alguns partem para encontrar um pouco mais de fantasia, outros, para tomar ar durante um ou dois meses. Mas nunca ninguém foi embora por causa de um, de dois ou até de três ursinhos traquinas — respondeu-lhes de imediato a mãe ursa.

Se ela sentia vontade de dizer mal do pai urso, a verdade é que nunca o fez.

— Ele gosta muito de vós, sente imenso a vossa falta, eu sei — disse-lhes, olhando-os com os seus olhos castanhos orlados de vermelho.

Os dias continuavam a passar sem voltarem atrás.

Na toca, a vida já não era como dantes. Já não havia aquela voz grossa a acordá-los de manhã, nem aquelas grandes patas que os levavam à escola pela mão. Um pai, quando falta, faz muita falta. Os pêlos da barba mal cortados, as mãos grandes e quadradas, a voz grossa a ralhar, a barriga do pai urso que mexia quando ele se punha a rir, o cheiro a tabaco, os seus bocejos ruidosos que faziam tremer as paredes da toca, e até as grandes cóleras e as grandes zangas.

Os três ursinhos teriam dado tudo para receberem as boas palmadas do costume. Com as mães, a vida é cheia de doçura, de carinho, mas falta, sem dúvida, um pouco de força e de surpresa. Ninguém se atrevia a dizê-lo, mas era o que toda a gente pensava. Até que chegou uma altura em que se deixou de falar no assunto. Nunca mais se pronunciou a palavra “papá”. Sobretudo, porque bastava pronunciar uma só palavra iniciada por “pa” para que os olhos da mãe ursa começassem a ficar perigosamente vermelhos.

Deixaram então de dizer muitac oisa: “papá”, “papagaio”, “papaia”, “papar”, “paparico”, “paparoca”, mas também a palavra “paradoxo”, “parágrafo” e “passado”. Muitas palavras existiam começadas por “pa”! Na toca, deixou de se pronunciar uma grande parte do dicionário.

De tanto, tanto se esperar, o rosto do pai urso começou a ficar menos nítido aos olhos dos ursinhos traquinas. Nos seus sonhos, ele transformou-se no Peter Pan, no Rei Leão, em muitas outras personagens. O rosto do papá urso que ralhava desvanecia-se pouco a pouco.
Um dia, contudo, após tão longa espera, chegou uma carta à toca dos ursinhos traquinas. Depois daquela aventura, já havia passado muito, muito tempo, tanto, que um outro pai urso tinha ido viver lá para casa, os ursinhos tinham regressado às suas lendárias travessuras e os olhos da mãe ursa nunca mais tinham ficado vermelhos.

— Ursinhos! Venham depressa! Uma carta do vosso pai! — gritou a mãe ursa, que conhecia bem a ligação dos três ursinhos ao pai.

Meus três ursinhos queridos, escrevia o pai urso, sinto muito a vossa falta. Apareço sábado para vos visitar e espero que me perdoem. Só quero ver-vos e fazer-vos papas, papinhas, paparicos e paparocas. Contem comigo sábado de manhã.

Havias de ver a alegria dos três ursinhos traquinas. Porque eles sabiam muito bem que, mesmo que o pai urso não voltasse a viver na toca, o amor entre um pai e os seus ursinhos traquinas dura toda uma vida: toda uma vida de “palavras” a dizer, de “paparocas” a comer e de “passados” a refazer!