Bruno quer o seu presente de Natal

bruno

É véspera de Natal. A árvore está decorada, a mãe pôs música de Natal e o pai pendurou luzinhas por toda a casa.

— Que bonito! — exclama a mãe.  — O Natal é uma festa linda!

— E há muitos presentes, o que é maravilhoso! — diz o Bruno, entusiasmado.

Continuar a ler

Um pequeno anjo

Um pequeno anjo

— NÃO VOU! — disse o pequeno anjo, batendo com o pé no chão.

Os outros anjos ficaram chocados.

— Tens de ir — sussurraram. — O Gabriel disse que todos tínhamos de ir. Disse que tínhamos de brilhar como estrelas no céu e depois ir saudar o bebé. Vão estar todos lá e ele vai ficar zangado se tu faltares.

— Mas ele não tem de saber, pois não? — perguntou o anjinho. — Se eu ficar aqui em cima até tudo estar terminado e vocês nada disserem, ele não vai saber.

— Vai, vai — disserem todos em coro. — O Gabriel sabe tudo. Não te recordas de que ele nos disse que sabia? Sabe sempre quando mentimos. Sabe se deitamos a língua de fora e sabe sempre se dizemos palavras feias. Por isso, vai descobrir que lhe desobedeceste. Anda daí!

Mas o anjinho não queria ir com eles. Então, deixaram-na ficar sozinha no escuro.

— Quero lá saber! — murmurou. — Não quero que todos olhem para mim e me vejam com este halo estúpido e com estas asas estúpidas. E, de qualquer forma, consigo ver tudo daqui de cima.

O anjinho olhou para a cena que se desenrolava a seus pés. Embora não quisesse ir, não queria perder o acontecimento. Viu os pastores com as ovelhas… Viu os três Reis Magos com as suas oferendas de ouro, incenso e mirra…Viu o estalajadeiro e a mulher, a vaca, o cavalo, o burro e os anjos.

Debruçou-se um pouco para conseguir vê-los a todos, a contemplar o bebé minúsculo num silêncio deslumbrado.

De repente, a escuridão desvaneceu-se.

Todos olharam para cima. O pequeno anjo estava banhado em luz, a luz que emanava de baixo.

Mas ela nem se mexeu. Não se podia mexer. Estava petrificada. Quando a sua boquinha começou a tremer, o silêncio foi quebrado por uma salva de palmas que ecoou em todo o auditório da escola.

O pequeno anjo, que brilhava mais do que a estrela mais brilhante, sorriu e todos o imitaram. Especialmente o Sr. Gabriel, o reitor.

Ruth Brown
One Little Angel
London, Andersen Press, 1998

O bolo-rei

O bolo-rei

O bolo-rei tomava-se muito a sério. Não havia discussão: ele era o rei dos bolos.

Como tal, quando lhe caiu uma passa da coroa, ordenou ao bolo-inglês:

— Traz-me essa passa de volta.

O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu:

Sorry! I don’t understand…

O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não tinha entendido.

Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a mesma ordem. Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa.

O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do excesso de natas.

— Flá, plefe, pflu, pfló…

Não se percebia nada.

O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de amêndoa, que lhe respondeu:

— Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me queixo.

O bolo-rei, cada vez mais exasperado, deu a mesma ordem a um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil, muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que quer que fosse.

— São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos cortados às fatias.

E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou.

António torrado
http://www.historiadodia.pt

A noite de Natal

A noite de Natal do pequeno rei

Acorda, pequeno rei!
Estremunhado, o pequeno rei esfrega os olhos e senta-se na cama. Nisto bate com o nariz num lenço atado na ponta de um fio que pende do tecto.
— Ah, o lenço! De que é que não me queria esquecer?
Tu querias abrir a porta, pequeno rei.
O pequeno rei desliza descalço até à porta do quarto.
— Está bem assim? — pergunta, abrindo a porta.
Não, não é uma porta qualquer. É uma especial, a última! Pensa, pequeno rei!
— Já sei! — Corre para a biblioteca e pára em frente de um quadro.
Até que enfim! Estás no local certo.
O pequeno rei abre a última portinha do calendário do Advento, a do número 24. Bate palmas entusiasmado, e já está completamente acordado.
— Oh, que maravilha! Então hoje é Noite de Natal! Será que a árvore já está feita? Vamos lá ver.
Aos saltos de contente, dirige-se à porta da sala e tenta rodar a maçaneta da porta. Está fechada à chave.
O pequeno rei espreita pelo buraco da fechadura.
Nada de espiar, pequeno rei! Esta porta só se abre quando o sino tocar.
— Então ainda tenho de esperar muito tempo! Tempo de mais, até!
O pequeno rei dá meia volta e corre em direcção à porta da entrada.
Ei! Onde é que tu vais? Ainda estás em pijama!
— Está bem, pronto, eu visto-me primeiro.
Após alguns minutos, já está lá fora a esbracejar.
— Estão aqui rastos de trenó! Ah, apanhei-o! Está aqui!
O Pai Natal está aqui, na minha sala!
É possível. De certeza que está a preparar tudo para a Noite de Natal.
— Oh, tenho de ver isso! — exclama o pequeno rei, correndo para a janela. — Talvez consiga ver alguma coisa pelo lado de fora.
Tem paciência, pequeno rei.
— Ora, deixa-me em paz! Eu quero saber tudo, tudinho!
Com cuidado, o pequeno rei põe-se em bicos de pés para chegar ao parapeito exterior da janela. Mais acima! Mais um bocadinho… Zum! A persiana desce.
Aí está! Tem mesmo de ser uma surpresa.
Agora, o pequeno rei sente-se ofendido.
— Assim não, querido Pai Natal! Eu não deixo que me ponham de fora!
Sai dali a correr e desaparece na arrecadação.
Em que é que estás a pensar desta vez? Acalma-te. Até à distribuição dos presentes, o tempo passa depressa.
O pequeno rei não responde. Em vez disso, sai da arrecadação, arrastando pela neve uma escada enorme, que encosta contra o muro do palácio.
Pára com isso imediatamente!
Sobe para o telhado e senta-se diante da chaminé. Também tem uma cana de pesca com ele.
— Agora, vou pescar algumas bolachas de Natal. No meu palácio, eu faço o que quero.
E deixa cair o fio de pesca pela chaminé abaixo. Depois, dá à manivela e volta a puxar.
— Hurra! Uma estrela de canela! humm, destas é que eu gosto. Vamos lá repetir de novo.
O pequeno rei pesca mais bolachas de Natal.
— Oh, uma bolachinha de baunilha! Que maravilha! Que delícia! Este lugarzinho é mesmo um esconderijo calmo e escondido. Um lugarzinho com muitas bolachinhas, ah,ah,ah!
Felicíssimo, o pequeno rei põe-se a dar saltos e a rir.
Isso não tem graça nenhuma, pequeno rei. E não andes assim aos saltos, presta atenção. Cuidado! Oh, não! Escorregou, já não consigo vê-lo!
O pequeno rei escorrega do telhado, cai ruidosamente sobre um monte de neve e, em seguida aterra-lhe em cima neve do telhado. Já não se vê mais nada dele.
Onde estás, pequeno rei? Ainda estás vivo? Responde!
Mas ninguém responde. Em frente do palácio só está um boneco de neve.
Ei, boneco de neve, sabes onde está o pequeno rei?
— Enterrado — responde o boneco de neve. E grita depois: — Ajuda-me, Grete!
Vem aí o cavalo preferido do pequeno rei. Fareja o boneco de neve e empurra-o ligeiramente:
— Hiiii!!
Oh! O pequeno rei está escondido dentro do boneco de neve ! Grete, ele está a bater os dentes! Vai enregelar cá fora na neve.
— E…est… está mm… mui…to fffrio .
Grete agarra o pequeno rei pela ponta das calças e leva-o para o estábulo. Deita o amigo com cuidado na manjedoura e cobre-o com palha.
— Ah, Grete, que amorosa que tu és – suspira satisfeito o pequeno rei.
Olha, vem aí mais alguém. O esquilo Arbustinho trouxe-te uma noz.
— É muito boa.
E o cão Au-Au dá-te o seu osso preferido.
O pequeno rei arregala os olhos.
— Bem, talvez mais tarde, para a sopa.
O gato trouxe-te um cobertor e o Piu Piu vai cantar-te uma canção.
— Que simpático! E é tão natalício!
Muito bonito, até parece um presépio de Natal: palha na manjedoura, o boi e o burro ao lado…
— Como? – o pequeno rei e a Grete fazem uma cara de indignados.
Bem… não: o rei e o cavalo. Ainda tens frio?
— Está melhor. É quentinho e faz coceguinhas boas. É agradável.
Dlim-dlão! Grete e o pequeno rei esticam os pescoços.
O sino de Natal está a chamar para a distribuição das prendas.
Dlim-dlão.
Com um salto, o pequeno rei sai da manjedoura.
— Ah, até que enfim! Agora vai começar.
Com mais calma, pequeno rei.
Corre para o palácio direito à árvore de Natal. Que bonita está! Ainda mais do que no ano passado. Todas as velas ardem, a grinalda reluz, e nos ramos estão penduradas figurinhas de madeira e bolachinhas redondas.
— E aqui estão as prendas.
Há também um prato com bolachas em cima da mesa posta. Hum, que bem que cheira o assado de Natal.
O pequeno rei mete à boca uma bolacha e abre a primeira caixa.
— Estou tão nervoso. O que haverá lá dentro? Oh, um jogo de xadrez novo.
Ei, alguém bate à porta. Ora vê quem está à janela: os teus amigos do estábulo. Eles também estão curiosos.
O pequeno rei abre outra prenda sem prestar atenção ao que lhe dizem.
— Ah, deixa-me em paz, tenho de desembrulhar as prendas.
O que haverá dentro desta caixa? Oh, um lenço com um nó!
— Mas isto não é nenhuma prenda a sério! Será que me tornei a esquecer de alguma coisa?
Com certeza! Afinal querias abrir uma porta! A porta mais importante do Natal. Tu já sabes…
O pequeno rei ri:
— Claro, um rei sabe sempre tudo!
Corre para a porta principal e abre-a. Todos os animais estão na entrada e olham-no com expectativa. Pouco tempo depois, já todos estão sentados a comer debaixo da árvore de Natal.
— Ora prova lá esta bolacha com açúcar!
— Hiiii.
— Miaauuu.
— Claro que podes comer as da árvore!
Todos riem, estão felizes e dividem entre si as bolachas e o assado.
Bom, então um feliz Natal a todos!

Hedwig Munck
Der kleine König: neue Geschichten
 mit der kleinen Prinzessin
Plauen, Junge Welt, 2002
Tradução e adaptação

Eu queria ser Pai Natal

resize-wizard-1.jpg 

 

Eu queria ser Pai Natal
e ter um carro com renas
para pousar nos telhados
mesmo ao pé das antenas.


Descia com o meu saco
ao longo da chaminé,
carregado de brinquedos
e roupas, pé ante pé.


Em cada casa trocava
um sonho por um presente.
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente.

Luísa Ducla Soares
Poemas da Mentira e da Verdade
Lisboa, Livros Horizonte, 1999

 

 

De: Preparando o Natal

Um Natal muito especial

Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio.

Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite.

— O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita.

— Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas.

— Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita.

— E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela.

A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura.

Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuraram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca.

— É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore!

Mas a boneca já tinha dono.

— Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha!

— Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.

O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças, junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado.

Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta.

— Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita.

Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou…

Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.

— Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal.

Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo.

Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.

— É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante!

Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.

— Essas cerejas são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio.

— Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo.

A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma cereja e a levasse com ela.

O sol começava a pôr-se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa clareira, encontraram uma árvore verde muito grande.

— A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita.

E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a cereja.

— Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi.

Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.

A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes.

— Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa.

Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direcção à floresta.

Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa.

Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes.

— Oh, vejam aquilo! — exclamou.

Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão.

— A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz.

E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

Christine Leeson
Um Natal muito especial
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2006

O Espírito do Natal

O Espírito do Natal

Estava o Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que prontamente obteve dele esta resposta:
— Comigo não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e a sua bazófia de novo-rico.
— Então se não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem idoso e magro tossir convulsivamente.
— Estou aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse — para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no Natal.
— Com que então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande construtor civil com interesses de norte a sul do País — temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma dessas organizações internacionais que nós pagamos com o nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.
— Está muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu o homem pobre, idoso e magro.
— Bem, se quer mesmo saber, eu digo-lhe. Quem tem posses como eu pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz, a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão receber os presentes. Quem é pobre como você fica a assistir. Percebeu a diferença?
O homem magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeu-lhe com uma nova pergunta:
— Então e o espírito do Natal?
— O que vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de curiosidade, o Senhor Teotónio.
— O espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está muito para além dos presentes que damos. Para muitas pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma carícia ou um telefonema quando se está só.
— Era só o que me faltava agora — desabafou, enfastiado, o Senhor Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo, para aqui a debitar sentenças.
O homem magro e idoso afastou-se do carro, mostrando que não queria esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada pelo Senhor Teotónio, e encaminhou-se para um grupo de crianças que o esperavam.
Quando o Senhor Teotónio passou por eles no carro, ouviu uma voz de criança a dizer:
— Vamos, Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.
Dizendo isto, o grupo ergueu-se no ar a esvoaçar com destino incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no céu cinzento de Dezembro.

José Jorge Letria
A Árvore das Histórias de Natal
Porto, Ambar, 2006
adaptado