Micha e o mistério da Páscoa – Um novo dia (V)

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Um novo dia

Quando Micha acordou na manhã seguinte, já era dia claro. Esfregou os olhos e sentou-se na cama. Rebeca e Ariel há muito que estavam acordados, Miriam e Ester também. Só Daniel, ao lado dele, dormia profundamente. A pouco e pouco, Micha lembrou-se do dia anterior e da noite.

Acordou por completo quando se lembrou do que acontecera a Jesus. Agora estava a lembrar-se novamente das muitas pessoas que tinham estado em casa deles, das suas preocupações e medos. E não pôde deixar de pensar em João, que tinha voltado a fugir durante a noite. Em nada lhe parecera o alegre João que ainda ontem de manhã tinha sido. Micha fechou os olhos outra vez. Agora iria voltar a acordar e tudo não passaria de um pesadelo. No entanto, quando reabriu os olhos, nada mudara. Não era sonho. Tinha de facto vivido aquela noite má!

Daniel, ao seu lado, sentou-se na cama, muito calado. De repente, tapou as mãos com a cara e começou a chorar. Marta e Rute foram ter com eles ao quarto. Marta apertou Daniel com força contra si e baloiçava-se de um lado para o outro. Micha também se apertava contra a mãe.

— Eles têm de libertar Jesus — dizia Rute, tentando que a voz soasse confiante e esperançosa. — Ele não fez nada de mal.

— Só disse e fez o que Deus quis que fizesse — acrescentou Marta. — Jesus curou doentes, deu de comer a quem tinha fome e falou aos homens sobre o grande amor de Deus.

— Não, não podem julgá-lo e matá-lo — disse Micha com determinação.

— Não digas coisas tão horríveis — repreendeu-o a mãe.

— Mas ele próprio disse que tinha de morrer — respondeu Micha em voz baixa.

Quando de se levantaram e Rute lhes serviu pão, mel e leite, repararam que todos os outros já lá não estavam. Só Miriam com a mãe, Madalena.

— Todos têm amigos e familiares na cidade — explicou Rute. — Nos próximos dias vão ficar albergados em casa deles. Já foram embora de manhã cedo.

— E a mãe convidou Miriam e a mãe, Madalena, a ficarem em nossa casa! — exclamou Ester. Viraram-se todos para ela e viram o quanto se alegrava com aquilo.

— Quando o Daniel estiver pronto, também temos de ir em embora — disse Tomás, que se sentou à mesa com Jonatan. Tinham estado a falar um com o outro em voz baixa e só agora repararam que os dois rapazes tinham entrado.

— Não! — exclamaram Micha e Daniel ao mesmo tempo.

— Não pode ser — disse Micha. E Daniel fez coro: — Eu quero ficar aqui.

— Os vossos avós vão ficar zangados se os netos não quiserem morar com eles!

Marta estava mesmo descontente.

— Estão a contar que vamos agora todos morar em casa deles — confirmou Tomás.

— Os teus pais têm razão — disse Jonatan a Daniel.

— Vocês podem visitar-se um ao outro todos os dias — disse Rute.

— Os avós têm mais netos — exclamou Micha de repente e riu-se da sua própria ideia. — Talvez fiquem ainda mais contentes se agora dormirem três netos em casa deles.

— E nós precisamos de muito pouco espaço — acrescentou Daniel. — Apertamo-nos todos uns contra os outros.

Rute riu-se

— Vai e pergunta se também podes dormir em casa deles — disse a Micha, fazendo-lhe uma festa na cabeça. — Hoje estamos todos convidados a ir comer outra vez a casa deles. Depois perguntamos aos avós.

Virou-se para Miriam e para a mãe:

— Venham também!

Será que o avô ainda estava zangado com o tio Tomás? Micha não gostava nada de se lembrar da discussão. Será que o tio David ia voltar a pegar-se com o pai? Era bom que Miriam e a mãe também fossem. Se houvesse desconhecidos à mesa, de certeza que não iriam começar a discutir.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – O último caminho (VI)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

Micha e o mistério da Páscoa – Conversas nocturnas (II)

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Conversas nocturnas

Já era tarde. No pequeno quarto, as esteiras tinham sido arrastadas de forma a haver lugar para as crianças todas. Pouco depois, aconchegavam-se umas às outras e sentiam prazer em adormecer tão quentinhas e em segurança. Claro que primeiro cochicharam umas com as outras a dizer disparates, guincharam e riram até Rute impor silêncio com uma palavra enérgica. Só Micha e Daniel segredavam ainda um com o outro. Micha queria saber muito mais sobre o que Daniel tinha vivido nos últimos três meses com Jesus. E Daniel contava com agrado.

Os rapazes assustaram-se quando voltaram a bater à porta de casa. Jonatan tornou a ir à porta e abriu após ligeira hesitação.

Os rapazes só ouviam segredar. Não puderam perceber nada mas, mesmo assim, Micha reconheceu algumas vozes.

— São vizinhos e amigos dos meus pais — segredou ao ouvido de Daniel.

Estavam deitados lado a lado de olhos fechados, com a respiração suspensa, a escutar a conversa dos adultos que se tinham sentado à volta da mesa.

— Ouves? Também estão a falar de Jesus — disse Daniel em voz baixa.

— Chiu! — Micha tinha medo que os outros pudessem acordar. — Estão a dizer que amanhã de manhã, Jesus vai entrar pela porta da cidade como um rei.

Daniel acenou com a cabeça.

E, aos poucos, foram ficando a saber que muita gente estava contente com o que ia acontecer no dia seguinte, mas outros, e esses eram os poderosos de Jerusalém, os altos sacerdotes e todos os que tinham poder, não estavam nada de acordo. Viam nele um instigador da desordem e queriam ver-se livres dele o mais rápido possível.

— O imperador fez da nossa terra uma parte do império romano — disse alguém. — Pilatos vai prendê-lo imediatamente, quando souber que as pessoas exaltam Jesus.

— Quem é? — perguntou Daniel em voz baixa.

— O nosso vizinho Macabeus — respondeu Micha.

— Não, Pilatos. Quem é Pilatos?

— O governador do imperador romano. O representante dele em Jerusalém.

— Nós já tínhamos os nossos reis em Jerusalém — dizia agora alguém na sala ao lado. — Muitos. Mesmo que não tenham muito a dizer e tenham de obedecer aos romanos.

— Isso é o que o meu pai está sempre a dizer — murmurou Micha.

— E os altos sacerdotes do templo — disse agora uma mulher.

— E os rabinos que ensinam a lei de Deus e cuidam para que não seja infringida — acrescentou a mãe de Micha. — Eles são os piores.

— Nem tudo são leis de Deus

— Marta, como podes pensar assim? — Micha sentiu censura na voz da mãe.

— É Jesus que diz.

— É outra vez a minha mãe — sussurra Daniel com orgulho.

— Jesus assim diz — volta ela a repetir energicamente. — Ele di-lo em nome de Deus.

— Como é que sabes? — perguntam várias vozes ao mesmo tempo em confusão.

— Eu estava lá — respondeu Marta.

— Eu também — Daniel deu um toque ao primo.

A voz da mulher na sala ao lado, soava clara e distinta. E os dois rapazes escutavam-na com a mesma atenção que os outros homens e mulheres.

— Eu estava lá — dizia — quando ele curou doentes. De repente, os paralíticos puderam andar. Os mudos voltaram a falar. Os cegos voltaram a ver. Eu estava lá quando ele, em Nain, acordou um rapaz da morte. As pessoas abraçaram-no de tão felizes que estavam, mas Jesus repetia: “Não me agradeçais a mim, mas a Deus. Ele enviou-me para vós.” — Marta calou-se um momento, depois prosseguiu. — Jesus perdoa os pecados aos homens. Isso é o mais importante.

— Não! — respondeu tão alto o pai de Micha, que ele sentiu a sua indignação. — Perdoar os pecados. Só um pode fazer isso, e esse alguém é Deus.

— Isso é o que dizem os altos dignitários e os Doutores da Lei — disse Daniel a Micha, esquecendo-se de falar baixo. — Eles afirmam que ele blasfema contra Deus, por isso é que preferem matá-lo.

Num ápice, as mães estavam ao lado deles com lamparinas.

— Vocês já deviam estar a dormir há muito — disse Rute em voz baixa.

— Não acordeis os pequenos — acrescentou Marta.

— Boa noite — respondeu Micha tão baixinho, que mal se ouviu.

— Boa noite — disse Daniel também baixinho.

— Durmam bem — disseram as duas mulheres ao sair.

Mas Micha esteve acordado ainda muito tempo, enquanto o primo, ao lado dele, já dormia profundamente. Aquilo que ouvira hoje não lhe saía da cabeça.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

Micha e o mistério da Páscoa – Visita tardia (I)

Visita tardia

Rute estava a pôr a mesa para o jantar e tinha mandado Micha à cozinha buscar o pão quando bateram à porta de casa, pesada, de madeira. O rapazinho parou por instantes e ia a correr para a porta. Mas um sonoro “Alto!” do pai deteve-o.

— Quando já tiver escurecido lá fora, é melhor ser eu a abrir a porta — diz o pai, levantando-se da mesa. Pegou na lamparina de óleo e seguiu sem pressa pelo vestíbulo estreito até à porta.

— Sabe-se lá quem é que anda pelas ruas, tão perto da festa da Páscoa — diz a mãe observando o marido, Jonatan, correr para o lado uma tabuinha da porta e olhar para fora através de uma fresta estreita.

— Não abras — sussurrou-lhe, pondo-se atrás dele. — Quem quiser alguma coisa de nós também pode vir cá amanhã. De manhã, com luz.

Rebeca e Ariel, os irmãos mais novos de Micha, não se tinham levantado da mesa. Observavam o pai, espantados.

Jonatan voltou a correr a tabuinha e preparou-se para correr o trinco pesado.

— Jonatan — disse Rute a medo, agarrando-lhe no braço. Mas Jonatan virou-se ligeiramente para trás com um sorriso comprometedor e fez-lhes um aceno de cabeça para acalmá-los a todos.

— Não acredito, são vocês! — disse para fora ao abrir a porta para deixar entrar uma mulher e duas crianças. — Mas só estavam a pensar chegar amanhã ou depois. O que vos fez vir ainda hoje a Jerusalém e a uma hora tão tardia?

— Queríamos sem falta estar em vossa casa para a festa da Páscoa — respondeu a mulher. — Os outros ainda montaram o acampamento às portas da cidade mas nós queríamos, sem falta, vir ter com vocês ainda hoje.

— Marta! — exclamou Rute, correndo com passos largos para a mulher e abraçou-a.

De seguida cumprimentou as duas crianças que se encostavam à senhora, um pouco amedrontados e tímidos.

— Tu deves ser a Ester, de certeza — disse Rute numa voz calorosa. — E tu deves ser o Daniel. — E quando os dois abanaram a cabeça em sinal afirmativo, perguntou a rir:

— Então, de certeza que sabem quem eu sou.

— A tia Rute — disseram Ester e Daniel em coro.

— Vocês chegaram mesmo a tempo do jantar! — Rute empurrou-os para a mesa onde ainda havia espaço suficiente.

Entretanto, Jonatan tinha fechado e trancado a porta e juntava-se a eles.

— Micha, Rebeca.

Os filhos sabiam exactamente o que o pai queria dizer ao olhar para eles e apontando para as visitas. Saíram e trouxeram duas bacias de água, que colocaram frente das crianças.

— Temos sempre muito tempo — disse Rute. Baixou-se em frente de Daniel e Ester e tirou-lhes as sandálias dos pés. As crianças meteram-nos imediatamente na bacia.

Micha observava furtivamente como a mulher tirava agora as sandálias e lavava o pó dos pés. Era mesmo muito parecida com a mãe.

— Os teus filhos também já estão grandes, Rute — dizia ela naquele momento. E quando Rebeca lhe deu um pano para se limpar, fez-lhe uma festa no cabelo.

— Ainda não tinhas nascido quando fui para Canã — disse em voz baixa. — E o Micha tinha feito dois anos. — Sorriu-lhe com os olhos pretos e Micha viu que ela era lindíssima. — De certeza que já não te lembras de mim.

Então ela era a tia Marta, a irmã da mãe, de quem ela tanto lhes tinha falado. A tia Marta tinha-se mudado para Canã há muitos anos com Tomás, o marido. Tomás viera na altura a Jerusalém para a festa de Passah. Marta e ele tinham-se conhecido e apaixonado um pelo outro imediatamente. Mas depois da festa da Páscoa, ele teve de regressar a Canã, onde moravam os pais e onde tinha o seu trabalho. Mas, passado meio ano, estava de volta e falou com os pais de Marta e o pai consentiu que casasse com ela. Desde o casamento que Marta e Tomás viviam em Canã. Os avós de Micha tinham viajado até Canã para o casamento, mas geralmente moravam com o tio David, apenas algumas ruas afastados da família de Micha.

Desde aquela altura que as irmãs nunca mais se tinham visto. O caminho para Jerusalém era longe e Rute também não tinha saído de Jerusalém. Entretanto, Micha já tinha dez anos e Rebeca oito.

— Tu deves ser um pouco mais nova do que a Ester — disse a tia Marta. — Ela vai fazer nove para a semana.

— Eu já tenho oito há muito tempo — responde Rebeca, com orgulho. — No mínimo, há duas semanas. — Olhou admirada em volta quando todos se riram. Tinha a certeza de que não tinha dito nada engraçado.

— E o Daniel tem a mesma idade que eu — exclamou Ester, agradecendo com a cabeça quando a mãe deitou verdura no prato.

— Isso não é possível! — disse Rebeca abruptamente.

— É — respondeu Daniel. Era a primeira vez que ele dizia alguma coisa. — Claro que é. Nós somos gémeos.

Agora riram-se todos porque Rebeca estava boquiaberta.

— Tenho ainda uma pequena surpresa para todos — a mãe entrava com uma terrina que colocou no centro da mesa. Assim que levantou a tampa, Daniel exclamou, felicíssimo:

— Peixe!

— Peixe é a comida preferida dele — explicou Marta.

Apressaram-se a repartir o peixe, pois só sabia bem quando comido ainda quente. Todos se serviram e chegou para todos.

— Onde é que deixaram o vosso pai? — perguntou Jonatan depois de comer. — De certeza que não fizeram sozinhos o longo caminho de Canã até Jerusalém!

— Quando é que partiram? — perguntou Rebeca entretanto. — Quanto tempo estiveram a caminho?

— Eles montaram um acampamento aqui pertinho, entre duas aldeias — contou Marta. — O Tomás também lá está.

— Onde? — perguntou Rute.

— Entre Betfagé e Betânia — Marta sorriu. — Mas eu não consegui esperar mais. Queria, sem falta, voltar a ver a minha irmã.

Rute passou imediatamente o braço à volta dela.

— Conheço Betânia — disse Jonatan. — Já lá estive. Mas porque é que Tomás não veio contigo? Já que está tão perto de nós não precisa de ficar a dormir num acampamento. Temos espaço que chegue.

— Queria ficar com o Mestre — respondeu Marta em voz baixa. — E também queriam ainda arranjar um burro para o Mestre. O Tomás vem amanhã, com toda a certeza.

— Já vimos a caminho há muito tempo — informou então Daniel.

Marta confirmou com um aceno de cabeça. — Há mais de três meses.

— Três meses? — Micha não queria acreditar. — É preciso assim tanto tempo para vir de Canã a Jerusalém?

— Nós vimos a seguir Jesus — respondeu Ester em voz baixa. — Ele tinha de parar em todo o lado, porque havia muita gente que lhe queria falar! Foi por isso que demorou tanto tempo.

— Receberam a minha mensagem, não? — perguntava agora Marta.

Jonatan disse que sim com a cabeça.

— Claro. Também avisámos logo os teus pais. Estão à vossa espera amanhã e estão muito contentes por irem ver-vos a todos.

Jonatan olhou pensativamente para Marta.

— Vocês têm andado com esse Jesus de Nazaré? — perguntou, um tanto incrédulo. Quando as crianças acenaram com a cabeça em sinal afirmativo, disse:

— Ouvi falar dele.

— Quem é? — perguntou Micha imediatamente. — Que tipo de pessoa é?

— Jesus é Jesus — respondeu Daniel em poucas palavras.

— E vocês já andam com ele há mais de três meses? — Rute abanava a cabeça, admirada. — E o teu homem deixou simplesmente o trabalho?

A irmã abanou a cabeça. — Não só o Tomás. Outros também.

— E a vossa casa? As galinhas e os gansos? Abandonou tudo, assim sem mais?

— Eu também, Rute.

— Nós os quatro — confirmou Ester e Daniel. — Agora são o avô e a avó que têm de tomar conta de tudo lá em casa.

— José, o irmão de Tomás, prometeu cuidar de tudo — acrescentou Marta. — Também queria ter vindo mas acabou por ficar em Canã.

— Ao menos alguém tem de manter a cabeça no lugar — resmungou Jonatan. — Mas eu não entendo nada disso.

E abanava a cabeça de um lado para o outro, duvidoso.

— Isso não pode ser assim tão simples, sem consequências. Não pode chegar uma pessoa, sem mais, e vocês largarem tudo e segui-lo. Tu, o teu marido e as crianças.

— Bem vês que foi exactamente assim — respondeu simplesmente a cunhada.

— E de que é que viveram durante esse tempo todo? Têm economias? Já gastaram tudo?

— Por favor, Jonatan — Rute fê-lo calar imediatamente. — Isso agora não é nada da tua conta!

— Juntámos todos o dinheiro, os que andam com Jesus — Marta disse aquilo de forma tão natural como se não houvesse nenhuma dificuldade ou dúvidas. — E chegou sempre para todos.

— Quantos é que foram? — perguntou Jonatan.

— Às vezes vinte, às vezes trinta ou mais. Homens, mulheres e crianças — contou ela. — Judas gere o dinheiro e ele consegue fazer com que tenhamos sempre o suficiente para comer e beber.

— E quando o dinheiro se esgotou? — Jonatan não desistia.

— Então foi Jesus que nos sustentou — Daniel respondeu à pergunta.

— Ah, Jesus… Mas como? Tinha mais dinheiro em caixa?

— Não — desta vez foi Ester que respondeu a rir. Ela ficava admirada como é que os adultos, por vezes, podem fazer perguntas tão parvas. — Ele disse uma oração. Depois repartimos o pão e chegou para todos.

— E primeiro eram só cinco pães — acrescentou Daniel. — Eu vi muito bem.

— Cinco pães e dois peixes — disse Ester.

— E no fim ficaram todos sem fome? — pergunta Rebeca assombrada.

— Eram muitas pessoas a comer — continuou Marta a contar. — Diz-se que mais de cinco mil.

— E todos satisfeitos? — Micha não podia acreditar.

— Sim, todos — disse a tia Marta — Bem, ele é o Messias!

— O Messias? — perguntou Rebeca hesitante.

— O Salvador — a tia Marta abanou a cabeça. — Messias é como muitos o tratam.

Há muito tempo que esperamos este salvador. Já nos livros antigos lhe é feito referência.

— O Messias é uma pessoa que é ungida — Ester tenta explicar à prima. — Quando uma pessoa se torna rei, é ungida com óleo precioso sagrado.

— Jesus é esse salvador? — pergunta Micha. — Deus ungiu-o a rei?

— Sim — respondeu Marta.

— Mas ele não quer que o tratemos assim — objectou Daniel.

— Então como é que o tratam? — quis saber Rebeca.

— Os adultos tratam-no por Mestre ou Senhor — respondeu Daniel.

Rute voltou-se para o marido: — Já sabias deste Messias? — perguntou.

— Pouco — disse Jonatan em voz baixa.

— Porque é que nunca falaste dele?

— Não levei tudo isto muito a sério.

— Amanhã ele vem a Jerusalém! — exclamou Ester. — Os amigos vão arranjar-lhe um burro ainda hoje.

— Vai entrar pela porta de Jerusalém montado num burro — os olhos de Daniel brilhavam. — Vai entrar pela porta como um verdadeiro rei.

— Se calhar nem vai haver muita gente a reparar nele — Marta esfriava-lhe o entusiasmo. — Vai ser discreto como sempre. Ninguém vai pensar que aquele homem tão simples é um rei.

Ester olhou para a mãe, admirada.

— Mas os amigos dele aqui em Jerusalém de certeza que vão recebê-lo com júbilo.

Marta fez-lhe uma festa na cara e disse a Jonatan:

— Jesus queria reunir-se à noite com os amigos em Jerusalém e festejar a Páscoa — pensou um pouco. — Não há ali no cimo da cidade aquela sala bonita?

Jonatan fez de conta que não sabia do que ela estava a falar.

— Claro que sabes qual é — Rute deu-lhe um toque.

— Ah, essa sala! — acabou por dizer Jonatan.

— Podias tratar das coisas para que amanhã pudéssemos tê-la?

— Hmm — foi a resposta de Jonatan. Não era um sim, mas também não era um não.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – Conversas nocturnas (II)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

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Em casa dos avós

Hoje estavam todos convidados para ir comer a casa dos avós. Assim que Tomás chegou, Rute abriu a porta

— Mara, os nossos netos de Canã já chegaram — gritou Josha, correndo para a porta.

De início, Daniel e Ester estavam um pouco intimidados quando se viram tão de repente em frente dos avós. Mas o avô, com a longa barba, era exactamente como Daniel e Ester o tinham imaginado. Ele observou-os longamente, meneou a cabeça, pousou-lhes as mãos carinhosamente na cabeça.

— Eu vos abençoo, Ester e Daniel — disse. — Deus seja louvado por me permitir ver-vos e receber-vos em minha casa.

Micha reparou que o avô tinha lágrimas nos olhos, de tão feliz que estava.

A avó tomou os dois netos nos braços sem grandes cerimónias, apertou-os a si e deu a cada um beijo efusivo. Não é de admirar que os dois se sentissem logo em casa.

— Fizeste comida a mais! — exclamou Marta, abraçando Mara. — Tanta comida boa de uma só vez. Nem vamos conseguir comer tudo.

— Espera só — disse Josha a rir, indicando a cada um o lugar à mesa. — Na verdade, cada um devia ocupar à mesa um lugar de honra — disse — mas não temos assim tantos na nossa mesa.

Apontou para Tomás.

— Tu sentas-te com a Marta à minha direita. Recebo Jonatan e Rute mais vezes em casa. Hoje vocês têm de contentar-se com a minha esquerda. O meu filho David está sempre comigo e hoje pode, excepcionalmente, afastar-se um pouco mais para o lado.

— E a avó? — pergunta Micha. — Ela senta-se sempre à tua beira!

— Hoje vai sentar-se à minha frente — disse o avô. — Assim temos os filhos todos à nossa volta.

David trouxe para dentro dois jarros, para que houvesse água que chegasse para todos lavarem as mãos antes de comer. Assim, passaram a água e as toalhas em roda até todos estarem prontos para comer.

Mara começou por colocar na mesa pão de trigo fresco, para celebrar o dia. Rute tinha-o cozido de manhã no pequeno forno, com erva seca, palha e carvão. Só às vezes é que havia pão de trigo. De resto, contentavam-se com simples pão de cevada, como a maioria das pessoas.

De seguida, Mara trouxe uma grande panela com guisado. Entusiasmado, Micha gritou “Ah!” quando descobriu que era carne de carneiro com lentilhas. Além disso, havia outra comida de festa: pombos assados.

Quando todos os pratos estavam em cima da mesa, Josha abençoou tudo o que iam comer:

— Bom Deus, abençoado Deus — disse. — Reuniste-nos aqui hoje e estamos-te agradecidos por isso. Todos os dias nos dás de comer e de beber. Quando comermos, não nos esqueceremos de te agradecer pelas tuas dádivas — Depois ergueu as mãos e estendeu-as sobre a comida.

— Graças a Deus — disse Mara.

— Graças a deus — disseram depois todos em coro.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

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A favor ou contra Jesus?

Durante a refeição, pouco se falou. Mas Micha sentia claramente que aquela calma era aparente. Era como a atmosfera antes de uma tempestade.

Quando as mulheres levantaram a mesa, o silêncio era quase insuportável. Josha olhava em volta, calado, olhava um após outro e finalmente dirigiu-se a Tomás, o genro.

— Estamos muito contentes por ter-vos finalmente connosco — disse ponderadamente. — A ti, à Marta e aos vossos dois filhos.

E pigarreou.

— Ouvi dizer que vocês, em Canã partiram precipitadamente e abandonaram tudo.

— O meu irmão e os meus pais estão a tomar conta das nossas coisas — respondeu Tomás calmamente.

— Vocês vieram mesmo com esse filho de um carpinteiro de Nazaré? — continuou Josha.

— Sim, com Jesus — respondeu Marta.

Agora era David que não conseguia manter-se calmo mais tempo.

— Esse Jesus é um falso profeta, Tomás! — exclamou, inclinando-se para a frente. — Ele blasfema contra Deus!

— Foi Deus quem no-Lo enviou. Só faz o que Deus lhe manda — respondeu Tomás.

Josha interrompeu-o com uma voz cortante.

— E Deus pede-lhe que entre em Jerusalém como um rei? Como se fosse o Messias de quem estamos à espera há anos?

— Ele é o Messias.

— Quem é que disse isso? — Josha levantou-se agitado.

— Ele próprio — respondeu agora Marta.

— Ele blasfema contra Deus.

O velho deixou-se cair pesadamente no lugar. Respirava furioso.

— O Messias há-de salvar-nos e libertar-nos. É o próprio Deus que no-Lo vai enviar. Não acreditas no que dizem as nossas antigas escrituras, Marta?

— Eu acredito e confio em Jesus — respondeu Marta, olhando o pai firmemente nos olhos.

— Eu também — diz Daniel.

— Ele blasfema contra Deus, quebra as leis! É um falso profeta! — diz Josha em tom de lamento, enterrando a cabeça nas mãos.

— Ele é o rei do céu e da terra — diz Tomás em voz alta. — Veio a Jerusalém para a festa da Páscoa e vamos todos ver como ele se apresenta como rei e Messias.

— Ele vai atirar-nos a todos para a perdição! — disse Josha, levantando-se. — Deixa-me — disse ele, rejeitando Marta, que queria segurá-lo.

— Pai!

— Deixa-o ir — disse Mara calmamente, detendo Marta. Josha já tinha deixado a sala. — Quer estar sozinho. Vai reflectir naquilo que vós lhe dissestes.

— O que é que Jesus quer provar-nos, aqui em Jerusalém? — pergunta Jonatan.

— Ele também disse que tem de morrer — Micha ouviu claramente a voz da tia a tremer.

— A minha irmã tinha de se deixar enganar por um falso profeta — exclamou David, batendo com o punho na mesa.

— Meninos — a voz amedrontada de Mara soou no meio deles. — Hoje não vamos discutir por isso. Hoje, que estamos todos juntos em casa, após tanto tempo.

E começou a chorar. Rute abraçou-a.

— Como é que ele quer provar que é o profeta? — pensou Rute em voz alta.

— Devia-se obrigá-lo a isso — observou Jonatan. — Pelo menos foi o que disse um dos discípulos que eu encontrei há pouco.

— Quem é que encontraste? — perguntou Tomás.

— Ele ia contigo esta manhã atrás de Jesus. Acho que se chama Judas.

— Também o conheço — Rute olhou para a irmã. — Não era aquele com a caixa do dinheiro, que encontrámos esta manhã?

Marta acenou com a cabeça. Depois pôs-se em pé com um salto.

— Oh! Eu tinha prometido ajudar. Temos de preparar a refeição para a festa desta noite!

Tinha chegado o momento certo para as crianças.

— Levas-nos contigo? — pediram. Após uma curta hesitação, Marta consentiu.

— Também vou — gritou Jonatan. — As mesas têm de ser armadas e de certeza que ainda há muito para fazer. Toda a ajuda vai ser precisa e duas mãos de homem, de certeza absoluta — e fez um sinal com a cabeça à mulher. — Eu trago os três quando vier para casa. Vá, vamos.

O pai de Micha dirigia-se para a porta.

Nesse momento, David levantou-se e agarrou Jonatan com força pelo braço.

— Queres mesmo ir, Jonatan? — perguntou-lhe. — Agora também andas a correr atrás desse falso profeta? Também já te convenceu a isso? Até ontem tinhas estado do nosso lado, vociferaste em voz alta contra todos os que quebram as leis e deste razão aos nossos doutores de leis e aos altos sacerdotes.

O tio David falava cada vez mais alto.

Jonatan libertou-se da sua mão, aborrecido. De um momento para o outro ficou vermelho de fúria.

— Quero ser eu mesmo a fazer uma ideia desse Jesus — disse — e isso só é possível se o conhecer de mais perto e souber mais coisas sobre ele. Talvez seja um falso profeta mas, se calhar, é mesmo o Messias. Eu quero descobrir por mim.

Micha ficou parado ao lado do pai, assustado. Nunca tinha visto o pai e o tio David discutirem. Gostava tanto do pai! E como adorava o tio! E ainda por cima tinham começado a discutir por causa de Jesus. Pegou na mão do pai e quis puxá-lo dali para fora.

— Papá — queixou-se, assustado.

David viu então como Micha estava infeliz.

— O teu pai tem razão — disse ele, e a voz soava tão afável como sempre — Observai esse Jesus com mais atenção. E depois voltamos a falar.

— Tudo bem — disse Jonatan, tentando fazer de conta que não tinha acontecido nada. — Então até logo! — e saiu depressa atrás dos outros, levando Micha pela mão.

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Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
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Micha e o mistério da Páscoa – O último caminho (VI)

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O último caminho

Neste ano, tinha havido novamente muita afluência a Jerusalém para a Páscoa. Todos os anos era festejada para recordar a saída da “prisão” no Egipto e para agradecerem a Deus uma vez mais. Para muitos, aquela era uma boa oportunidade para visitar pais e familiares, por isso, naquela altura, havia muito mais gente na capital do que de costume.

Antes da grande festa começar, eram crucificados três condenados à morte. Já tinham sido levados dois criminosos para o local da sentença. Agora levavam Jesus, nas suas roupas esfarrapadas, pelas ruas da cidade até ao local. Ele arrastava-se com imensa dificuldade. Tinha de carregar a cruz onde ia morrer.

As ruas estavam orladas de pessoas. Havia algumas que insultavam e injuriavam Jesus. Outros, faziam troça dele. Mas também as havia que choravam. Tinham vindo para se despedir de Jesus. Estavam timidamente mais atrás, e só queriam que ninguém reparasse nelas. Homens, mulheres e crianças com olhos de choro, olhavam para o homem que já mal podia andar. A pesada cruz de madeira que levava às costas quase o fazia ir ao chão.

Micha estava entre os pais. Miriam e a mãe também lá estavam. Em silêncio e cheios de tristeza, olhavam para Jesus em silêncio, que vinha na sua direcção.

— O tio David também veio — sussurrou Micha baixinho, ao mesmo tempo que, com a cabeça, saudava imperceptivelmente Daniel, em frente com a família, do outro lado da rua.

Quando Jesus estava quase a chegar junto deles, tropeçou e sucumbiu. Com dificuldade ainda conseguiu apoiar-se um pouco com a mão. As traves da cruz caíram ao chão com grande estrondo.

Jesus tentou levantar-se outra vez mas não conseguiu. Ali estava, caído, desamparado no meio da multidão, sem forças e indefeso.

Parece que agora os soldados também tinham percebido que ele não conseguia continuar, que Jesus estava no fim. Levantaram a cruz e olharam à sua volta, como que procurando alguma coisa. Se Jesus não podia levar a cruz, então alguém tinha de carregá-la por ele. Alguém robusto e forte que aguentasse até ao local da sentença. Um homem forte estava, por acaso, ali perto. Correram para ele e tentaram persuadi-lo. Micha viu, com grande susto, que tinham escolhido um homem que estava ao lado do tio David. Sem cerimónias, os soldados arrastaram o homem até ao local onde Jesus sucumbira e ordenaram-lhe que pegasse na cruz aos ombros. Alguns soldados dirigiram-se novamente a Jesus e puxaram-no para cima. Mas tiveram de segurá-lo dos dois lados, pois sozinho já não era capaz.

A procissão prosseguiu, penosa e vagarosamente em direcção ao local da execução. À frente iam os soldados com Jesus entre eles. Seguia-se o homem com a cruz às costas. Logo atrás dele ia David. Parecia estar preparado para ajudar, caso o homem da cruz tivesse de pousá-la. E atrás dele, com passos lentos e graves, iam as pessoas que acompanhavam Jesus no seu último caminho.

Daniel, Ester e Micha estavam de mãos dadas. Quando chega-ram, o local encontrava-se de tal forma cheio de gente, que só conseguiram colocar-se muito atrás. As cruzes para os outros dois criminosos já estavam cravadas na terra. Só faltava a terceira. Mas, primeiro, ela foi colocada no chão com Jesus em cima. Queriam agora pregá-lo à cruz de pés e mãos. As pessoas recuaram. Só uma mulher, apoiada no braço de um homem, abriu caminho para a frente.

— Aquela é Maria — disse Marta em voz baixa. — A mãe de Jesus.

— João está a apoiá-la.

A voz de Rute tremia.

Ouviram-se marteladas impiedosas e cruéis. Gritos horríveis de aflição chegavam até eles. As lágrimas rebentaram dos olhos de Micha. Daniel agarrou-lhe a mão. — Anda, vamos embora — disse-lhe.

Micha olhou em redor à procura do pai. A multidão à sua volta era tal, que o tinham perdido.

Se se voltassem agora, veriam a cruz erguida e, na cruz, Jesus crucificado. Mas não olharam para trás. A chorar, regressaram à cidade. Quase não reconheciam o caminho à sua frente.

De repente, David apareceu ao lado deles.

— Vinde — disse ele. — Vamos todos juntos.

Viram então que ele também estava a chorar.

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

O Presente

O Presente

 De todos os ovos da Páscoa que Jacob pintou com cascas de cebola, sobrou um, o mais bonito. Jacob corre a casa de Catarina para lho mostrar. Catarina está no pátio a deitar nas floreiras sementes de salsa.
— Cati, Cati! — grita Jacob — Olha! Nunca viste um ovo tão bonito como este!
— Olha tu! — grita Catarina, mas Jacob já tinha tropeçado na pá e no saco da terra. O ovo cai-lhe das mãos e parte-se.
— Que pena! — diz Catarina. — Devia ser um bonito ovo!
— Oh, o ovo mais bonito de todos! — lamenta-se Jacob. — Ah… estou tão zangado! Gaquicravutchi! Gaquicravutchi!
— O que é que estás para aí a dizer? — pergunta Catarina enquanto apanha do chão o ovo partido.
Gaquicravutchi — responde Jacob. — Acabei de inventar esta palavra para fazer desaparecer a minha raiva.
Gaquicravutchi… Tem graça… — diz Catarina.
— Podes ficar com ela, se quiseres – diz Jacob.
— Ofereço-ta. A tua mãe ralha sempre contigo de cada vez que dizes “porcaria”.
— Ofereces-me a tua Gaquicravutchi?
— Podes dizê-la sempre que estiveres zangada — responde Jacob.
Catarina fica a pensar.
— Também tenho uma prenda para ti, Jacob… mas tens de fazer pouco barulho. Anda!
Leva Jacob até à cerca e aponta para o pátio do vizinho.
— Baixa-te, que já vais ver — murmura.
Jacob dobra-se e olha na direcção do indicador de Cati e vê um pequeno arbusto de glicínias. Na bifurcação de um dos ramos está um ninho com um passarinho a chocar os ovos.
— Descobri-o hoje — diz Catarina. — E agora tu também já sabes onde ele está. Esta é a minha prenda para ti.
— Obrigada! É uma prenda bonita de se ver!

Tradução e adaptação
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986