Tenho uma boneca vestida de azul

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— O Tiago porta-se bem. Já pode fazer uma viagem connosco — diz a madrinha.

— Diz lá, Tiago. Gostavas de ir fazer um safari em África, este Verão? — pergunta-lhe o padrinho.

— Adorava!

— Só vai se nós autorizarmos — protesta o pai.

— Ainda é muito pequeno — acrescenta a mãe.

— Pequeno? Com dez anos já feitos e Muito Bom a todas as disciplinas? — replica o padrinho.

— Cuidaremos bem dele — promete a madrinha.

— Disso, não duvido. Mas…

Os pais levantam muitos mas, e acabam por dizer Sim, está bem!

— Que bom! — grita o Tiago.

A pequena Carmela reclama, como sempre:

— Então, e eu? Também quero ir ao sa fi...!

— Tu, nem pensar! — grita o pai.

— Quando tiveres dez anos, levamos-te onde quiseres — prometem-lhe os padrinhos.

— Eu trago-te uma prenda com o dinheiro do meu mealheiro — diz Tiago. — O que queres, Carmela?

— Uma boneca.

♦♦♦♦♦

Em vez dos livros e cadernos da escola, hoje Tiago leva, na sua mochila, lápis de cores, jogos e histórias para se entreter durante a viagem a África. No aeroporto, os pais fazem-lhe as últimas recomendações:

— Anda sempre de boné, se não ainda vais apanhar uma insolação.

— E não aborreças os padrinhos!

O pai conclui:

— Se não te portares bem, os padrinhos recambiam-te de avião para casa.

— Isso não vai acontecer — replica Tiago.

— De certeza? — pergunta o pai.

— Absoluta!

♦♦♦♦♦

Tiago acaba de ver uma boneca linda, vestida como as meninas africanas, que irá, certamente, agradar a Carmela. Quem a leva é um rapaz da sua idade, um desses que calcorreiam a cidade vendendo recordações aos turistas. Tiago aponta para a boneca, e pergunta:

— Quanto custa?

Com os dedos, o vendedor indica-lhe que o preço é dez.

— Euros?

O rapaz acena que sim.

— É muito cara! — protesta Tiago.

Podia regatear, mas faz-lhe pena obrigar a baixar o preço a um rapaz assim, com cara de fome. Dá-lhe uma nota de dez euros. O rapaz recebe o dinheiro, admirado da rapidez do negócio, entrega a boneca e desata a correr, não vá o turista arrepender-se. O grupo entra na carrinha conduzida pelo guia e dirige-se para o Parque. Uma senhora quer saber:

— Quanto deste por essa boneca, menino?

— Dez euros.

— Foi caríssima! Por esse preço comprei eu três. Para se fazer um bom negócio é preciso regatear. Deste logo o que te pediram!

E comenta para o marido:

— Este rapaz é mesmo palerma!

E o marido acrescenta:

— Toda a família, porque o pai dele faz o mesmo.

Ofendido, Tiago responde:

— Este é o meu padrinho e esta a minha madrinha. E não somos palermas nenhuns. Palermas devem ser vo…!

O padrinho cala-lhe a boca antes de acabar a frase:

— Tem calma! Deixa-me falar a mim, que é a falar que a gente se entende.

E explica a todo o grupo:

— Nós não nos deixamos roubar. Temos muito cuidado com as mochilas e as carteiras. Mas comprar é outra coisa. Vocês sabem porque não regateamos com os vendedores? Temos vergonha de poupar umas moedas à custa de quem passa fome, depois de termos gasto tanto dinheiro num safari. Todos compreenderam ou querem que repita?

Os turistas aplaudem e riem-se. Todos, menos a senhora que se gabava de fazer bons negócios e o marido, que resmunga:

— Não é preciso.

— Se é assim, ponto final — diz o padrinho.

Enquanto a carrinha percorre o Parque Natural, o guia vai explicando:

— Encontramo-nos na maior reserva de animais selvagens de África. Observem as girafas e as zebras que vêm beber ao rio. Vejam agora os antílopes e as gazelas. Os elefantes a tomar banho no lago. Aquilo que parece troncos de árvores caídas, são crocodilos. Estão agora a saltar para a água!

Um tropel de girafas, zebras, antílopes e gazelas cruza-se diante da carrinha.

— É sinal de que os leões estão a aproximar-se — comenta o guia.

Os turistas admiram tudo e não param de tirar fotografias. O guia adverte:

— Tenham cuidado com os macacos! Não são perigosos, mas muito ladrões e levam tudo. Cautela com os sacos da comida, os óculos e os bonés!

Tiago corre o fecho da mochila e prende bem o boné… mas não se lembrou de esconder a boneca. Um macaco salta para a carrinha, agarra na boneca e foge. Tiago tira imediatamente duas bananas do saco da comida e, acenando-as ao macaco ladrão, grita:

— Toma! Dou-tas em troca da boneca!

O macaco desce depressa e solta a boneca. Com uma banana em cada mão sobe a uma árvore, desaparecendo entre os ramos.

— Bravo, Tiago! Soubeste negociar muito bem com o macaco. És um ótimo comerciante — comenta o padrinho.

E quase todos o aplaudem. Tiago guarda a boneca na mochila. Quer dá-la a Carmela, mal chegue. Vai gostar bem dela, pensa. Já no avião, repara numa menina da idade da sua irmã que chora copiosamente.

— Essa menina foi adotada em Portugal — explica-lhe o padrinho. — Viaja sozinha, mas os novos pais vão estar à espera dela no aeroporto.

— De certeza que vai ser muito feliz daqui para a frente — comenta a madrinha.

Sim, pensa Tiago, mas ainda faltam muitas horas para chegar. Com muito gosto partilharia com ela tudo o que traz na mochila para a entreter durante a viagem. Mas seria inútil, já que a menina rejeitou os livros para pintar e os lápis que a hospedeira lhe deu.

— Não gosta, porque os lápis e cadernos são uma coisa rara para ela — comenta a madrinha. — Deve querer uma coisa conhecida.

— A boneca! Vai gostar, pois está vestida como ela! — exclama Tiago.

— Mas prometeste-a à Carmela.

— E então? A minha irmã tem tantas bonecas… E a menina está a chorar tanto…!

Tiago decide-se, tira a boneca da mochila, e vai oferecê-la à menina, que a olha embevecida. Esquece a sua mágoa e para de chorar.

No aeroporto, esperam-nos os pais e a irmã. Beijos, abraços…

— Divertiste-te?

— Muito mesmo.

— E o safari?

— Foi ótimo.

— E a minha boneca? Não te esqueceste?

Tiago hesita:

— Não, mas…

Tiago observa como a menina olha as prendas que a nova família lhe trouxe, mas nunca largando a boneca. A menina olha também para ele e sorri-lhe. Vai buscar um balão, corre até junto de Tiago e oferece-lho.

— É melhor dá-lo à minha irmã — diz-lhe o Tiago por palavras e gestos.

A menina compreende e dá o balão a Carmela.

— Pois, é muito bonito — diz a pequena. — E a minha boneca?

— Deixa-me explicar-te.

Quando Tiago acaba de falar, Carmela diz:

— Fico muito contente por teres dado a minha boneca a essa menina.

Enquanto as crianças se entendem entre si, os adultos cumprimentam-se e tornam-se amigos.

Final feliz, como nos contos.

Monserrat del Amo