De quem é este chapéu?

 de quem é

De quem é este chapéu?

Era Verão outra vez.

Milly e Molly tinha terminado o piquenique quando um grande chapéu de palha castanho apareceu a voar pela praia.

— De quem será? — perguntou Milly.

— Anda, vamos descobrir — sugeriu Molly.

Não foi preciso perguntar aos dois meninos que cavavam buracos na areia. Viam-se as pontas dos seus chapéus.

O chapéu de palha não era deles.

Não foi preciso perguntar ao pescador, que estava sentado numa rocha. Ele tinha o boné bem enfiado na cabeça. O chapéu de palha também não era dele.

Não foi preciso perguntar à senhora que estava a encher o cesto com algas. Ela tinha a mão em cima do seu chapéu pois o vento queria levá-lo. O chapéu de palha também não era dela.

Não foi preciso perguntar às meninas que construíam castelos na areia. Elas tinham os chapéus presos com uma fita debaixo do queixo. O chapéu de palha também não era delas.

Não foi preciso perguntar às pessoas que apanhavam sol e mexiam os pés. Estavam debaixo de um grande chapéu-de-sol e não precisavam de proteger a cabeça. O chapéu de palha também não podia ser delas.

Não foi preciso perguntar ao senhor de bengala. Ele tinha o cabelo revolto a sair debaixo do seu gorro. Não era dele.

Não foi preciso perguntar aos surfistas. Eles tinham creme no nariz e os cabelos ao vento. De certeza que não era deles.

E dos quatro mergulhadores?

Na areia estavam quatro pares de botas mas apenas três chapéus!

Será que o chapéu de palha era de um deles?

Milly e Molly colocaram o grande chapéu de palha por baixo do quarto par de botas e correram para junto do seu cesto de piquenique.

No caminho para casa, passaram por várias pessoas, umas com chapéu, outras sem chapéu.

— Espero que tenhamos encontrado o dono certo — disse Milly.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo II
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Frente ao televisor

Frente ao televisor

Manuel, um amigo de Milly e Molly, era viciado em televisão. O Manuel via televisão na sala.

Via televisão na cama.

Via televisão antes da escola, depois da escola, em dias de chuva e, pior ainda, em dias de sol.

Até que, num dia de sol, quando Milly e Molly estavam lá em casa, a mãe gritou:

— Manuel, vai lá para fora fazer exercício!

— Exercício? Como? — disse Manuel, aborrecido.

— Como quiseres. Não quero tornar a ver-te até ao anoitecer.

E dito isto, a mãe do Manuel mandou os três amigos para fora de casa e fechou a porta.

— Já sei o que vamos fazer — disse Milly, pensativa.

— O quê? — resmungou Manuel.

— Vamos construir uma casa na árvore.

— Como? — perguntou o Manuel.

— Eu sei como — disse Molly.

— Imagino — zombou Manuel. — Quero ver!

Milly encontrou a árvore certa. Molly ajudou Manuel a encontrar todas as coisas de que precisavam.

Pegaram em tábuas, martelo, pregos e um pedaço velho de lona.

Milly, Molly e Manuel treparam, levantaram e trabalharam até ser quase de noite.

— Ora vejam só… — disse a mãe de Manuel. — Mas que bela casa na árvore!

Manuel foi direitinho para a cama. Estava demasiado cansado para ver televisão.

Levantou-se e, antes de ir para a escola, voltou à casa da árvore. Não lhe interessava ver televisão.

Ia para a sua casa na árvore depois da escola, nos dias de chuva e nos dias de sol. Não tinha tempo para ver televisão.

Até que, um dia depois da escola, ouviu barulho. Da sua casa na árvore, conseguia ver os rapazes a jogarem à bola no parque.

— Quero ir jogar futebol — disse ele.

— Ora vejam só… — disse a mãe.

E ajudou-o a inscrever-se na equipa.

Quando o Manuel não estava na casa da árvore, estava a jogar futebol. Esquecera a televisão.

Da casa da árvore, Milly e Molly viam Manuel a jogar futebol no parque. Quando ele ganhou o prémio do Melhor Jogador do Torneio, pareceu-lhes ouvir a mãe do Manuel dizer: “Ora vejam só…”

— Quando crescer, vou ser futebolista — disse Manuel.

— E vais aparecer na televisão? — perguntaram Milly e Molly.

— Claro que sim — disse Manuel. — Não vou ver televisão, mas aparecer na televisão.

— Ora vejam só… — disse a mãe do Manuel. — É espantoso o que o exercício físico pode fazer.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

O Henrique é o Henrique

O Henrique é o Henrique

O que se passa com o Henrique?

O Henrique sabe como se sente e é dono dos seus sentimentos.

Ele diz “não” quando quer e “sim” quando lhe apetece.

O Henrique é amável com as raparigas e simpático com os rapazes.

Não fica corado, nem ri à toa.

Não é intrometido, nem tímido.

Sabe do que gosta e do que não gosta.

Nem sempre precisa de um amigo para brincar, nem de companhia para conversar.

Ri-se das coisas engraçadas e chora com coisas tristes.

Lê muito bem diante da turma e não se importa quando se engana.

O Henrique tem mais dificuldades a Matemática.

Joga ao ‘mata’ com uma mão.

Não se importa que se riam dele, que o arreliem ou o gozem.

O Henrique abre a porta e deixa passar primeiro os mais velhos.

Lembra-se de dizer ‘se faz favor’ e nunca se esquece de dizer ‘obrigado’.

O Henrique sabe reconhecer os seus erros quando faz alguma coisa mal.

O Henrique usa o cabelo direito, quando todos usam espetado.

Quando se usam calças apertadas, o Henrique veste calças largas. Quando as camisas azuis estão na moda, o Henrique usa encarnadas.

E que é o amigo mais disputado da escola?

O Henrique!

O Henrique é o Henrique e pronto!

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Actividades com imagens

 

  • As aves anunciam o sol, e com ele, a vida escrever poema
  • Entre lençóis de nuvens, o menino dorme escrever poema
  • Da branca janela enfeitada de petúnias, um gato olha o mundo
  • O menino ouve, atento, a voz da mãe
  • As rosas crescem
  • Como é agradável ouvir uma história
  • Sempre mal humorado, o gato Plácido
  • Liberdade de nascer de novo
  • Uma janela que se abre
  • Procura colocar-te na pele do cão
  • Descreve, de uma forma expressiva, a presente imagem
  • Os quatro amigos, juntos …
  • Micha e o mistério da Páscoa – Visita tardia (I)

    Visita tardia

    Rute estava a pôr a mesa para o jantar e tinha mandado Micha à cozinha buscar o pão quando bateram à porta de casa, pesada, de madeira. O rapazinho parou por instantes e ia a correr para a porta. Mas um sonoro “Alto!” do pai deteve-o.

    — Quando já tiver escurecido lá fora, é melhor ser eu a abrir a porta — diz o pai, levantando-se da mesa. Pegou na lamparina de óleo e seguiu sem pressa pelo vestíbulo estreito até à porta.

    — Sabe-se lá quem é que anda pelas ruas, tão perto da festa da Páscoa — diz a mãe observando o marido, Jonatan, correr para o lado uma tabuinha da porta e olhar para fora através de uma fresta estreita.

    — Não abras — sussurrou-lhe, pondo-se atrás dele. — Quem quiser alguma coisa de nós também pode vir cá amanhã. De manhã, com luz.

    Rebeca e Ariel, os irmãos mais novos de Micha, não se tinham levantado da mesa. Observavam o pai, espantados.

    Jonatan voltou a correr a tabuinha e preparou-se para correr o trinco pesado.

    — Jonatan — disse Rute a medo, agarrando-lhe no braço. Mas Jonatan virou-se ligeiramente para trás com um sorriso comprometedor e fez-lhes um aceno de cabeça para acalmá-los a todos.

    — Não acredito, são vocês! — disse para fora ao abrir a porta para deixar entrar uma mulher e duas crianças. — Mas só estavam a pensar chegar amanhã ou depois. O que vos fez vir ainda hoje a Jerusalém e a uma hora tão tardia?

    — Queríamos sem falta estar em vossa casa para a festa da Páscoa — respondeu a mulher. — Os outros ainda montaram o acampamento às portas da cidade mas nós queríamos, sem falta, vir ter com vocês ainda hoje.

    — Marta! — exclamou Rute, correndo com passos largos para a mulher e abraçou-a.

    De seguida cumprimentou as duas crianças que se encostavam à senhora, um pouco amedrontados e tímidos.

    — Tu deves ser a Ester, de certeza — disse Rute numa voz calorosa. — E tu deves ser o Daniel. — E quando os dois abanaram a cabeça em sinal afirmativo, perguntou a rir:

    — Então, de certeza que sabem quem eu sou.

    — A tia Rute — disseram Ester e Daniel em coro.

    — Vocês chegaram mesmo a tempo do jantar! — Rute empurrou-os para a mesa onde ainda havia espaço suficiente.

    Entretanto, Jonatan tinha fechado e trancado a porta e juntava-se a eles.

    — Micha, Rebeca.

    Os filhos sabiam exactamente o que o pai queria dizer ao olhar para eles e apontando para as visitas. Saíram e trouxeram duas bacias de água, que colocaram frente das crianças.

    — Temos sempre muito tempo — disse Rute. Baixou-se em frente de Daniel e Ester e tirou-lhes as sandálias dos pés. As crianças meteram-nos imediatamente na bacia.

    Micha observava furtivamente como a mulher tirava agora as sandálias e lavava o pó dos pés. Era mesmo muito parecida com a mãe.

    — Os teus filhos também já estão grandes, Rute — dizia ela naquele momento. E quando Rebeca lhe deu um pano para se limpar, fez-lhe uma festa no cabelo.

    — Ainda não tinhas nascido quando fui para Canã — disse em voz baixa. — E o Micha tinha feito dois anos. — Sorriu-lhe com os olhos pretos e Micha viu que ela era lindíssima. — De certeza que já não te lembras de mim.

    Então ela era a tia Marta, a irmã da mãe, de quem ela tanto lhes tinha falado. A tia Marta tinha-se mudado para Canã há muitos anos com Tomás, o marido. Tomás viera na altura a Jerusalém para a festa de Passah. Marta e ele tinham-se conhecido e apaixonado um pelo outro imediatamente. Mas depois da festa da Páscoa, ele teve de regressar a Canã, onde moravam os pais e onde tinha o seu trabalho. Mas, passado meio ano, estava de volta e falou com os pais de Marta e o pai consentiu que casasse com ela. Desde o casamento que Marta e Tomás viviam em Canã. Os avós de Micha tinham viajado até Canã para o casamento, mas geralmente moravam com o tio David, apenas algumas ruas afastados da família de Micha.

    Desde aquela altura que as irmãs nunca mais se tinham visto. O caminho para Jerusalém era longe e Rute também não tinha saído de Jerusalém. Entretanto, Micha já tinha dez anos e Rebeca oito.

    — Tu deves ser um pouco mais nova do que a Ester — disse a tia Marta. — Ela vai fazer nove para a semana.

    — Eu já tenho oito há muito tempo — responde Rebeca, com orgulho. — No mínimo, há duas semanas. — Olhou admirada em volta quando todos se riram. Tinha a certeza de que não tinha dito nada engraçado.

    — E o Daniel tem a mesma idade que eu — exclamou Ester, agradecendo com a cabeça quando a mãe deitou verdura no prato.

    — Isso não é possível! — disse Rebeca abruptamente.

    — É — respondeu Daniel. Era a primeira vez que ele dizia alguma coisa. — Claro que é. Nós somos gémeos.

    Agora riram-se todos porque Rebeca estava boquiaberta.

    — Tenho ainda uma pequena surpresa para todos — a mãe entrava com uma terrina que colocou no centro da mesa. Assim que levantou a tampa, Daniel exclamou, felicíssimo:

    — Peixe!

    — Peixe é a comida preferida dele — explicou Marta.

    Apressaram-se a repartir o peixe, pois só sabia bem quando comido ainda quente. Todos se serviram e chegou para todos.

    — Onde é que deixaram o vosso pai? — perguntou Jonatan depois de comer. — De certeza que não fizeram sozinhos o longo caminho de Canã até Jerusalém!

    — Quando é que partiram? — perguntou Rebeca entretanto. — Quanto tempo estiveram a caminho?

    — Eles montaram um acampamento aqui pertinho, entre duas aldeias — contou Marta. — O Tomás também lá está.

    — Onde? — perguntou Rute.

    — Entre Betfagé e Betânia — Marta sorriu. — Mas eu não consegui esperar mais. Queria, sem falta, voltar a ver a minha irmã.

    Rute passou imediatamente o braço à volta dela.

    — Conheço Betânia — disse Jonatan. — Já lá estive. Mas porque é que Tomás não veio contigo? Já que está tão perto de nós não precisa de ficar a dormir num acampamento. Temos espaço que chegue.

    — Queria ficar com o Mestre — respondeu Marta em voz baixa. — E também queriam ainda arranjar um burro para o Mestre. O Tomás vem amanhã, com toda a certeza.

    — Já vimos a caminho há muito tempo — informou então Daniel.

    Marta confirmou com um aceno de cabeça. — Há mais de três meses.

    — Três meses? — Micha não queria acreditar. — É preciso assim tanto tempo para vir de Canã a Jerusalém?

    — Nós vimos a seguir Jesus — respondeu Ester em voz baixa. — Ele tinha de parar em todo o lado, porque havia muita gente que lhe queria falar! Foi por isso que demorou tanto tempo.

    — Receberam a minha mensagem, não? — perguntava agora Marta.

    Jonatan disse que sim com a cabeça.

    — Claro. Também avisámos logo os teus pais. Estão à vossa espera amanhã e estão muito contentes por irem ver-vos a todos.

    Jonatan olhou pensativamente para Marta.

    — Vocês têm andado com esse Jesus de Nazaré? — perguntou, um tanto incrédulo. Quando as crianças acenaram com a cabeça em sinal afirmativo, disse:

    — Ouvi falar dele.

    — Quem é? — perguntou Micha imediatamente. — Que tipo de pessoa é?

    — Jesus é Jesus — respondeu Daniel em poucas palavras.

    — E vocês já andam com ele há mais de três meses? — Rute abanava a cabeça, admirada. — E o teu homem deixou simplesmente o trabalho?

    A irmã abanou a cabeça. — Não só o Tomás. Outros também.

    — E a vossa casa? As galinhas e os gansos? Abandonou tudo, assim sem mais?

    — Eu também, Rute.

    — Nós os quatro — confirmou Ester e Daniel. — Agora são o avô e a avó que têm de tomar conta de tudo lá em casa.

    — José, o irmão de Tomás, prometeu cuidar de tudo — acrescentou Marta. — Também queria ter vindo mas acabou por ficar em Canã.

    — Ao menos alguém tem de manter a cabeça no lugar — resmungou Jonatan. — Mas eu não entendo nada disso.

    E abanava a cabeça de um lado para o outro, duvidoso.

    — Isso não pode ser assim tão simples, sem consequências. Não pode chegar uma pessoa, sem mais, e vocês largarem tudo e segui-lo. Tu, o teu marido e as crianças.

    — Bem vês que foi exactamente assim — respondeu simplesmente a cunhada.

    — E de que é que viveram durante esse tempo todo? Têm economias? Já gastaram tudo?

    — Por favor, Jonatan — Rute fê-lo calar imediatamente. — Isso agora não é nada da tua conta!

    — Juntámos todos o dinheiro, os que andam com Jesus — Marta disse aquilo de forma tão natural como se não houvesse nenhuma dificuldade ou dúvidas. — E chegou sempre para todos.

    — Quantos é que foram? — perguntou Jonatan.

    — Às vezes vinte, às vezes trinta ou mais. Homens, mulheres e crianças — contou ela. — Judas gere o dinheiro e ele consegue fazer com que tenhamos sempre o suficiente para comer e beber.

    — E quando o dinheiro se esgotou? — Jonatan não desistia.

    — Então foi Jesus que nos sustentou — Daniel respondeu à pergunta.

    — Ah, Jesus… Mas como? Tinha mais dinheiro em caixa?

    — Não — desta vez foi Ester que respondeu a rir. Ela ficava admirada como é que os adultos, por vezes, podem fazer perguntas tão parvas. — Ele disse uma oração. Depois repartimos o pão e chegou para todos.

    — E primeiro eram só cinco pães — acrescentou Daniel. — Eu vi muito bem.

    — Cinco pães e dois peixes — disse Ester.

    — E no fim ficaram todos sem fome? — pergunta Rebeca assombrada.

    — Eram muitas pessoas a comer — continuou Marta a contar. — Diz-se que mais de cinco mil.

    — E todos satisfeitos? — Micha não podia acreditar.

    — Sim, todos — disse a tia Marta — Bem, ele é o Messias!

    — O Messias? — perguntou Rebeca hesitante.

    — O Salvador — a tia Marta abanou a cabeça. — Messias é como muitos o tratam.

    Há muito tempo que esperamos este salvador. Já nos livros antigos lhe é feito referência.

    — O Messias é uma pessoa que é ungida — Ester tenta explicar à prima. — Quando uma pessoa se torna rei, é ungida com óleo precioso sagrado.

    — Jesus é esse salvador? — pergunta Micha. — Deus ungiu-o a rei?

    — Sim — respondeu Marta.

    — Mas ele não quer que o tratemos assim — objectou Daniel.

    — Então como é que o tratam? — quis saber Rebeca.

    — Os adultos tratam-no por Mestre ou Senhor — respondeu Daniel.

    Rute voltou-se para o marido: — Já sabias deste Messias? — perguntou.

    — Pouco — disse Jonatan em voz baixa.

    — Porque é que nunca falaste dele?

    — Não levei tudo isto muito a sério.

    — Amanhã ele vem a Jerusalém! — exclamou Ester. — Os amigos vão arranjar-lhe um burro ainda hoje.

    — Vai entrar pela porta de Jerusalém montado num burro — os olhos de Daniel brilhavam. — Vai entrar pela porta como um verdadeiro rei.

    — Se calhar nem vai haver muita gente a reparar nele — Marta esfriava-lhe o entusiasmo. — Vai ser discreto como sempre. Ninguém vai pensar que aquele homem tão simples é um rei.

    Ester olhou para a mãe, admirada.

    — Mas os amigos dele aqui em Jerusalém de certeza que vão recebê-lo com júbilo.

    Marta fez-lhe uma festa na cara e disse a Jonatan:

    — Jesus queria reunir-se à noite com os amigos em Jerusalém e festejar a Páscoa — pensou um pouco. — Não há ali no cimo da cidade aquela sala bonita?

    Jonatan fez de conta que não sabia do que ela estava a falar.

    — Claro que sabes qual é — Rute deu-lhe um toque.

    — Ah, essa sala! — acabou por dizer Jonatan.

    — Podias tratar das coisas para que amanhã pudéssemos tê-la?

    — Hmm — foi a resposta de Jonatan. Não era um sim, mas também não era um não.

    Segue: Micha e o mistério da Páscoa – Conversas nocturnas (II)

    Rolf Krenzer
    Micha und das Osterwunder
    Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
    Traduzido e adaptado

    Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

    Anterior: Micha e o mistério da Páscoa – Conversas nocturnas (II)

    Em casa dos avós

    Hoje estavam todos convidados para ir comer a casa dos avós. Assim que Tomás chegou, Rute abriu a porta

    — Mara, os nossos netos de Canã já chegaram — gritou Josha, correndo para a porta.

    De início, Daniel e Ester estavam um pouco intimidados quando se viram tão de repente em frente dos avós. Mas o avô, com a longa barba, era exactamente como Daniel e Ester o tinham imaginado. Ele observou-os longamente, meneou a cabeça, pousou-lhes as mãos carinhosamente na cabeça.

    — Eu vos abençoo, Ester e Daniel — disse. — Deus seja louvado por me permitir ver-vos e receber-vos em minha casa.

    Micha reparou que o avô tinha lágrimas nos olhos, de tão feliz que estava.

    A avó tomou os dois netos nos braços sem grandes cerimónias, apertou-os a si e deu a cada um beijo efusivo. Não é de admirar que os dois se sentissem logo em casa.

    — Fizeste comida a mais! — exclamou Marta, abraçando Mara. — Tanta comida boa de uma só vez. Nem vamos conseguir comer tudo.

    — Espera só — disse Josha a rir, indicando a cada um o lugar à mesa. — Na verdade, cada um devia ocupar à mesa um lugar de honra — disse — mas não temos assim tantos na nossa mesa.

    Apontou para Tomás.

    — Tu sentas-te com a Marta à minha direita. Recebo Jonatan e Rute mais vezes em casa. Hoje vocês têm de contentar-se com a minha esquerda. O meu filho David está sempre comigo e hoje pode, excepcionalmente, afastar-se um pouco mais para o lado.

    — E a avó? — pergunta Micha. — Ela senta-se sempre à tua beira!

    — Hoje vai sentar-se à minha frente — disse o avô. — Assim temos os filhos todos à nossa volta.

    David trouxe para dentro dois jarros, para que houvesse água que chegasse para todos lavarem as mãos antes de comer. Assim, passaram a água e as toalhas em roda até todos estarem prontos para comer.

    Mara começou por colocar na mesa pão de trigo fresco, para celebrar o dia. Rute tinha-o cozido de manhã no pequeno forno, com erva seca, palha e carvão. Só às vezes é que havia pão de trigo. De resto, contentavam-se com simples pão de cevada, como a maioria das pessoas.

    De seguida, Mara trouxe uma grande panela com guisado. Entusiasmado, Micha gritou “Ah!” quando descobriu que era carne de carneiro com lentilhas. Além disso, havia outra comida de festa: pombos assados.

    Quando todos os pratos estavam em cima da mesa, Josha abençoou tudo o que iam comer:

    — Bom Deus, abençoado Deus — disse. — Reuniste-nos aqui hoje e estamos-te agradecidos por isso. Todos os dias nos dás de comer e de beber. Quando comermos, não nos esqueceremos de te agradecer pelas tuas dádivas — Depois ergueu as mãos e estendeu-as sobre a comida.

    — Graças a Deus — disse Mara.

    — Graças a deus — disseram depois todos em coro.

    Segue: Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

    Rolf Krenzer
    Micha und das Osterwunder
    Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
    Traduzido e adaptado

    Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

    Anterior: Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

    A favor ou contra Jesus?

    Durante a refeição, pouco se falou. Mas Micha sentia claramente que aquela calma era aparente. Era como a atmosfera antes de uma tempestade.

    Quando as mulheres levantaram a mesa, o silêncio era quase insuportável. Josha olhava em volta, calado, olhava um após outro e finalmente dirigiu-se a Tomás, o genro.

    — Estamos muito contentes por ter-vos finalmente connosco — disse ponderadamente. — A ti, à Marta e aos vossos dois filhos.

    E pigarreou.

    — Ouvi dizer que vocês, em Canã partiram precipitadamente e abandonaram tudo.

    — O meu irmão e os meus pais estão a tomar conta das nossas coisas — respondeu Tomás calmamente.

    — Vocês vieram mesmo com esse filho de um carpinteiro de Nazaré? — continuou Josha.

    — Sim, com Jesus — respondeu Marta.

    Agora era David que não conseguia manter-se calmo mais tempo.

    — Esse Jesus é um falso profeta, Tomás! — exclamou, inclinando-se para a frente. — Ele blasfema contra Deus!

    — Foi Deus quem no-Lo enviou. Só faz o que Deus lhe manda — respondeu Tomás.

    Josha interrompeu-o com uma voz cortante.

    — E Deus pede-lhe que entre em Jerusalém como um rei? Como se fosse o Messias de quem estamos à espera há anos?

    — Ele é o Messias.

    — Quem é que disse isso? — Josha levantou-se agitado.

    — Ele próprio — respondeu agora Marta.

    — Ele blasfema contra Deus.

    O velho deixou-se cair pesadamente no lugar. Respirava furioso.

    — O Messias há-de salvar-nos e libertar-nos. É o próprio Deus que no-Lo vai enviar. Não acreditas no que dizem as nossas antigas escrituras, Marta?

    — Eu acredito e confio em Jesus — respondeu Marta, olhando o pai firmemente nos olhos.

    — Eu também — diz Daniel.

    — Ele blasfema contra Deus, quebra as leis! É um falso profeta! — diz Josha em tom de lamento, enterrando a cabeça nas mãos.

    — Ele é o rei do céu e da terra — diz Tomás em voz alta. — Veio a Jerusalém para a festa da Páscoa e vamos todos ver como ele se apresenta como rei e Messias.

    — Ele vai atirar-nos a todos para a perdição! — disse Josha, levantando-se. — Deixa-me — disse ele, rejeitando Marta, que queria segurá-lo.

    — Pai!

    — Deixa-o ir — disse Mara calmamente, detendo Marta. Josha já tinha deixado a sala. — Quer estar sozinho. Vai reflectir naquilo que vós lhe dissestes.

    — O que é que Jesus quer provar-nos, aqui em Jerusalém? — pergunta Jonatan.

    — Ele também disse que tem de morrer — Micha ouviu claramente a voz da tia a tremer.

    — A minha irmã tinha de se deixar enganar por um falso profeta — exclamou David, batendo com o punho na mesa.

    — Meninos — a voz amedrontada de Mara soou no meio deles. — Hoje não vamos discutir por isso. Hoje, que estamos todos juntos em casa, após tanto tempo.

    E começou a chorar. Rute abraçou-a.

    — Como é que ele quer provar que é o profeta? — pensou Rute em voz alta.

    — Devia-se obrigá-lo a isso — observou Jonatan. — Pelo menos foi o que disse um dos discípulos que eu encontrei há pouco.

    — Quem é que encontraste? — perguntou Tomás.

    — Ele ia contigo esta manhã atrás de Jesus. Acho que se chama Judas.

    — Também o conheço — Rute olhou para a irmã. — Não era aquele com a caixa do dinheiro, que encontrámos esta manhã?

    Marta acenou com a cabeça. Depois pôs-se em pé com um salto.

    — Oh! Eu tinha prometido ajudar. Temos de preparar a refeição para a festa desta noite!

    Tinha chegado o momento certo para as crianças.

    — Levas-nos contigo? — pediram. Após uma curta hesitação, Marta consentiu.

    — Também vou — gritou Jonatan. — As mesas têm de ser armadas e de certeza que ainda há muito para fazer. Toda a ajuda vai ser precisa e duas mãos de homem, de certeza absoluta — e fez um sinal com a cabeça à mulher. — Eu trago os três quando vier para casa. Vá, vamos.

    O pai de Micha dirigia-se para a porta.

    Nesse momento, David levantou-se e agarrou Jonatan com força pelo braço.

    — Queres mesmo ir, Jonatan? — perguntou-lhe. — Agora também andas a correr atrás desse falso profeta? Também já te convenceu a isso? Até ontem tinhas estado do nosso lado, vociferaste em voz alta contra todos os que quebram as leis e deste razão aos nossos doutores de leis e aos altos sacerdotes.

    O tio David falava cada vez mais alto.

    Jonatan libertou-se da sua mão, aborrecido. De um momento para o outro ficou vermelho de fúria.

    — Quero ser eu mesmo a fazer uma ideia desse Jesus — disse — e isso só é possível se o conhecer de mais perto e souber mais coisas sobre ele. Talvez seja um falso profeta mas, se calhar, é mesmo o Messias. Eu quero descobrir por mim.

    Micha ficou parado ao lado do pai, assustado. Nunca tinha visto o pai e o tio David discutirem. Gostava tanto do pai! E como adorava o tio! E ainda por cima tinham começado a discutir por causa de Jesus. Pegou na mão do pai e quis puxá-lo dali para fora.

    — Papá — queixou-se, assustado.

    David viu então como Micha estava infeliz.

    — O teu pai tem razão — disse ele, e a voz soava tão afável como sempre — Observai esse Jesus com mais atenção. E depois voltamos a falar.

    — Tudo bem — disse Jonatan, tentando fazer de conta que não tinha acontecido nada. — Então até logo! — e saiu depressa atrás dos outros, levando Micha pela mão.

    Segue: Micha e o mistério da Páscoa – Um novo dia (V)

    Rolf Krenzer
    Micha und das Osterwunder
    Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
    Traduzido e adaptado

    Micha e o mistério da Páscoa – O último caminho (VI)

    Anterior: Micha e o mistério da Páscoa – Um novo dia (V)

    O último caminho

    Neste ano, tinha havido novamente muita afluência a Jerusalém para a Páscoa. Todos os anos era festejada para recordar a saída da “prisão” no Egipto e para agradecerem a Deus uma vez mais. Para muitos, aquela era uma boa oportunidade para visitar pais e familiares, por isso, naquela altura, havia muito mais gente na capital do que de costume.

    Antes da grande festa começar, eram crucificados três condenados à morte. Já tinham sido levados dois criminosos para o local da sentença. Agora levavam Jesus, nas suas roupas esfarrapadas, pelas ruas da cidade até ao local. Ele arrastava-se com imensa dificuldade. Tinha de carregar a cruz onde ia morrer.

    As ruas estavam orladas de pessoas. Havia algumas que insultavam e injuriavam Jesus. Outros, faziam troça dele. Mas também as havia que choravam. Tinham vindo para se despedir de Jesus. Estavam timidamente mais atrás, e só queriam que ninguém reparasse nelas. Homens, mulheres e crianças com olhos de choro, olhavam para o homem que já mal podia andar. A pesada cruz de madeira que levava às costas quase o fazia ir ao chão.

    Micha estava entre os pais. Miriam e a mãe também lá estavam. Em silêncio e cheios de tristeza, olhavam para Jesus em silêncio, que vinha na sua direcção.

    — O tio David também veio — sussurrou Micha baixinho, ao mesmo tempo que, com a cabeça, saudava imperceptivelmente Daniel, em frente com a família, do outro lado da rua.

    Quando Jesus estava quase a chegar junto deles, tropeçou e sucumbiu. Com dificuldade ainda conseguiu apoiar-se um pouco com a mão. As traves da cruz caíram ao chão com grande estrondo.

    Jesus tentou levantar-se outra vez mas não conseguiu. Ali estava, caído, desamparado no meio da multidão, sem forças e indefeso.

    Parece que agora os soldados também tinham percebido que ele não conseguia continuar, que Jesus estava no fim. Levantaram a cruz e olharam à sua volta, como que procurando alguma coisa. Se Jesus não podia levar a cruz, então alguém tinha de carregá-la por ele. Alguém robusto e forte que aguentasse até ao local da sentença. Um homem forte estava, por acaso, ali perto. Correram para ele e tentaram persuadi-lo. Micha viu, com grande susto, que tinham escolhido um homem que estava ao lado do tio David. Sem cerimónias, os soldados arrastaram o homem até ao local onde Jesus sucumbira e ordenaram-lhe que pegasse na cruz aos ombros. Alguns soldados dirigiram-se novamente a Jesus e puxaram-no para cima. Mas tiveram de segurá-lo dos dois lados, pois sozinho já não era capaz.

    A procissão prosseguiu, penosa e vagarosamente em direcção ao local da execução. À frente iam os soldados com Jesus entre eles. Seguia-se o homem com a cruz às costas. Logo atrás dele ia David. Parecia estar preparado para ajudar, caso o homem da cruz tivesse de pousá-la. E atrás dele, com passos lentos e graves, iam as pessoas que acompanhavam Jesus no seu último caminho.

    Daniel, Ester e Micha estavam de mãos dadas. Quando chega-ram, o local encontrava-se de tal forma cheio de gente, que só conseguiram colocar-se muito atrás. As cruzes para os outros dois criminosos já estavam cravadas na terra. Só faltava a terceira. Mas, primeiro, ela foi colocada no chão com Jesus em cima. Queriam agora pregá-lo à cruz de pés e mãos. As pessoas recuaram. Só uma mulher, apoiada no braço de um homem, abriu caminho para a frente.

    — Aquela é Maria — disse Marta em voz baixa. — A mãe de Jesus.

    — João está a apoiá-la.

    A voz de Rute tremia.

    Ouviram-se marteladas impiedosas e cruéis. Gritos horríveis de aflição chegavam até eles. As lágrimas rebentaram dos olhos de Micha. Daniel agarrou-lhe a mão. — Anda, vamos embora — disse-lhe.

    Micha olhou em redor à procura do pai. A multidão à sua volta era tal, que o tinham perdido.

    Se se voltassem agora, veriam a cruz erguida e, na cruz, Jesus crucificado. Mas não olharam para trás. A chorar, regressaram à cidade. Quase não reconheciam o caminho à sua frente.

    De repente, David apareceu ao lado deles.

    — Vinde — disse ele. — Vamos todos juntos.

    Viram então que ele também estava a chorar.

    Rolf Krenzer
    Micha und das Osterwunder
    Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
    Traduzido e adaptado

    Se respeitares os outros – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Se respeitares os outros

    Podes correr contra o tempo
    sonhando ser campeão,
    mas por favor não transformes
    a vida em competição.

    Mesmo que tenhas o sonho
    de em tudo seres o melhor,
    percebe que é na diferença
    que está o valor maior.

    A diferença é que distingue
    e distinguindo aproxima
    evitando esse fosso
    que humilha e desanima.

    Com o tempo descobrirás
    que a ambição é que cega,
    não havendo prazer maior
    do que ajudar um colega.

    E por favor tem cuidado
    quando vais a atravessar;
    espera o verde dos peões
    para poderes avançar.

    Espera da vida os sinais
    que não te hão-de enganar
    e hás-de chegar a tempo,
    mesmo a tempo de chegar.

    Por favor, porta-te bem,
    que a vida espera de ti
    apenas algumas coisas
    daquelas que aqui escrevi.

    Se respeitares os outros,
    a ti te respeitarás,
    sendo essa a maneira
    de poderes viver em paz.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Tenta agora ser crescido – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Tenta agora ser crescido

    Toma nota dos recados
    que chegam a tua casa,
    algo pode acontecer
    se a mensagem se atrasa.

    Não abuses do telefone
    mesmo à mão de semear,
    pois na hora da verdade
    não serás tu a pagar.

    Tenta agora ser crescido
    e ouve o “rock” mais baixinho;
    deixas o gato dormir
    e não acordas o vizinho.

    O que tu ouves aos berros
    só serve para te excitar
    quando afinal é de calma
    que estamos a precisar.

    Tenta agora ser crescido
    mesmo que ainda o não sejas;
    se quiseres, tu podes ser
    tudo aquilo que desejas.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Evita roer as unhas – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Evita roer as unhas

    Evita roer as unhas,
    que ficas com dedos feios
    e as unhas onde as punhas,
    espalhadas pelos passeios ?

    Evita roer as unhas
    que te podem fazer mal,
    andam sujas, carcomidas,
    como folhas de um jornal.

    Evita roer as unhas
    porque não sabem a nada
    e as unhas onde as punhas,
    numa gaveta fechada?

    Evita roer as unhas,
    pois não és um roedor,
    deixa-as crescer à vontade,
    faz-lhes lá esse favor.

    Evita roer as unhas
    porque não te fica bem;
    sem as unhas não te coças
    e coçar sabe tão bem.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Não vale fazer batota – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Não vale fazer batota

    Nunca deixes a pastilha
    onde outros se vão sentar;
    se ela se cola à roupa
    quem a consegue tirar?

    Respeita o lugar na fila
    que não ganhas com a pressa,
    desrespeitas o que espera
    e o ganho pouco interessa.

    E não penses que o mundo
    em clubes se divide
    e que a melhor das claques
    é a que melhor agride.

    Não gozes com os defeitos
    que há no físico alheio
    porque um dia a má sorte
    poderá tocar-te em cheio.

    Até nem és mau rapaz,
    és traquina e mariola;
    o pior serão as notas
    que vais receber na escola.

    E não uses a batota
    para vencer ou avançar,
    que nem sempre o batoteiro
    se liberta do azar
    e quando cai é a pique
    depois de tanto enganar.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    A mão a tapar a boca – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    A mão a tapar a boca

    Pela boca morre o peixe
    e dela sai muita asneira,
    e ai daquele que a deixe
    falar de qualquer maneira.

    Uma boca mal-educada
    nunca tem moderação
    e tanto diz disparates
    como um qualquer palavrão.

    Deves ter a mão ligeira
    para a poderes moderar
    no momento em que bocejas
    ou na hora de espirrar.

    Se o espirro ou mesmo a tosse
    não forem bem controlados,
    tu podes deixar sem querer
    muitos outros constipados.

    A boca é nossa amiga
    mas deve ser vigiada
    com atenção e cuidado
    à saída ou à entrada.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Mentir é muito feio – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Mentir é muito feio

    Mentir é muito feio
    porque faz mal à verdade,
    deixa a verdade a meio
    e instaura a falsidade.

    Neste inundo de mentira
    dela não faças a regra;
    nem sempre nos absolvem
    por aquilo que se nega.

    E se a mentira é um vício, pode
    tornar-se doença
    que custa para se curar
    muito mais do que se pensa.

    O mentiroso altera
    aquilo que vê e escuta;
    a verdade e a mentira
    nele estão sempre em luta.

    E no fundo o mentiroso
    a si mesmo se desmente
    pois falseando a verdade
    tudo à mentira consente.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Não se lê à mesa – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Não se lê à mesa

    Não leves livros para a mesa
    na hora da refeição;
    por muito que a leitura
    te encha de satisfação.

    Há outros lugares melhores
    e por certo apropriados
    para tu leres com prazer
    os livros mais indicados.

    Ler à mesa é a maneira
    de esqueceres quem lá está,
    é uma falta de respeito
    que nenhum consolo dá.

    Se o livro for teu amigo,
    lê-o num outro lugar,
    não o ponhas de castigo
    quando estás a almoçar,
    pois bem vistas as coisas
    até o podes estragar.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Deves ser pontual – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Deves ser pontual

    Não penses que o relógio
    gosta de se atrasar
    só porque tu de manhã
    te enroscas a dormitar.

    Os outros não faças esperar
    pois é falta de respeito
    e pela tua vida fora
    há-de tornar-se um defeito.

    Com um esforço pequenino
    horários hás-de cumprir
    e se fores tu a esperar
    mais forte te hás-de sentir.

    Verás que não custa nada
    tornares-te pontual;
    se tens encontro marcado,
    ser cumpridor é normal.

    E bem podes acreditar,
    com o passar da idade,
    que se tornou uma virtude
    essa pontualidade.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Bom dia, por favor, perdão – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Bom dia, por favor, perdão

    Na escada ou no elevador
    se te cruzas com um vizinho
    vê que não é um estranho
    que te salta ao caminho.

    Sorri e dá-lhe os bons-dias,
    que é acto de educação,
    e se o empurras sem querer
    pede-lhe logo perdão.

    No balcão onde te atende
    sempre o mesmo senhor
    diz-lhe que bolo é que queres
    sem esquecer o “por favor”.

    Para entrares numa sala
    deves dizer “com licença”
    depois de bater à porta
    para anunciar a presença.

    Pede desculpa se desces
    a escada a três e três,
    sobretudo se a pressa
    te faz pisar quem não vês.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Pouco barulho – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Pouco barulho

    Numa sessão de cinema,
    mesmo num filme de acção,
    não fales alto no escuro
    aproveitando a confusão.

    Os outros têm direitos
    que os seus bilhetes lhes dão
    e não gostam do ruído
    da falta de educação.

    Os meninos ruidosos
    lá para fora devem ir
    só para não prejudicarem
    quem se está a divertir.

    Se levares o telemóvel,
    não te esqueças de o desligar
    pois ninguém é obrigado
    a tê-lo no escuro a tocar.

    E para abuso já basta,
    em terra mal-educada,
    ver adultos que atendem
    como se não fosse nada.

    Cessa a tua liberdade
    se a dos outros prejudicas;
    vê bem como te comportas
    nesse lugar em que ficas.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Viver com os outros tem regras – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Viver com os outros tem regras

    Na casa em que vives
    marca bem o teu lugar
    e pensa que o dos outros
    nunca deves ocupar.

    Tens tarefas para cumprir
    e delas deves dar conta;
    uma coisa não se faz
    só porque a queres ver pronta.

    Divide bem as tarefas
    que tens com os teus irmãos;
    se a divisão estiver certa,
    ainda vos sobram mãos.

    Sobra tempo para brincar
    depois do dever cumprido,
    sobra tempo para sonhar
    se o tempo for bem gerido.

    E não deixes para amanhã
    o que hoje podes fazer;
    aquilo que agora adias
    dar-te-á menos prazer.

    Não sejas desarrumado
    com roupas e com cadernos;
    tarefas que tu desleixas
    para outros são infernos.

    Não deites pelas janelas
    para depois se apanhar
    o lixo que tu produzes
    e que nem tentas limpar.

    Viver com outros tem regras
    que agora irás aprender;
    se hoje sem querer as negas,
    muito mal hás-de crescer.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Bons modos à mesa – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Bons modos à mesa

    Em casa ou no restaurante,
    numa qualquer refeição,
    usa bem os talheres
    e não comas com a mão.

    E evita a algazarra
    que por vezes lá se instala
    não sobrepondo o ruído
    ao prazer que dá a fala.

    E presta bem atenção
    a uma coisa elementar:
    começa só a comer
    quando o mais velho começar.

    Há coisas que nos distinguem
    do reino dos animais
    e uma boa educação
    nunca há-de estar a mais.

    Deseja bom apetite
    a quem te faz companhia,
    que essa frase é um convite
    para que reine a harmonia.

    Ser educado à mesa
    não é questão de estatuto;
    não se educa com riqueza
    a criança ou o adulto.

    Cuida bem dos dentes – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Cuida bem dos dentes

    Não há saúde que dure
    se for má a dentição;
    lava os dentes com cuidado,
    com paciência e atenção.

    Antes de te deitares,
    mesmo com o sono a chegar,
    pega na escova e na pasta
    com que os dentes vais lavar.

    Deixa os dentes bem lavados
    em todas as direcções
    e verás que assim evitas
    as cáries e as infecções.

    Antes de ires para a escola
    o mesmo deves fazer,
    não dando tréguas aos males
    que os dentes fazem doer.

    E no final das refeições,
    se os puderes ir lavar,
    não adies esses cuidados
    que os dentes te hão-de salvar.

    Nestas questões o desleixo
    tem uma factura elevada
    e não há nada mais feio
    que uma boca desdentada.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Mãozinhas bem lavadas – J. J. Letria

    Não posso voltar a fazer estas asneiras…

    Mãozinhas bem lavadas

    Antes de te sentares
    na mesa onde vais comer
    há por certo um cuidado
    que em todo o lado deves ter.

    É um cuidado normal
    de que te hás-de lembrar:
    quem se senta para comer
    primeiro as mãos vai lavar.

    Assim evitas doenças
    que podem contagiar;
    a água com o sabão
    não se deixa enganar.

    Seja qual for o micróbio
    que te queira ameaçar,
    se cuidares da higiene
    bem o podes derrotar.

    As mãozinhas bem lavadas
    são um modo salutar
    de pores a saúde à mesa
    em que agora te vais sentar.

    José Jorge Letria
    Porta-te bem!
    Porto, Ambar, 2003

    Pi-shu, o pequeno panda

     

    Pi-shu, o pequeno panda

    Nas encostas da Montanha Amarela, na China, uma mãe panda fazia festas à sua cria. Escondida no tronco oco de uma velha árvore, lavava-a e alimentava-a com o seu leite quentinho, enquanto o filhote se aninhava contra o seu pelo suave e espesso. O nome da cria era Pi-shu e o seu tamanho não era maior do que uma das manchas que rodeavam os olhos da mãe.

    Tinha nascido com uma caudazinha cor-de-rosa, que desapareceria quando crescesse. A mãe, Fei-fei, achava-o o panda mais bonito que já vira.

    Pi-shu nunca era deixado sozinho durante muito tempo e Fei-fei embalava-o com frequência nos seus braços fortes.

    À medida que o filhote se transformava numa bolinha peluda, Fei-fei costumava transportá-lo às costas. Quando tinha seis meses, começou a andar sozinho e a copiar a mãe mastigando bambu, cujo gosto amargo gostava de sentir na boca. Três meses mais tarde, deixaria de mamar.

    Por volta do seu primeiro aniversário, já Pi-shu era forte e aventureiro. Em toda a parte via coisas com que brincar… árvores para trepar… rãs que saltavam quando ele as cheirava… ratazanas que jogavam às escondidas dentro e fora das tocas.

    Um dia, quando as tempestades do início do Inverno se fizeram sentir nas montanhas, Pi-shu viu um bando de macacos no cimo das árvores. Seguiu-os, enquanto saltavam graciosamente de ramo em ramo.

    Ia atrás deles o mais depressa que podia. Nunca tinha ido tão longe e, à medida que caminhava por entre os fetos densos, apercebeu-se de um cheiro que o fez hesitar. O cheiro provinha de um barulho de que não gostava, acompanhado por vozes que lhe eram estranhas.

    Pi-shu estacou quando um baque tremendo fez estremecer o chão que pisava. Caíra uma árvore. Espreitando por entre os fetos espessos, viu, com espanto, que estava na orla da floresta. As árvores tinham sido todas abatidas para dar lugar a plantações de arroz e milho, e havia homens a abaterem mais árvores para arranjar lenha para as fogueiras do Inverno. Assustado, Pi-shu correu em busca da mãe.

    Passou por entre a vegetação rasteira, apavorado com a ideia de se ter perdido, e chegou a uma pequena clareira, onde quase esbarrou com uma takin, que pastava com a sua cria. Olharam-se fixamente até que Pi-shu fugiu dali, em busca da mãe.

    Quando Pi-shu encontrou Fei-Fei, esta viu que o filho estava muito assustado. Soube logo que esta zona da floresta já não era segura e que era tempo de saírem dali.

    Na manhã seguinte, bem cedo, mãe e filho partiram, subindo colinas sem cessar, até que alcançaram o topo de um planalto envolto em brumas. O seu pelo oleoso mantinha-os quentes, mas passar por cima das rochas escorregadias não era tarefa fácil, especialmente para o pequeno Pi-shu.

    Sem nada para comer, e com as primeiras neves a cair em torno deles, mãe e filho atravessaram o prado a caminho do próximo vale, onde encontraram um pequeno bosque de bambus. O local parecia sossegado e tranquilo. Aninhados contra um rochedo duro e frio, dormiram o melhor que podiam.

    Acordaram no dia seguinte, no meio de uma manto de neve, e desceram devagar a encosta íngreme que conduzia ao vale. Enquanto desciam, iam alimentando-se de bambus.

    Era já noite quando atingiram o sopé da montanha. Encontraram um riacho de água cristalina mesmo junto de uma pequena mata de bambus. Comeram até à saciedade e adormeceram, contentes, enquanto caía a noite.

    Pi-shu gostaria de encontrar a sua própria casa quando crescesse e de subir as suas próprias montanhas. Por ora, porém, não mudaria nada na sua vida, nem em troca de todo o bambu da China.

     

    John Butler
    Pi-shu, the little panda
    London, Orchard Books, 2001
    tradução e adaptação

    Pog e os passarinhos

     

    Pog e os passarinhos

    Era um dia igual aos outros. O gato Pog estava sentado, quieto como uma estátua, a ver os passarinhos voar.

    — Bom dia! — disse Pog, saudando um dos passarinhos.

    Este agitou as asas e aterrou junto dele. Pog olhou-o fixamente: nunca tinha visto um pássaro tão corajoso.

    O passarinho começou a cantar. Pog achou que aquela melodia era a mais bela que alguma vez ouvira.

    O gato fechou os olhos e pôs-se a escutar, deliciado.

    Um a um, foram chegando mais pássaros, que começaram a cantar, por sua vez. Em breve, Pog estava rodeado de música.

    E estava feliz.

    — Olá! — saudou Peg, um outro gato, chegando junto dele. — Queres brincar?

    — Está bem — concordou Pog, sorrindo.

    — Podemos caçar ratos — sugeriu Peg.

    — Não vi nenhuns — confessou Pog.

    — Olha um passarinho! — exclamou Peg.

    — Este pássaro canta para mim — contou Pog.

    — Vamos caçá-lo! Vai ser divertido — propôs Peg.

    Pog pensou um pouco.

    — Está bem — assentiu, sorrindo.

    E saltaram ambos sobre o pássaro, que guinchou e voou dali.

    — Isto é divertido — riu Pog.

    — Vamos ver se há mais — sugeriu Peg.

    E foram em busca dos pássaros. Perseguiram-nos o dia todo.

    — Já não vejo mais nenhuns — queixou-se Peg.

    — Devem ser horas de ir para casa — disse Pog.

    Na manhã seguinte, Pog estava novamente sentado, à espera de que o passarinho fosse cantar para ele.

    — Bom dia! — saudou quando o viu.

    A avezinha não lhe prestou atenção.

    Chamou todos os pássaros, um a um, mas todos passaram por ele sem lhe prestarem atenção.

    Quando Peg chegou, Pog estava muito triste.

    — Os pássaros já não vêm ter comigo! — exclamou.

    — Claro que vêm! — assegurou Peg.

    Tentaram chamá-los juntos, mas nenhum apareceu.

    — Não passam de pássaros — desdenhou Peg. — Esquece-os e vem brincar comigo.

    — Não, não vou. Adoro pássaros e quero que cantem para mim — disse Pog.

    E sentou-se de novo quieto como uma estátua.

    O sol nasceu e pôs-se e Pog continuava sentado.

    Finalmente, o passarinho veio ter com ele. Pog ficou hirto, sem se atrever a mexer.

    — Desculpa — disse ao passarinho. — Nunca mais te assustarei.

    A ave começou a cantar. Mas, de repente, Peg saltou sobre ela.

    — Assustaste a minha amiga — queixou-se Pog.

    — Desculpa — disse Peg.

    — Ela tinha vindo cantar para mim.

    — Achas que ela também pode cantar para mim? — perguntou Peg.

    — Talvez, mas tens de ficar quieto como uma estátua — disse Pog.

    Peg tentou.

    — A tua cauda está a mexer — sussurrou Pog.

    — Desculpa — disse Peg.

    Finalmente, o passarinho aproximou-se.

    — Não te mexas! — murmurou Pog.

    A ave começou a cantar.

    — Que som maravilhoso — suspirou Peg.

    Aproximaram-se mais alguns pássaros e, em breve, Pog e Peg estavam rodeados de melodias esplêndidas.

    — Nunca mais vamos caçar passarinhos — decidiu Pog.

    — Nunca — concordou Peg.

    — Só caçaremos ratos!

     

    Jane Simmons
    Pog and the birdies
    London, Orchard Books, 2004
    Tradução e adaptação

    O presente

    O presente

    De todos os ovos da Páscoa que Jacob pintou com cascas de cebola, sobrou um, o mais bonito. Jacob corre a casa de Catarina para lho mostrar. Catarina está no pátio a deitar nas floreiras sementes de salsa.

    — Cati, Cati! — grita Jacob — Olha! Nunca viste um ovo tão bonito como este!

    — Olha tu! — grita Catarina, mas Jacob já tinha tropeçado na pá e no saco da terra. O ovo cai-lhe das mãos e parte-se.

    — Que pena! — diz Catarina. — Devia ser um bonito ovo!

    — Oh, o ovo mais bonito de todos! — lamenta-se Jacob. — Ah… estou tão zangado! Gaquicravutchi! Gaquicravutchi!

    — O que é que estás para aí a dizer? — pergunta Catarina enquanto apanha do chão o ovo partido.

    Gaquicravutchi — responde Jacob. — Acabei de inventar esta palavra para fazer desaparecer a minha raiva.

    Gaquicravutchi… Tem graça… — diz Catarina.

    — Podes ficar com ela, se quiseres – diz Jacob.

    — Ofereço-ta. A tua mãe ralha sempre contigo de cada vez que dizes “porcaria”.

    — Ofereces-me a tua Gaquicravutchi?

    — Podes dizê-la sempre que estiveres zangada — responde Jacob.

    Catarina fica a pensar.

    — Também tenho uma prenda para ti, Jacob… mas tens de fazer pouco barulho. Anda!

    Leva Jacob até à cerca e aponta para o pátio do vizinho.

    — Baixa-te, que já vais ver — murmura.

    Jacob dobra-se e olha na direcção do indicador de Cati e vê um pequeno arbusto de glicínias. Na bifurcação de um dos ramos está um ninho com um passarinho a chocar os ovos.

    — Descobri-o hoje — diz Catarina. — E agora tu também já sabes onde ele está. Esta é a minha prenda para ti.

    — Obrigada! É uma prenda bonita de se ver!

    Tradução e adaptação

    Lene Mayer-Skumanz (org.)
    Jakob und Katharina
    Wien, Herder Verlag, 1986
    Texto adaptado

    Já pensaste que…

    Já alguma vez pensaste
    que é bom ter olhos
    para ver o mundo

    e ouvidos

    para ouvir os outros

    e boca
    para dizer tudo aquilo
    que dizemos

    e pernas
    para nos levar
    onde somos precisos

    e mãos
    para ajudar
    os que delas precisam

    e braços
    para estreitar os outros
    num abraço

    e ombros
    para que alguém neles
    recline a cabeça fatigada

    e cérebro
    para pensar em ajudar os outros

    e coração
    para sentir as coisas
    que nem sempre compreendemos
    imediatamente

    Já alguma vez pensaste
    como tudo isto é maravilhoso?

    Leif Kristianson
    Já pensaste que…
    Lisboa, Editorial Presença, 1981