A briga entre Paulo e Sebastião

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Paulo vive numa roulote verde com cortinas azuis.
Sebastião vive num apartamento azul com cortinas verdes.
E todas as manhãs se encontram a caminho da escola e vão pelo mesmo passeio.

Na sala de aula, sentam-se na mesma carteira e, ao lanche, Sebastião come a salsicha de Paulo e Paulo come o chocolate de Sebastião.
E todas as quartas-feiras se encontram num terreno baldio, entre o apartamento azul de Sebastião e a roulote verde de Paulo, perto de um campo onde se veem, por vezes, rebanhos de ovelhas, carneiros e cordeiros.
Paulo e Sebastião brincam aos índios, às escondidas e à apanhada, brincam aos astronautas, às aventuras na selva, e inventam outros jogos.

Estamos no inverno. Continuar a ler

A três não há frio!

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A três não há frio

Chegou o inverno e está muito frio. Em casa de Piquepique, o ouriço-cacheiro, o aquecimento não funciona.
Ainda por cima, como já é de noite, o eletricista só amanhã é que poderá vir arranjá-lo.
De repente alguém bate à porta:
Truz, truz.
― Quem é? ― pergunta Piquepique.
― Sou eu, o teu vizinho Quebra-Nozes… o esquilo! Não tenho aquecimento. Podes albergar-me por esta noite?
― Oh, meu amigo, o meu aquecimento também não funciona! Estava mesmo a pensar ir passar a noite a tua casa! Mas entra, entra, és muito bem-vindo. Assim já somos dois e podemos aquecer mais ― responde Piquepique. Continuar a ler

Milly e Molly e os barulhos da quinta – slideshare descarregável

Pode ver esta e outras histórias AQUI

os barulhos da quinta

Era Primavera. As ovelhas do senhor Horácio estavam prontas para terem cordeirinhos.
— Acho que a Branquinha vai ser a primeira — disse ela. — Tem de passar a noite no celeiro.
— Não se vai sentir sozinha? — perguntou Milly.
— Nunca — respondeu o senhor Horácio. — Um celeiro é o sítio mais agitado do mundo durante a noite.
— Podemos fazer companhia à Branquinha? — perguntou Molly.
— Podem — respondeu o senhor Horácio — mas não vão conseguir dormir.
Milly, Molly e a ovelha Branquinha aconchegaram-se no feno para passarem a noite.

A História da Vaca Glória

 

Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes,  pelos grossos e duros e  pés pesados. Continuar a ler

Voando para casa

Félix é um pássaro azul e amarelo proveniente do Brasil que vive com a família Baxter em Nova Iorque. A sua nova casa é uma enorme gaiola colocada junto de uma janela do 40º andar que a família habita.

Félix gosta dos Baxter e os Baxter gostam dele. Alimentam-no, falam com ele e apresentam-no a todos os seus amigos. Mas o pássaro não se sente feliz, porque quer regressar ao Brasil.

Todas as noites, Félix contempla o céu e observa a cidade inteira. Apesar de ser um lugar grande e excitante, não é a sua casa, embora seja o lar da família. O pássaro recorda as luas grandes e amarelas do Brasil, e lembra-se do último dia que passou na selva. Dos dois homens com chapéus brancos, da caixa grande, da longa viajem de avião, e da loja nova-iorquina chamada “O Paraíso das Aves”.
Félix fecha os olhos, deixa de ver a cidade e a neve e, diante de si, surgem as imagens da vida que levava e amava.
Quero ir para junto da minha família, pensa. Quero voar para casa, ir para a selva. Lá faz sempre calor e as árvores são verdes durante todo o ano.
Coloca a cabecita debaixo de uma asa e diz em voz alta:
— Um dia, um dia…
“Um dia” surge duas semanas depois. O Senhor Baxter abre a gaiola para dar de comer a Félix e ouve o telefone tocar.
— Podes atender, George? — pergunta a Senhora Baxter. — Estou a tomar banho.
— Está bem — responde o marido.
Quando o Senhor Baxter vai atender o telefone, deixa a gaiola aberta. Ao ver a oportunidade por que tanto ansiou, o pássaro voa para fora do andar. E, embora o ar seja frio e uma voz chame por ele, Félix não volta atrás. Continuar a ler

O pequeno Pai Natal

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Num lugar muito, muito longe, para norte, onde os primeiros flocos de neve caem quando ainda é verão, encontra-se, muito bem escondida, a aldeia onde moram os pais natais. Nessa aldeia, vivia outrora um pequeno pai natal que andava sempre muito impaciente pela chegada do Natal. Ele era sempre o primeiro a ir buscar o seu pinheirinho à grande floresta. Sempre o primeiro a limpar o trenó, a engraxar as botas e a sacudir o fato. Continuar a ler

Pi-shu, o pequeno panda

 

Pi-shu, o pequeno panda

Nas encostas da Montanha Amarela, na China, uma mãe panda fazia festas à sua cria. Escondida no tronco oco de uma velha árvore, lavava-a e alimentava-a com o seu leite quentinho, enquanto o filhote se aninhava contra o seu pelo suave e espesso. O nome da cria era Pi-shu e o seu tamanho não era maior do que uma das manchas que rodeavam os olhos da mãe.

Tinha nascido com uma caudazinha cor-de-rosa, que desapareceria quando crescesse. A mãe, Fei-fei, achava-o o panda mais bonito que já vira.

Pi-shu nunca era deixado sozinho durante muito tempo e Fei-fei embalava-o com frequência nos seus braços fortes.

À medida que o filhote se transformava numa bolinha peluda, Fei-fei costumava transportá-lo às costas. Quando tinha seis meses, começou a andar sozinho e a copiar a mãe mastigando bambu, cujo gosto amargo gostava de sentir na boca. Três meses mais tarde, deixaria de mamar.

Por volta do seu primeiro aniversário, já Pi-shu era forte e aventureiro. Em toda a parte via coisas com que brincar… árvores para trepar… rãs que saltavam quando ele as cheirava… ratazanas que jogavam às escondidas dentro e fora das tocas.

Um dia, quando as tempestades do início do Inverno se fizeram sentir nas montanhas, Pi-shu viu um bando de macacos no cimo das árvores. Seguiu-os, enquanto saltavam graciosamente de ramo em ramo.

Ia atrás deles o mais depressa que podia. Nunca tinha ido tão longe e, à medida que caminhava por entre os fetos densos, apercebeu-se de um cheiro que o fez hesitar. O cheiro provinha de um barulho de que não gostava, acompanhado por vozes que lhe eram estranhas.

Pi-shu estacou quando um baque tremendo fez estremecer o chão que pisava. Caíra uma árvore. Espreitando por entre os fetos espessos, viu, com espanto, que estava na orla da floresta. As árvores tinham sido todas abatidas para dar lugar a plantações de arroz e milho, e havia homens a abaterem mais árvores para arranjar lenha para as fogueiras do Inverno. Assustado, Pi-shu correu em busca da mãe.

Passou por entre a vegetação rasteira, apavorado com a ideia de se ter perdido, e chegou a uma pequena clareira, onde quase esbarrou com uma takin, que pastava com a sua cria. Olharam-se fixamente até que Pi-shu fugiu dali, em busca da mãe.

Quando Pi-shu encontrou Fei-Fei, esta viu que o filho estava muito assustado. Soube logo que esta zona da floresta já não era segura e que era tempo de saírem dali.

Na manhã seguinte, bem cedo, mãe e filho partiram, subindo colinas sem cessar, até que alcançaram o topo de um planalto envolto em brumas. O seu pelo oleoso mantinha-os quentes, mas passar por cima das rochas escorregadias não era tarefa fácil, especialmente para o pequeno Pi-shu.

Sem nada para comer, e com as primeiras neves a cair em torno deles, mãe e filho atravessaram o prado a caminho do próximo vale, onde encontraram um pequeno bosque de bambus. O local parecia sossegado e tranquilo. Aninhados contra um rochedo duro e frio, dormiram o melhor que podiam.

Acordaram no dia seguinte, no meio de uma manto de neve, e desceram devagar a encosta íngreme que conduzia ao vale. Enquanto desciam, iam alimentando-se de bambus.

Era já noite quando atingiram o sopé da montanha. Encontraram um riacho de água cristalina mesmo junto de uma pequena mata de bambus. Comeram até à saciedade e adormeceram, contentes, enquanto caía a noite.

Pi-shu gostaria de encontrar a sua própria casa quando crescesse e de subir as suas próprias montanhas. Por ora, porém, não mudaria nada na sua vida, nem em troca de todo o bambu da China.

 

John Butler
Pi-shu, the little panda
London, Orchard Books, 2001
tradução e adaptação

Pog e os passarinhos

 

Pog e os passarinhos

Era um dia igual aos outros. O gato Pog estava sentado, quieto como uma estátua, a ver os passarinhos voar.

— Bom dia! — disse Pog, saudando um dos passarinhos.

Este agitou as asas e aterrou junto dele. Pog olhou-o fixamente: nunca tinha visto um pássaro tão corajoso.

O passarinho começou a cantar. Pog achou que aquela melodia era a mais bela que alguma vez ouvira.

O gato fechou os olhos e pôs-se a escutar, deliciado.

Um a um, foram chegando mais pássaros, que começaram a cantar, por sua vez. Em breve, Pog estava rodeado de música.

E estava feliz.

— Olá! — saudou Peg, um outro gato, chegando junto dele. — Queres brincar?

— Está bem — concordou Pog, sorrindo.

— Podemos caçar ratos — sugeriu Peg.

— Não vi nenhuns — confessou Pog.

— Olha um passarinho! — exclamou Peg.

— Este pássaro canta para mim — contou Pog.

— Vamos caçá-lo! Vai ser divertido — propôs Peg.

Pog pensou um pouco.

— Está bem — assentiu, sorrindo.

E saltaram ambos sobre o pássaro, que guinchou e voou dali.

— Isto é divertido — riu Pog.

— Vamos ver se há mais — sugeriu Peg.

E foram em busca dos pássaros. Perseguiram-nos o dia todo.

— Já não vejo mais nenhuns — queixou-se Peg.

— Devem ser horas de ir para casa — disse Pog.

Na manhã seguinte, Pog estava novamente sentado, à espera de que o passarinho fosse cantar para ele.

— Bom dia! — saudou quando o viu.

A avezinha não lhe prestou atenção.

Chamou todos os pássaros, um a um, mas todos passaram por ele sem lhe prestarem atenção.

Quando Peg chegou, Pog estava muito triste.

— Os pássaros já não vêm ter comigo! — exclamou.

— Claro que vêm! — assegurou Peg.

Tentaram chamá-los juntos, mas nenhum apareceu.

— Não passam de pássaros — desdenhou Peg. — Esquece-os e vem brincar comigo.

— Não, não vou. Adoro pássaros e quero que cantem para mim — disse Pog.

E sentou-se de novo quieto como uma estátua.

O sol nasceu e pôs-se e Pog continuava sentado.

Finalmente, o passarinho veio ter com ele. Pog ficou hirto, sem se atrever a mexer.

— Desculpa — disse ao passarinho. — Nunca mais te assustarei.

A ave começou a cantar. Mas, de repente, Peg saltou sobre ela.

— Assustaste a minha amiga — queixou-se Pog.

— Desculpa — disse Peg.

— Ela tinha vindo cantar para mim.

— Achas que ela também pode cantar para mim? — perguntou Peg.

— Talvez, mas tens de ficar quieto como uma estátua — disse Pog.

Peg tentou.

— A tua cauda está a mexer — sussurrou Pog.

— Desculpa — disse Peg.

Finalmente, o passarinho aproximou-se.

— Não te mexas! — murmurou Pog.

A ave começou a cantar.

— Que som maravilhoso — suspirou Peg.

Aproximaram-se mais alguns pássaros e, em breve, Pog e Peg estavam rodeados de melodias esplêndidas.

— Nunca mais vamos caçar passarinhos — decidiu Pog.

— Nunca — concordou Peg.

— Só caçaremos ratos!

 

Jane Simmons
Pog and the birdies
London, Orchard Books, 2004
Tradução e adaptação

O papá urso foi embora

O papá urso foi embora

Naquela manhã, quando os três ursinhos traquinas acordaram da sua noite castanha, quiseram, como todos os dias, andar às cambalhotas, às cavalgadas e às cabriolas no lombo do papá urso.

Era para todos uma grande brincadeira ouvirem o pai a fingir que ralhava, meio a rosnar, com a sua voz de urso:

— Ai se vos apanho, seus ursinhos traquinas!

Nós, ursos, só temos o fim-de-semana para dormir. E o pai urso fingia que lhes dava um sopapo, um bofetão e uma grande patada. Os ursinhos traquinas fartavam-se de rosnar e rolavam no chão de tanto rir, o que era até uma maneira de massajarem as vértebras.

Mas, naquela manhã, quando os três ursinhos acordaram, encontraram a cama vazia e a mãe já a pé, olhando tristemente pela janela, como na história da princesa dos cabelos de ouro.

Mas aquilo não era nenhum conto de fadas.

— O vosso pai foi embora — disse a mãe ursa fungando.

E foi logo para a cozinha fazer crepes com mel.

— Ai sim? — pensaram os ursinhos. — Deve ter ido buscar o mel e o jornal. E algumas ervas para o almoço. E fazer as compras da semana.

E… esperaram todo o dia… Quando a noite estendeu o seu manto de estrelas, compreenderam que o pai urso não voltaria para casa naquela noite. Teria ido hibernar para outro lado? Para a Sibéria? Para onde o mel é mais aromático? Os ursinhos tinham perdido o ar traquina, à força de tanto fazerem perguntas. Teria encontrado no caminho alguma princesa encantada? É assim que entre os ursos se fala dos pais que se vão embora para seguirem um outro caminho, a Ursa Maior, por exemplo.

— Alguns partem para encontrar um pouco mais de fantasia, outros, para tomar ar durante um ou dois meses. Mas nunca ninguém foi embora por causa de um, de dois ou até de três ursinhos traquinas — respondeu-lhes de imediato a mãe ursa.

Se ela sentia vontade de dizer mal do pai urso, a verdade é que nunca o fez.

— Ele gosta muito de vós, sente imenso a vossa falta, eu sei — disse-lhes, olhando-os com os seus olhos castanhos orlados de vermelho.

Os dias continuavam a passar sem voltarem atrás.

Na toca, a vida já não era como dantes. Já não havia aquela voz grossa a acordá-los de manhã, nem aquelas grandes patas que os levavam à escola pela mão. Um pai, quando falta, faz muita falta. Os pêlos da barba mal cortados, as mãos grandes e quadradas, a voz grossa a ralhar, a barriga do pai urso que mexia quando ele se punha a rir, o cheiro a tabaco, os seus bocejos ruidosos que faziam tremer as paredes da toca, e até as grandes cóleras e as grandes zangas.

Os três ursinhos teriam dado tudo para receberem as boas palmadas do costume. Com as mães, a vida é cheia de doçura, de carinho, mas falta, sem dúvida, um pouco de força e de surpresa. Ninguém se atrevia a dizê-lo, mas era o que toda a gente pensava. Até que chegou uma altura em que se deixou de falar no assunto. Nunca mais se pronunciou a palavra “papá”. Sobretudo, porque bastava pronunciar uma só palavra iniciada por “pa” para que os olhos da mãe ursa começassem a ficar perigosamente vermelhos.

Deixaram então de dizer muitac oisa: “papá”, “papagaio”, “papaia”, “papar”, “paparico”, “paparoca”, mas também a palavra “paradoxo”, “parágrafo” e “passado”. Muitas palavras existiam começadas por “pa”! Na toca, deixou de se pronunciar uma grande parte do dicionário.

De tanto, tanto se esperar, o rosto do pai urso começou a ficar menos nítido aos olhos dos ursinhos traquinas. Nos seus sonhos, ele transformou-se no Peter Pan, no Rei Leão, em muitas outras personagens. O rosto do papá urso que ralhava desvanecia-se pouco a pouco.
Um dia, contudo, após tão longa espera, chegou uma carta à toca dos ursinhos traquinas. Depois daquela aventura, já havia passado muito, muito tempo, tanto, que um outro pai urso tinha ido viver lá para casa, os ursinhos tinham regressado às suas lendárias travessuras e os olhos da mãe ursa nunca mais tinham ficado vermelhos.

— Ursinhos! Venham depressa! Uma carta do vosso pai! — gritou a mãe ursa, que conhecia bem a ligação dos três ursinhos ao pai.

Meus três ursinhos queridos, escrevia o pai urso, sinto muito a vossa falta. Apareço sábado para vos visitar e espero que me perdoem. Só quero ver-vos e fazer-vos papas, papinhas, paparicos e paparocas. Contem comigo sábado de manhã.

Havias de ver a alegria dos três ursinhos traquinas. Porque eles sabiam muito bem que, mesmo que o pai urso não voltasse a viver na toca, o amor entre um pai e os seus ursinhos traquinas dura toda uma vida: toda uma vida de “palavras” a dizer, de “paparocas” a comer e de “passados” a refazer!

Uma noite barulhenta

Uma noite barulhenta

Estávamos a meio da noite e o Ratão dormia profundamente na sua grande cama.

O Ratinho estava ainda acordado na sua caminha.

“Ratão! Ratão!” chamou o Ratinho. “Estou a ouvir alguma coisa lá fora a uivar e a soprar.”

O Ratão abriu um olho e um ouvido.

“É apenas o vento” disse ele.

“Posso ir para a tua cama?” pediu o Ratinho.

“Não,” disse o Ratão. “Não há espaço para os dois.”

Virou-se para o outro lado e voltou a adormecer.

O Ratinho ficou deitado a ouvir o vento. Mas, de repente, por entre um uivar e um sopro, ouviu um…

TOC TOC TOC

O Ratinho desceu da cama, abriu a porta — mas só um bocadinho —, e espreitou lá para fora.

UUUuuu! continuava o vento, mas não viu ninguém lá fora.

“Ratão! Ratão!” chamou o Ratinho. “Estou a ouvir passos. Talvez esteja um ladrão no telhado.”

O Ratão levantou-se da cama e abriu as cortinas do quarto. “Olha,” disse ele, “é apenas um ramo a bater na janela. Volta para a tua cama.”

“Não posso ir para a tua?” perguntou o Ratinho.

“Não,” disse-lhe o Ratão, “tu mexes-te muito”.

O Ratinho ficou deitado na sua cama a ouvir o uivar do vento e o toc-toc do ramo a bater, quando alguém chamou,

“TUUUUUU! TUUUUUU!”

O Ratinho levantou-se outra vez. Desta vez foi espreitar debaixo da cama. Depois foi ver no armário e, sentindo-se muito assustado, gritou: “Ratão! Ratão! Penso que há um fantasma cá em casa, e anda à minha procura. Está sempre a chamar, tuuuuu, tuuuuuu!”

O Ratão suspirou e sentou-se na cama à escuta. “E apenas um Mocho,” disse o Ratão, “também está acordado, como tu.”

“Posso deitar-me na tua cama?” perguntou o Ratinho.

“Não,” respondeu o Ratão, “as tuas patas estão sempre frias.”

E o Ratão meteu-se debaixo dos cobertores e voltou a adormecer.

O Ratinho voltou para a cama e ficou ali deitado a ouvir o vento a soprar, o ramo a fazer toc-toc e o mocho a piar.

Mas… chhhiu!

Que barulho foi este?

“Ratão! Ratão! Estou a ouvir pingar. É um pinga-pinga. Deve estar a chover cá dentro.”

E o Ratinho saltou da cama e foi buscar o seu chapéu de chuva vermelho.

O Ratão levantou-se também da cama. Abriu a porta de casa e disse: “Cala-te, vento. Não faças barulho, ramo. Canta mais baixo, mocho.” Mas nenhum lhe deu atenção. Então o Ratão foi até à cozinha, fechou a torneira que pingava e arrumou o chapéu de chuva.

“Posso ir para a tua cama?” pediu o Ratinho.

“Não, ficas mais confortável e quentinho na tua própria cama, disse o Ratão, enquanto o levava ao colo para o quarto.

O Ratinho ficou deitado na cama a ouvir o vento a uivar, o ramo a fazer toc-toc e o mocho a piar. E quando já começava a sentir muito sono, ouviu de repente…

“ROOONC, ROOONC; ROOONNC!”

“Ratão! Ratão!” chamou o ratinho. “Estás a ressonar.”

Cansado, o Ratão levantou-se. Pôs os seus tapa-orelhas nos ouvidos do Ratinho. Pôs um clip no seu próprio nariz e voltou para a sua cama.

O Ratinho deitou-se e ficou a escutar… Nada! Estava tudo muito, muito, muito silencioso. Não conseguia ouvir o vento a uivar, nem o ramo a fazer toc-toc na janela, nem o mocho a piar e nem sequer o Ratão a ressonar. Estava tudo tão silencioso que o Ratinho sentiu que estava sozinho no mundo.

Tirou o tapa-orelhas dos ouvidos. Levantou-se da cama e tirou o clip do nariz do Ratão.

“Ratão! Ratão!” gritou, “sinto-me muito só!”

O Ratão afastou os cobertores.

“Está bem, vem lá para a minha cama,” disse ele. Então o Ratinho deitou-se junto dele. As suas patinhas estavam muito frias… e precisou apenas de umas poucas voltas na cama para adormecer profundamente.

O Ratão ficou ali deitado a ouvir o vento a uivar, o ramo a fazer toc-toc, mocho a piar e o Ratinho a fungar, e, pouco depois, ouviu os pássaros a acordar. Mas nem o Ratinho nem o Ratão ouviram o despertador tocar…

PORQUE ESTAVAM OS DOIS A DORMIR PROFUNDAMENTE!

Diana Hendry
Uma noite barulhenta
Lisboa, Minutos de Leitura, 2001

A noite de Natal

A noite de Natal do pequeno rei

Acorda, pequeno rei!
Estremunhado, o pequeno rei esfrega os olhos e senta-se na cama. Nisto bate com o nariz num lenço atado na ponta de um fio que pende do tecto.
— Ah, o lenço! De que é que não me queria esquecer?
Tu querias abrir a porta, pequeno rei.
O pequeno rei desliza descalço até à porta do quarto.
— Está bem assim? — pergunta, abrindo a porta.
Não, não é uma porta qualquer. É uma especial, a última! Pensa, pequeno rei!
— Já sei! — Corre para a biblioteca e pára em frente de um quadro.
Até que enfim! Estás no local certo.
O pequeno rei abre a última portinha do calendário do Advento, a do número 24. Bate palmas entusiasmado, e já está completamente acordado.
— Oh, que maravilha! Então hoje é Noite de Natal! Será que a árvore já está feita? Vamos lá ver.
Aos saltos de contente, dirige-se à porta da sala e tenta rodar a maçaneta da porta. Está fechada à chave.
O pequeno rei espreita pelo buraco da fechadura.
Nada de espiar, pequeno rei! Esta porta só se abre quando o sino tocar.
— Então ainda tenho de esperar muito tempo! Tempo de mais, até!
O pequeno rei dá meia volta e corre em direcção à porta da entrada.
Ei! Onde é que tu vais? Ainda estás em pijama!
— Está bem, pronto, eu visto-me primeiro.
Após alguns minutos, já está lá fora a esbracejar.
— Estão aqui rastos de trenó! Ah, apanhei-o! Está aqui!
O Pai Natal está aqui, na minha sala!
É possível. De certeza que está a preparar tudo para a Noite de Natal.
— Oh, tenho de ver isso! — exclama o pequeno rei, correndo para a janela. — Talvez consiga ver alguma coisa pelo lado de fora.
Tem paciência, pequeno rei.
— Ora, deixa-me em paz! Eu quero saber tudo, tudinho!
Com cuidado, o pequeno rei põe-se em bicos de pés para chegar ao parapeito exterior da janela. Mais acima! Mais um bocadinho… Zum! A persiana desce.
Aí está! Tem mesmo de ser uma surpresa.
Agora, o pequeno rei sente-se ofendido.
— Assim não, querido Pai Natal! Eu não deixo que me ponham de fora!
Sai dali a correr e desaparece na arrecadação.
Em que é que estás a pensar desta vez? Acalma-te. Até à distribuição dos presentes, o tempo passa depressa.
O pequeno rei não responde. Em vez disso, sai da arrecadação, arrastando pela neve uma escada enorme, que encosta contra o muro do palácio.
Pára com isso imediatamente!
Sobe para o telhado e senta-se diante da chaminé. Também tem uma cana de pesca com ele.
— Agora, vou pescar algumas bolachas de Natal. No meu palácio, eu faço o que quero.
E deixa cair o fio de pesca pela chaminé abaixo. Depois, dá à manivela e volta a puxar.
— Hurra! Uma estrela de canela! humm, destas é que eu gosto. Vamos lá repetir de novo.
O pequeno rei pesca mais bolachas de Natal.
— Oh, uma bolachinha de baunilha! Que maravilha! Que delícia! Este lugarzinho é mesmo um esconderijo calmo e escondido. Um lugarzinho com muitas bolachinhas, ah,ah,ah!
Felicíssimo, o pequeno rei põe-se a dar saltos e a rir.
Isso não tem graça nenhuma, pequeno rei. E não andes assim aos saltos, presta atenção. Cuidado! Oh, não! Escorregou, já não consigo vê-lo!
O pequeno rei escorrega do telhado, cai ruidosamente sobre um monte de neve e, em seguida aterra-lhe em cima neve do telhado. Já não se vê mais nada dele.
Onde estás, pequeno rei? Ainda estás vivo? Responde!
Mas ninguém responde. Em frente do palácio só está um boneco de neve.
Ei, boneco de neve, sabes onde está o pequeno rei?
— Enterrado — responde o boneco de neve. E grita depois: — Ajuda-me, Grete!
Vem aí o cavalo preferido do pequeno rei. Fareja o boneco de neve e empurra-o ligeiramente:
— Hiiii!!
Oh! O pequeno rei está escondido dentro do boneco de neve ! Grete, ele está a bater os dentes! Vai enregelar cá fora na neve.
— E…est… está mm… mui…to fffrio .
Grete agarra o pequeno rei pela ponta das calças e leva-o para o estábulo. Deita o amigo com cuidado na manjedoura e cobre-o com palha.
— Ah, Grete, que amorosa que tu és – suspira satisfeito o pequeno rei.
Olha, vem aí mais alguém. O esquilo Arbustinho trouxe-te uma noz.
— É muito boa.
E o cão Au-Au dá-te o seu osso preferido.
O pequeno rei arregala os olhos.
— Bem, talvez mais tarde, para a sopa.
O gato trouxe-te um cobertor e o Piu Piu vai cantar-te uma canção.
— Que simpático! E é tão natalício!
Muito bonito, até parece um presépio de Natal: palha na manjedoura, o boi e o burro ao lado…
— Como? – o pequeno rei e a Grete fazem uma cara de indignados.
Bem… não: o rei e o cavalo. Ainda tens frio?
— Está melhor. É quentinho e faz coceguinhas boas. É agradável.
Dlim-dlão! Grete e o pequeno rei esticam os pescoços.
O sino de Natal está a chamar para a distribuição das prendas.
Dlim-dlão.
Com um salto, o pequeno rei sai da manjedoura.
— Ah, até que enfim! Agora vai começar.
Com mais calma, pequeno rei.
Corre para o palácio direito à árvore de Natal. Que bonita está! Ainda mais do que no ano passado. Todas as velas ardem, a grinalda reluz, e nos ramos estão penduradas figurinhas de madeira e bolachinhas redondas.
— E aqui estão as prendas.
Há também um prato com bolachas em cima da mesa posta. Hum, que bem que cheira o assado de Natal.
O pequeno rei mete à boca uma bolacha e abre a primeira caixa.
— Estou tão nervoso. O que haverá lá dentro? Oh, um jogo de xadrez novo.
Ei, alguém bate à porta. Ora vê quem está à janela: os teus amigos do estábulo. Eles também estão curiosos.
O pequeno rei abre outra prenda sem prestar atenção ao que lhe dizem.
— Ah, deixa-me em paz, tenho de desembrulhar as prendas.
O que haverá dentro desta caixa? Oh, um lenço com um nó!
— Mas isto não é nenhuma prenda a sério! Será que me tornei a esquecer de alguma coisa?
Com certeza! Afinal querias abrir uma porta! A porta mais importante do Natal. Tu já sabes…
O pequeno rei ri:
— Claro, um rei sabe sempre tudo!
Corre para a porta principal e abre-a. Todos os animais estão na entrada e olham-no com expectativa. Pouco tempo depois, já todos estão sentados a comer debaixo da árvore de Natal.
— Ora prova lá esta bolacha com açúcar!
— Hiiii.
— Miaauuu.
— Claro que podes comer as da árvore!
Todos riem, estão felizes e dividem entre si as bolachas e o assado.
Bom, então um feliz Natal a todos!

Hedwig Munck
Der kleine König: neue Geschichten
 mit der kleinen Prinzessin
Plauen, Junge Welt, 2002
Tradução e adaptação

Um Natal muito especial

Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio.

Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite.

— O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita.

— Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas.

— Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita.

— E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela.

A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura.

Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuraram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca.

— É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore!

Mas a boneca já tinha dono.

— Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha!

— Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.

O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças, junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado.

Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta.

— Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita.

Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou…

Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.

— Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal.

Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo.

Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.

— É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante!

Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.

— Essas cerejas são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio.

— Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo.

A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma cereja e a levasse com ela.

O sol começava a pôr-se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa clareira, encontraram uma árvore verde muito grande.

— A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita.

E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a cereja.

— Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi.

Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.

A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes.

— Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa.

Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direcção à floresta.

Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa.

Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes.

— Oh, vejam aquilo! — exclamou.

Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão.

— A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz.

E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

Christine Leeson
Um Natal muito especial
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2006

Setembro

Julho

  • Os amigos não se abandonam amizade
  • Os negociantes de velharias comportamentos-rectidão-continuar história
  • Os ratos da Ópera morte-saudade
  • Quando eu era rapaz medo
  • Quando eu tinha medo do escuro medo
  • Quando os olhos da noite mudam de sítio medo
  • Querido Greenpeace natureza-animais
  • Que idade tens?
  • Quem é quem? 
  • Remorso natureza-comportamento
  • Ricos ou pobres? família
  • Ser irmão mais velho nascimento
  • Ser pai 
  • Tenho inveja 
  • Tenho medo 
  • Tenho um tigre imaginação
  • Um farol só meu saudade
  • Um rapazinho como tu 
  • Um urso à caça natureza-respeito pelos animais
  • Uma mãe como o vento morte-amizade
  • Uma nova casa mudança-integração
  • Uma prenda para o Menino Jesus Natal-responsabilidade
  • Uma visita fora do normal continuar história – hospitalidade
  • Vês aquela árvore ali? amizade-crianças-diferença (invisuais)
  • Viva o Outono – Outono/avôs-netos
  • Um, dois, três… soninho!

    Esta noite, Carneirinho não tem fome, só tem muito sono. Passou o dia inteiro a brincar, a correr e a saltar por todo o lado, e agora, sentado na sua cadeirinha, adormeceu com o nariz em cima do prato dos espinafres.

    A mãe pega nele ao colo com muito cuidado para não o acordar e leva-o para o quarto.

    Muito devagar, deita o Carneirinho na cama, mas ele acorda e abre os olhos.

    — Não tenho sono nenhum! Eu ainda quero brincar mais!

    A mãe explica que são horas de dormir e que os brinquedos também precisam de descansar. Beija-o com muita ternura e deseja-lhe, assim como ao seu ursinho, sonhos bonitos.

    Carneirinho encolhe os ombros. Como é que há-de de sonhar se não tem sono? E tenta convencer a mãe:

    — Por favor, deixa-me brincar só mais um bocadinho…

    A mãe acaricia-lhe a cabeça cheia de caracóis:

    — Para seres um carneiro grande como o teu pai, lindo e cheio de força, precisas de ter sono. Tu bem sabes que dormir faz crescer. Vamos fazer um jogo: fechas os olhos e imaginas um rebanho de cordeirinhos brancos muito alegres, a saltarem uma cancela, uns atrás dos outros. Quando o décimo carneiro tiver saltado, já estás a dormir.

    Carneirinho faz como a mãe disse. Fecha os olhos, apertando as pálpebras com força, e espera.

    Primeiro, não acontece nada. De repente, aparece a espreitar à janela a cabeça de um cordeiro branco, com um gorro vermelho e cara de brincalhão. Com um ar intrigado, espreita para dentro do quarto e pergunta:

    — Olha, deixas-me entrar?

    — Com certeza — responde Carneirinho, surpreendido.

    O cordeirinho branco de gorro vermelho salta para o tapete. Corre para a arca dos brinquedos, abre a caixa dos cubos e começa a construir uma torre muito alta.

    Ainda não tinha acabado, quando um segundo cordeiro branco bate à janela.

    — Também posso entrar? — pergunta.

    — Claro — responde Carneirinho, já sem se admirar.

    Este cordeiro traz calçadas umas lindas botas amarelas de borracha. Levanta as pernas e salta com destreza para dentro do quarto. Corre, decidido, para a arca dos brinquedos e tira um jogo de construções.

    Enquanto escolhe as peças e hesita entre construir uma casa, um avião, ou uma nave espacial, um terceiro cordeirinho branco mostra a ponta do focinho atrás do vidro.

    — Entra — diz Carneirinho — faz de conta que estás em tua casa.

    Este cordeiro é mais desastrado e estatela-se em cima do tapete. Catrapumba! A torre de cubos desmorona-se debaixo dele. Estonteado, pega num livro para se recompor.

    Enquanto vira as páginas, um quarto cordeiro pula para dentro do quarto, mesmo sem ser convidado. Pega no violino e põe-se a tocar uma música endiabrada.

    Imediatamente a seguir, surge o quinto, de cartola, muito elegante. Logo depois, o sexto aterra suavemente, com um guarda-chuva verde a servir de pára-quedas.

    O sétimo cordeiro traz um cachecol garrido; o oitavo já está preparado para saltar, e o nono não deve estar longe, porque o décimo já está a chegar.

    Num piscar de olhos, dez cordeiros brancos, dez cordeirinhos alegres e despreocupados, andam às voltas no quarto. Dez cordeirinhos traquinas andam aos pinotes pelo quarto todo. Estes malandros põem o comboio eléctrico a andar, jogam ao berlinde, à bola ou à cabra-cega, organizam corridas de carros e concursos de saltos de obstáculos.

    O cordeiro número quatro toca sem parar no violino dourado, e os números nove e dez, fazem uma barulheira infernal.

    Que algazarra! Carneirinho já está farto.

    — Parem com isso! — grita ele. — Chega! Não consigo dormir com esta barulheira!

    Dez cabeças encaracoladas viram-se para ele:

    — Méé, méé, méé! Foste tu que nos chamaste. Tens de saber o que queres!

    — Quero dormir — diz Carneirinho — se não nunca mais vou ser grande e forte como o meu pai.

    Então, em silêncio, os alegres cordeirinhos brancos desaparecem um a um pela janela, da mesma forma que vieram, à excepção do primeiro, o do gorro vermelho, que fica para trás:

    — Sabes para onde foram? — pergunta Carneirinho.

    — Para o país dos sonhos — responde o cordeiro do gorro vermelho. — Vem, eu levo-te para lá também.

    Carneirinho dá a pata ao cordeiro branco, que a aperta com muita força, e voam pela janela fora em direcção ao céu estrelado. Voam tão rápido e para tão longe, que se confundem com duas estrelinhas a brilhar na noite.

    Antes de se deitar, a mãe de Carneirinho vem dar-lhe um último beijo. Quando entra no quarto, em bicos de pés, fica muito admirada ao ver os brinquedos espalhados pelo chão. Porém, Carneirinho dorme profundamente, com um gorro vermelho na cabeça. Em cima da colcha, um raio de luar faz brilhar o seu violino dourado…

    Anne-Isabelle le Touzé
    Un, deux trois, sommeil!
    Paris, Actes Sud, 1998
    Tradução e adaptação

    A boneca e o cavalo branco

    Era uma vez uma fada que morava numa casa feita de nuvem por detrás das montanhas brancas. Essa fada apanhava os brinquedos que os meninos deitavam fora.
    — Pobre cavalinho — disse, ao descobrir o pequeno cavalo branco caído no chão. — Vem comigo para minha casa. Quero cuidar de ti. Precisas de uma perna nova, de ferraduras, uma sela e arreios novos.
    A fada penteou-lhe as crinas e escovou-lhe o pêlo até ele voltar a brilhar.
    — E agora — disse — tens de conhecer os teus novos amigos.
    — Boa tarde! — disse a boneca.
    — Boa tarde! — disse também a raposa.
    — De onde é que tu vens? — rugiu o urso.
    — Um menino deitou-me fora — respondeu o cavalinho branco.
    — A mim foi uma menina que me deixou ficar à chuva — disse o urso.
    — Eu fiquei esquecida na praia! — exclamou a boneca.
    — A mim, um menino perdeu-me na rua — disse a raposa.
    Mas a fada sentia-se triste.
    “A minha casa não é suficientemente grande para todos os brinquedos do mundo deitados fora, esquecidos e perdidos”, pensava ela.
    — Temos de consolá-la! — disse o cavalinho. — Afinal, ela salvou-nos a todos.
    — Exactamente! — disseram também o urso, a raposa e a boneca. — Temos de fazer alguma coisa.
    — Eu conheço um prado com flores de estrelas — disse o cavalinho branco. — Podemos ir lá colher um ramo para a fada.
    — Isso pode ser perigoso — disse a raposa. — O campo das flores é vigiado pela noite negra.
    — Eu não tenho medo nenhum — disse o cavalinho branco.
    — Eu também não tenho medo — disse a boneca, pondo a capa vermelha. Sentou-se em cima do cavalo e saíram os dois a galope.
    A raposa abanava a cabeça.
    — Eu conheço a noite — disse ela e, às escondidas, foi atrás deles.
    — Eu — disse o urso — prefiro ficar em casa.
    No campo das flores, o sol brilhava.
    — Oh, que flores tão lindas! — exclamou a boneca, começando a colher o ramo. O cavalo branco descobriu erva tensa e água no ribeiro. Estavam tão entretidos, que se esqueceram do que a raposa lhes tinha dito.
    De repente, diante deles, ergueram-se umas grandes asas negras.
    — Quem está a tirar as minhas flores? — disse uma voz ameaçadora.
    Era a noite.
    A boneca e o cavalo branco quiseram fugir, mas já era tarde de mais. A noite tinha engolido não só as flores mas também o cavalo branco.
    A boneca desatou a chorar e chamava por socorro. Apareceu então a raposa.
    — Não tenhas medo — disse ela. — Eu conheço a noite. Ela parece perigosa, mas nós conseguimos ser mais fortes do que ela. Aliás, nem é preciso ter medo. Ela só nos cobre com as suas asas negras para nos deixar sonhar à vontade.
    A boneca pensou na fada e na casa feita de nuvem, e o medo fugiu, juntamente com a noite. Ouviu então um tilintar suave. O cavalinho branco estava de volta e, no prado, as flores começaram novamente a florir.
    O cavalinho branco, a raposa e a boneca regressaram a casa de madrugada. A fada esperava-os à porta.
    — Estava à vossa espera — disse ela.
    A boneca estendeu-lhe o ramo. A fada ficou muito contente e tomou-os a todos nos braços.

    Max Bolliger, Helge Aichinger
    Die Puppe auf dem Pferd
    Zürich/München, Artemis Verlag, 1975
    Texto adaptado

    Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

    bemol-saltitante.JPG

    O ratinho Bemol Saltitante adorava música. Por isso, vivia dentro de um piano. Era um lugar amplo, elegante e quentinho, mas o que mais lhe agradava era que todos os dias podia ouvir música durante horas.

    O dono do piano era um pianista que adorava a sua profissão, pelo que passava dias inteiros a tocar e tocar. Sonatas, rapsódias, partitas e outras peças de música ecoavam na enorme sala, e escapavam pelas janelas.

    Bemol gostava de se sentar num cantinho tranquilo ao fundo da caixa de ressonância e desfrutar das baladas de amor.

    Gostava também de dançar entre os abafadores quando o pianista tocava uma marcha.

    O pianista estava radiante com o seu piano. Tinha um som estupendo e, surpreendentemente, não o afinava havia anos. O que o pianista não sabia era que, durante as noites, o pequeno Bemol se encarregava de esticar e afinar as cordas e de limpar o pó que se acumulava entre as teclas. Bemol gostava de ter a sua casa em boas condições.
    Algumas noites, o ratinho divertia-se a patinar sobre a tampa do piano, outras passava-as lendo e decorando as partituras que o pianista deixava sobre a estante.

    Os outros ratos que viviam na casa consideravam Bemol um louco. Em vez das pequenas frestas nas paredes, das caixas no sótão ou dos livros ao fundo da biblioteca, preferia viver num piano. Isso era de doidos. Além de que o risco de ser descoberto pelo pianista era enorme e, se tal acontecesse, o homem saberia que tinha ratos em casa, o que seria uma desgraça para todos.

    O Conselho dos Ratos reuniu-se para tratar do assunto e pôr na ordem o rato rebelde.

    — Bemol Saltitante — disse o rato mais velho da casa. — É decisão deste conselho que, a partir desta mesma noite, abandones o piano como tua residência. Pões toda a comunidade em risco e isso não podemos permitir. De modo que terás de viver aqui connosco.

    Bemol tentou argumentar, mas o ancião interrompeu-o:

    — Bemol, não se fala mais nisto, já está decidido. Contudo, preparámos-te uma das caixas mais cómodas da cave. É de madeira e está cheia de novelos de lã. Além disso, encontra-se na última prateleira, um óptimo sítio. Se queres ser um membro desta comunidade, terás de aceitar a nossa decisão.

    Bemol podia estar louco, mas era um bom ratinho, de maneira que aceitou aquela decisão, pensando no bem de todos.

    A caixa não podia ser melhor, cómoda e bem situada. Como forma de lhe desejarem as boas-vindas, outros ratos tinham-lhe deixado três pedacinhos de queijo. Mas Bemol estava triste, e como lhe fazia falta o seu piano!

    Na primeira noite comeu um bocadinho de queijo e, com os outros dois, fez uns tampões para os ouvidos. Funcionou, não ouviu nada toda a noite e depressa adormeceu.

    No dia seguinte, quando lhe deu a fome, comeu um dos tampões de queijo.

    Devagarinho, as notas de uma preciosa melodia que chegavam da sala de música foram entrando pelo seu ouvido direito. Bemol sentiu uma imensa vontade de correr em direcção ao som, mas cerrou os dentes e tapou a orelha com a mão. Assim passou o dia inteiro, com uma mão e um pedaço de queijo a tapar os ouvidos.

    Ao terceiro dia, Bemol comeu o último pedaço de queijo e, assim, ficou sem tampões. Logo chegaram aos seus ouvidos, dos confins da sala de música, as primeiras notas da Fantasia Kortakowsky, sem dúvida a obra musical mais bela e complexa alguma vez escrita para piano.

    A sua primeira reacção foi tapar de novo as orelhinhas, mas, sem querer, começou a trauteá-la. Primeiro retirou uma mão, depois a outra e, sem poder evitá-lo, desatou a correr escada acima em direcção à sala de música.

    Atravessou vários tabiques, subiu pela canalização e chegou até uma pequena fresta na parede da sala de música. E ali estava o pianista, a interpretar aquela peça maravilhosa.

    — Tenho de chegar ali — pensou Bemol.

    E, sem sequer parar para pensar, desatou a correr em direcção ao piano, arriscando-se a ser descoberto.

    Mas Bemol teve sorte e chegou aos enormes pés do piano sem ser visto. O pianista estava concentrado, movendo vertiginosamente as mãos sobre as teclas. O ratinho trepou pelo piano e escondeu-se mesmo atrás da estante. Esse seria o lugar indicado para desfrutar do concerto. Que belo regresso a casa, na primeira fila a ouvir a Fantasia Kortakowsky.

    A música era cada vez mais complexa; o pianista via-se e desejava-se para chegar a todas as teclas. O pequeno Bemol continuava atrás da estante, movendo os seus dedinhos sobre um teclado imaginário. Até que chegou o último andamento, o mais complicado. Nenhum pianista, depois de Kortakowsky, tinha sido capaz de o interpretar correctamente. Bemol respirou fundo e preparou-se para escutar a parte final. As notas multiplicaram-se por dez, cada vez mais rápidas, cada vez mais belas.

    E, então, já no fim da escala mais difícil, aconteceu: uma nota fora de lugar soou como o chiar de uma porta no meio da melodia.

    — Maldição! Não é assim! — gritou o pianista, dando um soco no teclado. — Jamais conseguirei alcançar estas notas.

    Bemol ficou imóvel, cruzando os dedos enquanto repetia a escala mentalmente. Então, o pianista respirou fundo e disse:

    — Está bem, vou tentar mais uma vez. E começou de novo o último andamento.

    As suas mãos foram acariciando as teclas cada vez mais depressa. Em boa verdade, pareciam montes de borboletas voando enlouquecidas. Bemol, com os dedos cruzados, pensava em cada nota, em cada tecla, mesmo antes de o pianista as tocar. E, então, voltou a acontecer: duas notas trocaram de sítio e o resultado foi um som tão desagradável como um puxão de orelhas. Desta vez foi Bemol quem gritou:

    — Maldição! — E, de imediato, tapou a boca assustado. Todavia o pianista não o ouvira. Tinha começado a deambular pela sala, murmurando aborrecido. Além disso, a voz dos ratos não é lá grande coisa.

    O homem voltou a sentar-se, sussurrando:

    — Muito bem, última tentativa.

    Bemol continuava escondido, mas, quando as notas começaram a soar, não conseguiu conter-se. O pianista estava quase a chegar ao mesmo compasso que o fizera falhar e foi então que o ratinho saiu detrás da estante e, com um salto certeiro, foi cair exactamente sobre a nota que o pianista não conseguira alcançar.

    Bemol não acreditava no que acabara de fazer. Estava em cima de uma tecla, de olhos tapados, à espera que um murro o fizesse em puré e, o que seria pior, acabara de pôr em sério risco os outros ratos. No entanto, perante a sua surpresa, o homem falou:

    — Muito bem, ratinho! Importavas-te de repetir?

    Bemol concordou rapidamente com um aceno de cabeça. O pianista começou novamente a tocar e o pequeno roedor saltava e saltava sobre as teclas exactas no momento certo.

    Assim estiveram toda a tarde, tocando a dois, a peça mais complicada e bela alguma vez escrita para piano. Então, o homem compreendeu o segredo da Fantasia Kortakowsky: havia sido escrita para ser tocada por um pianista e um rato. E assim o fizeram a partir de então.

    Então, o músico deixou de tocar e o ratinho pensou que seria o seu fim.

    De modo que, se alguma vez tiverem a sorte de assistir a um recital de piano, prestem bem atenção ao ratinho que salta de tecla em tecla entre as mãos do pianista. Assim saberão que estão a tocar a Fantasia para Pianista e Rato de Kortakowsky.

    António Amago
    Bemol Saltitante, um ratinho ao piano
    Matosinhos, Quidnovi Editora, 2006

    Os amigos não se abandonam

    A gatinha da Antónia desapareceu. Não estava em cima da árvore, nem na caleira da água, nem por debaixo da tábua de passar.

    — Se calhar anda à caça na cave — sugeriu a mãe.

    — De certeza que está a dormir no sótão — disse o pai.

    — Será que foi para o céu? — perguntou-se a avó, preocupada.

    — Vou procurá-la — disse a Antónia. — Se calhar aconteceu-lhe alguma coisa. E os amigos não se abandonam.

    Só que na cave havia apenas bicicletas e, no sótão, sobretudo pó. A gatinha continuava desaparecida.

    — Então vou procurá-la no céu — decidiu Antónia.

    E pôs-se a caminho.

    Antónia passou por uma cabeça no ar e perguntou-lhe:

    — Sabes onde está a minha gata?

    A cabeça estava com muita pressa para chegar a casa e nem olhou para Antónia.

    — Mal-educada — resmungou ela, continuando a andar.

    Pouco depois, encontrou o polidor do sol ocupado a puxar o lustro a um raio de sol embaciado. Ele acenou-lhe com o pano do pó.

    — Ah! Visitas, que bom! — exclamou alegremente. — Aproxima-te, minha filha!

    — Ando à procura da minha gata. Pode ajudar-me? — pediu Antónia.

    O polidor parou para pensar.

    — Não, não vi a tua gata.

    A rajada de vento dobrou a esquina a correr e a silvar.

    — Sabes onde está a minha gatinha? — perguntou-lhe Antónia, tão alto quanto pode.

    — Nem vi gatos nem vi galos — silvou a rajada. E fugiu dali abanando o leque. Antónia ainda ouviu, vindo de longe:

    — Pergunta depressa ao vento!

    — Podes perguntar-lhe agora mesmo. Cacei-o e meti-o dentro da manga — disse-lhe o Catavento por detrás dela.

    — Viste a minha gatinha? — perguntou Antónia.

    O Catavento espreitou para dentro da manga. Lá de dentro saíram sopros e assobios.

    — Aqui não está nenhuma gata, lamento. Mas vou estar atento e, se a vir, digo-te.

    — Obrigada. Ela é minha amiga e eu estou preocupada porque não a encontro em nenhum lado — explicou Antónia.

    Mais adiante, estava alguém sentado e, à sua volta, rodopiavam flocos de neve. Trabalhava com uma faca fina e aguçada e ia contando em voz baixa.

    — O que está a fazer?

    — 1232. Estou a cortar cristais — explicou o talhador de cristais. — 1233 cristaizinhos de gelo. Todos diferentes. Nenhum é igual ao outro.

    E continuava a contar.

    — 1234, 1235… nem de mais, nem de menos — observou. — Tudo tem de ter a sua ordem.

    Deitava carinhosamente o resultado do seu trabalho para um montinho que ia crescendo ao seu lado.

    — Compreendo-te — prosseguiu ele, concentrado no seu trabalho. — Os amigos não se talham. São raros, não caem do céu, como os cristais de neve. Mas, infelizmente, não vi a tua gatinha. 1236, 1237…

    Antónia concordou num aceno de cabeça e continuou o seu caminho.

    Caído do céu, surgiu à sua frente o atirador de raios. Estava de cócoras a fazer pontaria por entre duas pequenas nuvens. Um raio reluziu e, em seguida, chegou-lhes ao nariz um forte cheiro a enxofre.

    — Trovãozinho, onde estás? — gritou o atirador, já impaciente.

    — Já vou! — respondeu uma voz.

    Ouviu-se um ribombar e um trovejar fraco. De seguida alguém tossiu.

    — Desculpe, constipei-me! Aqui há tantas correntes de ar — queixou-se o trovão, rouco. — Às vezes, o ribombar não sai — acrescentou, cabisbaixo.

    E depois espirrou.

    — Raios e coriscos, que aborrecimento! — resmungou o atirador de raios. — Eu aqui a esfalfar-me com os meus raios, e não consegues fazer nenhum barulho de jeito. E tu? — perguntou, virando-se para Antónia. — Por acaso não sabes trovejar e ribombar?

    — Não, acho que não — desculpou-se Antónia. — Só vim à procura da minha gata.

    O atirador de raios pôs-se a pensar.

    — Conheço carneirinhos de nuvens e castelos no ar — respondeu. — Aqui, os gatos não são lá muito bem-vindos.

    Pegou no raio seguinte e começou a dobrá-lo meticulosamente.

    — Mas ela é minha amiga… — disse Antónia em voz baixa.

    O dia passou pela calada da noite puxando a noitinha pela mão.

    — Já chega por hoje! — murmurava ele.

    Atrás de si arrasta-se o anoitecer. O lusco-fusco agita-se, impaciente.

    — Já está a chegar a noite e eu sem ter encontrado a minha gata — lamenta-se Antónia.

    — Pois é, temos de prestar atenção aos amigos — observou a noite. — Eles não aparecem da noite para o dia.

    — Eh, ó lua! — chamou. — Viste a gatinha da Antónia?

    A lua revirou os olhos.

    — Não sei. De noite todos os gatos são pardos… — e perguntou, dirigindo-se ao guardião de estrelas: — Viste uma gata por aí?

    O guardião de estrelas agitou o bastão no ar. Nos seus lugares, a Ursa Maior e a Ursa Menor pararam de brincar, o Touro mugiu, o Sagitário deu um salto e os Peixes emudeceram.

    O acendedor de estrelas passou então, e todos começaram a brilhar.

    O guardião contou rapidamente as cabeças do seu rebanho.

    — Estão aqui todos e não há nenhum a mais.

    Virou-se para Antónia e disse-lhe:

    — A tua gata não está no céu. Vê antes na Terra. Tu vais voltar a encontrar a tua amiga, li nas estrelas — consolou-a.

    E, triste, Antónia seguiu pela estrada de Santiago até casa.

    Diante da porta da cozinha estava, enroscada, uma gata que ergueu a cabeça e bocejou.

    — Por onde andaste este tempo todo? — perguntou-lhe Antónia, num tom um tanto ou quanto admoestador.

    — Fui caçar ratos. Quando voltei, não te encontrei e pensei que te tinha acontecido alguma coisa. Então resolvi ir à tua procura. Os amigos nunca se abandonam.

    Sigrid Laube; Silke Leffler

    Freunde läßt man nicht im Stich

    Wien, Annette Betz Verlag, 2003

    Texto adaptado

    A história da gata Sapinha

    Inácio Pignatelli

    O pastor de nuvens e outras histórias

    Lisboa, Editorial Verbo, 1985

    A ternura é assim como uma coisa que se sente quando olhamos para alguém ou nos olham de um modo muito carinhoso, quando dizemos ou nos dizem palavras amigas iguais às que esperávamos, quando nos fazem, por exemplo, uma festa no cabelo. A mãe que aperta o filho pequenino nos braços fá-lo com ternura. Ou, quando a um canto do recreio vemos um amigo com ar triste e o vamos buscar, lhe pomos a mão nos ombros e o trazemos para que não esteja sozinho nem triste, isso é ternura. Uma palavra muito bonita.

    A ternura é assim como uma daquelas fadas das histórias que ouvimos contar e ficamos a pensar se existe. Daquelas que com um toque de varinha mágica tudo mudam. Mas a ternura existe mesmo, é uma fada real. Se quiséssemos desenhá-la, teríamos de desenhar uma rapariga pequena, porque a ternura dá muita importância às coisas pequeninas que só se vêem se uma pessoa estiver com muita atenção. Se não, não se vê nada. Por isso, ela tem os olhos muito abertos, os ouvidos à escuta e na boca um sorriso. Ternura.

    Tudo isto para vos contar esta história. É que foi com certeza a pensar na ternura, nessa pequena fada tão importante na nossa vida, que o Miguel, um dia de manhã, no quarto dos pais (ele costumava todos os dias ir até lá um bocadinho), disse para a mãe:

    — Sabes, mãe, eu gostava de ter era um bichinho de pêlo.

    A mãe achou muita graça àquilo e ao mesmo tempo ficou admirada, e o pai que estava a dormitar ouviu também.

    — Um bichinho de pêlo?! Para que é que tu queres um bichinho de pêlo?

    Mas o Miguel não explicou logo.

    — Sim — disse ele —, eu gostava tanto! Um bichinho de pêlo só para mim.

    O Miguel morava no terceiro andar de um prédio alto, um desses prédios de cimento, e tinha mais cinco irmãos além de outros quatro que não moravam ali. Era muita gente, mas davam-se todos muito bem. O que é, é que o Miguel era o mais pequeno, tinha só nove anos, e fazia uma grande diferença dos outros que tinham 16… 17… 19… 21… E por isso, com essa gente de muitos mais anos, nem sempre era fácil conversar. Mas com um bichinho de pêlo, pequeno como ele…, pensava o Miguel.

    A mãe contou aos outros irmãos o desejo do Miguel e todos acharam graça. E os dias passaram, até que o Acaso (o Acaso é assim um senhor que não se vê mas que intervém às vezes na nossa vida, sobretudo se desejamos muito uma coisa e pensamos nela) interveio.

    Um dia, ao fim da tarde, estava a mãe do Miguel na cozinha a preparar o jantar e as irmãs no quarto a prepararem as lições para o dia seguinte, quando sorridente o Miguel entrou em casa seguido dos amigos, o To, o Paulo e o Paulito. Vinham todos afogueados de correr e ao mesmo tempo entusiasmados, pois traziam com eles um gato muito pequeno e magricela de pêlo castanho e olhinhos verdes.

    — Mãe! Mãe! — chamou o Miguel.

    — Que é? — disse a mãe, vindo à sala ter com ele.

    — Olha o que nós encontrámos! — e mostrava a mão que segurava o gato. Ao princípio a mãe zangou-se:

    — Não vais trazer isso aqui para casa, pois não? Já tenho muito que limpar e o gato ainda daria mais trabalho.

    A mãe dava aulas e ainda tinha de arrumar a casa e fazer o comer. Mas o Miguel, todo contente com o seu achado, pediu, pediu: «Ele não suja! — disse. — Deixa lá, mãe» teimou, e até os amigos pela voz do Tó (o Tó tinha em tempos escrito um postal ao Miguel a dizer que ele era o seu melhor amigo, que a seguir vinham o Paulo e o Paulito, mas que não tinha últimos amigos) intercederam junto à mãe do Miguel:

    — Nós ajudamos a tratar dele. Limpamos o que ele sujar.

    E perante esta embaixada tão insistente, as sobrancelhas da mãe do Miguel ergueram-se e ela sorriu. E o Miguel sabia bem o significado daquele sorriso, isto é, foi logo arranjar um pratinho de leite para o gato. Um bichinho de pêlo.

    E o gato ficou. «É uma gata — explicava o Miguel às irmãs — e chama-se Sapinha.» Elas riram-se «Sapinha! Ela que se livrasse de ir para o nosso quarto sujar!», ainda disse a irmã do meio. Mas o Miguel não ligou. Ele sabia que iria proteger o seu bichinho de pêlo. Ao princípio, a Sapinha tinha medo das pessoas e metia-se debaixo dos móveis. Não se atrevia a deitar a cabeça de fora e era preciso ir lá buscá-la. Estava num meio estranho, desconhecido. Foi preciso dar-lhe um banho para que o seu pêlo castanho ficasse limpo, cor de mel, e papo branco. Mas a pouco e pouco, com os mimos todos que lhe faziam, foi ganhando confiança e conhecendo os cantos à casa e os olhos às pessoas. Gostava de ir para a varanda, empoleirar-se ao sol no parapeito, a olhar para baixo para o pátio ou para as casa e campos em frente, a cheirar as sardinheiras dos vasos, a seguir o voo das moscas. Tudo o que mexia era para ela motivo de atenção. Punha-se logo em posição de ataque, de pernas duras a preparar o salto. À noite o Miguel levava-a para a sua cama que era no cimo de um beliche, fazia-lhe festas sem fim a que ela correspondia com lambidelas amigas e depois ficava enroscada aos pés da cama. A casa mergulhava então no silêncio, o irmão mais velho apagava a luz e o Miguel podia ver os olhos brilhantes da Sapinha no escuro.

    Na zona onde morava o Miguel muitas vezes faltava a água. Horas e horas. E a água era muito precisa para lavar e cozinhar. Uma noite, alguém deixou uma torneira aberta e a água encheu a banheira, transbordou, e saindo do quarto de banho ameaçava inundar o resto da casa. Ora a Sapinha, com os seus olhinhos de ver no escuro, pressentiu o perigo e pôs-se a miar, a miar, e a esfregar as patas na cara do irmão mais velho, que dormia por baixo do Miguel no beliche, até que ele acordou. A Sapinha continuava a miar e a mexer-se.

    «Que é que quer a gata?», pensou ele. Levantou-se e viu que a água, inundando o corredor, entrava já pela frincha da porta do quarto e correu a fechar a torneira. Foi o que valeu.

    A Sapinha tinha evitado uma inundação e por isso ganhou fama de bichinho esperto. O Miguel contou aos seus amigos, o To, o Paulo e o Paulito e a toda a vizinhança o que a Sapinha tinha feito e o caso foi muito falado. A Sapinha era uma heroína.

    Um dia, a senhora Graça, mulher-a-dias que ia às vezes fazer serviço de limpeza lá em casa, disse para a irmã mais velha:

    — Sabe, menina?, a gata não é uma gata, é um gato.

    Era verdade.

    Quando o Miguel soube disto ficou muito triste. Ele acostumara-se a chamar-lhe Sapinha, o bichinho de pêlo só para si. Agora um gato! E durante algum tempo queria que as irmãs continuassem a chamar-lhe gata Sapinha, senão não deixava ninguém pegar-lhe. Mas depois pensou, pensou e disse para si: «Gato ou gata, que interessa se é um bichinho de pêlo?!»

    Era de novo a ternura, aquela fada real de que vos falei no princípio desta história, aqui sob a forma dum gato cor de mel e papo branco e de um menino que queria ter um bichinho de pêlo só para si, mas que aparece muitas vezes na nossa vida, sob outras formas se nós quisermos. E ainda bem, porque a ternura faz muita falta.

    Querido Greenpeace

    Simon James

    Dear Greenpeace

    London, Walker Books, 2005

     

    1 de Junho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Gosto muito de baleias e acho que hoje vi uma no meu lago. Por favor, envia-me informações sobre baleias. Penso que ela pode estar ferida.

    Beijos,

    Emily

    8 de Junho de 2005

    Querida Emily,

    Aqui vão algumas informações sobre baleias. Penso que vais dar-te conta de que o que viste não foi uma baleia. As baleias não vivem em lagos; vivem em água salgada.

    Um abraço,

    Greenpeace

    15 de Junho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Todos os dias, antes de ir para a escola, ponho sal no lago. Ontem à noite, vi a minha baleia sorrir. Penso que se sente melhor. Achas que pode estar perdida?

    Beijos,

    Emily

    23 de Junho de 2005

    Querida Emily,

    Não ponhas mais sal na água, por favor. Penso que os teus pais não ficarão contentes.

    Creio que não vive nenhuma baleia no teu lago, porque as baleias não se perdem. Sabem sempre orientar-se nos oceanos.

    Um abraço,

    Greenpeace

    2 de Julho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje sinto-me muito contente porque vi a minha baleia saltar e esguichar imensa água. Parecia azul.

    Será que se trata de uma baleia azul?

    Beijos,

    Emily

    P.S. Como posso alimentá-la?

    8 de Julho de 2005

    Querida Emily,

    As baleias azuis são azuis e alimentam-se de pequenos seres, parecidos com camarões, que vivem no mar. Mas devo avisar-te de que as baleias azuis são grandes demais para viverem em lagos.

    Um abraço,

    Greenpeace

    P.S. Será um peixinho azul?

    20 de Julho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Ontem à noite, li a tua carta à minha baleia. Quando acabei, ela deixou-me acariciar-lhe a cabeça. Foi muito emocionante.

    Em segredo, levei-lhe algumas migalhas de pão e flocos de cereais já mastigados. Hoje olhei para o lago e tinham desaparecido!

    Vou chamar-lhe Oriana. O que te parece?

    Beijos,

    Emily

    29 de Julho de 2005

    Querida Emily,

    Devo insistir no facto de que uma baleia não poderia viver no teu lago. Talvez não saibas que as baleias são animais migratórios, o que significa que viajam muitos quilómetros por dia.

    Lamento desapontar-te.

    Um abraço,

    Greenpeace

    3 de Agosto de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje estou um pouco triste. A Oriana foi-se embora. Penso que percebeu a tua carta e decidiu voltar a ser migratória.

    Beijos,

    Emily

    15 de Agosto de 2005

    Querida Emily,

    Não estejas triste, por favor. Era mesmo impossível que uma baleia vivesse no teu lago. Quando fores mais velha, talvez queiras navegar nos oceanos connosco, para poderes estudar e proteger as baleias.

    Um abraço,

    Greenpeace

    23 de Agosto de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje foi o dia mais feliz da minha vida. Fui até à beira-mar e vi a Oriana! Chamei-a e ela sorriu. Sei que era a Oriana porque deixou-me acariciar-lhe a cabeça.

    Dei-lhe um bocado do meu pão… e depois despedimo-nos.

    Disse-lhe que gostava muito dela e que tu também gostavas. Espero que não te importes.

    Beijos,

    Emily (e Oriana)

    Uma prova de amor

    Uma Prova de Amor

    Num dia radioso de Verão, a Cigarrinha Mili teve uma ideia: preparar uma linda festa.

    — Eu canto, toco guitarra e o Besouro toca rabecão, o Moscardo e as Abelhinhas zumbem e as Borboletas preparam lindos bailados.

    — Então e nós? — perguntaram as Varejeiras e os Mosquitos — Temos actuado em festas e todos apreciam os malabarismos que fazemos no ar, ao mesmo tempo que os acompanhamos com som.

    A Cigarra aceitou. As Flores vieram em grande quantidade e a festa foi lindíssima, lindíssima. Até a água do regato sussurrava de em pedra.

    A música subia aos céus e tudo era harmonia e paz.

    — Mas tudo isto para quê? Uma tão bela festa em honra de quem? — perguntou o Sol admirado.

    — É para te agradecer a luz e o calor que nos dás e que nos faz viver tão felizes — respondeu a Cigarrinha.

    O Sol sorriu e sentiu o coração ainda mais quente e cheio de ternura.

    Isabel Lamas; Célia Fernandes
    Já tenho quatro anos
    Sintra, Impala Editores, 2003

    A coruja Julieta

    Os animais nossos amigos

    Porto, Editora Asa, 2000

    A coruja Julieta

    Julieta, a coruja, é teimosa como mula e só segue o que lhe manda o seu nariz. Por isso os seus pais passam a vida a dizer-lhe que ela faz tudo de pernas para o ar. Ao contrário das outras corujas, dorme de noite e brinca de dia.

    O pai e a mãe bem se cansaram de lhe explicar que ela é um animal “noctívago” e por isso, como qualquer coruja que o seu nome não suja deve descansar enquanto o sol alumia para, mal a lua vem para a rua, estar alerta para a presa caçar, de garra crua.

    Mas Julieta não quer saber e amua.

    Os ponteiros do seu relógio trocaram o passo e quando os pais chegam da caçada, arcando no corpo muita maçada, para descansar, no tronco oco do velho salgueiro, é a vez de a Julieta largar o ninho, indo embora com a aurora.

    A corujinha tem mais amigos em toda a floresta que pernas tem uma centopeia.

    O papá e a mamã até arrancam as penas quando descobrem que a Julieta se dá muito bem com uma família de arganazes recém-instalados num extremo da floresta.

    Uma desonra para uma coruja honesta!

    É que toda a gente sabe que as corujas caçam os tais de arganazes, mais os musaranhos e outros animais dos mesmos tamanhos. Mas não, a menina Julieta só segue o que manda o seu nariz. Ela prefere contentar o bico com magros insectos e minúsculos vermes da terra, tornando-se companheira de brincadeira dos pequenos animais do campo. Uma vergonha maior que cegonha.

    Ontem, alguém a viu num voar rasteiro ao prado, esvoaçando uma comprida fita presa nas suas patas, à qual se agarravam os pequenos arganazes da família Roiganaz, rindo a bandeiras despregadas. Que figura mais tola!

    Até os laparotos do senhor e senhora Coelho quiseram fazer o seu baptismo do ar servindo-se da fita presa nas patas da coruja. Toda a gente levou as mãos à cabeça.

    — Três caçapos para levantar voo é muita areia numa avioneta! — exclamou a Julieta, rindo.

    Hoje de manhã, enquanto os seus pais ressonam no ninho, a Julieta toma um banho na companhia dos seus amigo musaranhos, enquanto escutam as lérias da pega Amélia.

    De tarde, vamos encontrar a nossa amiga em grande tagarelice com a família Ratónio, que comenta comicamente o movimentado baptismo do ar dos intrépidos caçapos.

    — Podemos fazer montanhas de amigos quando saímos de dia! — diz ela para os seus pais.

    Ah! Deus assim quis: que Julieta só siga o seu nariz!

    Remorso

    Remorso

    O céu de súbito pôs-se negro e o vento à solta parecia querer derrubar montes, castelos e vidas.

    — Eduardo, meu filho! – gritou a mãe.

    E o pequeno que deixara de brincar, cego pela poeira e assustadíssimo pelo brusco desaparecimento da luz do sol, deitou a correr para casa. Batia-lhe de frente a ventania dificultando-lhe a corrida. Um remoinho de folhas secas ergueu-se descompassado. Eduardo chegou.

    — Mas, vens a tremer, meu filho?

    — Sim, minha mãe, tenho frio.

    E, com efeito, nessa manhã suavíssima de Outono o vento fez-se cortante como nos dias baços, chuvosos e doentios de Janeiro. Eduardo, a pouco e pouco, ia ficando tranquilo. Entretanto, o vento, numa lamúria, desgrenhava as árvores, partindo-as, e a chuva, torrencial, dava-nos a impressão de alagar o Universo.

    Os relâmpagos iluminavam a terra e o céu. A casa estremecia e algumas telhas abalavam como flechas pelos ares.

    — Não tenhas medo, meu filho. Deus protege o nosso ninho.

    Eduardo, então, desatou a chorar, e por mais que a mãe lhe perguntasse a causa daquele choro, não respondia. E, sempre a chorar, lembrava-se, com certeza, do ninho de passarinhos que destruíra nessa manhã.

    Os Contos de António Botto

    Marginália Editora, s/d

    Adaptação

    Um urso à caça

    Um urso à caça

    Esta história não é nenhum conto de fadas.

    Era uma vez um ursinho a quem faltavam pêlos na cabeça.

    A sério! Quando o urso veio ao mundo, tinha um pêlo maravilhoso no corpo todo. Só em cima, no cocuruto da cabeça, havia uma mancha redonda e despida.

    — Oh, uma careca! — disse o pai. — De certeza que o pêlo ainda vai nascer. Tem tempo.

    Mas não cresceu. Nem com o tempo.

    Então, a mãe pôs-lhe umas raízes na careca: rábano, raízes de árvores, raízes de dente-de-leão, raízes de acanto.

    — É das raízes que tudo nasce — dizia a mãe — portanto, isto há-de ajudar!

    Mas não ajudou. A mãe esfregou com água da chuva.

    — A água da chuva faz nascer tudo.

    Nada.

    Esfregou estrume de galinha.

    — Os homens também o usam para as plantas crescerem.

    Nada.

    Então o irmão do urso cuspiu-lhe na pelada.

    — Desculpa, mas teve de ser! — disse o irmão. — Onde eu cuspo, medra sempre alguma coisa.

    Na cabeça do urso, contudo, não cresceu nada.

    — Não é assim tão mau — disse a mãe. — Põe um gorro.

    Mas o urso só usava o gorro quando estava frio. No Verão tirava-o, primeiro, porque tinha muito calor, e segundo, porque todos os outros ursos olhavam para ele com um olhar tão esquisito como quando lhe viam a careca.

    — Faz tu alguma coisa! Um bom urso sabe sempre tirar-se de apuros — dizia o pai. — Caça um animal, arranca-lhe o pêlo e depois colamos-to na cabeça.

    — Com cuspo — disse o irmão.

    O urso saiu para o bosque e encontrou um tigre que bufava ferozmente e se preparava para lhe saltar. Zás! O urso saiu dali e foi a correr para casa.

    — Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

    — Não. No bosque só estava um tigre e eu não quis caçá-lo. Não quero ficar com riscas na cabeça.

    No dia seguinte, o urso voltou ao bosque para ir caçar e viu vir ao longe um lobo a lamber os beiços.

    O urso fugiu o mais depressa que pôde e correu para casa.

    — Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

    — Não, só encontrei um lobo e não quis caçá-lo. Tinha pêlo cinzento e branco e eu não quero parecer assim tão velho.

    Na caçada seguinte, apareceu-lhe, de repente, uma raposa, de boca aberta. O urso foi mais rápido e conseguiu chegar inteiro a casa.

    — Voltaste a não caçar nada? — perguntou o irmão.

    — Não, só vi uma raposa e não quis apanhá-la. Cheirava a carne podre e eu não quero ter maus cheiros na cabeça.

    — Esta é a minha última tentativa — disse o urso, no dia seguinte, ao partir para o bosque.

    Não encontrou ninguém e foi-se embrenhando nele cada vez mais. Procurava nos matagais, rastejou para dentro dos arbustos, subiu a uma árvore. Aí, na segunda ramificação, estava um esquilinho a dormir, e o seu pêlo era da mesma cor do pêlo do urso.

    — Ora aqui está! — disse o urso, esfregando as patas de contente. Levantou-se para fulminar o esquilo com um golpe. O esquilinho abriu um olho e piscou-lho amigavelmente e sem medo.

    — Desculpa! — disse o urso. — Não quero que seja assim. Não quero ficar com remorsos.

    Baixou a pata, estendeu-a ao esquilinho e desceu do ramo. Sentou-se no musgo, encostou-se à árvore e, como estava cansado, adormeceu também.

    Chegou depois junto dele um arganaz, ou melhor, uma mãe arganaz com uma barriga muito gorda. Passou furtivamente pelo urso, rastejou-lhe pelo braço e pelo ombro até que chegou à cabeça.

    — Olá! — exclamou ela. — Este lugarzinho parece ter sido feito para mim. Não é lá muito macio, mas à volta é quentinho.

    Arrancou algum pêlo seu, com o qual almofadou a pelada, instalou-se e deu à luz os filhotes.

    Quando o urso acordou, sentiu uma comichão esquisita na cabeça. Levou a pata à mancha branca – como ele lhe chamava – e viu que se encontravam lá um rato grande e quatro ratinhos que sentiu não terem pêlo. Levantou-se com muito, muito cuidado, e foi para casa pé ante pé.

    A mãe, o pai e o irmão ficaram assombrados.

    — Agora já tens pêlos na cabeça — disseram.

    O urso passou a dormir de costas direitas, sentado numa cadeira, até os pequenos arganazes saírem da pelada, rastejarem atrás da mãe pelos ombros e pelo braço do urso e, passando pela perna dele, seguirem na direcção do bosque.

    Aos poucos, o vento fio soprando da cabeça do urso o pelo do arganaz.

    — Afinal, estou muito satisfeito com a minha careca — disse o urso. — Talvez alguém mais possa vir a precisar dela.

    Hans Manz

    Reinhard Michl (org.)
    Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen

    Hildesheim, Gerstenber Verlag, 2002
    Tradução e adaptação

    O elefante com sede

    O elefante com sede

    Num país quente do sul, viviam várias famílias de ratos numa casa muito grande. Aquela era a única casa num raio de vários quilómetros. A região em volta era pobre e seca. Só cresciam algumas árvores mas, em contrapartida, havia muitos cardos. Era uma terra inóspita. Havia também muitos animais perigosos nas montanhas e até mesmo bandos de ladrões que, de tempos a tempos, assaltavam casas e aldeias isoladas.

    A casa dos ratinhos tinha paredes muito fortes e uma grossa porta de carvalho. Atrás dela, sentiam-se em segurança.

    Certo dia, um pássaro trouxe aos ratos a notícia de que o temível bando de ladrões Lobos Vermelhos vinha a caminho. Os ratos trancaram imediatamente portas e janelas e ficaram à espera. Durante dois dias não aconteceu nada. Ao terceiro dia, aproximou-se um caminhante da casa dos ratinhos, um grande elefante de pele cinzenta-clara, com uma mochila às costas. Os ratos observavam-no da janela, desconfiados.

    — Bom dia, pequenos! — disse o elefante. — Não há um lugar à sombra para um caminhante cheio de sede?

    — Não te deixamos entrar! — disse um rato. — Como é que sabemos que tu não pertences ao bando do Lobo Vermelho?

    — Não pertenço a nenhum bando de ladrões, podeis acreditar. — disse o elefante. — Mas não é preciso abrir a porta. Eu chego-vos as minhas duas garrafas aí acima e vocês fazem o favor de mas encher com água fresca. É tudo o que preciso e depois parto imediatamente.

    O elefante tirou duas garrafas da mochila e equilibrou-as habilmente em cima da tromba até chegar à janela. Os ratos gostaram muito.

    — Sabes fazer mais habilidades dessas? — perguntaram.

    — Oh, sim! — disse o elefante. — Estive a trabalhar num circo e aprendi muitas!

    Os ratos viram, então, que não tinham nada a temer do elefante e deixaram-no entrar na casa fresca, onde o serviram atenciosamente.

    E os ladrões? Esses estavam, de facto, por perto mas, ao verem o grande elefante entrar em casa, resolveram ir rapidamente para outra terra. Acharam preferível não se meterem com um matulão daqueles.

     

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    As cores do Outono

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    A pintora Rosa Ratinha pintava quase todos os seus quadros no estúdio. Só no Outono é que saía para pintar ao ar livre. O Outono era a estação preferida de Rosa. Havia tantos matizes surpreendentes na paisagem!

    Certa vez, num belo dia de Outono, a pintora embalou tela, cavalete e tintas e foi passear para junto de um tranquilo lago não longe de casa. Conhecia um lugar bonito e plano em cima de uma rocha de onde tinha vista para os bosques e montanhas ao fundo. Aí montou o cavalete com a tela e começou a pintar com pinceladas generosas.

    Na árvore oca que estava por detrás dela, morava um gnomo da montanha que a observava enquanto pintava.

    — Isto é que é um quadro esquisito! — disse ele, quando Rosa acabou de pintar. — Nem se vê o lago nem as montanhas. Como se chama este quadro?

    — O quadro chama-se As cores do Outono — disse Rosa Ratinha. — Não se vê o lago nem as montanhas, é verdade. Só pintei o Outono, aquilo que sinto quando olho para esta paisagem.

    — Ah, agora entendo — disse o gnomo. — É muito interessante.

    De repente, levantou-se um vento forte que arrancou a tela do cavalete. Ela foi pelo ar a voar e desapareceu entre as árvores na margem do lago. Rosa Ratinha desceu a montanha e foi buscar o quadro. Tinha dois rasgões e havia muitas folhas, agulhas de pinheiro e pedrinhas coladas na tinta fresca.

    — Que pena — disse o gnomo da montanha. — O quadro agora está estragado.

    — De forma alguma! — exclamou Rosa Ratinha. — Agora é que está completo! O vento do Outono também participou na pintura e imortalizou-se no quadro com estes dois rasgões. E as folhas que estão coladas também são bem-vindas. Agora, o quadro tem uma história e só agora começou a viver!

     

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    O urso Mário

    O  urso Mário

    Numa pequena casa no cimo de um monte, um pouco afastada da aldeia, vivia uma família de ursos. Era constituída por Ursão, o pai-urso, Ursolina, a mãe-ursa, e por três ursinhos chamados Úrsula, Úrsica e Ursino.

    Certo dia, os papás-ursos souberam que ia haver um concurso de dança para ursos na cidade mais próxima. Ursão e Ursolina não queriam faltar, pois eram uns dançarinos muito bons. O concurso iria durar dois dias, mas quem é que tomaria conta dos ursinhos durante esse tempo?

    Nessa noite, apareceu, por acaso, o urso Mário na sua mota nova. Mário era um velho amigo do papá-urso e prontificou-se imediatamente a ficar com as crianças.

    Na manhã seguinte, Ursão e Ursolina partiram e Mário ficou sozinho com os ursinhos. As crianças depressa descobriram que Mário era um urso muito benevolente. Os jogos que brincaram com ele foram ficando cada vez mais tumultuosos e, à noite, já tinham a casa virada de pernas para o ar. Os quatro tinham-se divertido imenso. Mário estava muito cansado mas os ursinhos nem por isso. Eles não queriam ir dormir e Mário teve uma trabalheira para os meter na cama. Quando, por fim, adormeceram, Mário ainda teve de ficar pela noite dentro a arrumar a casa. Mal caiu na cama, adormeceu imediatamente, tão estafado que estava.

    De manhã cedo, os três ursinhos acordaram-no.

    “Oh, não!”, pensou Mário. “Lá vai recomeçar a confusão!” Mas teve uma boa ideia! Logo depois do pequeno-almoço, Mário levou os ursinhos para a frente da casa e sentou-as no sidecar da sua mota. Ligou a máquina e partiu a toda a velocidade pelo monte abaixo, entrou na aldeia, atravessou-a até ao outro lado, e andou por ali às voltas. Fez este percurso várias vezes até conseguir adormecer os três ursinhos. As crianças tinham acalmado, é certo, mas Mário havia enfurecido todos os habitantes, que resmungavam contra ele e a sua mota infernal, e acabaram por fechar a rua da aldeia.

    Mário ficou todo contente quando os papás-ursos finalmente regressaram.

     

     

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

     

    O autocarro na árvore

    O autocarro na árvore

    Certo dia, os ratinhos Felisberto e Afonso foram apanhados de surpresa por uma tempestade na montanha. Das nuvens caíam raios medonhos, o trovão ecoava terrivelmente entre as paredes da montanha, e começou a chover cada vez com mais força. Felisberto e Afonso encontravam-se naquele momento numa ribanceira íngreme. Não se via nenhum abrigo nas proximidades. Só mais ao fundo é que se erguia uma árvore grande e, por baixo dela, estava qualquer coisa amarela que, vista de longe, parecia ser um abrigo de montanha. Os dois ratinhos desceram a correr tão depressa quanto podiam em direcção à árvore. Ao aproximarem-se, repararam que o objecto amarelo que viram não era uma cabana, mas sim um autocarro velho. À janela estava um gato branco a fazer sinal aos dois ratinhos, muito excitado. Felisberto e Afonso conseguiram chegar ao autocarro mesmo a tempo. Mal entraram, a tempestade desabou.

    O gato fechou rapidamente a porta e as janelas. O interior do autocarro estava mobilado como um quarto-cozinha. Ao fundo de tudo estava um fogão estreito, onde o gato tinha feito uma sopa de cogumelos. Felisberto e Afonso sentaram-se no sofá. Enquanto comiam a sopa, o gato contou-lhes como é que o autocarro tinha ido parar àquela árvore.

    Há um ano atrás, o gato tinha comprado o autocarro, muito barato, num leilão. Queria ir dar a volta ao mundo de autocarro; este sempre fora o seu sonho. Mas o autocarro já estremecia por todos os lados e os travões não funcionavam lá muito bem. Foi ao passar por aquelas montanhas que se deu o acidente. Numa estrada muito íngreme, os travões falharam, o autocarro saiu da faixa de rodagem e começou a descer a encosta a toda a velocidade. A árvore grande travou-o mesmo antes do precipício. O gato tinha tido uma sorte incrível! O autocarro ficara tão bem preso na árvore, que não saía. Depois de se ter refeito do choque, o gato branco foi dar um passeio e, como gostou imenso da região, renunciou à sua viagem. Decidiu remodelar o autocarro e transformá-lo numa espécie de abrigo de montanha e ficar ali a morar.

    Felisberto e Afonso também acharam que o gato tinha tirado o melhor partido da situação. Ficaram no autocarro até a tempestade ter passado.

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    Frutos do mar

    Frutos do mar

    Jessica era uma menina canguru muito fora do normal. Primeiro, porque não tinha medo da água e, segundo, porque, certa vez, tivera a estranha ideia de plantar árvores de fruto no fundo do mar. Foi assim:

    Jessica apareceu, certo dia, em casa de duas gatas que também não tinham medo da água. Eram Pia e Larissa, e moravam numa casinha à beira-mar, onde alugavam instrumentos de mergulho. Jessica queria aprender a mergulhar com as duas gatinhas.

    Pia e Larissa tiveram primeiro de mandar fazer um fato de mergulho especial para Jessica, pois não tinham no armazém barbatanas tão grandes que servissem a um canguru. Foram depois com ela para debaixo de água pela primeira vez. Jessica mostrou ser uma nadadora fenomenal! Claro que com umas pernas compridas e fortes como as dela, e ainda por cima com umas barbatanas, Jessica movia-se pela água, rápida como um golfinho.

    Agora, as três tinham passado a mergulhar todos os dias durante algumas horas.

    Deve ter sido durante os meses seguintes que a menina canguru teve a ideia dos frutos do mar. Testemunhas oculares contam como Jessica e as gatas, de cada vez que mergulhavam, levavam consigo plantinhas e arvorezinhas de fruto. Ninguém sabia explicar porque faziam aquilo. Árvores de fruto no fundo do mar? Era impossível. Nunca iriam crescer lá, era um absurdo!

    Mas mais tarde, no Outono, o gato Flino e a ratinha Roberta, passaram de submarino pela zona onde a menina canguru e as gatas costumavam mergulhar. E com os seus próprios olhos viram o jardim submerso! Pereiras e macieiras embalavam-se suavemente na corrente, carregadas de frutos maduros, e, no chão do mar, cresciam melancias enormes.

    Como seriam estes frutos do mar? Talvez um pouco salgados mas, de qualquer forma, deviam ser muito, muito sumarentos…

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    Os negociantes de velharias

    Os negociantes de velharias

    Valdemar Urso-Castanho negociava em velharias. O negócio funcionava em cinco ilhas. Valdemar tinha um barco à vela com o qual ia de ilha em ilha e comprava todos os tarecos velhos que encontrava. Muitas vezes até lhe davam despejos inteiros de barcos. Por vezes, no meio daquilo tudo, havia coisas boas, mas a maior parte desses objectos não tinha grande valor.

    O Urso tinha um sócio, um pato chamado Penas. Penas ajudava Valdemar a descarregar as velharias e era ele quem conduzia o barco no mar.

    Uma vez por mês, os dois iam, de barco carregado, à ilha principal e vendiam a mercadoria na feira de velharias. Os lucros eram divididos a meias. É certo que não sobrava muito, mas chegava para os dois viverem.

    Certo dia, durante uma dessas viagens entre as ilhas, aconteceu uma coisa estranha a Valdemar e a Penas. Era quase noite e não havia vento. De repente, ouviram chapinhar ao lado do barco e viram aparecer à superfície um ser marinho com um aspecto de meter medo. O ser era meio-peixe, meio-homem. Aproximou-se a nado e fazia sinais a Valdemar. Na mão direita tinha uma pérola muito bonita.

    — O que queres de mim? — perguntou o urso.

    O homem-peixe apontou novamente para Valdemar, depois para si e para a água.

    — Eu tenho de ir à água? — perguntou Valdemar.

    O habitante do mar disse que não, abanando com força a cabeça. Foi preciso algum tempo até os dois perceberem finalmente o que o estranho homem-peixe queria: era o espelho que estava por detrás de Valdemar! O urso estendeu-lhe o espelho e o homem-peixe deu-lhe a pérola em troca.

    — Não, espere lá! — gritou Valdemar. — A pérola vale muito mais!

    Mas o homem-peixe já tinha mergulhado, levando o espelho consigo.

    Desde então, sempre que passam naquele lugar, Valdemar e Penas deitam à água todos os espelhos antigos que têm a bordo.

    O estranho homem-peixe, esse, nunca mais voltaram a vê-lo.

     

     

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    O dragão violeta

    O dragão violeta

     

    Era uma vez uma floresta enorme e muito antiga, onde moravam muitos animais, e todos viviam satisfeitos. Tinham tudo aquilo de que precisavam e não eram incomodados pelos homens, pois estes ainda não tinham descoberto esta floresta. Só evitavam a parte norte da floresta. Segundo uma antiga lenda, havia aí um terrível dragão cor-de-violeta que comia tudo o que lhe aparecia à frente. Nunca nenhum dos animais vira o dragão violeta mas, mesmo assim, não se aventuravam a ir à parte norte.

    Na floresta viviam também muitos ursos com os seus filhotes. Um desses ursinhos era o Nestor. Nestor era mais pequeno do que os outros ursos da sua idade. Não conseguia correr tão depressa como os seus companheiros de jogo, na luta perdia sempre e, na subida às árvores, era sempre o último. Por isso, muitas vezes, os outros ursinhos, não queriam deixá-lo brincar. E, ainda por cima, riam-se dele.

    Nestor era mais fraco do que os outros, é verdade, mas era muito corajoso.

    Quando, certo dia, os ursinhos voltaram a não querer deixá-lo brincar com eles, saiu dali em direcção ao norte, onde morava o dragão violeta. Mas o ursinho nem estava a pensar no dragão. Após ter corrido muito, Nestor foi parar a uma bela clareira. Sentou-se em cima de uma pedra e pôs-se a reflectir na injustiça dos seus companheiros. De repente, ouviu-se um leve estalar no meio das árvores e a cabeça do dragão violeta apareceu por cima delas. O ursinho apanhou um valente susto ao ver o enorme animal. Mas o dragão violeta tinha uma cara tão amorosa, que Nestor perdeu o medo por completo. Ficaram a olhar um para o outro durante um bocado. Nestor percebeu que o dragão também se sentia só. Ergueu-se e tocou na ponta do nariz do dragão, que fungou baixinho e sorriu. Em seguida, encolheu o enorme pescoço e desapareceu por entre a copa das árvores.

    O ursinho regressou a casa feliz. Será que devia contar aos amigos o encontro que tivera com o dragão? O mais certo era não acreditarem numa única palavra…

    “Amanhã volto outra vez à clareira”, pensou Nestor. “Será que o dragão violeta vai aparecer?”

    Só de pensar no encontro, Nestor já sorria!

    Erwin Moser
    Mario der Bär
    Weinheim Basel, Parabel, 2005
    Texto adaptado

    Castanhas quentes!

    Castanhas quentes

    Tobias, o velho cão, era vendedor de castanhas assadas. Todos os anos, no Outono, apanhava alguns sacos, que assava no forno e ia vender na praça principal da cidade. Tobias sempre se sentira feliz com este trabalho. O único inconveniente era que os pés lhe arrefeciam muito.

    “Já estou velho”, pensava ele. “Ainda ganho frieiras por ficar tanto tempo de pé ao frio. Tenho de ter mais cuidado com a minha saúde. O ideal seria poder vender as castanhas e mexer-me ao mesmo tempo!”

    Então Tobias teve uma ideia.

    “Não serão os clientes a vir ter comigo mas eu a ir ter com eles. Mas tinha de montar umas rodas no carro. Não, o melhor era umas lâminas de patins de gelo. Assim podia levar o assador através da neve!”

    Tobias teve então uma ideia ainda melhor…

    A cidade tinha um grande lago em cujas margens havia muitas moradias.

    “Estes vão ser os meus novos clientes!”, pensou Tobias. Montou patins no carrinho, calçou também ele patins de gelo e assim pôde passar a deslizar por cima do lago gelado, de casa em casa, e oferecer as suas castanhas assadas. Em poucos dias ganhou uma clientela considerável.

    Mal Tobias aparecia com o seu carrinho por cima do gelo, toda a gente ficava contente! E tu, não ficarias?

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    A cama na árvore

    A cama na árvore

    A casa do ursinho Matias era uma árvore na margem de um lago. Morava lá há muito tempo, e dantes já pertencera a um texugo. Era uma casa muito aconchegada, que, além do mais, tinha três quartos confortáveis por debaixo da terra, entre as raízes da árvore. Assim, era fresquinha no Verão e quente no Inverno.

    Certo dia, Matias recebeu visitas da Austrália! Era Curtis, o coala com quem ele se correspondia há muitos anos. Curtis ficou alojado num dos quartos debaixo da terra e achou tudo muito interessante.

    Havia muitas coisas que eram completamente diferentes da Austrália. Todos os dias, Matias ia dar uma volta com ele para lhe mostrar as redondezas. Davam longos passeios pelo bosque e casa mas conversavam com todos os animais que lá viviam. A floresta agradou particularmente a Curtis, que apreciava o cheiro penetrante das bétulas e dos abetos. Uma vez, subiram a um monte e fizeram uma breve visita à família dos ursos castanhos. Depois foram visitar, mais acima, as marmotas, com quem Curtis simpatizou especialmente.

    Quando se estava a aproximar o dia da partida, Matias quis fazer-lhe uma surpresa especial. No penúltimo dia de estadia de Curtis, Matias desmanchou a sua cama e montou-a entre os ramos da árvore. Curtis ajudou-o e não parava de perguntar a Matias o que estava a fazer, mas Matias guardou segredo e não disse nada. À noite, colocou na árvore dois recipientes com mel e pendurou uma lanterna na copa. Em seguida, convidou Curtis a subir e a deitar-se na cama ao lado dele. Cobriram-se e ficaram à espera.

    Passado pouco tempo, começaram a chegar as primeiras borboletas. A luz e o cheiro doce do mel tinham-nas atraído. Matias e Curtis observavam, quietos e em silêncio, as maravilhosas borboletas.

    Foi uma bela surpresa. O coala nunca tinha visto tantas borboletas e tão de perto!

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    A casa de madeira

    A casa de madeira

    Pelo Outono, a rata Alina ouvira dizer que o seu bom velho amigo, o texugo Norberto, morava agora numa casa algures na montanha. Há muito tempo que Alina não via Norberto. Nos últimos dias, desde que a neve começara a cair, Alina pensava muito nele, na sua agradável voz resmungona, na sua presença calorosa e reconfortante e na sua grande colecção de livros, que ele muitas vezes lhe lera.

    “A casa do Norberto, lá na montanha, de certeza que agora tem luz, é quente e confortável”, pensou a ratinha, e naquele momento a sua toca começou a parecer-lhe apertada e abafada. No dia seguinte, tomou uma decisão:

    — Vou ter com o Norberto! Não sei ao certo onde mora, mas não deve ser assim tão difícil de encontrar.

    Alina calçou as botas quentes de ratinha, vestiu um casaco grosso de lã e pôs-se a caminho. Foi subindo a montanha, cada vez mais para cima, pela neve funda. Por pouco não dava com a casa do texugo! A noite já estava a chegar e ela ainda à procura do caminho através do bosque. E, para mais, começara a cair um nevão! Mas a ratinha não era medrosa.

    “Se não encontrar hoje a casa do texugo, cavo um buraco fundo na neve”, pensou ela, “e assim não fico gelada…”

    Mas, por fim, lá acabou por encontrar o caminho para fora do bosque, e viu à sua frente, num declive, a casa do texugo!

    Era de madeira. Nas janelas brilhava uma luz amarela e quente e, da chaminé alta, saía um longo rasto de fumo que balançava ao vento.

    Alina juntou as últimas forças e correu em direcção à casa. Claro que o texugo se alegrou imenso com a sua chegada. E ambos passaram um Inverno maravilhoso e confortável na casa de madeira, longe de tudo, lendo e conversando…

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Tradução e adaptação