O coelho da Páscoa

O coelho da Páscoa

Os coelhos da Páscoa não existem!

Pelo menos é o que muita gente pensa. E dizem:

— Um coelho é um coelho, quer esteja na coelheira ou no campo. E não põe ovos. Então como é que podia trazê-los pela Páscoa?

Além do mais, um coelho não consegue abrir uma porta ou saltar uma vedação. E onde é que ia arranjar um cesto para pôr os ovos, se mesmo assim os tivesse?

Ainda por cima, todos os coelhos têm medo dos homens! É triste, mas é assim!

Contudo, seria maravilhoso se imaginasses um coelho da Páscoa só teu.

Ora aqui está ele! Tem mais ou menos a tua altura e umas belas orelhas compridas.

Já está vestido com um fato de todas as cores e traz às costas um cestinho com todas as tuas prendas.

Vem a tua casa! Atravessa prados, bosques e salta por cima de todos os ribeiros. Oh! Olha uma raposa a tentar apanhá-lo!

Mas o coelho não tem medo nenhum.

— Sou o coelho da Páscoa — diz ele calmamente.

— Oh, as minhas desculpas! — responde-lhe a raposa.

O teu coelhinho chega a uma cidadezinha. Vem um cão a ladrar com toda a força, mas quando vê que é o coelho da Páscoa, abana a cauda alegremente.

O coelho da Páscoa passa por cima das sebes, atravessa jardins e chega finalmente à soleira da tua porta.

Mete a ponta de uma das suas longas orelhas na fechadura e roda-a muito devagarinho e com muito cuidado. E pronto, a orta abre-se.

Está agora a esconder os ovos e muitas outras coisinhas que trouxe. E quando tu acordares no domingo de Páscoa e encontrares os ovos, vais ter a certeza de que… foi o teu coelho da Páscoa que trouxe tudo!

Ele fez toda esta longa viagem por tua causa. E é o coelho da Páscoa mais bonito do mundo porque foste só tu que o imaginou!

Tradução e adaptação

Winfred Wolf
Le Lapin de Pâques
Paris, Casterman, 1987

Eu queria ser Pai Natal

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Eu queria ser Pai Natal
e ter um carro com renas
para pousar nos telhados
mesmo ao pé das antenas.


Descia com o meu saco
ao longo da chaminé,
carregado de brinquedos
e roupas, pé ante pé.


Em cada casa trocava
um sonho por um presente.
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente.

Luísa Ducla Soares
Poemas da Mentira e da Verdade
Lisboa, Livros Horizonte, 1999

 

 

De: Preparando o Natal

Um Natal muito especial

Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio.

Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite.

— O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita.

— Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas.

— Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita.

— E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela.

A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura.

Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuraram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca.

— É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore!

Mas a boneca já tinha dono.

— Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha!

— Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.

O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças, junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado.

Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta.

— Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita.

Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou…

Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.

— Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal.

Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo.

Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.

— É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante!

Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.

— Essas cerejas são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio.

— Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo.

A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma cereja e a levasse com ela.

O sol começava a pôr-se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa clareira, encontraram uma árvore verde muito grande.

— A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita.

E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a cereja.

— Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi.

Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.

A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes.

— Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa.

Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direcção à floresta.

Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa.

Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes.

— Oh, vejam aquilo! — exclamou.

Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão.

— A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz.

E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

Christine Leeson
Um Natal muito especial
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2006

Um, dois, três… soninho!

Esta noite, Carneirinho não tem fome, só tem muito sono. Passou o dia inteiro a brincar, a correr e a saltar por todo o lado, e agora, sentado na sua cadeirinha, adormeceu com o nariz em cima do prato dos espinafres.

A mãe pega nele ao colo com muito cuidado para não o acordar e leva-o para o quarto.

Muito devagar, deita o Carneirinho na cama, mas ele acorda e abre os olhos.

— Não tenho sono nenhum! Eu ainda quero brincar mais!

A mãe explica que são horas de dormir e que os brinquedos também precisam de descansar. Beija-o com muita ternura e deseja-lhe, assim como ao seu ursinho, sonhos bonitos.

Carneirinho encolhe os ombros. Como é que há-de de sonhar se não tem sono? E tenta convencer a mãe:

— Por favor, deixa-me brincar só mais um bocadinho…

A mãe acaricia-lhe a cabeça cheia de caracóis:

— Para seres um carneiro grande como o teu pai, lindo e cheio de força, precisas de ter sono. Tu bem sabes que dormir faz crescer. Vamos fazer um jogo: fechas os olhos e imaginas um rebanho de cordeirinhos brancos muito alegres, a saltarem uma cancela, uns atrás dos outros. Quando o décimo carneiro tiver saltado, já estás a dormir.

Carneirinho faz como a mãe disse. Fecha os olhos, apertando as pálpebras com força, e espera.

Primeiro, não acontece nada. De repente, aparece a espreitar à janela a cabeça de um cordeiro branco, com um gorro vermelho e cara de brincalhão. Com um ar intrigado, espreita para dentro do quarto e pergunta:

— Olha, deixas-me entrar?

— Com certeza — responde Carneirinho, surpreendido.

O cordeirinho branco de gorro vermelho salta para o tapete. Corre para a arca dos brinquedos, abre a caixa dos cubos e começa a construir uma torre muito alta.

Ainda não tinha acabado, quando um segundo cordeiro branco bate à janela.

— Também posso entrar? — pergunta.

— Claro — responde Carneirinho, já sem se admirar.

Este cordeiro traz calçadas umas lindas botas amarelas de borracha. Levanta as pernas e salta com destreza para dentro do quarto. Corre, decidido, para a arca dos brinquedos e tira um jogo de construções.

Enquanto escolhe as peças e hesita entre construir uma casa, um avião, ou uma nave espacial, um terceiro cordeirinho branco mostra a ponta do focinho atrás do vidro.

— Entra — diz Carneirinho — faz de conta que estás em tua casa.

Este cordeiro é mais desastrado e estatela-se em cima do tapete. Catrapumba! A torre de cubos desmorona-se debaixo dele. Estonteado, pega num livro para se recompor.

Enquanto vira as páginas, um quarto cordeiro pula para dentro do quarto, mesmo sem ser convidado. Pega no violino e põe-se a tocar uma música endiabrada.

Imediatamente a seguir, surge o quinto, de cartola, muito elegante. Logo depois, o sexto aterra suavemente, com um guarda-chuva verde a servir de pára-quedas.

O sétimo cordeiro traz um cachecol garrido; o oitavo já está preparado para saltar, e o nono não deve estar longe, porque o décimo já está a chegar.

Num piscar de olhos, dez cordeiros brancos, dez cordeirinhos alegres e despreocupados, andam às voltas no quarto. Dez cordeirinhos traquinas andam aos pinotes pelo quarto todo. Estes malandros põem o comboio eléctrico a andar, jogam ao berlinde, à bola ou à cabra-cega, organizam corridas de carros e concursos de saltos de obstáculos.

O cordeiro número quatro toca sem parar no violino dourado, e os números nove e dez, fazem uma barulheira infernal.

Que algazarra! Carneirinho já está farto.

— Parem com isso! — grita ele. — Chega! Não consigo dormir com esta barulheira!

Dez cabeças encaracoladas viram-se para ele:

— Méé, méé, méé! Foste tu que nos chamaste. Tens de saber o que queres!

— Quero dormir — diz Carneirinho — se não nunca mais vou ser grande e forte como o meu pai.

Então, em silêncio, os alegres cordeirinhos brancos desaparecem um a um pela janela, da mesma forma que vieram, à excepção do primeiro, o do gorro vermelho, que fica para trás:

— Sabes para onde foram? — pergunta Carneirinho.

— Para o país dos sonhos — responde o cordeiro do gorro vermelho. — Vem, eu levo-te para lá também.

Carneirinho dá a pata ao cordeiro branco, que a aperta com muita força, e voam pela janela fora em direcção ao céu estrelado. Voam tão rápido e para tão longe, que se confundem com duas estrelinhas a brilhar na noite.

Antes de se deitar, a mãe de Carneirinho vem dar-lhe um último beijo. Quando entra no quarto, em bicos de pés, fica muito admirada ao ver os brinquedos espalhados pelo chão. Porém, Carneirinho dorme profundamente, com um gorro vermelho na cabeça. Em cima da colcha, um raio de luar faz brilhar o seu violino dourado…

Anne-Isabelle le Touzé
Un, deux trois, sommeil!
Paris, Actes Sud, 1998
Tradução e adaptação

A boneca e o cavalo branco

Era uma vez uma fada que morava numa casa feita de nuvem por detrás das montanhas brancas. Essa fada apanhava os brinquedos que os meninos deitavam fora.
— Pobre cavalinho — disse, ao descobrir o pequeno cavalo branco caído no chão. — Vem comigo para minha casa. Quero cuidar de ti. Precisas de uma perna nova, de ferraduras, uma sela e arreios novos.
A fada penteou-lhe as crinas e escovou-lhe o pêlo até ele voltar a brilhar.
— E agora — disse — tens de conhecer os teus novos amigos.
— Boa tarde! — disse a boneca.
— Boa tarde! — disse também a raposa.
— De onde é que tu vens? — rugiu o urso.
— Um menino deitou-me fora — respondeu o cavalinho branco.
— A mim foi uma menina que me deixou ficar à chuva — disse o urso.
— Eu fiquei esquecida na praia! — exclamou a boneca.
— A mim, um menino perdeu-me na rua — disse a raposa.
Mas a fada sentia-se triste.
“A minha casa não é suficientemente grande para todos os brinquedos do mundo deitados fora, esquecidos e perdidos”, pensava ela.
— Temos de consolá-la! — disse o cavalinho. — Afinal, ela salvou-nos a todos.
— Exactamente! — disseram também o urso, a raposa e a boneca. — Temos de fazer alguma coisa.
— Eu conheço um prado com flores de estrelas — disse o cavalinho branco. — Podemos ir lá colher um ramo para a fada.
— Isso pode ser perigoso — disse a raposa. — O campo das flores é vigiado pela noite negra.
— Eu não tenho medo nenhum — disse o cavalinho branco.
— Eu também não tenho medo — disse a boneca, pondo a capa vermelha. Sentou-se em cima do cavalo e saíram os dois a galope.
A raposa abanava a cabeça.
— Eu conheço a noite — disse ela e, às escondidas, foi atrás deles.
— Eu — disse o urso — prefiro ficar em casa.
No campo das flores, o sol brilhava.
— Oh, que flores tão lindas! — exclamou a boneca, começando a colher o ramo. O cavalo branco descobriu erva tensa e água no ribeiro. Estavam tão entretidos, que se esqueceram do que a raposa lhes tinha dito.
De repente, diante deles, ergueram-se umas grandes asas negras.
— Quem está a tirar as minhas flores? — disse uma voz ameaçadora.
Era a noite.
A boneca e o cavalo branco quiseram fugir, mas já era tarde de mais. A noite tinha engolido não só as flores mas também o cavalo branco.
A boneca desatou a chorar e chamava por socorro. Apareceu então a raposa.
— Não tenhas medo — disse ela. — Eu conheço a noite. Ela parece perigosa, mas nós conseguimos ser mais fortes do que ela. Aliás, nem é preciso ter medo. Ela só nos cobre com as suas asas negras para nos deixar sonhar à vontade.
A boneca pensou na fada e na casa feita de nuvem, e o medo fugiu, juntamente com a noite. Ouviu então um tilintar suave. O cavalinho branco estava de volta e, no prado, as flores começaram novamente a florir.
O cavalinho branco, a raposa e a boneca regressaram a casa de madrugada. A fada esperava-os à porta.
— Estava à vossa espera — disse ela.
A boneca estendeu-lhe o ramo. A fada ficou muito contente e tomou-os a todos nos braços.

Max Bolliger, Helge Aichinger
Die Puppe auf dem Pferd
Zürich/München, Artemis Verlag, 1975
Texto adaptado

Beethoven

Ann Rachlin; Susan Hellard

Beethoven

Porto, Campo das Letras, 199

Estava um silêncio fora do habitual no pátio das galinhas e Cecily Fischer, a irmã do padeiro, olhou à sua volta desconfiada. Nesse momento, as galinhas começaram a cacarejar de medo. Cecily atravessou depressa o terreiro e escancarou a porta do galinheiro.

— Ludwig! Ora bem! Agora sei quem é que tem andado a roubar-me os ovos!

— Não, não, Menina Fischer — mentiu o rapazinho. — O Kaspar atirou o meu lenço aqui para dentro e eu vim buscá-lo!

Ludwig van Beethoven vivia com o seu pai, mãe e os dois irmãos, Kaspar e Nikola, na casa do padeiro, no nº 934 da Rheingasse, em Bona, na Alemanha. Em 1774, era um rapazinho todo enxovalhado, de quatro anos de idade, com cabelo despenteado e unhas sujas.

O Ludwig ia à escola com os seus irmãos. Detestava as aulas. Estudava Francês, Italiano e Latim, mas tinha notas muito baixas. Na Matemática o pobre Ludwig era tão fraco na multiplicação que, se tinha de calcular quantos eram três vezes quatro, escrevia três quatros e adicionava-os!

O Kaspar e o Nikola eram muito bons alunos. Mas, quando se tratava de Música, ninguém era tão brilhante aluno como o Ludwig!

O Ludwig era tão pequeno quando começou a tocar cravo que tinha de se pôr de pé num banco para chegar ao teclado. Também aprendia a tocar violino. O seu pai, Johann, era cantor. Deu as primeiras lições ao Ludwig, mas era muito severo.

Ao chegar a casa, já tarde na noite, ia tirar o Ludwig da cama para praticar. Quando tentava tocar de memória, o pai ficava muito zangado!

— Que asneirolas estúpidas estás para aí a arranhar? — gritava. — Toca pela pauta, caso contrário nunca serás um músico a sério!

Por vezes, quando o pai estava com visitas, o Ludwig aproxima vá-se à socapa do cravo e tocava alguns acordes.

Nessas ocasiões, Johann perdia as estribeiras:

— O quê estás aqui a fazer? Vai-te embora se não queres levar um puxão de orelhas!

Mas até mesmo o seu mal-humorado pai tinha de admitir que o Ludwig estava a fazer grandes progressos. Em pouco tempo, o rapazinho já andava a aprender a tocar viola e órgão. E já era muito melhor músico do que o seu pai!

Quando o Ludwig fez sete anos, o pai decidiu que era chegada a altura de ele dar o seu primeiro concerto. Ouvira contar como, alguns anos antes, Leopold Mozart tinha levado em digressão Wolfgang, o seu filho genial, que tinha dado uma série de concertos.

— O Ludwig também há-de ganhar dinheiro! — disse ele.

O concerto realizou-se em 26 de Março de 1778. Todos os anúncios diziam que Ludwig tinha apenas seis anos de idade. Johann mentiu quanto à idade do seu filho para que as pessoas pensassem que Ludwig era tão esperto como Wolfgang Mozart.

Johann estava a fazer um buraco num ovo! Ludwig fez uma careta de nojo enquanto observava o pai a sorver o ovo cru e depois comer duas ameixas secas!

— Vai cantar hoje à noite — pensou Ludwig.

O seu pai comia sempre ovo cru e ameixas secas antes de cantar.

— Dá-me frescura à voz! — dizia ao seu jovem filho.

Quando começou a crescer, Ludwig apercebeu-se de que quase toda a gente que ele conhecia estava ao serviço do Arcebispo de Colónia. A vida no palácio do Arcebispo era muito faustosa, porque o Arcebispo era uma pessoa importante. Foi um dos poucos “Eleitores” que escolheram um novo imperador quando morreu o velho. Adorava boa comida, a caça e a música.

O Eleitor tinha a sua própria orquestra. O avô de Ludwig tinha sido o seu kappelmeister — mestre de capela — o chefe dos músicos da corte. O sonho de Johann era que Ludwig viesse também a ser kappelmeister.

Quando Ludwig tinha dez anos, Christian Gittlob Neefe passou a ser o novo organista do Eleitor. Este óptimo músico apercebeu-se de que Ludwig era um génio com necessidade de um professor calmo e compreensivo que o animasse a compor.

O senhor Neefe não tardou a declarar que o Ludwig era “um jovem génio de talento muitíssimo promissor. Certamente tornar-se-á um outro Wolfgang Mozart se continuar como começou!”. O Senhor Neefe nomeou Ludwig seu organista assistente.

Numa manhã bastante cedo, Ludwig foi despertado pelo galo a cantar no telhado por cima do quarto dos pais. Acordou o seu irmão Kaspar.

—- Está um galo no telhado, Kaspar. Parece bem gordinho! Vamos apanhá-lo!

Os dois rapazinhos desceram as escadas em bicos de pés e foram à cozinha do padeiro, onde encontraram um pedaço de pão.

No meio do terreiro, tentaram o galo com o pão.

— Aqui, galo cocoricó! Desce para aqui, desce!

O galo não resistiu e desceu ao terreiro para agarrar no pão.

— Apanhámos-te! — gritaram os dois rapazes.

Ao jantar nessa noite, os seus pais não faziam ideia quem tinha apanhado a ave de capoeira saborosa de que tanto gostaram.

— É altura de ir para o andar de cima, Mamã!

Os meninos estavam todos excitados. Era o aniversário da sua mãe e todos os anos o celebravam com um concerto. Enquanto a Mamã estava a descansar, punha-se uma cadeira especial debaixo de um dossel e decorava-se com folhas e flores. Por volta das dez horas estava toda a gente pronta e os músicos começaram a afinar os seus instrumentos.

— Já aí vem! Todos calados!

A Mamã desceu as escadas. Estava linda. Johann conduziu-a à sua cadeira especial. Os músicos começaram a tocar e o som da música maravilhosa espalhava-se pela vizinhança. Após o concerto, comeram e beberam. Depois, todos tiraram os sapatos e dançaram em meias, para não incomodar os vizinhos que estavam a dormir.

Ludwig estava sentado à janela do seu quarto, que dava para o terreiro. À sua frente encontravam-se os manuscritos das suas primeiras composições musicais importantes. Eram três sonatas para cravo. Tinha-as trabalhado durante várias semanas, reescrevendo longas passagens até finalmente se dar por satisfeito. Escreveu a dedicatória:

A Sua Eminência o Arcebispo Eleitor de Colónia, meu gracioso Soberano, composto por Ludwig van Beethoven, aos onze anos de idade.

— Tragam-me a lista de todos os músicos da minha orquestra!

Em 1784, havia um novo Eleitor em Bona. O Arquiduque Maximiliano era irmão do Imperador. Era um homem muito gordo que gostava de boa comida e de boa música.

— O que é isto? Johann van Beethoven tem uma voz já muito gasta! Dizes que o seu filho Ludwig é ainda jovem, mas muito capaz. Toca órgão, é? Estou desejoso de ouvir o jovem Ludwig tocar!

O Ludwig já não andava todo enxovalhado! Agora que era músico da corte, tinha de parecer muito arranjado e limpo. Usava uma casaca elegante, calções pelos joelhos, meias de seda, sapatos com laçarotes e um colete bordado com bolsos, que apertava com cordão de oiro genuíno. Tinha o cabelo aos caracóis dos lados e rabo-de-cavalo atrás. Até tinha uma espada num cinto de prata, que usava em ocasiões especiais.

Aos 16 anos, o Senhor Neefe decidiu que ele iria estudar com Mozart em Viena. Após uma longa viagem, Beethoven chegou a Viena em 7 de Abril de 1787. Alguns dias mais tarde encontrou-se com Mozart, que o convidou a tocar. Ludwig sentou-se ao cravo e tocou maravilhosamente. Mas Mozart não parecia muito impressionado.

— Bom, preparou bem essa peça — disse, num tom bastante frio.

— Posso fazer muito melhor do que isto! — gritou Ludwig. — Dê-me uma melodia e mostrar-lhe-ei o que posso fazer com ela!

Os dedos de Ludwig voavam sobre o teclado. Estava a tocar para o grande Wolfgang Mozart. Transbordava de inspiração. A melodia simples que Mozart lhe sugerira tornou-se uma obra-prima quando Beethoven a transformou numa composição maravilhosa. Mozart estava enlevado. Por fim, foi ter com uns amigos que estavam na sala ao lado.

— Aquele é Ludwig van Beethoven — disse. — Um dia, todo o mundo falará dele.

Ludwig van Beethoven tornou-se um dos compositores mais importantes de todo o mundo. Compôs mais de 600 peças, incluindo 9 sinfonias, cinco concertos para piano, um concerto para violino, uma ópera, 32 sonatas para piano e muitos quartetos de cordas, trios e obras de música coral. Beethoven compôs muitas destas obras-primas depois de ficar surdo. Entre as suas composições encontram-se a “Sonata ao Luar”, a Sinfonia “Pastoral” ( 6) e o “Hino da Alegria”, da sua Sinfonia nº 9. Morreu em 1827.

Os amigos não se abandonam

A gatinha da Antónia desapareceu. Não estava em cima da árvore, nem na caleira da água, nem por debaixo da tábua de passar.

— Se calhar anda à caça na cave — sugeriu a mãe.

— De certeza que está a dormir no sótão — disse o pai.

— Será que foi para o céu? — perguntou-se a avó, preocupada.

— Vou procurá-la — disse a Antónia. — Se calhar aconteceu-lhe alguma coisa. E os amigos não se abandonam.

Só que na cave havia apenas bicicletas e, no sótão, sobretudo pó. A gatinha continuava desaparecida.

— Então vou procurá-la no céu — decidiu Antónia.

E pôs-se a caminho.

Antónia passou por uma cabeça no ar e perguntou-lhe:

— Sabes onde está a minha gata?

A cabeça estava com muita pressa para chegar a casa e nem olhou para Antónia.

— Mal-educada — resmungou ela, continuando a andar.

Pouco depois, encontrou o polidor do sol ocupado a puxar o lustro a um raio de sol embaciado. Ele acenou-lhe com o pano do pó.

— Ah! Visitas, que bom! — exclamou alegremente. — Aproxima-te, minha filha!

— Ando à procura da minha gata. Pode ajudar-me? — pediu Antónia.

O polidor parou para pensar.

— Não, não vi a tua gata.

A rajada de vento dobrou a esquina a correr e a silvar.

— Sabes onde está a minha gatinha? — perguntou-lhe Antónia, tão alto quanto pode.

— Nem vi gatos nem vi galos — silvou a rajada. E fugiu dali abanando o leque. Antónia ainda ouviu, vindo de longe:

— Pergunta depressa ao vento!

— Podes perguntar-lhe agora mesmo. Cacei-o e meti-o dentro da manga — disse-lhe o Catavento por detrás dela.

— Viste a minha gatinha? — perguntou Antónia.

O Catavento espreitou para dentro da manga. Lá de dentro saíram sopros e assobios.

— Aqui não está nenhuma gata, lamento. Mas vou estar atento e, se a vir, digo-te.

— Obrigada. Ela é minha amiga e eu estou preocupada porque não a encontro em nenhum lado — explicou Antónia.

Mais adiante, estava alguém sentado e, à sua volta, rodopiavam flocos de neve. Trabalhava com uma faca fina e aguçada e ia contando em voz baixa.

— O que está a fazer?

— 1232. Estou a cortar cristais — explicou o talhador de cristais. — 1233 cristaizinhos de gelo. Todos diferentes. Nenhum é igual ao outro.

E continuava a contar.

— 1234, 1235… nem de mais, nem de menos — observou. — Tudo tem de ter a sua ordem.

Deitava carinhosamente o resultado do seu trabalho para um montinho que ia crescendo ao seu lado.

— Compreendo-te — prosseguiu ele, concentrado no seu trabalho. — Os amigos não se talham. São raros, não caem do céu, como os cristais de neve. Mas, infelizmente, não vi a tua gatinha. 1236, 1237…

Antónia concordou num aceno de cabeça e continuou o seu caminho.

Caído do céu, surgiu à sua frente o atirador de raios. Estava de cócoras a fazer pontaria por entre duas pequenas nuvens. Um raio reluziu e, em seguida, chegou-lhes ao nariz um forte cheiro a enxofre.

— Trovãozinho, onde estás? — gritou o atirador, já impaciente.

— Já vou! — respondeu uma voz.

Ouviu-se um ribombar e um trovejar fraco. De seguida alguém tossiu.

— Desculpe, constipei-me! Aqui há tantas correntes de ar — queixou-se o trovão, rouco. — Às vezes, o ribombar não sai — acrescentou, cabisbaixo.

E depois espirrou.

— Raios e coriscos, que aborrecimento! — resmungou o atirador de raios. — Eu aqui a esfalfar-me com os meus raios, e não consegues fazer nenhum barulho de jeito. E tu? — perguntou, virando-se para Antónia. — Por acaso não sabes trovejar e ribombar?

— Não, acho que não — desculpou-se Antónia. — Só vim à procura da minha gata.

O atirador de raios pôs-se a pensar.

— Conheço carneirinhos de nuvens e castelos no ar — respondeu. — Aqui, os gatos não são lá muito bem-vindos.

Pegou no raio seguinte e começou a dobrá-lo meticulosamente.

— Mas ela é minha amiga… — disse Antónia em voz baixa.

O dia passou pela calada da noite puxando a noitinha pela mão.

— Já chega por hoje! — murmurava ele.

Atrás de si arrasta-se o anoitecer. O lusco-fusco agita-se, impaciente.

— Já está a chegar a noite e eu sem ter encontrado a minha gata — lamenta-se Antónia.

— Pois é, temos de prestar atenção aos amigos — observou a noite. — Eles não aparecem da noite para o dia.

— Eh, ó lua! — chamou. — Viste a gatinha da Antónia?

A lua revirou os olhos.

— Não sei. De noite todos os gatos são pardos… — e perguntou, dirigindo-se ao guardião de estrelas: — Viste uma gata por aí?

O guardião de estrelas agitou o bastão no ar. Nos seus lugares, a Ursa Maior e a Ursa Menor pararam de brincar, o Touro mugiu, o Sagitário deu um salto e os Peixes emudeceram.

O acendedor de estrelas passou então, e todos começaram a brilhar.

O guardião contou rapidamente as cabeças do seu rebanho.

— Estão aqui todos e não há nenhum a mais.

Virou-se para Antónia e disse-lhe:

— A tua gata não está no céu. Vê antes na Terra. Tu vais voltar a encontrar a tua amiga, li nas estrelas — consolou-a.

E, triste, Antónia seguiu pela estrada de Santiago até casa.

Diante da porta da cozinha estava, enroscada, uma gata que ergueu a cabeça e bocejou.

— Por onde andaste este tempo todo? — perguntou-lhe Antónia, num tom um tanto ou quanto admoestador.

— Fui caçar ratos. Quando voltei, não te encontrei e pensei que te tinha acontecido alguma coisa. Então resolvi ir à tua procura. Os amigos nunca se abandonam.

Sigrid Laube; Silke Leffler

Freunde läßt man nicht im Stich

Wien, Annette Betz Verlag, 2003

Texto adaptado

O elefante com sede

O elefante com sede

Num país quente do sul, viviam várias famílias de ratos numa casa muito grande. Aquela era a única casa num raio de vários quilómetros. A região em volta era pobre e seca. Só cresciam algumas árvores mas, em contrapartida, havia muitos cardos. Era uma terra inóspita. Havia também muitos animais perigosos nas montanhas e até mesmo bandos de ladrões que, de tempos a tempos, assaltavam casas e aldeias isoladas.

A casa dos ratinhos tinha paredes muito fortes e uma grossa porta de carvalho. Atrás dela, sentiam-se em segurança.

Certo dia, um pássaro trouxe aos ratos a notícia de que o temível bando de ladrões Lobos Vermelhos vinha a caminho. Os ratos trancaram imediatamente portas e janelas e ficaram à espera. Durante dois dias não aconteceu nada. Ao terceiro dia, aproximou-se um caminhante da casa dos ratinhos, um grande elefante de pele cinzenta-clara, com uma mochila às costas. Os ratos observavam-no da janela, desconfiados.

— Bom dia, pequenos! — disse o elefante. — Não há um lugar à sombra para um caminhante cheio de sede?

— Não te deixamos entrar! — disse um rato. — Como é que sabemos que tu não pertences ao bando do Lobo Vermelho?

— Não pertenço a nenhum bando de ladrões, podeis acreditar. — disse o elefante. — Mas não é preciso abrir a porta. Eu chego-vos as minhas duas garrafas aí acima e vocês fazem o favor de mas encher com água fresca. É tudo o que preciso e depois parto imediatamente.

O elefante tirou duas garrafas da mochila e equilibrou-as habilmente em cima da tromba até chegar à janela. Os ratos gostaram muito.

— Sabes fazer mais habilidades dessas? — perguntaram.

— Oh, sim! — disse o elefante. — Estive a trabalhar num circo e aprendi muitas!

Os ratos viram, então, que não tinham nada a temer do elefante e deixaram-no entrar na casa fresca, onde o serviram atenciosamente.

E os ladrões? Esses estavam, de facto, por perto mas, ao verem o grande elefante entrar em casa, resolveram ir rapidamente para outra terra. Acharam preferível não se meterem com um matulão daqueles.

 

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado

O autocarro na árvore

O autocarro na árvore

Certo dia, os ratinhos Felisberto e Afonso foram apanhados de surpresa por uma tempestade na montanha. Das nuvens caíam raios medonhos, o trovão ecoava terrivelmente entre as paredes da montanha, e começou a chover cada vez com mais força. Felisberto e Afonso encontravam-se naquele momento numa ribanceira íngreme. Não se via nenhum abrigo nas proximidades. Só mais ao fundo é que se erguia uma árvore grande e, por baixo dela, estava qualquer coisa amarela que, vista de longe, parecia ser um abrigo de montanha. Os dois ratinhos desceram a correr tão depressa quanto podiam em direcção à árvore. Ao aproximarem-se, repararam que o objecto amarelo que viram não era uma cabana, mas sim um autocarro velho. À janela estava um gato branco a fazer sinal aos dois ratinhos, muito excitado. Felisberto e Afonso conseguiram chegar ao autocarro mesmo a tempo. Mal entraram, a tempestade desabou.

O gato fechou rapidamente a porta e as janelas. O interior do autocarro estava mobilado como um quarto-cozinha. Ao fundo de tudo estava um fogão estreito, onde o gato tinha feito uma sopa de cogumelos. Felisberto e Afonso sentaram-se no sofá. Enquanto comiam a sopa, o gato contou-lhes como é que o autocarro tinha ido parar àquela árvore.

Há um ano atrás, o gato tinha comprado o autocarro, muito barato, num leilão. Queria ir dar a volta ao mundo de autocarro; este sempre fora o seu sonho. Mas o autocarro já estremecia por todos os lados e os travões não funcionavam lá muito bem. Foi ao passar por aquelas montanhas que se deu o acidente. Numa estrada muito íngreme, os travões falharam, o autocarro saiu da faixa de rodagem e começou a descer a encosta a toda a velocidade. A árvore grande travou-o mesmo antes do precipício. O gato tinha tido uma sorte incrível! O autocarro ficara tão bem preso na árvore, que não saía. Depois de se ter refeito do choque, o gato branco foi dar um passeio e, como gostou imenso da região, renunciou à sua viagem. Decidiu remodelar o autocarro e transformá-lo numa espécie de abrigo de montanha e ficar ali a morar.

Felisberto e Afonso também acharam que o gato tinha tirado o melhor partido da situação. Ficaram no autocarro até a tempestade ter passado.

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado

Frutos do mar

Frutos do mar

Jessica era uma menina canguru muito fora do normal. Primeiro, porque não tinha medo da água e, segundo, porque, certa vez, tivera a estranha ideia de plantar árvores de fruto no fundo do mar. Foi assim:

Jessica apareceu, certo dia, em casa de duas gatas que também não tinham medo da água. Eram Pia e Larissa, e moravam numa casinha à beira-mar, onde alugavam instrumentos de mergulho. Jessica queria aprender a mergulhar com as duas gatinhas.

Pia e Larissa tiveram primeiro de mandar fazer um fato de mergulho especial para Jessica, pois não tinham no armazém barbatanas tão grandes que servissem a um canguru. Foram depois com ela para debaixo de água pela primeira vez. Jessica mostrou ser uma nadadora fenomenal! Claro que com umas pernas compridas e fortes como as dela, e ainda por cima com umas barbatanas, Jessica movia-se pela água, rápida como um golfinho.

Agora, as três tinham passado a mergulhar todos os dias durante algumas horas.

Deve ter sido durante os meses seguintes que a menina canguru teve a ideia dos frutos do mar. Testemunhas oculares contam como Jessica e as gatas, de cada vez que mergulhavam, levavam consigo plantinhas e arvorezinhas de fruto. Ninguém sabia explicar porque faziam aquilo. Árvores de fruto no fundo do mar? Era impossível. Nunca iriam crescer lá, era um absurdo!

Mas mais tarde, no Outono, o gato Flino e a ratinha Roberta, passaram de submarino pela zona onde a menina canguru e as gatas costumavam mergulhar. E com os seus próprios olhos viram o jardim submerso! Pereiras e macieiras embalavam-se suavemente na corrente, carregadas de frutos maduros, e, no chão do mar, cresciam melancias enormes.

Como seriam estes frutos do mar? Talvez um pouco salgados mas, de qualquer forma, deviam ser muito, muito sumarentos…

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado

A casa de madeira

A casa de madeira

Pelo Outono, a rata Alina ouvira dizer que o seu bom velho amigo, o texugo Norberto, morava agora numa casa algures na montanha. Há muito tempo que Alina não via Norberto. Nos últimos dias, desde que a neve começara a cair, Alina pensava muito nele, na sua agradável voz resmungona, na sua presença calorosa e reconfortante e na sua grande colecção de livros, que ele muitas vezes lhe lera.

“A casa do Norberto, lá na montanha, de certeza que agora tem luz, é quente e confortável”, pensou a ratinha, e naquele momento a sua toca começou a parecer-lhe apertada e abafada. No dia seguinte, tomou uma decisão:

— Vou ter com o Norberto! Não sei ao certo onde mora, mas não deve ser assim tão difícil de encontrar.

Alina calçou as botas quentes de ratinha, vestiu um casaco grosso de lã e pôs-se a caminho. Foi subindo a montanha, cada vez mais para cima, pela neve funda. Por pouco não dava com a casa do texugo! A noite já estava a chegar e ela ainda à procura do caminho através do bosque. E, para mais, começara a cair um nevão! Mas a ratinha não era medrosa.

“Se não encontrar hoje a casa do texugo, cavo um buraco fundo na neve”, pensou ela, “e assim não fico gelada…”

Mas, por fim, lá acabou por encontrar o caminho para fora do bosque, e viu à sua frente, num declive, a casa do texugo!

Era de madeira. Nas janelas brilhava uma luz amarela e quente e, da chaminé alta, saía um longo rasto de fumo que balançava ao vento.

Alina juntou as últimas forças e correu em direcção à casa. Claro que o texugo se alegrou imenso com a sua chegada. E ambos passaram um Inverno maravilhoso e confortável na casa de madeira, longe de tudo, lendo e conversando…

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Tradução e adaptação

Castanhas quentes

Castanhas quentes

Tobias, o velho cão, era vendedor de castanhas assadas. Todos os anos, no Outono, apanhava alguns sacos, que assava no forno e ia vender na praça principal da cidade. Tobias sempre se sentira feliz com este trabalho. O único inconveniente era que os pés lhe arrefeciam muito.

“Já estou velho”, pensava ele. “Ainda ganho frieiras por ficar tanto tempo de pé ao frio. Tenho de ter mais cuidado com a minha saúde. O ideal seria poder vender as castanhas e mexer-me ao mesmo tempo!”

Então Tobias teve uma ideia.

“Não serão os clientes a vir ter comigo mas eu a ir ter com eles. Mas tinha de montar umas rodas no carro. Não, o melhor era umas lâminas de patins de gelo. Assim podia levar o assador através da neve!”

Tobias teve então uma ideia ainda melhor…

A cidade tinha um grande lago em cujas margens havia muitas moradias.

“Estes vão ser os meus novos clientes!”, pensou Tobias. Montou patins no carrinho, calçou também ele patins de gelo e assim pôde passar a deslizar por cima do lago gelado, de casa em casa, e oferecer as suas castanhas assadas. Em poucos dias ganhou uma clientela considerável.

Mal Tobias aparecia com o seu carrinho por cima do gelo, toda a gente ficava contente! E tu, não ficarias?

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Tradução e adaptação

Uma visita fora do normal

Uma visita fora do normal

Lá muito para cima, perto do Pólo Norte, morava Ulisses, o urso polar. Não havia muitos animais que morassem tão a norte, por isso Ulisses passava a maior parte do tempo sozinho. Nos últimos tempos, aliás, tinha recebido uma série de visitas interessantes. Primeiro, tinham chegado num navio três pinguins e, mais tarde, outros dois. Vinham de longe, do outro lado do mundo, mais precisamente do Pólo Sul, onde tudo também é gelado, como no norte.

Nos dias anteriores, Ulisses tinha andado a mostrar a sua terra aos pinguins e todos tinham gostado muito. É certo que o urso polar não podia mostrar-lhes muita coisa, porque muito não havia, mas os pinguins sentiam-se bem, e isso era o mais importante.

Certa noite, chegou um terceiro barco à pequena baía onde Ulisses tinha a sua toca. Seriam mais pinguins? Ulisses e os cinco pinguins correram para a praia e puxaram o barco para terra. Curiosamente, não estava ninguém na coberta. O urso abriu a porta gelada do camarote. Lá dentro, enrolado num cobertor fino, encontrou um porquinho. Vestia umas calças com quadrados às cores e estava a dormir profundamente. Aquilo era muito estranho. Como teria chegado até ali, tão só? Teria ele estado em perigo de naufragar e sido arrastado para o Pólo Norte?

Ulisses tomou o porquinho nos braços e levou-o depressa para a sua toca. Deitou-o na sua própria cama e cobriu-o muito bem. Em seguida foi fazer-lhe uma sopa de peixe, pois o porquinho de certeza que teria fome quando acordasse.

Ulisses e os cinco pinguins já estavam curiosos por saber o que o visitante teria para lhes contar…

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Tradução e adaptação

A filha da árvore

A FILHA DA ÁRVORE

          No alto de uma colina erguia-se um castanheiro.

Faziam-lhe companhia os animaizinhos da floresta e, em baixo, a cidade enviava para o céu nuvens de fumo azulado.

Porém, nas noites de Verão, quando a mãe arganaz embalava na cauda um dos seus filhotes, a árvore era invadida por uma grande tristeza.

“Só eu é que não tenho meninos para acarinhar”, pensava ela.

E pensou nisso com tanta força que, uma bela manhã, um dos seus ouriços desprendeu-se bruscamente.

Caiu, rolou e abriu-se.

Era uma menina.

Bem, estava um bocadinho pálida.

 “Mas o sol há-de dar-lhe uma linda cor!”, disse a árvore, que até brilhava de contente. Passou a chamar-se Florina.

A árvore fez-lhe um bercinho minúsculo de ervas e sentiu-se muito feliz.

Mas nem sempre era fácil.

Florina queria ser campeã de piruetas.

— Tem cuidado, meu rebentinho querido! – dizia, preocupada.

Florina brincava ao bichinho da fruta.

— Come tudo como deve ser!

E também fazia o pino.

— Tu pões-me a cabeça à roda! Cansa, ser pai!

Mas afinal até se davam bem. Às primeiras neves, todos os bichinhos prepararam um ninho fofinho para passarem o Inverno. Cada um escavou um buraco à sua medida no meio do feno e a árvore bocejou:

— Boa noite, Florina. Bons sonhos!

Em breve, tudo ficou em silêncio.

Florina virou-se para um lado.

Depois para o outro.

— Papá, não consigo dormir!

Mas ninguém respondeu, estava tudo branco e adormecido. Florina deixou-se escorregar para a neve e estremeceu.

Ao longe, a cidade acendia as luzes e brilhava calmamente. Florina encheu-se de coragem e desceu a colina.

Era um lugar estranho.

Tudo estava em movimento, à volta de Florina.

Empurravam-na.

— Sai daí! — disse alguém.

— Não fiques no meio da rua! — disse outra pessoa.

Florina começou a tremer.

De repente sentiu que alguém a levantava de cabeça para baixo.

— Larga-me! — gritou ela.

— Desculpa! — respondeu o macaco. — Julguei que eras uma castanha. Às vezes dão-me castanhas.

— Não tenhas medo! — disse uma senhora velhinha a sorrir. — O Gil é um macaco muito simpático.

Depois, cobriu Florina com um xaile.

— É noite – disse ela suavemente. — Temos de voltar para casa.

Levou Florina para o quarto das águas furtadas, deitou-a numa cama fofinha, aconchegou-lhe a roupa, deu-lhe um beijo e não disse mais nada porque a menina já tinha adormecido.

De manhã, Gil abanou Florina:

— Eh, castanha! Não vais passar o Inverno a dormir!

— Penso que não… — suspirou Florina.

— Veste roupa quente — aconselhou a velha senhora. — Está muito frio no parque.

— Olha bem para mim! — gritou Gil.

E subiu a toda a velocidade pela árvore mais próxima.

— Admirável, não?

— Qualquer pessoa pode fazer isso! — replicou Florina.

— E isto é que tu nunca fizeste! — Gil arremessou-se, saltando de árvore em árvore.

Mas, de repente, um ramo coberto de gelo partiu-se e Gil caiu de uma altura de vários metros.

Florina foi logo a correr.

O macaco já não se mexia.

Muito tristes, levaram-no para casa.

A velha senhora embrulhou-o num xaile, mas Gil tinha uma pata partida e continuava desmaiado.

— Deve haver alguma coisa que se possa fazer por ele! — soluçou Florina. — O meu pai deve saber…

Na colina, o castanheiro dormia profundamente.

— Papá — murmurou Florina — estou com um pequeno problema, ajuda-me! Um amigo meu está doente…

Então uma coisa extraordinária aconteceu. A árvore fez crescer uma folha, em pleno Inverno, uma folha pequenina, na ponta de um ramo.

E murmurou mesmo a dormir:

— Um chá! Um chá de uma das minhas folhas faz sempre bem quando se está mal disposto!

Florina colheu a folha. E levou também algumas avelãs para comer pelo caminho. A árvore continuava a ressonar.

Mal bebeu a primeira colher de chá, Gil sentiu-se logo muito melhor.

— Felizmente que há árvores! — disse Florina.

Dia após dia, o macaco recuperava a sua boa disposição e Florina esperava pela chegada da Primavera.

Finalmente, o vento trouxe um rebento verdinho e perfumado.

— A minha árvore acordou — anunciou Florina.

– Nós vamos acompanhar-te – propôs Gil.

A árvore assobiava baixinho, muito atarefada a fabricar folhas e gomos.

— Onde é que passaste a manhã? — perguntou a árvore muito admirada.

— Depois conto-te — disse Florina. — Dormiste bem?

— Como um cepo.

— Bom dia! — disse o macaco.

— É curioso, tenho a impressão de que já o conheço — admirou-se a árvore.

Florina ria-se, tapando a cara com as mãos.

— Mais tarde explico-te tudo… — disse ela. — Agora podemos ir jogar às escondidas?

Magali Bonniol

La fille de l’arbre

Paris, L’école des loisirs, 2002

tradução e adaptação

A casa feita de sonho

A casa feita de sonho

Leve como uma pluma,

alta como uma torre,

quente como um ninho

e doce como o mel,

assim imaginei

desde pequeno

a minha casa… 

Mais tarde, quando me encontrei só no mundo, como não tinha dinheiro, resolvi construí-la com as próprias mãos. Fiz primeiro a minha casa de papel, que é um material barato.

E assim que ficou pronta, vieram todos os ventos da Terra e levaram a minha casa de papel, leve como uma pluma…

Fiquei sem casa, mas não desisti. E fiz a minha casa à beira-mar, com areia da praia, que é um material barato.

Mal estava pronta, vieram todas as marés do mundo e levaram a minha casa de areia, alta como uma torre…

Deu-me vontade de desistir, mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia abandonar o meu sonho.

E resolvi fazer a minha casa de madeira, que é um material barato. Cortei-a dos bosques, com as   próprias  mãos!

Ficou linda!… Escondida entre a folhagem…

Mas ainda mal a tinha acabado, vieram todos os fogos do céu e queimaram a minha casa de madeira, quente como um ninho… Chorei sobre as cinzas, como se chora uma pessoa querida que morreu.

Mas, mesmo assim, não desisti. E resolvi fazer a minha casa de açúcar…

Mas o açúcar não é um material barato! Pois não…

Mas eu precisava de uma casa, e sobretudo, não podia abandonar o meu sonho.

Trabalhei, lutei, passei fome, para juntar o açúcar suficiente…

E quando a minha casa estava pronta — eram de açúcar as paredes, o chão, o tecto, os móveis, as portas e as janelas — vieram todos os bichos da Terra e devoraram a minha casa de açúcar, doce como o mel…

Fiquei sem casa. E desisti de construí-la com as próprias mãos…

Perguntam-me onde moro… Onde moro eu? Sei lá!… Vou pelo mundo, aqui, além, no bosque, à beira-mar… Perguntam-me se não tenho casa… Tenho, sim! Eu podia lá abandonar o meu sonho!…

Resolvi imaginá-la. Num sítio onde não chega o vento, nem o mar, nem o fogo, nem os bichos da Terra.

Fiz a minha casa com o meu próprio sonho. Ficou linda!

Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel…

Adaptação

Ricardo Alberty

A casa feita de sonho

Melhoramentos de Portugal, 1991

O balão em forma de lua

O balão em forma de lua

Certa noite, o gato Alcides teve um sonho maravilhoso. Sonhou com um balão de ar quente que tinha uma forma muito invulgar e que planava sobre uma imensa planície. Durante semanas, não conseguiu esquecer aquele sonho. Por fim, resolveu construir o balão com que sonhara.

Tinha a forma de uma meia-lua deitada. O gato Alcides construiu uma armação de madeira com a forma de meia-lua e revestiu-a de seda amarela. Entretanto, a mulher fizera o cesto do balão e a filha encheu quatro sacos com areia, de que iriam precisar como lastro. Ao fim de algumas semanas de trabalho, o balão em forma de lua estava pronto.

A família Alcides carregou-o com provisões de comida e sacos de dormir. Encheram a meia-lua de ar quente e a viagem pôde finalmente começar. Os três gatos viajavam sem objectivo e só o vento sabia para onde os levava. No terceiro dia de viagem, chegaram a uma planície exactamente igual à do sonho do gato Alcides.

— Que maravilha! — disse o gato Alcides. — É como se estivesse a sonhar o meu sonho novamente! O que será que vai acontecer em seguida?

Mal tinha dito isto, um grande pássaro azul com um enorme bico pontiagudo veio a voar em direcção ao balão. Aterrou com força no balão meia-lua e, para horror dos gatos, começou a picar um buraco no forro. Será que o pássaro azul tinha tomado a meia-lua por uma banana? Os gatos gritaram e bufaram, mas o pássaro não se deixou afugentar e aumentou ainda mais o buraco. O ar quente começou a sair lentamente e o balão ia perdendo cada vez mais altura. Em breve iriam pousar no chão. De súbito, apareceu na planície à frente deles um palácio curioso. Os habitantes de certeza que haviam de ajudá-los. Ou teria algum dos habitantes do palácio enviado o pássaro azul de propósito? Tudo muito misterioso!

Sonha agora tu esta história daqui para a frente…

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado