A história do menino distraído

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“Distração” significa estar longe de si, como se fôssemos outra pessoa…

Um dia, conheci um rapazinho muito distraído. Parecia um besouro, sempre de nariz no ar. Esquecia-se de tal forma do que se passava à sua volta, que até se esquecia de que tinha um corpo. Borboleta que passasse, nuvem em forma de Pai Natal que planasse, e ei-lo a segui-las, de nariz ao vento e de sorriso nos lábios.

Este rapaz era tão distraído que tinha comportamentos verdadeiramente estranhos. Ia contra os postes e pedia desculpa, enfiava o dedo na jaula dos macacos, apresentava uma embalagem de chocolate vazia a pensar que era o bilhete de autocarro, e esquecia o lanche, que apodrecia sempre no fundo da pasta. Também ia para a escola de pijama e deixava os blusões em todo o lado. Os pais exasperavam-se:

— Tens a cabeça na lua ou quê? Ainda te vais esquecer da cabeça um dia…

Contudo, a mãe do menino distraído tinha uma secreta admiração pela distração do filho e gabava-o diante das outras pessoas, patetice que em nada o ajudava. Pôr pasta dentífrica no cabelo, em vez de champô, era considerado muito original, por exemplo! O rapaz distraído sabia bem o que fazia mal à saúde: meter os dedos na tomada, acender fósforos, passar a correr diante de uma porta de garagem, correr pela rua. Mas, como estava sempre na lua, nem via o perigo.

Certo dia, quis ir ter com um amigo que lhe dizia adeus do outro passeio; e atravessou a rua, todo contente, sem se dar conta dos automóveis que iam a passar. Um condutor travou a tempo. Por uma fração de segundo, teria matado o rapaz. O homem saiu do carro, branco como a cal. Quando viu que o rapaz distraído nem prestara atenção ao que acabava de fazer, zangou-se a sério.

— Um dia ainda acabas na urgência do hospital, por causa da tua distração. E passas a viver numa cadeira de rodas!

“Estes adultos gostam tanto de exagerar”, pensou o distraído.

Numa outra ocasião, o rapaz, que estava a fazer os trabalhos de casa num parque junto da escola, seguiu um homem que se propôs ajudá-lo com a aritmética, e que depois o convidou para irem até ao circo ver os tigres brancos. Uma amiga da mãe do rapaz viu-os e o homem desatou logo a fugir. Nesse dia, foi a vez de a mãe ficar branca como a cal:

— Não te disse já que nunca se acompanham pessoas desconhecidas?

Certo dia em que os bombeiros faziam exercícios de segurança, o nosso rapaz resolveu pendurar-se na varanda do quarto andar, para os ver melhor. Claro está que os bombeiros tiveram de o ir buscar com uma escada…

— Obrigado, mas eu ia descer sozinho.

— Deves estar a brincar, miúdo — disse o chefe dos bombeiros. — Se nós não te tivéssemos visto, estatelavas-te no chão como um ovo frito. Morrias.

— Que exagero! — protestou o rapaz distraído.

A mãe decidiu levá-lo ao médico para ver se havia algum problema. Depois de o ter examinado com cuidado, o médico concluiu que estava tudo bem e disse-lhe:

 — A tua distração não te protege. Muito pelo contrário. Tens todo o direito de sonhar, mas deves andar com os pés assentes na terra; se não, acabas por não ver os perigos que te ameaçam.

Claro que o rapaz estava de acordo com o médico, mas nem por isso alterou o seu comportamento.

Um dia, algo de extraordinário aconteceu. Quando o rapaz jogava à bola, esta saltou para a rua e ele foi atrás dela. Era como se pensasse que o seu corpo também era feito de borracha. Só que, desta vez, o condutor não travou a tempo e o rapaz acordou num lugar onde já tinha estado muitas vezes: a lua.

 — Mais um sonhador! — exclamou a lua. — Também não estavas bem na terra? Queres viver comigo?

Como o rapaz nada dizia, a lua continuou:

— Aqui nada de mal te acontece: podes sonhar durante o tempo que aqui estiveres.

No primeiro dia, o menino dormiu o dia todo. E adorou. No segundo dia, falou um pouco com o vento. No terceiro dia, ajudou a lua a desembaraçar-se das pedrinhas que enchiam as suas crateras. Como se mexeu bastante, teve a sensação de estar a começar a acordar. Pareceu-lhe até ouvir a mãe a dizer: “Está a acordar! Está a acordar! Em breve voltará para junto de nós.” No quarto dia, sentiu de repente uma enorme nostalgia da terra, das ruas, das bicicletas, da escola, de casa, dos pais  e  do  gato Mosquito.  O  rapaz  distraído apercebeu-se  de  que gostaria de morar num sítio com coisas a ver e a apreciar, um lugar onde não se sentisse sempre a voar.

 Depois destes quatro dias de solidão, despediu-se respeitosamente da lua:

— Senhora lua, muito obrigado pela sua gentileza. Gosto muito das suas dunas e do seu vento, mas prefiro viver na terra. Nunca esquecerei esta estadia e, de vez em quando, virei visitá-la, porque adoro sonhar. Mas prometo que terei os pés bem assentes na terra quando atravessar uma rua ou andar de bicicleta.

A lua deu-lhe um conselho:

— Não sejas imprudente. Não te metas à frente de um carro ou te ponhas a seguir um desconhecido. Da próxima vez que me vieres visitar, ficas cá para sempre.

O rapaz prometeu seguir o conselho da lua. Acordou, então, do sono lunar a que chamamos coma, e que nos mergulha num estado muito próximo da morte. Acordou com dores de cabeça e mais dores ainda no coração. Teve sorte, porque alguns nem sequer chegam a acordar de tanto estarem sempre na lua.

Quando regressou à escola algum tempo depois, contou aos colegas que a lua era um sítio simpático mas muito monótono. É claro que, de quando em vez, ainda se escapava até à lua. Mas nunca quando tinha de fazer coisas importantes. Cuidar de si, ter atenção aos perigos, saber evitar os obstáculos, é ter sempre os dois pés bem assentes na terra.

Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand (2)
Paris, Albin Michel, 2005
(Tradução e adaptação)

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