Como se faz cor de laranja

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Deram ao Menino uma caixa de aguarelas. O Menino gostava de pintar pássaros, flores, casas, árvores, rios, montanhas e tudo o mais que lhe vinha à cabeça. Mas faltavam muitas cores na caixa de aguarelas.

Um dia, o Menino quis pintar um submarino no fundo do mar. À volta do submarino havia algas azuis, verdes, roxas e vermelhas. Mas o Menino queria que houvesse também algas alaranjadas. Ficariam bem a ondular, ao lado das algas azuis e verdes. Que pena a caixa de aguarelas não ter cor de laranja! Como se faria? Que outras cores se devia misturar para conseguir cor de laranja? O Menino não sabia.

Foi ter com o Avô e perguntou-lhe.

— Eu já soube, meu neto — respondeu o Avô. — Quando tinha a tua idade também gostava de pintar pássaros azuis,

flores amarelas,

árvores doiradas,

montanhas verdes…

e céus cor de laranja.

Mas não me consigo lembrar como fazia…

O Menino saiu à rua e perguntou a um senhor que entrava para um automóvel:

— O senhor podia dizer-me, por favor, como se faz cor de laranja?

— Cor de laranja? O que é isso? — E partiu a toda a velocidade.

O Menino entrou numa loja e perguntou por cor de laranja.

— Cor de laranja? Pois decerto, pequeno cavalheiro — disse o dono da loja. — Tenho uns belíssimos lenços alaranjados, chegados ontem de Beirute, artigo de primeira qualidade, seda natural, como não encontra melhor em nenhuma loja do País. Espere vossa excelência um momento, que eu vou buscar.

O Menino saiu da loja e foi bater à porta do Sábio (convém avisar que era um falso sábio, um tolo a fingir de sábio…).

— Para fazer cor de laranja são necessárias complexíssimas operações químicas — disse o sabichão. — Primeiro precisará de destilar uma solução aquosa de monóxido de naftalina de densidade mínima, à temperatura de cinquenta e quatro graus centígrados, para depois, aproveitando o extrato residual de paradrimetilfenoledenorodamina x3, potência O, função de si próprio, utilizar o reagente FT2 S02 DD3 PI até conseguir cor de laranja. Muito complexo, como vê! Mas se quer utilizar apenas tintas, talvez o Pintor, que mora aqui ao lado, lhe saiba responder.

O Menino bateu à porta do Pintor (mau pintor, mau e trapalhão, diga-se de passagem).

— Queria saber como se faz cor de laranja — disse o menino.

O Pintor olhou-o, carrancudo e desconfiado.

— Isso são segredos de artista, segredos profissionais, segredos que cada um guarda como pode — respondeu ele.

O Menino saiu de casa do Pintor e foi ter com o Poeta (muito mau poeta, aliás), que estava no jardim a rebuscar rimas para os seus versos. Mal lhe perguntou como se fazia cor de laranja, o Poeta começou a declamar:

Oh cor de laranja, palavra bela,

Sumarenta palavra que alimenta

A minha Dona Felisbela.

Oh cor de laranja, oh arco-íris,

Oh canela, mais pimenta,

Oh Dona Felisbela Pires.

O Menino fugiu do mau poeta e não foi ter com mais ninguém. Sentou-se num banco do jardim e descansou. Seria assim tão difícil conseguir fazer cor de laranja? Lá em casa, a folha de papel esperava em cima da mesa, e as algas alaranjadas continuavam a ondular nos olhos do Menino.

Aproximou-se um cego, cautelosamente, tateando os troncos das árvores. O Menino ajudou-o a sentar-se ao seu lado, no mesmo banco. Perguntou-lhe o Cego o que fazia naquele jardim e o Menino falou da cor de laranja, do fundo do mar, das algas e contou as casas que correra, as pessoas a quem falara. O Cego sorria.

— Ainda não sabes como se faz cor de laranja? — perguntou o Cego.

Ninguém lhe tinha dito, como podia o Menino saber?

— Então diz-me — continuou o Cego — de que cor é o sol?

— Amarelo — respondeu o Menino.

— Isso, amarelo, alegre, risonho, como o som de um pandeiro. E a terra, de que cor é ela?

— Preta — respondeu o Menino.

— Olha bem para a terra dos canteiros. É, de facto, preta?

O Menino olhou bem e corrigiu:

— A terra é castanha e em alguns bocados parece… — o Menino hesitava.

— Diz!

— …parece vermelha.

— Pois, vermelha como um clarim a tocar, não é assim? Agora repara: o Sol, que estende o seu calor sobre a terra, faz crescer as árvores, abrir as folhas, despontar os ramos, arredondar os frutos. Diz-me: de que cor são os frutos?

— Verdes, amarelos, cor de laranja… — respondeu o Menino.

O Cego estava contente:

— Ora vês que não é difícil fazer cor de laranja. Junta o amarelo do sol ao vermelho da terra, o som do pandeiro ao som do clarim… Vai depressa acabar de pintar.

O Menino correu para casa, misturou as cores e as algas alaranjadas surgiram no papel.

António Torrado
Como se faz cor de laranja
Porto, Edições Asa, 1983

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