O medo: do mais medroso ao mais corajoso

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ALARME

Achas que és medroso? Às vezes, ter um pouco de medo é bom, porque… imagina que não tínhamos medo de nada. Éramos capazes de ver um buraco no chão e meter lá a mão sem pensar no assunto duas vezes. Todavia, o medo é como um alarme que nos avisa: Continuar a ler

A imagem de Lola revolta-se

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O melhor amigo de Lola não se chamava Pedro, nem Albano, nem Clemente. Era, ao mesmo tempo, mudo e falador, simpático e rude. Chamava-se… espelho! Porque Lola passava o melhor do seu tempo a contemplar-se. Não que ela se achasse bonita, não. Se lhe perguntassem, ela diria que não se achava nem bonita nem feia, mas gostava de se olhar, de se examinar. Por vezes, sorria-se a si própria. Outras vezes, franzia o nariz e fazia tais caretas que parecia uma feiticeira cheia de verrugas. Continuar a ler

Leva o cão a passear – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Leva o cão a passear

Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um acto sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão ?

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Um tostão para o Santo António – Ant. Torrado

Um tostão para o Santo António

Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.

Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!

O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:

— Dê-me um tostãozinho para o Santo António…

O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:

— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.

— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?

E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.

— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.

— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.

O senhor mendigo suspirou e disse:

— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje…

O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.

Foi a vez de o garoto suspirar:

— Este dinheiro era para eu comprar berlindes…

O homem de sandálias admirou-se:

— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?

O garoto riu-se:

— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.

O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:

— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.

O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:

— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.

O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.

O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes…

António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, Livraria Civilização Editora, 1994

Já pensaste que…

Já alguma vez pensaste
que é bom ter olhos
para ver o mundo

e ouvidos

para ouvir os outros

e boca
para dizer tudo aquilo
que dizemos

e pernas
para nos levar
onde somos precisos

e mãos
para ajudar
os que delas precisam

e braços
para estreitar os outros
num abraço

e ombros
para que alguém neles
recline a cabeça fatigada

e cérebro
para pensar em ajudar os outros

e coração
para sentir as coisas
que nem sempre compreendemos
imediatamente

Já alguma vez pensaste
como tudo isto é maravilhoso?

Leif Kristianson
Já pensaste que…
Lisboa, Editorial Presença, 1981