Era uma vez um dia

Era uma vez um dia

Nunca fui navegar num barco de piratas, ou usei uma argola de oiro na orelha, ou tive um papagaio no ombro poisado, ou desenterrei um tesouro assinalado num mapa secreto com uma ┼ .

Mas já fui pescar com uma rede, e não apanhei peixe algum; apenas uma rã, verde como a relva e húmida como um sabonete, e tentei apanhá-la. Só que escorregou-me das mãos e aterrou num charco.

Nunca persegui um fantasma por um corredor assombrado, ou vi morcegos bater asas de couro, enquanto voavam através de teias de aranha, ao som do pio dos mochos.

Mas já levei a minha avó às compras sozinho e tive muito cuidado a atravessar a rua. E ela deu-me um copo de leite e um bolo numa loja bem grande.

Nunca fugi de casa para ir para o circo, ou pintei a cara como um palhaço, ou guiei um carro a cair aos bocados, ou sequer atirei água à minha irmã.

Mas já estive junto de uma fogueira, tão quente como as férias e tão grande como uma casa, e vi os foguetes estalaram por cima de mim no céu outonal. Ouvi os estalidos e vi as faíscas coloridas saltarem como água da fonte, cheirei o fumo e provei as explosões.

Nunca corri com os lobos numa floresta, ou trepei com os ursos por entre árvores tão direitas que parecem feitas a pique, ou vi a lua cavalgar pela noite.

Mas já acampei numa tenda no jardim, e o meu pai dormiu junto a mim. Ficou assustado quando um coelho nos acordou, porque achava que estava na cama. Mas ambos rimos e adormecemos de novo.

Nunca respirei o fumo da boca de um dragão, ou vi as suas escamas de prata, ou ouvi as suas garras rasparem no chão empedrado e cinzento de uma caverna escura, ou cortei as cordas de um prisioneiro, enquanto o dragão nos sobrevoava.

Mas já fiz um anel de prata em papel para dar à minha mãe, com um botãozinho de vidro macio, tão vermelho como os lábios e tão claro como o dia, e ela levou-o a uma festa.

Nunca andei no mar numa prancha de surf, ou vi, através da água às risquinhas, o fundo do oceano, onde as medusas nadam com os amigos. Ou nadei com golfinhos ou ouvi as baleias chamarem entre si lá nas profundezas.

Mas já fui buscar o meu irmão à escola, e ele agarrou-me o dedo com força. Já o embalei e cantei para ele, e pu-lo a dormir, quando ninguém conseguia.

Toby Forward
Once Upon an Everyday
London, Picture Corgi Books, 2001
Tradução e adaptação

O coelho da Páscoa

O coelho da Páscoa

Os coelhos da Páscoa não existem!

Pelo menos é o que muita gente pensa. E dizem:

— Um coelho é um coelho, quer esteja na coelheira ou no campo. E não põe ovos. Então como é que podia trazê-los pela Páscoa?

Além do mais, um coelho não consegue abrir uma porta ou saltar uma vedação. E onde é que ia arranjar um cesto para pôr os ovos, se mesmo assim os tivesse?

Ainda por cima, todos os coelhos têm medo dos homens! É triste, mas é assim!

Contudo, seria maravilhoso se imaginasses um coelho da Páscoa só teu.

Ora aqui está ele! Tem mais ou menos a tua altura e umas belas orelhas compridas.

Já está vestido com um fato de todas as cores e traz às costas um cestinho com todas as tuas prendas.

Vem a tua casa! Atravessa prados, bosques e salta por cima de todos os ribeiros. Oh! Olha uma raposa a tentar apanhá-lo!

Mas o coelho não tem medo nenhum.

— Sou o coelho da Páscoa — diz ele calmamente.

— Oh, as minhas desculpas! — responde-lhe a raposa.

O teu coelhinho chega a uma cidadezinha. Vem um cão a ladrar com toda a força, mas quando vê que é o coelho da Páscoa, abana a cauda alegremente.

O coelho da Páscoa passa por cima das sebes, atravessa jardins e chega finalmente à soleira da tua porta.

Mete a ponta de uma das suas longas orelhas na fechadura e roda-a muito devagarinho e com muito cuidado. E pronto, a orta abre-se.

Está agora a esconder os ovos e muitas outras coisinhas que trouxe. E quando tu acordares no domingo de Páscoa e encontrares os ovos, vais ter a certeza de que… foi o teu coelho da Páscoa que trouxe tudo!

Ele fez toda esta longa viagem por tua causa. E é o coelho da Páscoa mais bonito do mundo porque foste só tu que o imaginou!

Tradução e adaptação

Winfred Wolf
Le Lapin de Pâques
Paris, Casterman, 1987

Ninguém gosta da lua!

Ninguém gosta da lua!

Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

— Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

— Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

A Lua baixou os olhos tristemente.

— Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

— Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

— Acontece que nem me dizem boa noite!

A Noite aclarou a garganta.

— Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

— Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

E a Lua continuava a choramingar.

— Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

A Noite ouvia atentamente.

— Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

— Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

A Noite prosseguiu:

— É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

— Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.