A briga entre Paulo e Sebastião

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Paulo vive numa roulote verde com cortinas azuis.
Sebastião vive num apartamento azul com cortinas verdes.
E todas as manhãs se encontram a caminho da escola e vão pelo mesmo passeio.

Na sala de aula, sentam-se na mesma carteira e, ao lanche, Sebastião come a salsicha de Paulo e Paulo come o chocolate de Sebastião.
E todas as quartas-feiras se encontram num terreno baldio, entre o apartamento azul de Sebastião e a roulote verde de Paulo, perto de um campo onde se veem, por vezes, rebanhos de ovelhas, carneiros e cordeiros.
Paulo e Sebastião brincam aos índios, às escondidas e à apanhada, brincam aos astronautas, às aventuras na selva, e inventam outros jogos.

Estamos no inverno.
Certa manhã, Paulo acorda, olha para o céu pela pequena janela da roulote e começa a berrar:
— Está a nevar! Está a nevar!
Sebastião põe o nariz de fora dos cobertores, olha para o céu pela grande janela do seu apartamento e salta da cama aos gritos:
— Está a nevar! Está a nevar!
Sebastião veste o pulôver vermelho com o boné amarelo e Paulo coloca o boné vermelho com o pulôver amarelo. E correm os dois para o terreno baldio. Enquanto cantam, começam a fazer um boneco de neve. Atiram bolas de neve e riem-se. Escorregam, riem e cantam.
De repente, Paulo diz a Sebastião:
— Ouviste?
E Sebastião diz a Paulo:
— Ouviste?
Paulo responde:
— Talvez seja um monstro do espaço, mas eu não tenho medo.
Sebastião diz:
— Talvez seja um animal da selva, mas eu não tenho medo.
O som volta a ouvir-se, mas mais forte.
Sebastião continua:
— Vem deste lado.
E Paulo acrescenta:
— Vamos até lá?

Então, ambos se dirigem para o extremo do terreno baldio, onde está a carroçaria de um carro acidentado, toda ferrugenta e amassada.
Paulo sugere:
— Eu não tenho medo, mas vai tu primeiro.
Sebastião retorque:
— Eu também não tenho medo, mas fico atrás de ti.
Acabam por avançar ao mesmo tempo. E ali, dentro do carro velho, veem uma ovelhinha deitada.
Sebastião chama:
— Ovelhinha! Ovelhinha! Anda, tens de ir para tua casa.
Paulo diz:
— Ovelhinha! Ovelhinha ! Anda, não fiques ao frio!
Mas a ovelha não se mexe.
Olha para os dois e solta um doce balido.

Paulo diz então:
— Há aqui muitos buracos e a neve passa por eles… Ela vai ter frio. Vou construir uma roulote para que ela fique quentinha!
Sebastião acrescenta:
— Há muitos buracos e muitas correntes de ar, ela vai ter frio. Vou construir-lhe uma cabana para que ela fique quentinha!
Paulo contrapõe:
— Não, tem de ser uma roulote! Podemos pô-la onde haja menos neve.
Sebastião contradiz:
— Não, tem de ser uma cabana! É como um apartamento, o vento não entra!
Paulo grita:
— Uma roulote!
Sebastião berra:
— Uma cabana!
Começam, então, uma discussão muito feia, muito feia mesmo ….
Estão furiosos e separam-se! Paulo vai para casa dele, a roulote verde com cortinas azuis, e Sebastião também vai para casa, o apartamento azul com cortinas verdes.
Voltam à tarde mas não seguem pelo mesmo passeio. Não se falam. Continuam zangados.

Quando chegam ao fundo do terreno baldio, olham para o carro velho e enferrujado e a ovelha ainda lá está, no mesmo sítio.
Mas junto dela estão dois cordeirinhos acabados de nascer.
Paulo diz:
— Que lindo! Vou levar um, e faço-lhe uma roulote para que a neve não lhe caia em cima.
Sebastião acrescenta:
— Que ternura! Vou levar um, e faço-lhe uma cabana para que o vento não o gele.

Então, Paulo vai buscar um velho reboque com as rodas já torcidas, e encontra também um oleado cor-de-rosa, pouco sujo, que coloca em cima do reboque para que este pareça uma roulote.
Sebastião arranja umas tábuas pintadas de verde, pouco estragadas, e constrói uma pequena cabana com paredes verdes e um telhado também verde.
Paulo pega ao colo um dos cordeirinhos e coloca-o na roulote.
Sebastião pega ao colo no outro cordeirinho e mete-o na cabana.

É então que a ovelha se levanta e vai tirar o cordeiro da roulote de Paulo. Empurra-o com o focinho e fá-lo voltar para o carro velho.
Depois, vai à cabana de Sebastião, faz levantar o segundo cordeirinho e encaminha-o para a velha carripana apodrecida.
Sebastião e Paulo olham um para o outro e sorriem com gosto. Paulo vai buscar o oleado cor-de-rosa da pequena roulote e estende-o sobre o tejadilho esburacado do carro velho.
Sebastião pega nas tábuas verdes da cabana e coloca-as contra as portas estragadas.
De seguida, vão os dois à procura de feno e de palha.

A ovelha fica muito bem, no quentinho, a amamentar os dois filhotes.
Ouvem-se chocalhos que já estão perto e Paulo diz:
— É o rebanho!

E Sebastião acrescenta:
— Estão a chegar os carneiros!
Correm os dois em direção ao pastor.
E gritam:
— Venha ! Venha ! Encontrámos uma ovelha!

E o pastor pega nos dois cordeirinhos.
Leva-os, bem agasalhados debaixo da sua capa, e a ovelha segue-o.
O rebanho afasta-se acompanhado pela música dos chocalhos.
E Paulo e Sebastião vão-se embora, de mão dada, pelo mesmo passeio.

René Escudié ; Ulises Wensell
La dispute de Poulou et Sebastião
Paris, Bayard Jeunesse, 2013
(Tradução e adaptação)