O coelho da Páscoa

O coelho da Páscoa

Os coelhos da Páscoa não existem!

Pelo menos é o que muita gente pensa. E dizem:

— Um coelho é um coelho, quer esteja na coelheira ou no campo. E não põe ovos. Então como é que podia trazê-los pela Páscoa?

Além do mais, um coelho não consegue abrir uma porta ou saltar uma vedação. E onde é que ia arranjar um cesto para pôr os ovos, se mesmo assim os tivesse?

Ainda por cima, todos os coelhos têm medo dos homens! É triste, mas é assim!

Contudo, seria maravilhoso se imaginasses um coelho da Páscoa só teu.

Ora aqui está ele! Tem mais ou menos a tua altura e umas belas orelhas compridas.

Já está vestido com um fato de todas as cores e traz às costas um cestinho com todas as tuas prendas.

Vem a tua casa! Atravessa prados, bosques e salta por cima de todos os ribeiros. Oh! Olha uma raposa a tentar apanhá-lo!

Mas o coelho não tem medo nenhum.

— Sou o coelho da Páscoa — diz ele calmamente.

— Oh, as minhas desculpas! — responde-lhe a raposa.

O teu coelhinho chega a uma cidadezinha. Vem um cão a ladrar com toda a força, mas quando vê que é o coelho da Páscoa, abana a cauda alegremente.

O coelho da Páscoa passa por cima das sebes, atravessa jardins e chega finalmente à soleira da tua porta.

Mete a ponta de uma das suas longas orelhas na fechadura e roda-a muito devagarinho e com muito cuidado. E pronto, a orta abre-se.

Está agora a esconder os ovos e muitas outras coisinhas que trouxe. E quando tu acordares no domingo de Páscoa e encontrares os ovos, vais ter a certeza de que… foi o teu coelho da Páscoa que trouxe tudo!

Ele fez toda esta longa viagem por tua causa. E é o coelho da Páscoa mais bonito do mundo porque foste só tu que o imaginou!

Tradução e adaptação

Winfred Wolf
Le Lapin de Pâques
Paris, Casterman, 1987

Ninguém gosta da lua!

Ninguém gosta da lua!

Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

— Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

— Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

A Lua baixou os olhos tristemente.

— Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

— Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

— Acontece que nem me dizem boa noite!

A Noite aclarou a garganta.

— Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

— Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

E a Lua continuava a choramingar.

— Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

A Noite ouvia atentamente.

— Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

— Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

A Noite prosseguiu:

— É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

— Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.

A noite de Natal

A noite de Natal do pequeno rei

Acorda, pequeno rei!
Estremunhado, o pequeno rei esfrega os olhos e senta-se na cama. Nisto bate com o nariz num lenço atado na ponta de um fio que pende do tecto.
— Ah, o lenço! De que é que não me queria esquecer?
Tu querias abrir a porta, pequeno rei.
O pequeno rei desliza descalço até à porta do quarto.
— Está bem assim? — pergunta, abrindo a porta.
Não, não é uma porta qualquer. É uma especial, a última! Pensa, pequeno rei!
— Já sei! — Corre para a biblioteca e pára em frente de um quadro.
Até que enfim! Estás no local certo.
O pequeno rei abre a última portinha do calendário do Advento, a do número 24. Bate palmas entusiasmado, e já está completamente acordado.
— Oh, que maravilha! Então hoje é Noite de Natal! Será que a árvore já está feita? Vamos lá ver.
Aos saltos de contente, dirige-se à porta da sala e tenta rodar a maçaneta da porta. Está fechada à chave.
O pequeno rei espreita pelo buraco da fechadura.
Nada de espiar, pequeno rei! Esta porta só se abre quando o sino tocar.
— Então ainda tenho de esperar muito tempo! Tempo de mais, até!
O pequeno rei dá meia volta e corre em direcção à porta da entrada.
Ei! Onde é que tu vais? Ainda estás em pijama!
— Está bem, pronto, eu visto-me primeiro.
Após alguns minutos, já está lá fora a esbracejar.
— Estão aqui rastos de trenó! Ah, apanhei-o! Está aqui!
O Pai Natal está aqui, na minha sala!
É possível. De certeza que está a preparar tudo para a Noite de Natal.
— Oh, tenho de ver isso! — exclama o pequeno rei, correndo para a janela. — Talvez consiga ver alguma coisa pelo lado de fora.
Tem paciência, pequeno rei.
— Ora, deixa-me em paz! Eu quero saber tudo, tudinho!
Com cuidado, o pequeno rei põe-se em bicos de pés para chegar ao parapeito exterior da janela. Mais acima! Mais um bocadinho… Zum! A persiana desce.
Aí está! Tem mesmo de ser uma surpresa.
Agora, o pequeno rei sente-se ofendido.
— Assim não, querido Pai Natal! Eu não deixo que me ponham de fora!
Sai dali a correr e desaparece na arrecadação.
Em que é que estás a pensar desta vez? Acalma-te. Até à distribuição dos presentes, o tempo passa depressa.
O pequeno rei não responde. Em vez disso, sai da arrecadação, arrastando pela neve uma escada enorme, que encosta contra o muro do palácio.
Pára com isso imediatamente!
Sobe para o telhado e senta-se diante da chaminé. Também tem uma cana de pesca com ele.
— Agora, vou pescar algumas bolachas de Natal. No meu palácio, eu faço o que quero.
E deixa cair o fio de pesca pela chaminé abaixo. Depois, dá à manivela e volta a puxar.
— Hurra! Uma estrela de canela! humm, destas é que eu gosto. Vamos lá repetir de novo.
O pequeno rei pesca mais bolachas de Natal.
— Oh, uma bolachinha de baunilha! Que maravilha! Que delícia! Este lugarzinho é mesmo um esconderijo calmo e escondido. Um lugarzinho com muitas bolachinhas, ah,ah,ah!
Felicíssimo, o pequeno rei põe-se a dar saltos e a rir.
Isso não tem graça nenhuma, pequeno rei. E não andes assim aos saltos, presta atenção. Cuidado! Oh, não! Escorregou, já não consigo vê-lo!
O pequeno rei escorrega do telhado, cai ruidosamente sobre um monte de neve e, em seguida aterra-lhe em cima neve do telhado. Já não se vê mais nada dele.
Onde estás, pequeno rei? Ainda estás vivo? Responde!
Mas ninguém responde. Em frente do palácio só está um boneco de neve.
Ei, boneco de neve, sabes onde está o pequeno rei?
— Enterrado — responde o boneco de neve. E grita depois: — Ajuda-me, Grete!
Vem aí o cavalo preferido do pequeno rei. Fareja o boneco de neve e empurra-o ligeiramente:
— Hiiii!!
Oh! O pequeno rei está escondido dentro do boneco de neve ! Grete, ele está a bater os dentes! Vai enregelar cá fora na neve.
— E…est… está mm… mui…to fffrio .
Grete agarra o pequeno rei pela ponta das calças e leva-o para o estábulo. Deita o amigo com cuidado na manjedoura e cobre-o com palha.
— Ah, Grete, que amorosa que tu és – suspira satisfeito o pequeno rei.
Olha, vem aí mais alguém. O esquilo Arbustinho trouxe-te uma noz.
— É muito boa.
E o cão Au-Au dá-te o seu osso preferido.
O pequeno rei arregala os olhos.
— Bem, talvez mais tarde, para a sopa.
O gato trouxe-te um cobertor e o Piu Piu vai cantar-te uma canção.
— Que simpático! E é tão natalício!
Muito bonito, até parece um presépio de Natal: palha na manjedoura, o boi e o burro ao lado…
— Como? – o pequeno rei e a Grete fazem uma cara de indignados.
Bem… não: o rei e o cavalo. Ainda tens frio?
— Está melhor. É quentinho e faz coceguinhas boas. É agradável.
Dlim-dlão! Grete e o pequeno rei esticam os pescoços.
O sino de Natal está a chamar para a distribuição das prendas.
Dlim-dlão.
Com um salto, o pequeno rei sai da manjedoura.
— Ah, até que enfim! Agora vai começar.
Com mais calma, pequeno rei.
Corre para o palácio direito à árvore de Natal. Que bonita está! Ainda mais do que no ano passado. Todas as velas ardem, a grinalda reluz, e nos ramos estão penduradas figurinhas de madeira e bolachinhas redondas.
— E aqui estão as prendas.
Há também um prato com bolachas em cima da mesa posta. Hum, que bem que cheira o assado de Natal.
O pequeno rei mete à boca uma bolacha e abre a primeira caixa.
— Estou tão nervoso. O que haverá lá dentro? Oh, um jogo de xadrez novo.
Ei, alguém bate à porta. Ora vê quem está à janela: os teus amigos do estábulo. Eles também estão curiosos.
O pequeno rei abre outra prenda sem prestar atenção ao que lhe dizem.
— Ah, deixa-me em paz, tenho de desembrulhar as prendas.
O que haverá dentro desta caixa? Oh, um lenço com um nó!
— Mas isto não é nenhuma prenda a sério! Será que me tornei a esquecer de alguma coisa?
Com certeza! Afinal querias abrir uma porta! A porta mais importante do Natal. Tu já sabes…
O pequeno rei ri:
— Claro, um rei sabe sempre tudo!
Corre para a porta principal e abre-a. Todos os animais estão na entrada e olham-no com expectativa. Pouco tempo depois, já todos estão sentados a comer debaixo da árvore de Natal.
— Ora prova lá esta bolacha com açúcar!
— Hiiii.
— Miaauuu.
— Claro que podes comer as da árvore!
Todos riem, estão felizes e dividem entre si as bolachas e o assado.
Bom, então um feliz Natal a todos!

Hedwig Munck
Der kleine König: neue Geschichten
 mit der kleinen Prinzessin
Plauen, Junge Welt, 2002
Tradução e adaptação

Um Natal muito especial

Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio.

Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite.

— O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita.

— Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas.

— Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita.

— E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela.

A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura.

Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuraram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca.

— É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore!

Mas a boneca já tinha dono.

— Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha!

— Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.

O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças, junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado.

Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta.

— Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita.

Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou…

Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.

— Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal.

Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo.

Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.

— É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante!

Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.

— Essas cerejas são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio.

— Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo.

A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma cereja e a levasse com ela.

O sol começava a pôr-se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa clareira, encontraram uma árvore verde muito grande.

— A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita.

E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a cereja.

— Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi.

Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.

A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes.

— Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa.

Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direcção à floresta.

Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa.

Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes.

— Oh, vejam aquilo! — exclamou.

Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão.

— A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz.

E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

Christine Leeson
Um Natal muito especial
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2006

Julho

  • Os amigos não se abandonam amizade
  • Os negociantes de velharias comportamentos-rectidão-continuar história
  • Os ratos da Ópera morte-saudade
  • Quando eu era rapaz medo
  • Quando eu tinha medo do escuro medo
  • Quando os olhos da noite mudam de sítio medo
  • Querido Greenpeace natureza-animais
  • Que idade tens?
  • Quem é quem? 
  • Remorso natureza-comportamento
  • Ricos ou pobres? família
  • Ser irmão mais velho nascimento
  • Ser pai 
  • Tenho inveja 
  • Tenho medo 
  • Tenho um tigre imaginação
  • Um farol só meu saudade
  • Um rapazinho como tu 
  • Um urso à caça natureza-respeito pelos animais
  • Uma mãe como o vento morte-amizade
  • Uma nova casa mudança-integração
  • Uma prenda para o Menino Jesus Natal-responsabilidade
  • Uma visita fora do normal continuar história – hospitalidade
  • Vês aquela árvore ali? amizade-crianças-diferença (invisuais)
  • Viva o Outono – Outono/avôs-netos
  • Um, dois, três… soninho!

    Esta noite, Carneirinho não tem fome, só tem muito sono. Passou o dia inteiro a brincar, a correr e a saltar por todo o lado, e agora, sentado na sua cadeirinha, adormeceu com o nariz em cima do prato dos espinafres.

    A mãe pega nele ao colo com muito cuidado para não o acordar e leva-o para o quarto.

    Muito devagar, deita o Carneirinho na cama, mas ele acorda e abre os olhos.

    — Não tenho sono nenhum! Eu ainda quero brincar mais!

    A mãe explica que são horas de dormir e que os brinquedos também precisam de descansar. Beija-o com muita ternura e deseja-lhe, assim como ao seu ursinho, sonhos bonitos.

    Carneirinho encolhe os ombros. Como é que há-de de sonhar se não tem sono? E tenta convencer a mãe:

    — Por favor, deixa-me brincar só mais um bocadinho…

    A mãe acaricia-lhe a cabeça cheia de caracóis:

    — Para seres um carneiro grande como o teu pai, lindo e cheio de força, precisas de ter sono. Tu bem sabes que dormir faz crescer. Vamos fazer um jogo: fechas os olhos e imaginas um rebanho de cordeirinhos brancos muito alegres, a saltarem uma cancela, uns atrás dos outros. Quando o décimo carneiro tiver saltado, já estás a dormir.

    Carneirinho faz como a mãe disse. Fecha os olhos, apertando as pálpebras com força, e espera.

    Primeiro, não acontece nada. De repente, aparece a espreitar à janela a cabeça de um cordeiro branco, com um gorro vermelho e cara de brincalhão. Com um ar intrigado, espreita para dentro do quarto e pergunta:

    — Olha, deixas-me entrar?

    — Com certeza — responde Carneirinho, surpreendido.

    O cordeirinho branco de gorro vermelho salta para o tapete. Corre para a arca dos brinquedos, abre a caixa dos cubos e começa a construir uma torre muito alta.

    Ainda não tinha acabado, quando um segundo cordeiro branco bate à janela.

    — Também posso entrar? — pergunta.

    — Claro — responde Carneirinho, já sem se admirar.

    Este cordeiro traz calçadas umas lindas botas amarelas de borracha. Levanta as pernas e salta com destreza para dentro do quarto. Corre, decidido, para a arca dos brinquedos e tira um jogo de construções.

    Enquanto escolhe as peças e hesita entre construir uma casa, um avião, ou uma nave espacial, um terceiro cordeirinho branco mostra a ponta do focinho atrás do vidro.

    — Entra — diz Carneirinho — faz de conta que estás em tua casa.

    Este cordeiro é mais desastrado e estatela-se em cima do tapete. Catrapumba! A torre de cubos desmorona-se debaixo dele. Estonteado, pega num livro para se recompor.

    Enquanto vira as páginas, um quarto cordeiro pula para dentro do quarto, mesmo sem ser convidado. Pega no violino e põe-se a tocar uma música endiabrada.

    Imediatamente a seguir, surge o quinto, de cartola, muito elegante. Logo depois, o sexto aterra suavemente, com um guarda-chuva verde a servir de pára-quedas.

    O sétimo cordeiro traz um cachecol garrido; o oitavo já está preparado para saltar, e o nono não deve estar longe, porque o décimo já está a chegar.

    Num piscar de olhos, dez cordeiros brancos, dez cordeirinhos alegres e despreocupados, andam às voltas no quarto. Dez cordeirinhos traquinas andam aos pinotes pelo quarto todo. Estes malandros põem o comboio eléctrico a andar, jogam ao berlinde, à bola ou à cabra-cega, organizam corridas de carros e concursos de saltos de obstáculos.

    O cordeiro número quatro toca sem parar no violino dourado, e os números nove e dez, fazem uma barulheira infernal.

    Que algazarra! Carneirinho já está farto.

    — Parem com isso! — grita ele. — Chega! Não consigo dormir com esta barulheira!

    Dez cabeças encaracoladas viram-se para ele:

    — Méé, méé, méé! Foste tu que nos chamaste. Tens de saber o que queres!

    — Quero dormir — diz Carneirinho — se não nunca mais vou ser grande e forte como o meu pai.

    Então, em silêncio, os alegres cordeirinhos brancos desaparecem um a um pela janela, da mesma forma que vieram, à excepção do primeiro, o do gorro vermelho, que fica para trás:

    — Sabes para onde foram? — pergunta Carneirinho.

    — Para o país dos sonhos — responde o cordeiro do gorro vermelho. — Vem, eu levo-te para lá também.

    Carneirinho dá a pata ao cordeiro branco, que a aperta com muita força, e voam pela janela fora em direcção ao céu estrelado. Voam tão rápido e para tão longe, que se confundem com duas estrelinhas a brilhar na noite.

    Antes de se deitar, a mãe de Carneirinho vem dar-lhe um último beijo. Quando entra no quarto, em bicos de pés, fica muito admirada ao ver os brinquedos espalhados pelo chão. Porém, Carneirinho dorme profundamente, com um gorro vermelho na cabeça. Em cima da colcha, um raio de luar faz brilhar o seu violino dourado…

    Anne-Isabelle le Touzé
    Un, deux trois, sommeil!
    Paris, Actes Sud, 1998
    Tradução e adaptação

    Frutos do mar

    Frutos do mar

    Jessica era uma menina canguru muito fora do normal. Primeiro, porque não tinha medo da água e, segundo, porque, certa vez, tivera a estranha ideia de plantar árvores de fruto no fundo do mar. Foi assim:

    Jessica apareceu, certo dia, em casa de duas gatas que também não tinham medo da água. Eram Pia e Larissa, e moravam numa casinha à beira-mar, onde alugavam instrumentos de mergulho. Jessica queria aprender a mergulhar com as duas gatinhas.

    Pia e Larissa tiveram primeiro de mandar fazer um fato de mergulho especial para Jessica, pois não tinham no armazém barbatanas tão grandes que servissem a um canguru. Foram depois com ela para debaixo de água pela primeira vez. Jessica mostrou ser uma nadadora fenomenal! Claro que com umas pernas compridas e fortes como as dela, e ainda por cima com umas barbatanas, Jessica movia-se pela água, rápida como um golfinho.

    Agora, as três tinham passado a mergulhar todos os dias durante algumas horas.

    Deve ter sido durante os meses seguintes que a menina canguru teve a ideia dos frutos do mar. Testemunhas oculares contam como Jessica e as gatas, de cada vez que mergulhavam, levavam consigo plantinhas e arvorezinhas de fruto. Ninguém sabia explicar porque faziam aquilo. Árvores de fruto no fundo do mar? Era impossível. Nunca iriam crescer lá, era um absurdo!

    Mas mais tarde, no Outono, o gato Flino e a ratinha Roberta, passaram de submarino pela zona onde a menina canguru e as gatas costumavam mergulhar. E com os seus próprios olhos viram o jardim submerso! Pereiras e macieiras embalavam-se suavemente na corrente, carregadas de frutos maduros, e, no chão do mar, cresciam melancias enormes.

    Como seriam estes frutos do mar? Talvez um pouco salgados mas, de qualquer forma, deviam ser muito, muito sumarentos…

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado

    O dragão violeta

    O dragão violeta

     

    Era uma vez uma floresta enorme e muito antiga, onde moravam muitos animais, e todos viviam satisfeitos. Tinham tudo aquilo de que precisavam e não eram incomodados pelos homens, pois estes ainda não tinham descoberto esta floresta. Só evitavam a parte norte da floresta. Segundo uma antiga lenda, havia aí um terrível dragão cor-de-violeta que comia tudo o que lhe aparecia à frente. Nunca nenhum dos animais vira o dragão violeta mas, mesmo assim, não se aventuravam a ir à parte norte.

    Na floresta viviam também muitos ursos com os seus filhotes. Um desses ursinhos era o Nestor. Nestor era mais pequeno do que os outros ursos da sua idade. Não conseguia correr tão depressa como os seus companheiros de jogo, na luta perdia sempre e, na subida às árvores, era sempre o último. Por isso, muitas vezes, os outros ursinhos, não queriam deixá-lo brincar. E, ainda por cima, riam-se dele.

    Nestor era mais fraco do que os outros, é verdade, mas era muito corajoso.

    Quando, certo dia, os ursinhos voltaram a não querer deixá-lo brincar com eles, saiu dali em direcção ao norte, onde morava o dragão violeta. Mas o ursinho nem estava a pensar no dragão. Após ter corrido muito, Nestor foi parar a uma bela clareira. Sentou-se em cima de uma pedra e pôs-se a reflectir na injustiça dos seus companheiros. De repente, ouviu-se um leve estalar no meio das árvores e a cabeça do dragão violeta apareceu por cima delas. O ursinho apanhou um valente susto ao ver o enorme animal. Mas o dragão violeta tinha uma cara tão amorosa, que Nestor perdeu o medo por completo. Ficaram a olhar um para o outro durante um bocado. Nestor percebeu que o dragão também se sentia só. Ergueu-se e tocou na ponta do nariz do dragão, que fungou baixinho e sorriu. Em seguida, encolheu o enorme pescoço e desapareceu por entre a copa das árvores.

    O ursinho regressou a casa feliz. Será que devia contar aos amigos o encontro que tivera com o dragão? O mais certo era não acreditarem numa única palavra…

    “Amanhã volto outra vez à clareira”, pensou Nestor. “Será que o dragão violeta vai aparecer?”

    Só de pensar no encontro, Nestor já sorria!

    Erwin Moser
    Mario der Bär
    Weinheim Basel, Parabel, 2005
    Texto adaptado

    A casa de madeira

    A casa de madeira

    Pelo Outono, a rata Alina ouvira dizer que o seu bom velho amigo, o texugo Norberto, morava agora numa casa algures na montanha. Há muito tempo que Alina não via Norberto. Nos últimos dias, desde que a neve começara a cair, Alina pensava muito nele, na sua agradável voz resmungona, na sua presença calorosa e reconfortante e na sua grande colecção de livros, que ele muitas vezes lhe lera.

    “A casa do Norberto, lá na montanha, de certeza que agora tem luz, é quente e confortável”, pensou a ratinha, e naquele momento a sua toca começou a parecer-lhe apertada e abafada. No dia seguinte, tomou uma decisão:

    — Vou ter com o Norberto! Não sei ao certo onde mora, mas não deve ser assim tão difícil de encontrar.

    Alina calçou as botas quentes de ratinha, vestiu um casaco grosso de lã e pôs-se a caminho. Foi subindo a montanha, cada vez mais para cima, pela neve funda. Por pouco não dava com a casa do texugo! A noite já estava a chegar e ela ainda à procura do caminho através do bosque. E, para mais, começara a cair um nevão! Mas a ratinha não era medrosa.

    “Se não encontrar hoje a casa do texugo, cavo um buraco fundo na neve”, pensou ela, “e assim não fico gelada…”

    Mas, por fim, lá acabou por encontrar o caminho para fora do bosque, e viu à sua frente, num declive, a casa do texugo!

    Era de madeira. Nas janelas brilhava uma luz amarela e quente e, da chaminé alta, saía um longo rasto de fumo que balançava ao vento.

    Alina juntou as últimas forças e correu em direcção à casa. Claro que o texugo se alegrou imenso com a sua chegada. E ambos passaram um Inverno maravilhoso e confortável na casa de madeira, longe de tudo, lendo e conversando…

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Tradução e adaptação

    O sono e o sonho

    O Sono e o Sonho

    A noite tem dois filhos: um chamado Sono e o outro chamado Sonho. Gosta, quando o tempo está frio, de os agasalhar debaixo do manto de veludo negro que, umas vezes, enfeita com estrelas brilhantes e, outras, com nuvens carrancudas.

    O Sono e o Sonho, como todos os irmãos, têm as suas brigas e aborrecimentos. E porquê? Ora, por tantas razões! Mas a principal é esta: é que o Sono gosta de dormir a bom dormir e o Sonho tem o hábito de aparecer pelo meio a meter-lhe fantasias na cabeça.

    Quando isso acontece, a mãe, que gosta que a tratem apenas por Noite, sem dona nem senhora atrás do nome, aparece, faz uma festa na cabeça de cada um, dá razão aos dois e depois aconselha:

    — Agora vamos dormir, porque amanhã é dia de trabalho.

    De quem os dois irmãos não gostam nada é de um primo que têm chamado Pesadelo, porque é feio, irritante, e tem o costume de contar histórias de arrepiar, que deixam os dois muito trémulos debaixo do manto da Noite.

    Um dia destes, o Sono e o Sonho decidiram pregar uma partida ao primo Pesadelo. Sabem como? Fingiram que estavam a dormir muito descansados e deixaram-no aproximar-se. Quando ele se preparava para lhes contar uma daquelas histórias de pôr os cabelos em pé, saltaram os dois da cama com lençóis brancos na cabeça, mascarados de fantasmas, e pregaram um tremendo susto ao primo mal-encarado, que passou muitos meses sem aparecer.

    Nesse dia, a Noite cobriu-se com o seu manto de estrelas brilhantes e dormiu até de manhã com os dois filhos enroscados e felizes a seu lado.

    José Jorge Letria

    Histórias do Sono e do Sonho

    Editorial Desabrochar, 1990

    Castelos de areia

    Castelos de areia

    Junto a uma serra há uma praia pequenina, de areia macia, onde as crianças gostam de brincar. É ali que se encontram muitas vezes a Rita, o Miguel e o André, três primos, cuja melhor brincadeira é construir castelos, ali à beira do mar. Mas são sempre uns senhores castelos! Altos, com torres e torreões, com portas e portões! E é ver quem faz o castelo mais alto, mais complicado, mais… tudo!

    Um dia, os primos resolveram construir um castelo com pessoas, cavalos, portas, janelas, árvores e tudo o mais que lhes viesse à cabeça. E o castelo ali se ergueu, maior do que todos os outros.

    — Castelo sem princesa, nunca se viu! — disse a Rita. E logo os primos puseram uma princesa à janela.

    — Castelo sem bandeiras, nunca se viu! — disse o Miguel. E logo apareceram bandeiras de papel na torre mais alta, a ondular ao vento.

    — Castelo sem fosso, nunca se viu! — queixava-se agora o André. E lá fizeram um fosso cheio de água.

    — Um castelo deve ter bruxas! — continuou a Rita. E ela mesma fez uma bruxa a saltar da torre, montada numa vassoura.

    — Um castelo deve ter fadas! — pediu o André. E a fada entrou pela ponte levadiça.

    — Um castelo deve ter um gigante! — E o Miguel ria-se enquanto fazia um gigante ao lado da fada.

    — À noite, as tempestades metem medo! — E a Rita salpicava o castelo com água do mar, como se fosse uma grande chuvada.

    — E o vento sopra forte… — E todos sopravam e riam, riam e sopravam.

    — E um dragão, um castelo precisa de um dragão! — gritou o Miguel — Vamos fazer um dragão.

    — Não vamos fazer dragão nenhum; o Fofinho serve. — E a Rita puxou o cão para junto do castelo.

    — E agora chega o príncipe e mata o dragão. — anunciou o André.

    — Mata nada! O cão é meu! — gritou o Miguel, agarrado ao Fofinho, que não parecia interessado em fazer o papel de dragão.

    Entretanto, o mar tinha subido devagarinho e já destruíra uma porta do castelo.

    — Meninos, são horas do almoço! — chamava a tia Isabel. — Já estão há muito tempo aí ao sol.

    — É isso! É isso! — disse o Miguel, muito sisudo. — É o tempo, é o tempo! Não há castelo que escape aos ataques do tempo! Ele passa e as muralhas irão cair, as paredes abrirão fendas; do castelo em ruínas fugirão fadas e dragões, bruxas e gigantes! Amanhã será a altura de reconstruirmos o nosso castelo.

    — Amanhã faremos novas torres — garantia o André.

    — Amanhã teremos novas fadas — afirmava o Miguel.

    — Pois é, e hoje teremos novo almoço! Vamos comer.

    E a Rita correu para casa com os primos e o cão-dragão atrás dela.

    O castelo ali ficou na luta com o mar. Aos poucos, as torres caíram, o fosso desfez-se, a fada já não era mais do que um montinho de areia, arredondado pelas ondas. O mar ia deixar a praia de novo lisa e macia, pronta para que as crianças viessem construir os seus castelos de areia com dragões, gigantes e feiticeiros.

    Amanhã, recomeçará a brincadeira do mar e das Ritas, dos Migueis e dos Andrés que sonham e constroem castelos de areia.

    Natércia Rocha

    Castelos de areia

    Venda Nova, Bertrand Editora, 1995

    Castanhas quentes

    Castanhas quentes

    Tobias, o velho cão, era vendedor de castanhas assadas. Todos os anos, no Outono, apanhava alguns sacos, que assava no forno e ia vender na praça principal da cidade. Tobias sempre se sentira feliz com este trabalho. O único inconveniente era que os pés lhe arrefeciam muito.

    “Já estou velho”, pensava ele. “Ainda ganho frieiras por ficar tanto tempo de pé ao frio. Tenho de ter mais cuidado com a minha saúde. O ideal seria poder vender as castanhas e mexer-me ao mesmo tempo!”

    Então Tobias teve uma ideia.

    “Não serão os clientes a vir ter comigo mas eu a ir ter com eles. Mas tinha de montar umas rodas no carro. Não, o melhor era umas lâminas de patins de gelo. Assim podia levar o assador através da neve!”

    Tobias teve então uma ideia ainda melhor…

    A cidade tinha um grande lago em cujas margens havia muitas moradias.

    “Estes vão ser os meus novos clientes!”, pensou Tobias. Montou patins no carrinho, calçou também ele patins de gelo e assim pôde passar a deslizar por cima do lago gelado, de casa em casa, e oferecer as suas castanhas assadas. Em poucos dias ganhou uma clientela considerável.

    Mal Tobias aparecia com o seu carrinho por cima do gelo, toda a gente ficava contente! E tu, não ficarias?

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Tradução e adaptação

    Uma visita fora do normal

    Uma visita fora do normal

    Lá muito para cima, perto do Pólo Norte, morava Ulisses, o urso polar. Não havia muitos animais que morassem tão a norte, por isso Ulisses passava a maior parte do tempo sozinho. Nos últimos tempos, aliás, tinha recebido uma série de visitas interessantes. Primeiro, tinham chegado num navio três pinguins e, mais tarde, outros dois. Vinham de longe, do outro lado do mundo, mais precisamente do Pólo Sul, onde tudo também é gelado, como no norte.

    Nos dias anteriores, Ulisses tinha andado a mostrar a sua terra aos pinguins e todos tinham gostado muito. É certo que o urso polar não podia mostrar-lhes muita coisa, porque muito não havia, mas os pinguins sentiam-se bem, e isso era o mais importante.

    Certa noite, chegou um terceiro barco à pequena baía onde Ulisses tinha a sua toca. Seriam mais pinguins? Ulisses e os cinco pinguins correram para a praia e puxaram o barco para terra. Curiosamente, não estava ninguém na coberta. O urso abriu a porta gelada do camarote. Lá dentro, enrolado num cobertor fino, encontrou um porquinho. Vestia umas calças com quadrados às cores e estava a dormir profundamente. Aquilo era muito estranho. Como teria chegado até ali, tão só? Teria ele estado em perigo de naufragar e sido arrastado para o Pólo Norte?

    Ulisses tomou o porquinho nos braços e levou-o depressa para a sua toca. Deitou-o na sua própria cama e cobriu-o muito bem. Em seguida foi fazer-lhe uma sopa de peixe, pois o porquinho de certeza que teria fome quando acordasse.

    Ulisses e os cinco pinguins já estavam curiosos por saber o que o visitante teria para lhes contar…

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Tradução e adaptação

    A casa feita de sonho

    A casa feita de sonho

    Leve como uma pluma,

    alta como uma torre,

    quente como um ninho

    e doce como o mel,

    assim imaginei

    desde pequeno

    a minha casa… 

    Mais tarde, quando me encontrei só no mundo, como não tinha dinheiro, resolvi construí-la com as próprias mãos. Fiz primeiro a minha casa de papel, que é um material barato.

    E assim que ficou pronta, vieram todos os ventos da Terra e levaram a minha casa de papel, leve como uma pluma…

    Fiquei sem casa, mas não desisti. E fiz a minha casa à beira-mar, com areia da praia, que é um material barato.

    Mal estava pronta, vieram todas as marés do mundo e levaram a minha casa de areia, alta como uma torre…

    Deu-me vontade de desistir, mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia abandonar o meu sonho.

    E resolvi fazer a minha casa de madeira, que é um material barato. Cortei-a dos bosques, com as   próprias  mãos!

    Ficou linda!… Escondida entre a folhagem…

    Mas ainda mal a tinha acabado, vieram todos os fogos do céu e queimaram a minha casa de madeira, quente como um ninho… Chorei sobre as cinzas, como se chora uma pessoa querida que morreu.

    Mas, mesmo assim, não desisti. E resolvi fazer a minha casa de açúcar…

    Mas o açúcar não é um material barato! Pois não…

    Mas eu precisava de uma casa, e sobretudo, não podia abandonar o meu sonho.

    Trabalhei, lutei, passei fome, para juntar o açúcar suficiente…

    E quando a minha casa estava pronta — eram de açúcar as paredes, o chão, o tecto, os móveis, as portas e as janelas — vieram todos os bichos da Terra e devoraram a minha casa de açúcar, doce como o mel…

    Fiquei sem casa. E desisti de construí-la com as próprias mãos…

    Perguntam-me onde moro… Onde moro eu? Sei lá!… Vou pelo mundo, aqui, além, no bosque, à beira-mar… Perguntam-me se não tenho casa… Tenho, sim! Eu podia lá abandonar o meu sonho!…

    Resolvi imaginá-la. Num sítio onde não chega o vento, nem o mar, nem o fogo, nem os bichos da Terra.

    Fiz a minha casa com o meu próprio sonho. Ficou linda!

    Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel…

    Adaptação

    Ricardo Alberty

    A casa feita de sonho

    Melhoramentos de Portugal, 1991

    O balão em forma de lua

    O balão em forma de lua

    Certa noite, o gato Alcides teve um sonho maravilhoso. Sonhou com um balão de ar quente que tinha uma forma muito invulgar e que planava sobre uma imensa planície. Durante semanas, não conseguiu esquecer aquele sonho. Por fim, resolveu construir o balão com que sonhara.

    Tinha a forma de uma meia-lua deitada. O gato Alcides construiu uma armação de madeira com a forma de meia-lua e revestiu-a de seda amarela. Entretanto, a mulher fizera o cesto do balão e a filha encheu quatro sacos com areia, de que iriam precisar como lastro. Ao fim de algumas semanas de trabalho, o balão em forma de lua estava pronto.

    A família Alcides carregou-o com provisões de comida e sacos de dormir. Encheram a meia-lua de ar quente e a viagem pôde finalmente começar. Os três gatos viajavam sem objectivo e só o vento sabia para onde os levava. No terceiro dia de viagem, chegaram a uma planície exactamente igual à do sonho do gato Alcides.

    — Que maravilha! — disse o gato Alcides. — É como se estivesse a sonhar o meu sonho novamente! O que será que vai acontecer em seguida?

    Mal tinha dito isto, um grande pássaro azul com um enorme bico pontiagudo veio a voar em direcção ao balão. Aterrou com força no balão meia-lua e, para horror dos gatos, começou a picar um buraco no forro. Será que o pássaro azul tinha tomado a meia-lua por uma banana? Os gatos gritaram e bufaram, mas o pássaro não se deixou afugentar e aumentou ainda mais o buraco. O ar quente começou a sair lentamente e o balão ia perdendo cada vez mais altura. Em breve iriam pousar no chão. De súbito, apareceu na planície à frente deles um palácio curioso. Os habitantes de certeza que haviam de ajudá-los. Ou teria algum dos habitantes do palácio enviado o pássaro azul de propósito? Tudo muito misterioso!

    Sonha agora tu esta história daqui para a frente…

    Erwin Moser

    Mario der Bär

    Weinheim Basel, Parabel, 2005

    Texto adaptado