Tenta agora ser crescido – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Tenta agora ser crescido

Toma nota dos recados
que chegam a tua casa,
algo pode acontecer
se a mensagem se atrasa.

Não abuses do telefone
mesmo à mão de semear,
pois na hora da verdade
não serás tu a pagar.

Tenta agora ser crescido
e ouve o “rock” mais baixinho;
deixas o gato dormir
e não acordas o vizinho.

O que tu ouves aos berros
só serve para te excitar
quando afinal é de calma
que estamos a precisar.

Tenta agora ser crescido
mesmo que ainda o não sejas;
se quiseres, tu podes ser
tudo aquilo que desejas.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Leva o cão a passear – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Leva o cão a passear

Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um acto sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão ?

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não vale fazer batota – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não vale fazer batota

Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

A mão a tapar a boca – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

A mão a tapar a boca

Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Mentir é muito feio – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Mentir é muito feio

Mentir é muito feio
porque faz mal à verdade,
deixa a verdade a meio
e instaura a falsidade.

Neste inundo de mentira
dela não faças a regra;
nem sempre nos absolvem
por aquilo que se nega.

E se a mentira é um vício, pode
tornar-se doença
que custa para se curar
muito mais do que se pensa.

O mentiroso altera
aquilo que vê e escuta;
a verdade e a mentira
nele estão sempre em luta.

E no fundo o mentiroso
a si mesmo se desmente
pois falseando a verdade
tudo à mentira consente.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003