A maçã verde

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Este é o meu segundo dia na minha nova escola, no meu novo país.
Hoje não vai haver aulas porque vamos para o exterior. Mas os outros dias não serão como este. Amanhã voltarei para a aula em que irei aprender a falar Inglês.
As mães conduzem-nos para um atrelado cheio de feno. Subimos e encostamo-nos aos fardos de feno. O carro é puxado por um trator e todos somos sacudidos de um lado para o outro. Continuar a ler

A três não há frio!

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A três não há frio

Chegou o inverno e está muito frio. Em casa de Piquepique, o ouriço-cacheiro, o aquecimento não funciona.
Ainda por cima, como já é de noite, o eletricista só amanhã é que poderá vir arranjá-lo.
De repente alguém bate à porta:
Truz, truz.
― Quem é? ― pergunta Piquepique.
― Sou eu, o teu vizinho Quebra-Nozes… o esquilo! Não tenho aquecimento. Podes albergar-me por esta noite?
― Oh, meu amigo, o meu aquecimento também não funciona! Estava mesmo a pensar ir passar a noite a tua casa! Mas entra, entra, és muito bem-vindo. Assim já somos dois e podemos aquecer mais ― responde Piquepique. Continuar a ler

A História da Vaca Glória

 

Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes,  pelos grossos e duros e  pés pesados. Continuar a ler

Tesouro no fundo do mar

Tesouro no fundo do mar

Fecha os olhos e imagina-te sentado num barco que flutua no mar calmo. Quando olhas para baixo e vês as ondas que se agitam, a tua lanterna mágica capta o luar. Brilha como um Caminho Encantado no azul profundo do mar. Onde irá levar-te esta noite?
Escorregas até à água quente e nadas como um peixe, entrando e saindo do teu próprio trilho de bolhas brilhantes. Depois, como por magia, as bolhas transformam-se em pequenos cavalos-marinhos, andando para cima e para baixo na água ao teu lado. Seguem em frente e param, vão em frente e esperam novamente. Tens a certeza de que querem que os sigas. Por isso vais atrás deles!
Um cardume de peixes prateados brilha à tua volta, centenas e milhares deles fazem cócegas na tua pele. Os cavalos-marinhos nadam à tua frente. É como se estivessem a indicar-te o caminho — ali à frente, estrelas-do-mar cintilam em cavernas submarinas e, mais além, estão ostras cujas pérolas reluzem como pequenas luas.
Vês agora as bonitas cores do recife de coral. O coral parece um castelo gigante guardado por ouriços-do-mar. À medida que vais nadando pelas pequenas e grandes torres do coral, reparas numa coisa que brilha nas profundezas da água. O que será?, interrogas-te.
Cheio de entusiasmo, aproximas-te nadando. É uma arca do tesouro! A tampa não está bem fechada e vês pequeninos pares de olhos a espreitar por entre aquela escuridão. Devagar, abres completamente a tampa e vários caranguejos pequeninos e engraçados fogem cá para fora.
Depois vês as jóias e os colares cintilantes, as pulseiras e as fivelas. E um monte de moedas de ouro. Um dos cavalos-marinhos roça com a cauda num anel de rubi. “Experimenta”, parece estar a dizer-te. A jóia reluz no teu dedo e interrogas-te a quem terá pertencido. A um grande duque que navegou pelo oceano com os seus navios? Ou talvez a uma princesa, que navegava porque ia casar com um príncipe que vivia num país distante? Os cavalos-marinhos brincam com as jóias e as moedas brilhantes. “Vá, leva uma parte do tesouro”, parecem estar a dizer.
Talvez só uma coisinha, pensas. Afinal, quem iria sentir a falta de uma pequena moeda depois destes anos todos? Mas a moeda não é tua. Decides que é melhor voltar a colocá-la no lugar e deixá-la escondida aqui debaixo do mar. Talvez outra pessoa possa gostar de a encontrar um dia.
Agora é tempo de partir. Despedes-te dos cavalos-marinhos e sobes velozmente mar acima, deixando um rasto de bolhas. Ao chegares a superfície, vês o sol nascente refletido no mar. Parece um disco brilhante, como a moeda de ouro que tiveste na mão.
Apesar de a moeda já aqui lido estar, lembras-te dela na tua cabeça. Sabes que estará sempre lá para te recordar a arca do tesouro e o lindo mundo que viste nas profundezas do mar.
  
Afirmações
 Podes apreciar muito uma coisa bonita sem que tenha de ser tua. Podes lembrar-te das coisas de que gostar na tua cabeça.
 Serás mais feliz se não deixares que os teus amigos ou qualquer outra pessoa te convençam a fazer uma coisa que não deves — algo que penses estar errado.
 Se realmente não sabes o que e certo e o que é errado, tenta que sejam os teus sentimentos a decidir.
 Nunca leves contigo algo que não te pertence, mesmo que penses que não vai fazer falta ao dono.

Anne Civardi, Joyce Dunbar, Kate Pety, Louisa Somerville
Dorme Bem
Lisboa, Editorial Estampa, 2008

Frente ao televisor

Frente ao televisor

Manuel, um amigo de Milly e Molly, era viciado em televisão. O Manuel via televisão na sala.

Via televisão na cama.

Via televisão antes da escola, depois da escola, em dias de chuva e, pior ainda, em dias de sol.

Até que, num dia de sol, quando Milly e Molly estavam lá em casa, a mãe gritou:

— Manuel, vai lá para fora fazer exercício!

— Exercício? Como? — disse Manuel, aborrecido.

— Como quiseres. Não quero tornar a ver-te até ao anoitecer.

E dito isto, a mãe do Manuel mandou os três amigos para fora de casa e fechou a porta.

— Já sei o que vamos fazer — disse Milly, pensativa.

— O quê? — resmungou Manuel.

— Vamos construir uma casa na árvore.

— Como? — perguntou o Manuel.

— Eu sei como — disse Molly.

— Imagino — zombou Manuel. — Quero ver!

Milly encontrou a árvore certa. Molly ajudou Manuel a encontrar todas as coisas de que precisavam.

Pegaram em tábuas, martelo, pregos e um pedaço velho de lona.

Milly, Molly e Manuel treparam, levantaram e trabalharam até ser quase de noite.

— Ora vejam só… — disse a mãe de Manuel. — Mas que bela casa na árvore!

Manuel foi direitinho para a cama. Estava demasiado cansado para ver televisão.

Levantou-se e, antes de ir para a escola, voltou à casa da árvore. Não lhe interessava ver televisão.

Ia para a sua casa na árvore depois da escola, nos dias de chuva e nos dias de sol. Não tinha tempo para ver televisão.

Até que, um dia depois da escola, ouviu barulho. Da sua casa na árvore, conseguia ver os rapazes a jogarem à bola no parque.

— Quero ir jogar futebol — disse ele.

— Ora vejam só… — disse a mãe.

E ajudou-o a inscrever-se na equipa.

Quando o Manuel não estava na casa da árvore, estava a jogar futebol. Esquecera a televisão.

Da casa da árvore, Milly e Molly viam Manuel a jogar futebol no parque. Quando ele ganhou o prémio do Melhor Jogador do Torneio, pareceu-lhes ouvir a mãe do Manuel dizer: “Ora vejam só…”

— Quando crescer, vou ser futebolista — disse Manuel.

— E vais aparecer na televisão? — perguntaram Milly e Molly.

— Claro que sim — disse Manuel. — Não vou ver televisão, mas aparecer na televisão.

— Ora vejam só… — disse a mãe do Manuel. — É espantoso o que o exercício físico pode fazer.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

O Henrique é o Henrique

O Henrique é o Henrique

O que se passa com o Henrique?

O Henrique sabe como se sente e é dono dos seus sentimentos.

Ele diz “não” quando quer e “sim” quando lhe apetece.

O Henrique é amável com as raparigas e simpático com os rapazes.

Não fica corado, nem ri à toa.

Não é intrometido, nem tímido.

Sabe do que gosta e do que não gosta.

Nem sempre precisa de um amigo para brincar, nem de companhia para conversar.

Ri-se das coisas engraçadas e chora com coisas tristes.

Lê muito bem diante da turma e não se importa quando se engana.

O Henrique tem mais dificuldades a Matemática.

Joga ao ‘mata’ com uma mão.

Não se importa que se riam dele, que o arreliem ou o gozem.

O Henrique abre a porta e deixa passar primeiro os mais velhos.

Lembra-se de dizer ‘se faz favor’ e nunca se esquece de dizer ‘obrigado’.

O Henrique sabe reconhecer os seus erros quando faz alguma coisa mal.

O Henrique usa o cabelo direito, quando todos usam espetado.

Quando se usam calças apertadas, o Henrique veste calças largas. Quando as camisas azuis estão na moda, o Henrique usa encarnadas.

E que é o amigo mais disputado da escola?

O Henrique!

O Henrique é o Henrique e pronto!

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo I
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

Micha e o mistério da Páscoa – A favor ou contra Jesus? (IV)

Anterior: Micha e o mistério da Páscoa – Em casa dos avós (III)

A favor ou contra Jesus?

Durante a refeição, pouco se falou. Mas Micha sentia claramente que aquela calma era aparente. Era como a atmosfera antes de uma tempestade.

Quando as mulheres levantaram a mesa, o silêncio era quase insuportável. Josha olhava em volta, calado, olhava um após outro e finalmente dirigiu-se a Tomás, o genro.

— Estamos muito contentes por ter-vos finalmente connosco — disse ponderadamente. — A ti, à Marta e aos vossos dois filhos.

E pigarreou.

— Ouvi dizer que vocês, em Canã partiram precipitadamente e abandonaram tudo.

— O meu irmão e os meus pais estão a tomar conta das nossas coisas — respondeu Tomás calmamente.

— Vocês vieram mesmo com esse filho de um carpinteiro de Nazaré? — continuou Josha.

— Sim, com Jesus — respondeu Marta.

Agora era David que não conseguia manter-se calmo mais tempo.

— Esse Jesus é um falso profeta, Tomás! — exclamou, inclinando-se para a frente. — Ele blasfema contra Deus!

— Foi Deus quem no-Lo enviou. Só faz o que Deus lhe manda — respondeu Tomás.

Josha interrompeu-o com uma voz cortante.

— E Deus pede-lhe que entre em Jerusalém como um rei? Como se fosse o Messias de quem estamos à espera há anos?

— Ele é o Messias.

— Quem é que disse isso? — Josha levantou-se agitado.

— Ele próprio — respondeu agora Marta.

— Ele blasfema contra Deus.

O velho deixou-se cair pesadamente no lugar. Respirava furioso.

— O Messias há-de salvar-nos e libertar-nos. É o próprio Deus que no-Lo vai enviar. Não acreditas no que dizem as nossas antigas escrituras, Marta?

— Eu acredito e confio em Jesus — respondeu Marta, olhando o pai firmemente nos olhos.

— Eu também — diz Daniel.

— Ele blasfema contra Deus, quebra as leis! É um falso profeta! — diz Josha em tom de lamento, enterrando a cabeça nas mãos.

— Ele é o rei do céu e da terra — diz Tomás em voz alta. — Veio a Jerusalém para a festa da Páscoa e vamos todos ver como ele se apresenta como rei e Messias.

— Ele vai atirar-nos a todos para a perdição! — disse Josha, levantando-se. — Deixa-me — disse ele, rejeitando Marta, que queria segurá-lo.

— Pai!

— Deixa-o ir — disse Mara calmamente, detendo Marta. Josha já tinha deixado a sala. — Quer estar sozinho. Vai reflectir naquilo que vós lhe dissestes.

— O que é que Jesus quer provar-nos, aqui em Jerusalém? — pergunta Jonatan.

— Ele também disse que tem de morrer — Micha ouviu claramente a voz da tia a tremer.

— A minha irmã tinha de se deixar enganar por um falso profeta — exclamou David, batendo com o punho na mesa.

— Meninos — a voz amedrontada de Mara soou no meio deles. — Hoje não vamos discutir por isso. Hoje, que estamos todos juntos em casa, após tanto tempo.

E começou a chorar. Rute abraçou-a.

— Como é que ele quer provar que é o profeta? — pensou Rute em voz alta.

— Devia-se obrigá-lo a isso — observou Jonatan. — Pelo menos foi o que disse um dos discípulos que eu encontrei há pouco.

— Quem é que encontraste? — perguntou Tomás.

— Ele ia contigo esta manhã atrás de Jesus. Acho que se chama Judas.

— Também o conheço — Rute olhou para a irmã. — Não era aquele com a caixa do dinheiro, que encontrámos esta manhã?

Marta acenou com a cabeça. Depois pôs-se em pé com um salto.

— Oh! Eu tinha prometido ajudar. Temos de preparar a refeição para a festa desta noite!

Tinha chegado o momento certo para as crianças.

— Levas-nos contigo? — pediram. Após uma curta hesitação, Marta consentiu.

— Também vou — gritou Jonatan. — As mesas têm de ser armadas e de certeza que ainda há muito para fazer. Toda a ajuda vai ser precisa e duas mãos de homem, de certeza absoluta — e fez um sinal com a cabeça à mulher. — Eu trago os três quando vier para casa. Vá, vamos.

O pai de Micha dirigia-se para a porta.

Nesse momento, David levantou-se e agarrou Jonatan com força pelo braço.

— Queres mesmo ir, Jonatan? — perguntou-lhe. — Agora também andas a correr atrás desse falso profeta? Também já te convenceu a isso? Até ontem tinhas estado do nosso lado, vociferaste em voz alta contra todos os que quebram as leis e deste razão aos nossos doutores de leis e aos altos sacerdotes.

O tio David falava cada vez mais alto.

Jonatan libertou-se da sua mão, aborrecido. De um momento para o outro ficou vermelho de fúria.

— Quero ser eu mesmo a fazer uma ideia desse Jesus — disse — e isso só é possível se o conhecer de mais perto e souber mais coisas sobre ele. Talvez seja um falso profeta mas, se calhar, é mesmo o Messias. Eu quero descobrir por mim.

Micha ficou parado ao lado do pai, assustado. Nunca tinha visto o pai e o tio David discutirem. Gostava tanto do pai! E como adorava o tio! E ainda por cima tinham começado a discutir por causa de Jesus. Pegou na mão do pai e quis puxá-lo dali para fora.

— Papá — queixou-se, assustado.

David viu então como Micha estava infeliz.

— O teu pai tem razão — disse ele, e a voz soava tão afável como sempre — Observai esse Jesus com mais atenção. E depois voltamos a falar.

— Tudo bem — disse Jonatan, tentando fazer de conta que não tinha acontecido nada. — Então até logo! — e saiu depressa atrás dos outros, levando Micha pela mão.

Segue: Micha e o mistério da Páscoa – Um novo dia (V)

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado

O Presente

O Presente

 De todos os ovos da Páscoa que Jacob pintou com cascas de cebola, sobrou um, o mais bonito. Jacob corre a casa de Catarina para lho mostrar. Catarina está no pátio a deitar nas floreiras sementes de salsa.
— Cati, Cati! — grita Jacob — Olha! Nunca viste um ovo tão bonito como este!
— Olha tu! — grita Catarina, mas Jacob já tinha tropeçado na pá e no saco da terra. O ovo cai-lhe das mãos e parte-se.
— Que pena! — diz Catarina. — Devia ser um bonito ovo!
— Oh, o ovo mais bonito de todos! — lamenta-se Jacob. — Ah… estou tão zangado! Gaquicravutchi! Gaquicravutchi!
— O que é que estás para aí a dizer? — pergunta Catarina enquanto apanha do chão o ovo partido.
Gaquicravutchi — responde Jacob. — Acabei de inventar esta palavra para fazer desaparecer a minha raiva.
Gaquicravutchi… Tem graça… — diz Catarina.
— Podes ficar com ela, se quiseres – diz Jacob.
— Ofereço-ta. A tua mãe ralha sempre contigo de cada vez que dizes “porcaria”.
— Ofereces-me a tua Gaquicravutchi?
— Podes dizê-la sempre que estiveres zangada — responde Jacob.
Catarina fica a pensar.
— Também tenho uma prenda para ti, Jacob… mas tens de fazer pouco barulho. Anda!
Leva Jacob até à cerca e aponta para o pátio do vizinho.
— Baixa-te, que já vais ver — murmura.
Jacob dobra-se e olha na direcção do indicador de Cati e vê um pequeno arbusto de glicínias. Na bifurcação de um dos ramos está um ninho com um passarinho a chocar os ovos.
— Descobri-o hoje — diz Catarina. — E agora tu também já sabes onde ele está. Esta é a minha prenda para ti.
— Obrigada! É uma prenda bonita de se ver!

Tradução e adaptação
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986

Se respeitares os outros – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Se respeitares os outros

Podes correr contra o tempo
sonhando ser campeão,
mas por favor não transformes
a vida em competição.

Mesmo que tenhas o sonho
de em tudo seres o melhor,
percebe que é na diferença
que está o valor maior.

A diferença é que distingue
e distinguindo aproxima
evitando esse fosso
que humilha e desanima.

Com o tempo descobrirás
que a ambição é que cega,
não havendo prazer maior
do que ajudar um colega.

E por favor tem cuidado
quando vais a atravessar;
espera o verde dos peões
para poderes avançar.

Espera da vida os sinais
que não te hão-de enganar
e hás-de chegar a tempo,
mesmo a tempo de chegar.

Por favor, porta-te bem,
que a vida espera de ti
apenas algumas coisas
daquelas que aqui escrevi.

Se respeitares os outros,
a ti te respeitarás,
sendo essa a maneira
de poderes viver em paz.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Tenta agora ser crescido – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Tenta agora ser crescido

Toma nota dos recados
que chegam a tua casa,
algo pode acontecer
se a mensagem se atrasa.

Não abuses do telefone
mesmo à mão de semear,
pois na hora da verdade
não serás tu a pagar.

Tenta agora ser crescido
e ouve o “rock” mais baixinho;
deixas o gato dormir
e não acordas o vizinho.

O que tu ouves aos berros
só serve para te excitar
quando afinal é de calma
que estamos a precisar.

Tenta agora ser crescido
mesmo que ainda o não sejas;
se quiseres, tu podes ser
tudo aquilo que desejas.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Leva o cão a passear – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Leva o cão a passear

Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um acto sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão ?

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Evita roer as unhas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Evita roer as unhas

Evita roer as unhas,
que ficas com dedos feios
e as unhas onde as punhas,
espalhadas pelos passeios ?

Evita roer as unhas
que te podem fazer mal,
andam sujas, carcomidas,
como folhas de um jornal.

Evita roer as unhas
porque não sabem a nada
e as unhas onde as punhas,
numa gaveta fechada?

Evita roer as unhas,
pois não és um roedor,
deixa-as crescer à vontade,
faz-lhes lá esse favor.

Evita roer as unhas
porque não te fica bem;
sem as unhas não te coças
e coçar sabe tão bem.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não vale fazer batota – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não vale fazer batota

Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

A mão a tapar a boca – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

A mão a tapar a boca

Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Mentir é muito feio – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Mentir é muito feio

Mentir é muito feio
porque faz mal à verdade,
deixa a verdade a meio
e instaura a falsidade.

Neste inundo de mentira
dela não faças a regra;
nem sempre nos absolvem
por aquilo que se nega.

E se a mentira é um vício, pode
tornar-se doença
que custa para se curar
muito mais do que se pensa.

O mentiroso altera
aquilo que vê e escuta;
a verdade e a mentira
nele estão sempre em luta.

E no fundo o mentiroso
a si mesmo se desmente
pois falseando a verdade
tudo à mentira consente.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Não se lê à mesa – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Não se lê à mesa

Não leves livros para a mesa
na hora da refeição;
por muito que a leitura
te encha de satisfação.

Há outros lugares melhores
e por certo apropriados
para tu leres com prazer
os livros mais indicados.

Ler à mesa é a maneira
de esqueceres quem lá está,
é uma falta de respeito
que nenhum consolo dá.

Se o livro for teu amigo,
lê-o num outro lugar,
não o ponhas de castigo
quando estás a almoçar,
pois bem vistas as coisas
até o podes estragar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Deves ser pontual – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Deves ser pontual

Não penses que o relógio
gosta de se atrasar
só porque tu de manhã
te enroscas a dormitar.

Os outros não faças esperar
pois é falta de respeito
e pela tua vida fora
há-de tornar-se um defeito.

Com um esforço pequenino
horários hás-de cumprir
e se fores tu a esperar
mais forte te hás-de sentir.

Verás que não custa nada
tornares-te pontual;
se tens encontro marcado,
ser cumpridor é normal.

E bem podes acreditar,
com o passar da idade,
que se tornou uma virtude
essa pontualidade.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Bom dia, por favor, perdão – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Bom dia, por favor, perdão

Na escada ou no elevador
se te cruzas com um vizinho
vê que não é um estranho
que te salta ao caminho.

Sorri e dá-lhe os bons-dias,
que é acto de educação,
e se o empurras sem querer
pede-lhe logo perdão.

No balcão onde te atende
sempre o mesmo senhor
diz-lhe que bolo é que queres
sem esquecer o “por favor”.

Para entrares numa sala
deves dizer “com licença”
depois de bater à porta
para anunciar a presença.

Pede desculpa se desces
a escada a três e três,
sobretudo se a pressa
te faz pisar quem não vês.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Pouco barulho – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Pouco barulho

Numa sessão de cinema,
mesmo num filme de acção,
não fales alto no escuro
aproveitando a confusão.

Os outros têm direitos
que os seus bilhetes lhes dão
e não gostam do ruído
da falta de educação.

Os meninos ruidosos
lá para fora devem ir
só para não prejudicarem
quem se está a divertir.

Se levares o telemóvel,
não te esqueças de o desligar
pois ninguém é obrigado
a tê-lo no escuro a tocar.

E para abuso já basta,
em terra mal-educada,
ver adultos que atendem
como se não fosse nada.

Cessa a tua liberdade
se a dos outros prejudicas;
vê bem como te comportas
nesse lugar em que ficas.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Viver com os outros tem regras – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Viver com os outros tem regras

Na casa em que vives
marca bem o teu lugar
e pensa que o dos outros
nunca deves ocupar.

Tens tarefas para cumprir
e delas deves dar conta;
uma coisa não se faz
só porque a queres ver pronta.

Divide bem as tarefas
que tens com os teus irmãos;
se a divisão estiver certa,
ainda vos sobram mãos.

Sobra tempo para brincar
depois do dever cumprido,
sobra tempo para sonhar
se o tempo for bem gerido.

E não deixes para amanhã
o que hoje podes fazer;
aquilo que agora adias
dar-te-á menos prazer.

Não sejas desarrumado
com roupas e com cadernos;
tarefas que tu desleixas
para outros são infernos.

Não deites pelas janelas
para depois se apanhar
o lixo que tu produzes
e que nem tentas limpar.

Viver com outros tem regras
que agora irás aprender;
se hoje sem querer as negas,
muito mal hás-de crescer.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Tira o dedo do nariz – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Tira o dedo do nariz

Por vezes a distracção
não permite que repares
no que fazes de errado
se estás em certos lugares.

Anda a mão a passear
sem ouvir o que se diz
e de repente está o dedo
enfiado no nariz.

Esse gesto, além de feio,
nada tem de asseado;
seja qual for o dedo,
é melhor estar sossegado.

O nariz não é abrigo
em que o dedo deva estar
e se fores seu amigo
bem o deves controlar.

E para veres a figura
que às vezes estás a fazer
repara nos condutores
que modos não sabem ter.

Lá estão eles nos sinais
à espera que o verde caia,
à procura de um “presente”
que do seu nariz lhes saia.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Saber dar o lugar – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Saber dar o lugar

No transporte em que viajas,
se logo encontras lugar,
é natural que te apresses
para nele te ires sentar.

É um direito que tens
e não deves recusar,
a não ser que alguém precise
ainda mais do lugar.

A grávida que está de pé
ou o senhor deficiente
precisam que te levantes
para que um deles se sente.

Podes perder o conforto
que repousa e sabe bem
mas ficas com a alegria
de ter ajudado alguém.

E é essa a recompensa
de uma boa educação;
afinal só estamos bem
se os outros também estão.

Se assim fores procedendo,
tendo sempre o outro em vista,
hás-de ver que bem que sabe
não querer ser egoísta.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Bons modos à mesa – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Bons modos à mesa

Em casa ou no restaurante,
numa qualquer refeição,
usa bem os talheres
e não comas com a mão.

E evita a algazarra
que por vezes lá se instala
não sobrepondo o ruído
ao prazer que dá a fala.

E presta bem atenção
a uma coisa elementar:
começa só a comer
quando o mais velho começar.

Há coisas que nos distinguem
do reino dos animais
e uma boa educação
nunca há-de estar a mais.

Deseja bom apetite
a quem te faz companhia,
que essa frase é um convite
para que reine a harmonia.

Ser educado à mesa
não é questão de estatuto;
não se educa com riqueza
a criança ou o adulto.

Cuida bem dos dentes – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Cuida bem dos dentes

Não há saúde que dure
se for má a dentição;
lava os dentes com cuidado,
com paciência e atenção.

Antes de te deitares,
mesmo com o sono a chegar,
pega na escova e na pasta
com que os dentes vais lavar.

Deixa os dentes bem lavados
em todas as direcções
e verás que assim evitas
as cáries e as infecções.

Antes de ires para a escola
o mesmo deves fazer,
não dando tréguas aos males
que os dentes fazem doer.

E no final das refeições,
se os puderes ir lavar,
não adies esses cuidados
que os dentes te hão-de salvar.

Nestas questões o desleixo
tem uma factura elevada
e não há nada mais feio
que uma boca desdentada.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

Mãozinhas bem lavadas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Mãozinhas bem lavadas

Antes de te sentares
na mesa onde vais comer
há por certo um cuidado
que em todo o lado deves ter.

É um cuidado normal
de que te hás-de lembrar:
quem se senta para comer
primeiro as mãos vai lavar.

Assim evitas doenças
que podem contagiar;
a água com o sabão
não se deixa enganar.

Seja qual for o micróbio
que te queira ameaçar,
se cuidares da higiene
bem o podes derrotar.

As mãozinhas bem lavadas
são um modo salutar
de pores a saúde à mesa
em que agora te vais sentar.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003

As preocupações do Billy

As preocupações do Billy

Billy costumava andar preocupado.

O Billy preocupava-se com muitas coisas…

Preocupava-se com chapéus, e preocupava-se com sapatos.

O Billy preocupava-se com nuvens, e chuva e pássaros gigantes.

O pai tentava ajudar:

— Não te preocupes, rapaz — disse ele. — Nenhuma dessas coisas pode acontecer. É tudo imaginação tua.

A mãe também tentava ajudar.

— Não te preocupes, querido — dizia ela. — Nós não deixamos que nada te magoe.

Mas mesmo assim o Billy continuava preocupado.

A sua maior preocupação era ficar em casa de outras pessoas.

Uma noite, teve de ficar com a avó. Mas o Billy não conseguia dormir. Estava muito preocupado.

Sentiu-se um pouco idiota, mas por fim levantou-se e foi contar à avó.

— Que grande imaginação, querido — disse ela. — Quando eu tinha a tua idade também me preocupava. Tenho uma coisa para ti.

A avó foi ao quarto e voltou com uma coisa nas mãos.

— Estes são os bonecos das preocupações — explicou ela enquanto lhe mostrava uns bonequinhos coloridos do tamanho do dedo mindinho feitos de tecido. — Diz a cada um deles uma das tuas preocupações e põe-os debaixo da almofada. Eles preocupam-se por ti enquanto dormes.

O Billy contou todas as preocupações aos bonecos das preocupações.

E dormiu como um anjo.

Na manhã seguinte, o Billy foi para casa. Nessa noite, ele contou novamente todas as suas preocupações aos bonecos.

E dormiu como uma pedra.

Mas na noite seguinte o Billy começou a preocupar-se.

Ele não conseguia parar de pensar nos bonecos. Todas aquelas preocupações que ele lhes tinha dado…

Não lhe parecia justo.

No dia seguinte, o Billy teve uma ideia. Passou o dia a trabalhar na mesa da cozinha. Era um trabalho difícil e a princípio saía-lhe tudo mal e teve de recomeçar muitas vezes.

Mas por fim o Billy produziu algo muito especial…

Alguns bonecos das preocupações para os bonecos das preocupações.

Nessa noite, TODOS dormiram bem, o Billy e todos os bonecos das preocupações.

Anthony Browne
As preocupações do Billy
Lisboa, Kalandraka, 2006
adaptado

O pequeno rei Ego I

O pequeno rei Ego I

Ego I, apesar de ter apenas oito anos e um palmo de altura, era a pessoa mais importante do reino.

Tinha mandado colocar espelhos por toda a parte, no salão, no quarto, na sala de jogos, nos quartos de banho, nas despensas, no sótão. Como só via a sua imagem, Ego I atendia somente os seus próprios desejos. Inventava leis apenas para servir os seus interesses. Como gostava muito de pastilhas elásticas e de doces, publicou uma lei, segundo a qual estes eram propriedade exclusiva do reino. Todas as semanas, as crianças tinham de sacrificar as suas próprias guloseimas e de as levar ao palácio. Quem se atrevia a ficar com alguma coisa em casa era condenado.

Normalmente, as leis são iguais para todos, o que significa que devem fazer toda a gente feliz. Mas Ego I pensava precisamente o oposto: as leis apenas deviam servir os seus interesses particulares. Por isso, eram muito estranhas.

Nos transportes colectivos não havia nenhum lugar reservado para os deficientes e idosos. Só havia lugares reservados para “os pequenos reis com menos de um metro e sessenta de altura e trinta e cinco quilos”. Portanto, todas as pessoas ficavam de pé, mesmo nas horas de ponta, com receio de encontrar algum representante do rei que mandasse decapitá-las. No cinema, podiam sentar-se na primeira e última filas. As restantes estavam reservadas para o pequeno rei, a sua guarda pessoal e amigos. Porém, Ego I nunca lá ia, porque já não tinha amigos.

Ao fim de alguns anos de reinado, deixara de haver habitantes no reino. Todas as crianças se tinham ido embora, com os bolsos cheios de guloseimas. Quem é que quer ficar com um rei que só se interessa pelo seu bem-estar e não pelo dos outros? O rei Ego I ficou sozinho no seu reino, sem saber que estava completamente só.

Nas últimas semanas, os ministros do rei tinham-se arruinado a comprar bombons e pastilhas elásticas, para lhe fazerem crer que se continuava a fazer a colecta.

Uma manhã, ao consultar o calendário real, Ego deu-se conta de que em breve ia fazer nove anos e teve uma vontade louca de organizar uma festa com as crianças da sua idade. Mandou preparar um milhão de convites onde fez imprimir:

O pequeno rei Ego I tem a honra de o convidar para vir festejar os seus nove anos, Sábado, 17 de Junho, entre as 14 e as 20 horas. E, depois de ter reflectido, acrescentou: Quem tiver entre 5 e 17 anos deve comparecer diante das portas do palácio, sob pena de ser decapitado.

É evidente que ninguém apareceu porque já não existiam crianças. Os ministros tremiam como varas verdes, com medo de que o rei descobrisse que havia já semanas que andavam a mentir-lhe.

Então, no dia do aniversário, recolheram os vagabundos, prepararam-nos, deram-lhes banho, vestiram-lhes roupas lavadas, para fazer crer ao rei que eram crianças, mas o pequeno rei Ego I deu pelo engano e, furioso, gritou:

— Castigarei com a pena de morte todos os que se atreverem a enganar-me!

E o rei Ego I ficou-se a resmungar diante dos espelhos, que as pessoas eram mal-educadas, interesseiras e egoístas, e que, afinal, ele tinha ficado sozinho.

— Algo está podre no reino de Ego I — praguejava ele.

Sentia-se tão só, fechado na sua prisão dourada, que decidiu sair sem a guarda pessoal.

Quando passou no jardim, as rosas murcharam de repente e o sol escondeu-se. Percorridos alguns quilómetros, Ego I cruzou-se com o jardineiro, que era surdo como uma porta e meio simplório, a ponto de não reconhecer o rei.

— Ei! — gritou Ego I. — Bom homem, perdi-me no caminho. Dizes-me onde posso encontrar abrigo para passar a noite? Um bom reino, com um rei simpático.

O jardineiro indicou-lhe o reino que ficava em frente.

— Dirija-se àquele castelo, onde vive um rei bom, meigo e generoso, que se esforça por fazer os outros felizes.

E acrescentou num murmúrio:

— Fuja daqui depressa, onde vive o insuportável Ego I, egoísta ao máximo. Tem sorte de não ter sido ainda decapitado pela sua gente!

Grato ao jardineiro pela sua franqueza, Ego deixou-o viver e correu para o reino que ficava em frente.

Ali conheceu muitas leis: não se deve fazer rabiscos nas paredes, não se deve mentir, nem bater nos outros, nem faltar-lhes ao respeito.

De tempos a tempos, era preciso dar dinheiro, não para o rei, evidentemente, mas para se poder construir grandes coisas, como hospitais, creches, escolas e muitos edifícios úteis. Àquilo chamavam impostos. Ego I estava pasmado. Como aquelas leis estavam bem feitas! Decidiu ficar ali, a viver no meio dos outros, para aprender o ofício de ser rei. Era tão bom ver pessoas bem dispostas, sorridentes, e que não eram decapitadas por causa de uns cêntimos.

“Em breve” — pensou Ego I — “quando estiver curado do meu egoísmo insuportável” – porque temos de chamar as coisas pelos seus nomes — “vou voltar para o meu reino e só hei-de fazer leis boas, boas para todos!”

Cumpriu a palavra dada e quando se tornou um grande rei, e não um reizito ridículo de palmo e meio, ditou regras dignas desse nome, em lugar de uma série de leis estúpidas que apenas tinham interesse para ele. Criou um grande reino e realizou coisas muito importantes. E toda a gente foi tão feliz ali, que mais ninguém pensou em fugir.

Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand
Paris, Ed. Albin Michel, 2003
Tradução e adaptação

Um tostão para o Santo António – Ant. Torrado

Um tostão para o Santo António

Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.

Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!

O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:

— Dê-me um tostãozinho para o Santo António…

O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:

— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.

— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?

E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.

— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.

— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.

O senhor mendigo suspirou e disse:

— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje…

O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.

Foi a vez de o garoto suspirar:

— Este dinheiro era para eu comprar berlindes…

O homem de sandálias admirou-se:

— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?

O garoto riu-se:

— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.

O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:

— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.

O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:

— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.

O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.

O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes…

António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, Livraria Civilização Editora, 1994

Pi-shu, o pequeno panda

 

Pi-shu, o pequeno panda

Nas encostas da Montanha Amarela, na China, uma mãe panda fazia festas à sua cria. Escondida no tronco oco de uma velha árvore, lavava-a e alimentava-a com o seu leite quentinho, enquanto o filhote se aninhava contra o seu pelo suave e espesso. O nome da cria era Pi-shu e o seu tamanho não era maior do que uma das manchas que rodeavam os olhos da mãe.

Tinha nascido com uma caudazinha cor-de-rosa, que desapareceria quando crescesse. A mãe, Fei-fei, achava-o o panda mais bonito que já vira.

Pi-shu nunca era deixado sozinho durante muito tempo e Fei-fei embalava-o com frequência nos seus braços fortes.

À medida que o filhote se transformava numa bolinha peluda, Fei-fei costumava transportá-lo às costas. Quando tinha seis meses, começou a andar sozinho e a copiar a mãe mastigando bambu, cujo gosto amargo gostava de sentir na boca. Três meses mais tarde, deixaria de mamar.

Por volta do seu primeiro aniversário, já Pi-shu era forte e aventureiro. Em toda a parte via coisas com que brincar… árvores para trepar… rãs que saltavam quando ele as cheirava… ratazanas que jogavam às escondidas dentro e fora das tocas.

Um dia, quando as tempestades do início do Inverno se fizeram sentir nas montanhas, Pi-shu viu um bando de macacos no cimo das árvores. Seguiu-os, enquanto saltavam graciosamente de ramo em ramo.

Ia atrás deles o mais depressa que podia. Nunca tinha ido tão longe e, à medida que caminhava por entre os fetos densos, apercebeu-se de um cheiro que o fez hesitar. O cheiro provinha de um barulho de que não gostava, acompanhado por vozes que lhe eram estranhas.

Pi-shu estacou quando um baque tremendo fez estremecer o chão que pisava. Caíra uma árvore. Espreitando por entre os fetos espessos, viu, com espanto, que estava na orla da floresta. As árvores tinham sido todas abatidas para dar lugar a plantações de arroz e milho, e havia homens a abaterem mais árvores para arranjar lenha para as fogueiras do Inverno. Assustado, Pi-shu correu em busca da mãe.

Passou por entre a vegetação rasteira, apavorado com a ideia de se ter perdido, e chegou a uma pequena clareira, onde quase esbarrou com uma takin, que pastava com a sua cria. Olharam-se fixamente até que Pi-shu fugiu dali, em busca da mãe.

Quando Pi-shu encontrou Fei-Fei, esta viu que o filho estava muito assustado. Soube logo que esta zona da floresta já não era segura e que era tempo de saírem dali.

Na manhã seguinte, bem cedo, mãe e filho partiram, subindo colinas sem cessar, até que alcançaram o topo de um planalto envolto em brumas. O seu pelo oleoso mantinha-os quentes, mas passar por cima das rochas escorregadias não era tarefa fácil, especialmente para o pequeno Pi-shu.

Sem nada para comer, e com as primeiras neves a cair em torno deles, mãe e filho atravessaram o prado a caminho do próximo vale, onde encontraram um pequeno bosque de bambus. O local parecia sossegado e tranquilo. Aninhados contra um rochedo duro e frio, dormiram o melhor que podiam.

Acordaram no dia seguinte, no meio de uma manto de neve, e desceram devagar a encosta íngreme que conduzia ao vale. Enquanto desciam, iam alimentando-se de bambus.

Era já noite quando atingiram o sopé da montanha. Encontraram um riacho de água cristalina mesmo junto de uma pequena mata de bambus. Comeram até à saciedade e adormeceram, contentes, enquanto caía a noite.

Pi-shu gostaria de encontrar a sua própria casa quando crescesse e de subir as suas próprias montanhas. Por ora, porém, não mudaria nada na sua vida, nem em troca de todo o bambu da China.

 

John Butler
Pi-shu, the little panda
London, Orchard Books, 2001
tradução e adaptação

Pog e os passarinhos

 

Pog e os passarinhos

Era um dia igual aos outros. O gato Pog estava sentado, quieto como uma estátua, a ver os passarinhos voar.

— Bom dia! — disse Pog, saudando um dos passarinhos.

Este agitou as asas e aterrou junto dele. Pog olhou-o fixamente: nunca tinha visto um pássaro tão corajoso.

O passarinho começou a cantar. Pog achou que aquela melodia era a mais bela que alguma vez ouvira.

O gato fechou os olhos e pôs-se a escutar, deliciado.

Um a um, foram chegando mais pássaros, que começaram a cantar, por sua vez. Em breve, Pog estava rodeado de música.

E estava feliz.

— Olá! — saudou Peg, um outro gato, chegando junto dele. — Queres brincar?

— Está bem — concordou Pog, sorrindo.

— Podemos caçar ratos — sugeriu Peg.

— Não vi nenhuns — confessou Pog.

— Olha um passarinho! — exclamou Peg.

— Este pássaro canta para mim — contou Pog.

— Vamos caçá-lo! Vai ser divertido — propôs Peg.

Pog pensou um pouco.

— Está bem — assentiu, sorrindo.

E saltaram ambos sobre o pássaro, que guinchou e voou dali.

— Isto é divertido — riu Pog.

— Vamos ver se há mais — sugeriu Peg.

E foram em busca dos pássaros. Perseguiram-nos o dia todo.

— Já não vejo mais nenhuns — queixou-se Peg.

— Devem ser horas de ir para casa — disse Pog.

Na manhã seguinte, Pog estava novamente sentado, à espera de que o passarinho fosse cantar para ele.

— Bom dia! — saudou quando o viu.

A avezinha não lhe prestou atenção.

Chamou todos os pássaros, um a um, mas todos passaram por ele sem lhe prestarem atenção.

Quando Peg chegou, Pog estava muito triste.

— Os pássaros já não vêm ter comigo! — exclamou.

— Claro que vêm! — assegurou Peg.

Tentaram chamá-los juntos, mas nenhum apareceu.

— Não passam de pássaros — desdenhou Peg. — Esquece-os e vem brincar comigo.

— Não, não vou. Adoro pássaros e quero que cantem para mim — disse Pog.

E sentou-se de novo quieto como uma estátua.

O sol nasceu e pôs-se e Pog continuava sentado.

Finalmente, o passarinho veio ter com ele. Pog ficou hirto, sem se atrever a mexer.

— Desculpa — disse ao passarinho. — Nunca mais te assustarei.

A ave começou a cantar. Mas, de repente, Peg saltou sobre ela.

— Assustaste a minha amiga — queixou-se Pog.

— Desculpa — disse Peg.

— Ela tinha vindo cantar para mim.

— Achas que ela também pode cantar para mim? — perguntou Peg.

— Talvez, mas tens de ficar quieto como uma estátua — disse Pog.

Peg tentou.

— A tua cauda está a mexer — sussurrou Pog.

— Desculpa — disse Peg.

Finalmente, o passarinho aproximou-se.

— Não te mexas! — murmurou Pog.

A ave começou a cantar.

— Que som maravilhoso — suspirou Peg.

Aproximaram-se mais alguns pássaros e, em breve, Pog e Peg estavam rodeados de melodias esplêndidas.

— Nunca mais vamos caçar passarinhos — decidiu Pog.

— Nunca — concordou Peg.

— Só caçaremos ratos!

 

Jane Simmons
Pog and the birdies
London, Orchard Books, 2004
Tradução e adaptação