Histórias para os mais pequeninos

… e para os menos pequeninos …


O pequeno Pai Natal

Num lugar muito, muito longe, para norte, onde os primeiros flocos de neve caem quando ainda é verão, encontra-se, muito bem escondida, a aldeia onde moram os pais natais. Nessa aldeia, vivia outrora um pequeno pai natal que andava sempre muito impaciente pela chegada do Natal. Ele era sempre o primeiro a ir buscar o seu pinheirinho à grande floresta. Sempre o primeiro a limpar o trenó, a engraxar as botas e a sacudir o fato.
Ainda os outros pais natais pensavam no que iriam levar às crianças, já o pequeno pai natal tinha, há muito tempo, todas as prendas embrulhadas. O que mais gostava de oferecer eram coisas feitas por ele. Conseguia construir todos os brinquedos: carros multicolores, cãezinhos sarapintados, cavalos de baloiço, casas de bonecas… Fazia bolinhos deliciosos, como estrelas de canela e broas de mel… As suas broas de Natal eram as melhores do Mundo inteiro! Depois de embrulhar todos os presentes e cozinhar todos os bolinhos, ficava ansioso pela visita às crianças como nenhum outro pai natal. Contudo, todos os anos era a mesma coisa…
— Não, não podes — dizia-lhe o pai natal chefe, que tomava todas as decisões na aldeia dos pais natais. — És demasiado pequeno!
— As crianças perdiam-se de risos! — comentava um jovem e impertinente pai natal.
— Se o conseguissem ver… — ria-se outro.
— …no seu microtrenó, ah, ah, ah! — gozava um terceiro, rindo alto.
Face a esta atitude, o pai natal chefe, já zangado, sentiu-se tentado a dispensá-los. No entanto, era necessário distribuir tantas prendas naquele ano que não podia deixar de contar com os jovens pais natais. Por isso, limitou-se a fazer um olhar austero e disse-lhes:
— Comportem-se!
Ao pequeno pai natal, disse-lhe que talvez para o ano… No entanto, o pequeno pai natal já não conseguia acreditar nisso. À medida que os outros pais natais partiam em viagem, ele não queria ver ou ouvir nada. Fechou as portadas das janelas e enfiou-se sozinho no seu quarto. Ele não se importava nada com o facto de ser mais pequeno do que os outros. O que o deixava realmente triste era não poder visitar as crianças.
Uma noite, quando reinava o silêncio e tudo estava deserto, saiu de casa. Já que não podia viajar, queria, ao menos, passear um pouco. As estrelas cintilavam, mas o pequeno pai natal não olhava para elas. Algures, lá em cima, andariam os outros pais natais nos seus trenós de renas…
Nesse momento, subitamente, ouviu vozes vindas da grande floresta, onde habitavam os animais. De que estariam a falar, a tal hora da noite?
Naquela ocasião, ser-se pequeno era uma grande vantagem! O pequeno pai natal aproximou-se cautelosamente dos animais, sem que eles dessem pela sua presença. Estavam todos lá: o esquilo, a lebre, o urso, a corça, os ratos… e todos de mau humor.
— Isto está mal — ralhou o urso — os pais natais só ligam às pessoas e aos animais, não!
— Limitam-se sempre aos mesmos — protestou a lebre.
— Sempre foi assim — disse a velha coruja — e receio que essa situação nunca se altere.
Porém, alterou-se, claro está! Mal o pequeno pai natal ouviu a conversa, afastou-se muito silenciosamente dali e correu para casa. Depois de se olhar rapidamente ao espelho e de ter colocado os presentes no trenó, meteu-se de novo a caminho. Só não tinha renas, pois estavam todas em viagem. No entanto, não custava muito empurrar o trenó até à grande floresta.
Nessa noite, os animais fizeram uma festa até então nunca vista na grande floresta. O pequeno pai natal tinha trazido um presente para cada um. O urso resmungão foi o que ficou mais contente: nunca tinha recebido um presente na sua vida. A coruja ficou muito vaidosa: tinha recebido uma camisola nova e era agora, certamente, a ave mais chique da floresta.
Quando os outros pais natais regressaram, o pequeno pai natal dirigiu-se ao chefe e contou-lhe o que tinha acontecido na floresta. O pai natal chefe ficou admirado e nomeou-o “Pai Natal dos animais”.
— Bravo! — diziam os outros pais natais, dando-lhe vivas. Três vezes!
Desde então, o pequeno pai natal é tão importante quanto os mais crescidos… Todos os anos!

Anu Stohner
O Pequeno Pai Natal
Sintra, K editora, 2008


O Natal do burrinho cinzento

Sou um pequeno burro, cinzento e coxo. O meu dono nunca gostou de mim, por isso me fui tornando triste e, por vezes, mau. Com ele peno pelas ruas da Judeia.
Esta noite, fatigados e cheios de pó, chegámos a uma vila chamada Belém. O meu dono instalou-se no último quarto livre da hospedaria. E eu fiquei num pequeno estábulo tranquilo onde já dorme um boi.
De repente, a porta abre-se.
― Isto é um sítio pobre, Maria ― murmura um homem.
― Não te preocupes, José, ficamos bem.
É tão doce esta voz que, pela primeira vez na minha vida, sinto alegria no meu coração. Será que foi um anjo que entrou?
Levanto-me e vejo uma encantadora jovem com um belo ventre redondo. O seu olhar brilha sob um véu bordado, os seus olhos imensos parecem reflectir todas as estrelas do céu. Olha-me e sorri com bondade. Volto a deitar-me a bocejar.
Já dormito quando o grito de uma criança ecoa. É tão forte que parece celebrar a alegria do seu próprio nascimento! Levanto-me com o coração aos pulos. Maria, maravilhada, veste o recém-nascido. José inquieta-se:
― Não terá frio?
Timidamente, aproximo-me e, com o meu bafo, procuro aquecer aquela criança aconchegada no colo da mãe.
Estou orgulhoso por poder fazer isto, eu que não passo de um pequeno burro mal-amado.
Uma estranha claridade invade agora o estábulo. No céu, irrompe o canto de uma multidão de anjos e, no meio de um alegre burburinho, o povo chega, trazido pelos pastores.
Nessa noite tudo se passa como se fosse um sonho. Mas, de manhã, chega o momento que tanto receava.
O meu dono abre a porta e deposita diante da criança um pequeno saco com moedas de ouro; em seguida, faz-me sinal para o seguir. Não me mexo; o meu coração estremece.
― Vamos, ― grita ― avança!
Olho para Maria com ar suplicante… Ela diz com doçura:
― Agradeço-lhe o saco de ouro que ofereceu ao meu filho Jesus, mas o seu burro ser-nos-ia bem mais útil, porque temos ainda um longo caminho a percorrer.
O meu dono hesita:
― Este burro, por vezes, não é nada manso…
Maria sorri para mim, confiante:
― Não tenha medo! ― responde.
Então, o meu dono saúda-nos e sai. O meu coração dá pulos de alegria; sinto vontade de saltar.
Está prometido: não abandonarei nunca Maria, José e o pequeno Jesus. Vou tornar-me bom e doce, porque encontrei alguém que me ama!

Laurence Batz ; Quentin Gréban (ill.)
Le Noël du petit âne gris
In 24 histoires merveilleuses pour attendre Noël
Paris, Ed. Fleurus, 2008
(Tradução e adaptação)


A caminho das estrelas

Há tanto tempo que o pequeno Maximino queria ter um violino! Era o seu grande sonho… E hoje os pais deram-lhe um como prenda de anos…
Que alegria a sua ao ver o instrumento dentro do estojo!
Da prenda da tia Sofia, pelo contrário, não gostou. Um quadro… um quadro que de bonito não tinha nada! Estrelas num céu azul-escuro! No entanto, graças a esse quadro nada bonito, Maximino vai viver uma noite extraordinária, uma noite que nunca mais esquecerá. Mas chiu!… Ele ainda não sabe…
Está neste momento na cama a ouvir um disco com a mãe. Maximino sempre adorou aquele delicioso momento em que ela lhe explica a música em voz baixa.
— Estás a ouvir … agora, os violinos imitam o canto dos pássaros… O compositor chama-se Vivaldi. Escreveu um concerto para cada uma das quatro estações. Escuta bem, é fácil imaginar. Agora é a primavera… A natureza, ainda entorpecida do inverno, é acariciada pelos raios do sol… e começa a despertar lentamente…
Maximino deixa-se levar pelo sono…
— Dorme bem, meu querido! — murmura a mãe baixinho, entre dois beijos. Depois, arruma o violino, que ele quis segurar junto de si até ao último instante, e vai-se embora.
Mas o seu pequeno volta a chamá-la:
— Mamã, o que achas da prenda da tia Sofia?
A mãe olha para o quadro já pendurado na parede em frente da cama e, antes de fechar a porta, diz:
— De dia talvez não pareça interessante. Mas de noite…. Continuar a ler


O bolo do pai gato

Esta tarde, o pai Gato ficou em casa a cuidar dos seus três filhos: Gatão, Gatum e Gatina. A mãe Gata fora lanchar com as amigas.

Enquanto Gatão e Gatum jogam à bola no jardim, o pai Gato prepara a merenda. Está a fazer um bolo de chocolate enfeitado com ratinhos de maçapão. Gatina preferiu ficar em casa e não se separa do pai Gato.

Há um cheirinho tão bom na cozinha! Logo que o bolo ficou pronto, o pai diz à Gatina:

— Vai chamar os teus irmãos. Que venham merendar.

Gatina calça as botas, põe o cachecol e pensa: “O bolo do papá parece delicioso, mas… é tão pequeno! Os meus irmãos vão querer um bocado grande e o papá também vai comer porque é muito guloso”.

Ao encontrar os irmãos, Gatina mente-lhes: Continuar a ler


Tesouro no fundo do mar

Tesouro no fundo do mar

Fecha os olhos e imagina-te sentado num barco que flutua no mar calmo. Quando olhas para baixo e vês as ondas que se agitam, a tua lanterna mágica capta o luar. Brilha como um Caminho Encantado no azul profundo do mar. Onde irá levar-te esta noite?
Escorregas até à água quente e nadas como um peixe, entrando e saindo do teu próprio trilho de bolhas brilhantes. Depois, como por magia, as bolhas transformam-se em pequenos cavalos-marinhos, andando para cima e para baixo na água ao teu lado. Seguem em frente e param, vão em frente e esperam novamente. Tens a certeza de que querem que os sigas. Por isso vais atrás deles!
Um cardume de peixes prateados brilha à tua volta, centenas e milhares deles fazem cócegas na tua pele. Os cavalos-marinhos nadam à tua frente. É como se estivessem a indicar-te o caminho — ali à frente, estrelas-do-mar cintilam em cavernas submarinas e, mais além, estão ostras cujas pérolas reluzem como pequenas luas.
Vês agora as bonitas cores do recife de coral. O coral parece um castelo gigante guardado por ouriços-do-mar. À medida que vais nadando pelas pequenas e grandes torres do coral, reparas numa coisa que brilha nas profundezas da água. O que será?, interrogas-te.
Cheio de entusiasmo, aproximas-te nadando. É uma arca do tesouro! A tampa não está bem fechada e vês pequeninos pares de olhos a espreitar por entre aquela escuridão. Devagar, abres completamente a tampa e vários caranguejos pequeninos e engraçados fogem cá para fora.
Depois vês as jóias e os colares cintilantes, as pulseiras e as fivelas. E um monte de moedas de ouro. Um dos cavalos-marinhos roça com a cauda num anel de rubi. “Experimenta”, parece estar a dizer-te. A jóia reluz no teu dedo e interrogas-te a quem terá pertencido. A um grande duque que navegou pelo oceano com os seus navios? Ou talvez a uma princesa, que navegava porque ia casar com um príncipe que vivia num país distante? Os cavalos-marinhos brincam com as jóias e as moedas brilhantes. “Vá, leva uma parte do tesouro”, parecem estar a dizer.
Talvez só uma coisinha, pensas. Afinal, quem iria sentir a falta de uma pequena moeda depois destes anos todos? Mas a moeda não é tua. Decides que é melhor voltar a colocá-la no lugar e deixá-la escondida aqui debaixo do mar. Talvez outra pessoa possa gostar de a encontrar um dia.
Agora é tempo de partir. Despedes-te dos cavalos-marinhos e sobes velozmente mar acima, deixando um rasto de bolhas. Ao chegares a superfície, vês o sol nascente refletido no mar. Parece um disco brilhante, como a moeda de ouro que tiveste na mão.
Apesar de a moeda já aqui lido estar, lembras-te dela na tua cabeça. Sabes que estará sempre lá para te recordar a arca do tesouro e o lindo mundo que viste nas profundezas do mar.
  
Afirmações
 Podes apreciar muito uma coisa bonita sem que tenha de ser tua. Podes lembrar-te das coisas de que gostar na tua cabeça.
 Serás mais feliz se não deixares que os teus amigos ou qualquer outra pessoa te convençam a fazer uma coisa que não deves — algo que penses estar errado.
 Se realmente não sabes o que e certo e o que é errado, tenta que sejam os teus sentimentos a decidir.
 Nunca leves contigo algo que não te pertence, mesmo que penses que não vai fazer falta ao dono.

Anne Civardi, Joyce Dunbar, Kate Pety, Louisa Somerville
Dorme Bem
Lisboa, Editorial Estampa, 2008


De aluna a professora – Ant. Torrado

 De aluna a professora

A minha priminha Aldinha, desde que aprendeu a ler, não pára. Lê tudo: BOLACHAS MARIA, SUPER POP LIMÃO, FÓSFOROS QUINAS, TALCO, CUIDADO COM O CÃO, COMPOTA NATURAL, CORREIOS, TV-GUIA, SONY, ORATOL, VIARCO N°2, CASCAIS, BOMBEIROS, CREME NÍVEA… Até lê, sem se atrapalhar nem tossir, MUCOSOLVAN XAROPE. Fantástico!

Desde que aprendeu a ler, a minha priminha Aldinha tem uma pena infinita dos que não sabem ler. E, levada pelo impulso de a todos proporcionar a mesma descoberta encantada da palavra escrita, mal aprendeu a ler, logo quis ensinar.

Começou pelo gato Badameco. Pôs-lhe o livro à frente, mas o gato bocejou à primeira página, espreguiçou-se, desenrolou-se, enrolou-se e fechou os olhos. Um preguiçoso. Assim não vai avançar na vida. Ficará para sempre um gato analfabeto.

Tentou, depois, com o Pimpas, mas o cão, antes da aula, quis provar o livro e foi um sarilho para, depois, lho tirar da boca.

— Não é assim que se lê — zangou-se a Aldinha, a tentar pôr ordem nas folhas descoladas pela demasiada vontade de saber do Pimpas.

— Ignorantes. Um só queria dormir. O outro só queria brincar. Ora a vida não é só descanso e brincadeira. Há que aprender. Há que aprender pelos livros. Há que trabalhar — dizia a minha prima Aldinha.

A Aldinha, então, lembrou-se de que lhe tinham dado boas informações de um bichito por todos considerado como muito trabalhador, muito diligente.

Qual? A formiga.

É de uma persistência! Ela própria vira uma formiga carregar um niquito de bolo e não o largar, puxa daqui, empurra de acolá, até se escapulir, com ele às costas, por uma fenda do soalho.

Tão laboriosas já eram, que, se soubessem ler, do que elas não seriam capazes! Por isso a minha priminha Aldinha decidiu instruir, por junto, todo um formigueiro.

Abriu o livro das primeiras leituras, ao deitado, junto a um carreirinho. Depois, chamou a atenção das formigas com uns grãozinhos de açúcar.

Claro que elas vieram ao petisco. Enquanto se deliciavam, à volta do açúcar e das letras, a minha prima apontava: A. tua tia Tila é tola e A tua tia Tila entalou a tola e A tua tia Tila tem a tola com tala e tela.

Realmente, o desenho mostrava uma senhora de olhos esbugalhados, sentada numa cama, com a cabeça enrolada, em estilo de turbante hospitalar.

Não faço ideia o que pensaram desta desastrada tia as formigas do carreiro. Pouco bem, acho eu. Entretanto, a minha prima, por sua vez, achou que devia mudar de lição. Deixou umas tantas formigas atrasadas às voltas da tia Tila e passou para A pala da Paula é de napa, outra interessantíssima história, que dava gosto ler.

E por aí fora. Os progressos das formigas eram evidentes, sobretudo quando atraídas com açúcar para os deveres escolares.

— Mas elas sabem mesmo ler? — intriguei-me eu.

— Claro que sabem — respondeu-me a priminha. — Ainda ontem as vi, agarradas a uns bocados de jornal, que alguém deixou no meio da mata, no Domingo passado.

— Gostam de notícias frescas — comentei. — E escrever, escrevem?

— Claro que escrevem, mas com uma letra muito pequenina.

Pareceu-me natural. Tudo tem a sua proporção. Só a minha priminha Aldinha escapa a esta lei. Tão pequenina e já tão diligente, tão responsável, tão paciente. Qualidades que fazem uma autêntica professora.

É o que ela vai ser, quando for crescida. Professora de crianças, está visto, porque as suas alunas formigas, essas, nessa altura já devem andar na Universidade.

Vamos até combinar uma coisa.

Quando também vocês lá chegarem, ponham os olhos no chão e procurem-nas. É que vão encontrá-las, pela certa, a caminho da cantina universitária. Uma atrás da outra, incansáveis. São as disciplinadas formigas da minha priminha Aldinha. Quem começa bem, vai longe.

António Torrado
Trinta por uma linha
Porto, Civilização Editora, 2008


O cavalinho branco – Ant. Torrado

O cavalinho branco

 Era uma vez um cavalinho branco. Mas não era todo branco o cavalinho branco. Tinha estrelas azuis, muitas estrelas azuis espalhadas por todo o corpo e uma estrela maior no lugar do coração. Era um cavalinho branco às estrelas azuis.

 

Roda, roda, roda

na grande roda o cavalinho.

Roda, roda, roda

Corpo de estrelas, flor no focinho.

 

Não seria bem uma flor, mas quase. Parecia mesmo uma flor. Só um cavalo especial, um cavalo raro, pode assim mostrar uma flor no focinho e tantas estrelas azuis pelo corpo todo.

Este era um cavalo especial, um cavalo de carrossel.

Não andava contente com a sua vida, o cavalinho branco às estrelas azuis. Aquilo de ter de fingir que trotava, sempre à roda, sempre à roda, aborrecia-o. O barulho da música gritada pelos altifalantes e as vozes dos homens que apregoavam farturas e as luzes que baloiçavam dos fios e tremiam, tremiam, e o carrossel, dia e noite, a rodar, a rodar, mais uma volta e mais outra e outra — uf! — punham a cabeça do cavalinho branco também às voltas.

Não aguento mais estas tonturas — dizia o cavalinho branco. — Vou mudar de vida.

E mudou.

Correu pelos campos, saltou valados, chapinhou nos regueiros e bebeu a água fresca das fontes. Bem bom.

Mas um cavalinho branco às estrelas azuis, para mais em liberdade, acaba por dar nas vistas. Foi o que lhe sucedeu.

Um senhor de grande bigodes retorcidos, botas de montar e chapéu alto, como já ninguém usa, viu-o, uma vez, e gritou-lhe de longe:

— Eh, cavalinho, queres um torrão de açúcar?

Ele queria e veio buscá-lo. Então o senhor que usava botas de montar fez-lhe uma festa no pescoço e disse:

— Anda comigo que, mais logo, quando chegarmos ao circo eu dou-te o açúcar…

Lá foram, o cavalinho num trote curto de cavalinho bem disposto e o senhor de bigodes retorcidos a retorcê-los ainda mais, muito sisudo.

Quando chegaram ao circo, o senhor dos bigodes meteu o cavalinho numa espécie de jaula e disse-lhe assim:

— Logo, quando terminar o espectáculo, se tudo correr bem, dou-te o torrão de açúcar.

Um dos números mais aplaudidos do espectáculo era o do ilustre cavaleiro Arnaldo de Aguinaldo e os seus cavalos amestrados. Os cavalos emplumados e de arreios dourados trotavam à volta da pista, saltavam ao arco, dançavam ao som de uma valsa e ficavam muito quietos, como se fossem estátuas, quando o ilustre cavaleiro Arnaldo de Aguinaldo fazia estalar o chicote, de certa maneira. Eram, aqui fica dito, cavalos muito bem mandados.

Nessa noite, havia um número novo, um cavalinho engraçado, que o domador Arnaldo de Aguinaldo esperava que viria a ser a “estrela” mais brilhante da companhia. E com razão, pois então! Sim, porque não fazia sentido que um cavalinho branco, com o corpo coberto de estrelas, não fosse a “estrela” maior da companhia…

Dava gosto vê-lo, ao cavalinho, a trotar à roda, à roda, sempre à roda da pista, e o senhor cavaleiro Arnaldo de Aguinaldo no meio, de braços abertos, com o chicote numa das mãos e o chapéu alto na outra, como se quisesse dizer: “Admirem, excelentíssimos senhores, as maravilhas que eu tenho para mostrar. Isto vale ou não vale o preço de um bilhete?”

 

Roda, roda, roda

roda que roda num redemoinho

roda, roda, roda

finge que voa o cavalinho.

 

Pois fingia, realmente, mas não voava. Que triste sina esta a do cavalo branco às estrelas azuis. Não bastavam as voltas que tinha dado, e tantas, no carrossel?

Noites e noites rodou, trotou, dançou na pista do circo… Até que um dia se fartou.

— Chega — disse o cavalinho e pôs-se a andar de ali para fora.

Nem o torrão de açúcar, sempre prometido, sempre adiado, foi reclamar. Dali não levava nada.

Voltou a correr pelos campos, a saltar valados, a chapinhar nos regueiros… Que bom!

Mas, ao que dizem, o que é bom não dura sempre… Um dia, um lavrador que o vira saltar para dentro da herdade, correu atrás dele e, com algum custo, prendeu-o a uma nora. Mas primeiro tomou o cuidado de lhe tapar os olhos com uma venda.

— Por causa das tonturas — explicou ele.

Isso que fazia? Tanto já o cavalinho tinha andado à roda, que se tinha curado das tonturas. Do que não gostava era de andar sempre a pisar o mesmo caminho. Não haveria outro emprego para um cavalo branco com estrelas azuis?

 

Roda, roda, roda

na giga-joga o cavalinho

roda, roda, roda

e sempre à roda mói o caminho.

 

Talvez fosse possível arranjar outra profissão mais agradável. Qual seria? Deu voltas e voltas e decidiu desempregar-se mais uma vez, sem dar contas a ninguém. Libertou-se da nora, nem sabemos como, e tomou por uma estrada que a algum sítio devia levar.

Pelo mesmo caminho ia um cavalo castanho a puxar uma carroça.

“E se eu fosse também um cavalo de carroça?”, pensou o cavalinho branco às estrelas azuis.

Olhou para o cavalo castanho e viu-o tão triste e tão atormentado pelas moscas, que desistiu.

Em sentido contrário vinha um esquadrão de cavalaria da Guarda Republicana. Que lindos cavalos e que imponentes cavaleiros! “E se eu fosse atrás deles?”, lembrou-se o cavalinho.

Mas o suor escorria do pescoço dos cavalos. Era de tanto terem galopado. E — reparou ainda o cavalinho — as estrelas de metal que os cavaleiros traziam nas botas deixavam um rasto sangrento na barriga dos cavalos. Chamavam àquilo as esporas…

“Ah, sendo assim já não vou”, decidiu o cavalinho branco às estrelas azuis.

Continuou o seu caminho. Foi ter a uma cidade e a um grande largo onde um cavalo de bronze reluzia à luz do sol.

O cavalinho, ao vê-lo, exclamou:

— Ora aqui está um emprego que me calhava. Ninguém nos incomoda e, uma vez por outra, até nos tiram um retraio.

Respondeu-lhe, de cima do seu pedestal, o cavalo de bronze:

— Nem penses nisso. Estou aqui à chuva e ao sol, todo o tempo, e com uma pata no ar, sempre na mesma posição, a fingir que ando, mas não ando, e tu ainda achas que o emprego é bom!? Sonha com outra coisa, mas nunca queiras ser estátua.

Então que havia ele de ser? Sim, que modo de vida podia convir a um cavalinho branco às estrelas azuis?

Deu voltas à cidade, deu voltas à cabeça e, por fim, mirando a montra de uma casa de brinquedos, descobriu a sua vocação — iria ser cava­lo de brincar. Postou-se à porta, ao lado dos cavalos de pasta e dos cavalos de madeira e esperou que alguém o quisesse levar. Não esperou muito.

 

O cavalinho branco às estrelas azuis anda agora nas suas sete quintas. É, agora, cavalo de baloiço, cavalo de balancé… Emprego melhor não conhece. Finge que é cavalo de carrossel, cavalo de carroça, cavalo da Guarda, cavalo de circo, mas é apenas um brinquedo nas mãos de um menino. Bem bom.

António Torrado
Trinta por uma linha
Porto, Civilização Editora, 2008

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