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 De aluna a professora

A minha priminha Aldinha, desde que aprendeu a ler, não pára. Lê tudo: BOLACHAS MARIA, SUPER POP LIMÃO, FÓSFOROS QUINAS, TALCO, CUIDADO COM O CÃO, COMPOTA NATURAL, CORREIOS, TV-GUIA, SONY, ORATOL, VIARCO N°2, CASCAIS, BOMBEIROS, CREME NÍVEA… Até lê, sem se atrapalhar nem tossir, MUCOSOLVAN XAROPE. Fantástico!

Desde que aprendeu a ler, a minha priminha Aldinha tem uma pena infinita dos que não sabem ler. E, levada pelo impulso de a todos proporcionar a mesma descoberta encantada da palavra escrita, mal aprendeu a ler, logo quis ensinar.

Começou pelo gato Badameco. Pôs-lhe o livro à frente, mas o gato bocejou à primeira página, espreguiçou-se, desenrolou-se, enrolou-se e fechou os olhos. Um preguiçoso. Assim não vai avançar na vida. Ficará para sempre um gato analfabeto.

Tentou, depois, com o Pimpas, mas o cão, antes da aula, quis provar o livro e foi um sarilho para, depois, lho tirar da boca.

— Não é assim que se lê — zangou-se a Aldinha, a tentar pôr ordem nas folhas descoladas pela demasiada vontade de saber do Pimpas.

— Ignorantes. Um só queria dormir. O outro só queria brincar. Ora a vida não é só descanso e brincadeira. Há que aprender. Há que aprender pelos livros. Há que trabalhar — dizia a minha prima Aldinha.

A Aldinha, então, lembrou-se de que lhe tinham dado boas informações de um bichito por todos considerado como muito trabalhador, muito diligente.

Qual? A formiga.

É de uma persistência! Ela própria vira uma formiga carregar um niquito de bolo e não o largar, puxa daqui, empurra de acolá, até se escapulir, com ele às costas, por uma fenda do soalho.

Tão laboriosas já eram, que, se soubessem ler, do que elas não seriam capazes! Por isso a minha priminha Aldinha decidiu instruir, por junto, todo um formigueiro.

Abriu o livro das primeiras leituras, ao deitado, junto a um carreirinho. Depois, chamou a atenção das formigas com uns grãozinhos de açúcar.

Claro que elas vieram ao petisco. Enquanto se deliciavam, à volta do açúcar e das letras, a minha prima apontava: A. tua tia Tila é tola e A tua tia Tila entalou a tola e A tua tia Tila tem a tola com tala e tela.

Realmente, o desenho mostrava uma senhora de olhos esbugalhados, sentada numa cama, com a cabeça enrolada, em estilo de turbante hospitalar.

Não faço ideia o que pensaram desta desastrada tia as formigas do carreiro. Pouco bem, acho eu. Entretanto, a minha prima, por sua vez, achou que devia mudar de lição. Deixou umas tantas formigas atrasadas às voltas da tia Tila e passou para A pala da Paula é de napa, outra interessantíssima história, que dava gosto ler.

E por aí fora. Os progressos das formigas eram evidentes, sobretudo quando atraídas com açúcar para os deveres escolares.

— Mas elas sabem mesmo ler? — intriguei-me eu.

— Claro que sabem — respondeu-me a priminha. — Ainda ontem as vi, agarradas a uns bocados de jornal, que alguém deixou no meio da mata, no Domingo passado.

— Gostam de notícias frescas — comentei. — E escrever, escrevem?

— Claro que escrevem, mas com uma letra muito pequenina.

Pareceu-me natural. Tudo tem a sua proporção. Só a minha priminha Aldinha escapa a esta lei. Tão pequenina e já tão diligente, tão responsável, tão paciente. Qualidades que fazem uma autêntica professora.

É o que ela vai ser, quando for crescida. Professora de crianças, está visto, porque as suas alunas formigas, essas, nessa altura já devem andar na Universidade.

Vamos até combinar uma coisa.

Quando também vocês lá chegarem, ponham os olhos no chão e procurem-nas. É que vão encontrá-las, pela certa, a caminho da cantina universitária. Uma atrás da outra, incansáveis. São as disciplinadas formigas da minha priminha Aldinha. Quem começa bem, vai longe.

António Torrado
Trinta por uma linha
Porto, Civilização Editora, 2008

O cavalinho branco

 Era uma vez um cavalinho branco. Mas não era todo branco o cavalinho branco. Tinha estrelas azuis, muitas estrelas azuis espalhadas por todo o corpo e uma estrela maior no lugar do coração. Era um cavalinho branco às estrelas azuis.

 

Roda, roda, roda

na grande roda o cavalinho.

Roda, roda, roda

Corpo de estrelas, flor no focinho.

 

Não seria bem uma flor, mas quase. Parecia mesmo uma flor. Só um cavalo especial, um cavalo raro, pode assim mostrar uma flor no focinho e tantas estrelas azuis pelo corpo todo.

Este era um cavalo especial, um cavalo de carrossel.

Não andava contente com a sua vida, o cavalinho branco às estrelas azuis. Aquilo de ter de fingir que trotava, sempre à roda, sempre à roda, aborrecia-o. O barulho da música gritada pelos altifalantes e as vozes dos homens que apregoavam farturas e as luzes que baloiçavam dos fios e tremiam, tremiam, e o carrossel, dia e noite, a rodar, a rodar, mais uma volta e mais outra e outra — uf! — punham a cabeça do cavalinho branco também às voltas.

Não aguento mais estas tonturas — dizia o cavalinho branco. — Vou mudar de vida.

E mudou.

Correu pelos campos, saltou valados, chapinhou nos regueiros e bebeu a água fresca das fontes. Bem bom.

Mas um cavalinho branco às estrelas azuis, para mais em liberdade, acaba por dar nas vistas. Foi o que lhe sucedeu.

Um senhor de grande bigodes retorcidos, botas de montar e chapéu alto, como já ninguém usa, viu-o, uma vez, e gritou-lhe de longe:

— Eh, cavalinho, queres um torrão de açúcar?

Ele queria e veio buscá-lo. Então o senhor que usava botas de montar fez-lhe uma festa no pescoço e disse:

— Anda comigo que, mais logo, quando chegarmos ao circo eu dou-te o açúcar…

Lá foram, o cavalinho num trote curto de cavalinho bem disposto e o senhor de bigodes retorcidos a retorcê-los ainda mais, muito sisudo.

Quando chegaram ao circo, o senhor dos bigodes meteu o cavalinho numa espécie de jaula e disse-lhe assim:

— Logo, quando terminar o espectáculo, se tudo correr bem, dou-te o torrão de açúcar.

Um dos números mais aplaudidos do espectáculo era o do ilustre cavaleiro Arnaldo de Aguinaldo e os seus cavalos amestrados. Os cavalos emplumados e de arreios dourados trotavam à volta da pista, saltavam ao arco, dançavam ao som de uma valsa e ficavam muito quietos, como se fossem estátuas, quando o ilustre cavaleiro Arnaldo de Aguinaldo fazia estalar o chicote, de certa maneira. Eram, aqui fica dito, cavalos muito bem mandados.

Nessa noite, havia um número novo, um cavalinho engraçado, que o domador Arnaldo de Aguinaldo esperava que viria a ser a “estrela” mais brilhante da companhia. E com razão, pois então! Sim, porque não fazia sentido que um cavalinho branco, com o corpo coberto de estrelas, não fosse a “estrela” maior da companhia…

Dava gosto vê-lo, ao cavalinho, a trotar à roda, à roda, sempre à roda da pista, e o senhor cavaleiro Arnaldo de Aguinaldo no meio, de braços abertos, com o chicote numa das mãos e o chapéu alto na outra, como se quisesse dizer: “Admirem, excelentíssimos senhores, as maravilhas que eu tenho para mostrar. Isto vale ou não vale o preço de um bilhete?”

 

Roda, roda, roda

roda que roda num redemoinho

roda, roda, roda

finge que voa o cavalinho.

 

Pois fingia, realmente, mas não voava. Que triste sina esta a do cavalo branco às estrelas azuis. Não bastavam as voltas que tinha dado, e tantas, no carrossel?

Noites e noites rodou, trotou, dançou na pista do circo… Até que um dia se fartou.

— Chega — disse o cavalinho e pôs-se a andar de ali para fora.

Nem o torrão de açúcar, sempre prometido, sempre adiado, foi reclamar. Dali não levava nada.

Voltou a correr pelos campos, a saltar valados, a chapinhar nos regueiros… Que bom!

Mas, ao que dizem, o que é bom não dura sempre… Um dia, um lavrador que o vira saltar para dentro da herdade, correu atrás dele e, com algum custo, prendeu-o a uma nora. Mas primeiro tomou o cuidado de lhe tapar os olhos com uma venda.

— Por causa das tonturas — explicou ele.

Isso que fazia? Tanto já o cavalinho tinha andado à roda, que se tinha curado das tonturas. Do que não gostava era de andar sempre a pisar o mesmo caminho. Não haveria outro emprego para um cavalo branco com estrelas azuis?

 

Roda, roda, roda

na giga-joga o cavalinho

roda, roda, roda

e sempre à roda mói o caminho.

 

Talvez fosse possível arranjar outra profissão mais agradável. Qual seria? Deu voltas e voltas e decidiu desempregar-se mais uma vez, sem dar contas a ninguém. Libertou-se da nora, nem sabemos como, e tomou por uma estrada que a algum sítio devia levar.

Pelo mesmo caminho ia um cavalo castanho a puxar uma carroça.

“E se eu fosse também um cavalo de carroça?”, pensou o cavalinho branco às estrelas azuis.

Olhou para o cavalo castanho e viu-o tão triste e tão atormentado pelas moscas, que desistiu.

Em sentido contrário vinha um esquadrão de cavalaria da Guarda Republicana. Que lindos cavalos e que imponentes cavaleiros! “E se eu fosse atrás deles?”, lembrou-se o cavalinho.

Mas o suor escorria do pescoço dos cavalos. Era de tanto terem galopado. E — reparou ainda o cavalinho — as estrelas de metal que os cavaleiros traziam nas botas deixavam um rasto sangrento na barriga dos cavalos. Chamavam àquilo as esporas…

“Ah, sendo assim já não vou”, decidiu o cavalinho branco às estrelas azuis.

Continuou o seu caminho. Foi ter a uma cidade e a um grande largo onde um cavalo de bronze reluzia à luz do sol.

O cavalinho, ao vê-lo, exclamou:

— Ora aqui está um emprego que me calhava. Ninguém nos incomoda e, uma vez por outra, até nos tiram um retraio.

Respondeu-lhe, de cima do seu pedestal, o cavalo de bronze:

— Nem penses nisso. Estou aqui à chuva e ao sol, todo o tempo, e com uma pata no ar, sempre na mesma posição, a fingir que ando, mas não ando, e tu ainda achas que o emprego é bom!? Sonha com outra coisa, mas nunca queiras ser estátua.

Então que havia ele de ser? Sim, que modo de vida podia convir a um cavalinho branco às estrelas azuis?

Deu voltas à cidade, deu voltas à cabeça e, por fim, mirando a montra de uma casa de brinquedos, descobriu a sua vocação — iria ser cava­lo de brincar. Postou-se à porta, ao lado dos cavalos de pasta e dos cavalos de madeira e esperou que alguém o quisesse levar. Não esperou muito.

 

O cavalinho branco às estrelas azuis anda agora nas suas sete quintas. É, agora, cavalo de baloiço, cavalo de balancé… Emprego melhor não conhece. Finge que é cavalo de carrossel, cavalo de carroça, cavalo da Guarda, cavalo de circo, mas é apenas um brinquedo nas mãos de um menino. Bem bom.

António Torrado
Trinta por uma linha
Porto, Civilização Editora, 2008

Filhos do Coração

Era uma noite como outra qualquer.

A Luena estava sentada no chão a folhear o álbum de família. Os irmãos brincavam na sala com o Rafa e o Manecas, o cão e o gato lá de casa que, sendo os melhores amigos, às vezes pareciam os piores inimigos.

De repente, o silêncio foi interrompido pela curiosidade de uma menina de cinco anos.

— Mãe… como é que eu nasci? Porque é que não há fotografias minhas em bebé aqui no álbum?

A mãe percebeu que aquela, afinal, ia ser uma noite muito especial. Levantou-se do sofá e foi sentar-se ao lado da filha.

— Vou contar-te a história mais bonita do mundo e a mais especial, porque é a tua história. Sabes como nascem os bebés?

— Nascem de repolhos grandes! — exclamou o Manuel.

— Não é nada… chegam no bico das cegonhas! — contrapôs o Jorge.

Maria desatou a rir e avançou com a sabedoria de quem acredita que domina o mundo do alto dos seus dez anos:

— Os bebés nascem das barrigas das mães! O pai põe uma sementinha num ovo que a mãe tem dentro da barriga e, depois, a barriga começa a crescer, a crescer, a crescer e, nove meses depois, nascem os bebés!

— Nem todos — interrompeu a mãe —, alguns filhos nascem nos corações!

Nesse momento até as certezas da Maria, a irmã mais velha, desapareceram.

Curiosos, os irmãos aproximaram-se da mãe, prontos para ouvir esta história que, como todas as histórias importantes, começa com um…

— Era uma vez… — disse o pai da Luena que acabara de entrar na sala.

— …um coração que engravidou de amor — acrescentou a mãe.

— Os corações também engravidam? — interrompeu a Luena curiosa.

— Claro que sim! Esse coração, tal como as barrigas das mães, cresceu tanto, tanto, tanto, que se apaixonou por uma menina cor de canela e de trancinhas no cabelo que escolheu fazer parte desta família — respondeu o pai emocionado.

— Sabes Luena… há várias maneiras de criar uma família, mas o importante é o amor que une as pessoas dessa família, porque as famílias são para sempre — concluiu a mãe.

— Mesmo quando se zangam? — perguntou o Manuel.

— Claro… não vês que, apesar de se zangarem, o Rafa e o Manecas adoram-se e não conseguem viver um sem o outro? — lembrou a mãe.

A Luena ouvia em silêncio com muita atenção mas, quanto mais lhe explicavam, menos conseguia entender. Pegou na mão da mãe, obrigando-a a fixar o olhar no seu, que suplicava por mais esclarecimentos.

— Então como é que eu cheguei ao teu coração grávido, mãe?

— Já vais perceber… mas, o mais importante é que estás cá dentro, no nosso coração, como todos os teus irmãos.

Pelo olhar perdido da Luena, todos conseguiram imaginar a confusão que reinava na sua cabeça. O pai avançou com mais explicações:

— Sabes Luena, existem muitos lugares no mundo onde os pais não têm condições para criar os filhos…

— …e, por isso, têm que deixá-los em instituições como aquela no Gana, em África, onde nós te vimos pela primeira vez — acrescentou a mãe.

— E nesses lugares existem muitos meninos como eu, mamã? — perguntou a Luena.

A resposta chegou pela mão da irmã mais velha, a quem os dez anos davam direito legítimo a uma resposta sempre na ponta da língua:

— Espalhados pelo mundo, existem meninos de todas as raças e cores que precisam de pais, porque os seus pais da barriga não puderam cuidar deles como eles mereciam.

«Raças» era uma palavra difícil para os irmãos mais novos. O Manuel sabia que era preciso perguntar para conseguir aprender e, por isso, não hesitou:

— O que são raças, papá?

— Raças são características diferentes dos meninos que nascem em todas as partes do mundo: em Portugal, no Gana, na China…

À Luena nunca lhe tinha ocorrido perguntar porque é que a sua cor de pele era diferente da dos seus irmãos… afinal somos todos diferentes uns dos outros! Há crianças gordas, magras, altas, baixas, meninos de olhos azuis e outros de olhos castanhos. A cor da sua pele fora sempre aquela, portanto era uma característica sua.

Ela também sabe que o que é realmente importante sente-se com o coração. E o seu coração traquina dizia-lhe que o importante é o amor que une as famílias e o sentimento de segurança que os filhos têm junto dos pais.

— Ao ver-te pela primeira vez, o nosso coração cresceu tanto, tanto, tanto, que se apaixonou e, desde esse momento, a nossa vida deixou de fazer sentido sem ti — revelou a mãe com ternura.

A Luena ficou em silêncio a saborear o olhar apaixonado dos pais e a pensar em todas as crianças que não têm uma família.

Imaginou os meninos que não pertencem a ninguém e que adormecem à noite sem ter os pais ao seu lado para lhes contarem uma história. Imaginou como deve ser difícil não receber um beijo da mãe todas as manhãs. Imaginou como se devem sentir sozinhas as crianças que estão à espera de conhecer os seus pais do coração…

Espontaneamente correu e abraçou os seus pais com toda a força que conseguiu, numa tentativa desesperada de lhes fazer sentir todo o amor que tem por eles.

— Que bom que é ter uma família! — exclamou feliz.

E a sabedoria dos dez anos da Maria traduziu-se numa verdade simples que, no coração, todos sentem como uma certeza:

— Luena… a nossa família não seria a mesma sem ti…

— É verdade Luena, estamos muito felizes por termos uma irmã como tu — acrescentou o Jorge.

— Papá, e o que acontece às outras crianças que ainda não tem uma família? — perguntou o Manuel.

— Estão à espera de encontrar corações apaixonados que engravidem de amor e consigam formar uma família como a nossa — explicou o pai.

— Sabem que às vezes isso acontece muito depressa, mas outras, demora mais tempo. Porém o mais importante é que, no final de tudo, encontrem uma família… e de certeza que isso acaba por suceder! — concluiu a mãe.

A Luena ficou tranquila com as palavras da mãe em relação aos outros meninos que ainda se encontram a viver em instituições. Contudo, uma dúvida insistia em formar a covinha que aparecia na sua bochecha esquerda sempre que algo a preocupava:

— Mamã… mas como é que esses pais que engravidam do coração conseguem escolher uns meninos e deixar lá outros?

— Na verdade, filhota — explicou a mãe orgulhosa da sensibilidade da filha —, esses pais não escolhem os filhos… mesmo que não percebam, eles é que são os escolhidos. Um coração só engravida quando se apaixona, por isso é que pouco importa se os filhos nascem da barriga das mães ou dos seus corações. O amor só pode ser um laço natural… porque ninguém nos pode obrigar a amar!

— Tu, por exemplo, — continuou o pai – escolheste-nos no dia em que te conhecemos e, depois de nos conquistares, deixaste-nos amar-te. As fotografias que te faltam aí no álbum não são importantes, porque a nossa história de amor começou mais tarde, e nem todas as histórias de amor tem de começar numa maternidade.

— Se pensares bem, filhota — acrescentou a mãe —, não há fotografias de todos os momentos felizes que passámos juntos, porque alguns desses momentos guardámo-los cá dentro do coração, que é o melhor álbum da nossa vida!

O Manuel e o Jorge começavam a dar os primeiros sinais de cansaço com um bocejo traiçoeiro. A Maria, a quem a vida naquela noite até tinha conseguido ensinar qualquer coisa nova, foi contagiada e abriu a boca, denunciando a chegada da hora de dormir.

— Meninos, vamos para a cama! Hoje já ouviram uma linda história, que vos deu muito em que pensar! — exclamou o pai divertido.

A mãe levantou-se e distribuiu as crianças pelos quartos, ao ritmo de mimos e beijos de boas-noites. Quando chegou perto da cama da Luena reparou que a covinha da bochecha voltara a ficar visível.

— Mamã… ainda existem muitas famílias à espera de serem escolhidas por essas crianças? — perguntou-lhe a filha.

— Algumas, meu amor… — disse a mãe tentando tranquilizá-la — …mas não te preocupes, porque todas essas crianças vão, de certeza, escolher uma família como a nossa para serem muito felizes.

Aos poucos, a covinha foi desaparecendo. A Luena fechou os olhos, rendendo-se a um sono descansado, e começou a sonhar com um mundo cor-de-rosa, com pinceladas de muitas outras cores alegres e vivas que pintam a realidade de uma menina traquina de cinco anos.

A mãe inclinou-se e beijou o rosto daquela filha especial, que tinha trazido um brilhante arco-íris à sua vida. Depois, afastou-se em silêncio e ficou a pensar que, se todas as famílias soubessem quão maravilhosas e completas se podem tornar as suas vidas quando os seus corações engravidam, de certeza que as instituições do mundo ficariam vazias de crianças e as suas casas cheias de amor.

Alexandra Borges; Luís Figo; Ana Cardoso
Filhos do Coração – A adopção explicada a pais e filhos
Lisboa, Bertrand Editora Lda., 2007

É a tua vez de ler, Sara!

São oito horas da manhã. O sol queima e o ar seco enche-se do cheiro das ervas aromáticas. A estrada poeirenta que conduz à vila estende-se ao longe, direita como uma recta.

Sara conhece bem esta estrada, porque a percorre todos os dias para ir à escola. A caminhada longa não a perturba, porque é uma menina sonhadora e tem perninhas fortes. A escola é que a cansa.

Quando, na sala de aula, o Professor Adónis diz: “Peguem nos livros de leitura, meninos!”, Sara sente-se mal. As suas mãos tremem e a voz não sai. Sara detesta ler em voz alta. As palavras são muitas e correm à desfilada, umas atrás das outras, linha após linha, página após página. Até chegam a enrolar-se-lhe na língua. A menina hesita constantemente e tropeça em todas elas. Quando é a sua vez de ler, toda a turma se ri.

— Não tenhas pressa, Sara! — diz o professor, com gentileza.

— Não tenhas pressa, Sara! — troçam Carla e Carmen, no fim das aulas.

— Não tenhas pressa! — entoam os mais pequenos em coro.

Apenas Emílio se mantém afastado e nada diz. Sabe que Carla e Carmen têm ciúmes porque Sara é bonita como uma princesa.
Em casa, chamam-lhe “cordeirinho”, porque é a mais nova, e nasceu muito depois dos irmãos. Os pais criam ovelhas e a família trabalha arduamente na quinta todos os dias, à excepção do domingo.

Ao domingo, depois do almoço, o pai faz a sesta e a mãe senta-se à sombra para tricotar. Depois de algumas malhas, também ela sucumbe ao calor. Então, Sara corre pelo mato e vai até às colinas, onde mora Helena.

Sentada no seu velho automóvel com os pneus desmontados, Helena espera Sara. Esta senta-se no lugar do condutor e leva a velhinha a passear. Um passeio a fingir, que as conduz bem longe…

Enquanto a menina conduz, Helena conta-lhe histórias dos seus tempos de juventude, da época em que o seu carro era novo e rutilante. Sara conta-lhe o quanto detesta ler em voz alta, a forma como as palavras se engasgam na sua garganta como se fossem pão seco, e a troça que a turma faz dela.

— É verdade que as pessoas são maldosas, por vezes — diz Helena — mas não desanimes. É tão bom saber ler e poder saborear histórias bonitas.

Certo domingo, cansada de conduzir, Sara sentou-se no banco de trás do carro. Enquanto acariciava o couro estragado, enfiou a mão entre as costas e o assento. Qual não foi o seu espanto quando encontrou um livro velho e poeirento, cuja capa se decompôs ao tentar abri-lo.

— Meu Deus, Sara! — exclamou Helena. — Olha o que está escrito: Para a Ana, com o amor da Mãe e do Pai. Este livro pertencia à minha filha; o pai e eu oferecemo-lo pelo seu aniversário.

— Leia-mo, por favor! — suplicou Sara, já sentada no lugar da frente.

A velha senhora abanou a cabeça:

— Não, Sara.

A menina ficou desconcertada, mas logo a cara séria de Helena se abriu num sorriso.

Era uma vez uma mulher casada com um homem muito rico…

Era a história de uma bela menina e das suas duas meias-irmãs malvadas.

Era tão divertido ler com Helena! Sara conseguiu mesmo ler algumas das passagens sozinha. Sempre que uma palavra se revelava mais difícil, a velha senhora lia-a com ela. Em breve, chegaram ao fim do livro: Então, Cinderela casou com o príncipe e viveram felizes para sempre.

Quando o sol se pôs, Helena fechou o livro. Sara estava tão feliz que não conseguia articular palavra.

— Este livro é teu a partir de agora — disse-lhe a velha senhora, acariciando-lhe a mão. — Trá-lo contigo no próximo domingo, para o voltarmos a ler.

No dia seguinte, Sara estava impaciente por chegar à escola, porque queria mostrar o seu novo livro ao Professor Adónis.

— Ah! É a Cinderela! — exclamou.

— Leia-nos o livro, Professor! — pediram os alunos todos.

Ao ouvir o professor ler o livro, Sara recordou a história toda, como se as palavras desfilassem diante dos seus olhos. Quando o Professor Adónis pediu aos alunos que abrissem os livros de leitura, Sara abriu o seu, cheia de vontade. Mas, quando chegou a sua vez de ler em voz alta, as palavras misturaram-se na língua e a menina começou de novo a gaguejar.

— Não tenhas pressa, Sara — disse o professor.

Emílio olhou para Sara e viu que os olhos da colega se enchiam de lágrimas, à medida que se debatia com as palavras. Carla e Carmen riam-se nas suas costas.

Quando Sara se encontrou com Helena no domingo seguinte, contou-lhe tudo o que acontecera.

— O Emílio é o único que não se ri de mim — explicou.

— Esse Emílio parece um príncipe — disse a velha senhora. — E, já agora, quem achas tu que podes ser?

Helena foi a casa buscar um vestido de noite e disse, fazendo uma vénia:

— Este vestido parece ter sido feito para si, Princesa.

Todos os domingos Sara lia para Helena. Quanto mais lia, menos assustada se sentia ante a perspectiva de ler em voz alta na aula. E, quanto menos medo tinha, melhor lia. Algum tempo depois, a Directora da Escola, Dona Dalila, entrou na sala do Professor Adónis para ouvir os alunos ler. Um a um, todos leram em voz alta. Chegou a vez de Sara. Esta abriu o livro e sentiu-se logo mal. O professor Adónis esperou, paciente. Os alunos ficaram irrequietos.

Então, Sara pensou em todas as palavras que tinha lido com Helena. Viu as letras amigas que dão as mãos para formar palavras que dançam e cantam em conjunto. Sentiu a mão de Helena no seu ombro e ganhou coragem. Quando começou a ler, as palavras fluíam como as águas de um rio no início da Primavera.

— Lês maravilhosamente — elogiou a Directora.

Pelo canto do olho, Sara viu Emílio a sorrir. Depois das aulas, regressaram juntos a casa.

— Gostarias de dar uma volta no meu carro? — convidou Sara.

Emílio riu:

— Onde está o teu carro?

— Anda, que eu mostro-te — disse Sara, pegando-lhe na mão.

Quando Helena os viu chegar, acenou-lhes e disse:

— Venham depressa!

Sara sentou-se ao volante e Helena sentou-se no banco de trás para que Emílio ficasse ao lado da menina.

— Tu é que és o Emílio?

— Sou, sim — respondeu o garoto timidamente. — Sou o amigo da Sara.

— Achas que ela lê bem? — perguntou Helena.

— Lê maravilhosamente.

— Aposto que não sabias que ela conduzia tão bem.

— Confesso que não — riu o rapaz.

— Onde vamos hoje? — perguntou Helena.

— Vamos a um sítio muito longe daqui — respondeu Sara.

Diante delas, a paisagem imensa da savana perdia-se de vista. Os cumes das montanhas cintilavam à luz do sol poente, quais castelos saídos de uma lenda.

No ar tranquilo da tardinha, Sara pôs-se ao volante e contou uma história nova:

Era uma vez…

Niki Dally
À toi de lire, Sarie !
Paris, Gautier-Languereau, 2003
(Tradução e adaptação)

António Mazzi
Como estragar um filho em dez jogadas
Lisboa, Paulus Editora, 2006

(excertos adaptados)

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11. Faça-lhe crer que a vida é um paraíso

É cada vez mais difícil para mim compreender o suicídio de Fran­cisco, um rapaz de dezoito anos, de Ostia, apesar da abundante do­cumentação. Deixo de lado, voluntariamente, tudo o que respeita à prepa­ração de vinte minutos de vídeo e às várias premeditações para que o suicídio fosse bem sucedido. Detenho-me porém, no segundo dos três motivos que deveriam justificar o gesto louco. Francisco escreve: “O primeiro motivo permanecerá um segredo pessoal que ninguém saberá jamais. O segundo é que quero parar de sofrer. O terceiro é que, uma vez que mais cedo ou mais tarde todos morrem, não tenho medo de antecipar este processo.”

Encontro no segundo a chave de leitura deste doloroso epi­sódio. Volto, por isso, a uma antiga tese minha, que reencontro cada vez mais nos jovens de hoje: a profunda fragilidade que apresentam face ao esforço de uma vida verdadeira, feita de der­rotas e de vitórias, de limitações, esperas e outras dificuldades normais… Os filhos crescem, sobretudo nos primeiros anos da infância, convencendo-se demasiado que a vida é um paraíso terrestre, feita mais de brinquedos que de dores, mais de caprichos que de deveres.

Criámo-los como se criam as plantas na estufa. Tudo estava bem enquanto os mecanismos da estufa produziam essa atmos­fera artificial que permitia aos nossos filhos sentirem-se bem, in­dependentemente do mérito e do esforço. Quando a adolescên­cia os convida a sair desta atmosfera superprotegida com desejo de liberdade e de autonomia, acontece de tudo. A frase mais perturbadora do último gesto da vida deste rapaz de dezoito anos resume‑se às duas palavras do segundo motivo: “Quero parar de sofrer”. Traduzida numa linguagem mais acessível e verdadeira, significa interpretar a vida de cada dia como um sofrimento insuportável.

Se não deixarmos depressa, nós, adultos, de cuidar dos nossos filhos como pequenas plantas de estufa, episódios como este du­plicarão, perante o nosso desconcerto e incredulidade. Esquecemos cada vez mais que a educação supõe o treino para o esforço, o apoio para enfrentar as derrotas, a paciência e o diálogo ininterrupto, a proposta de gestos solidários e a libertação de tudo quanto possa fazer interpretar a vida como uma peça de teatro, um folhetim ou uma simples telenovela.

12. Deixe-o colado à televisão toda a tarde

A delicada relação entre os menores e a televisão não é ape­nas um problema, é “o problema dos problemas”. Não sei se os mass media encantam mais os pais se os filhos. Muitas vezes não são os pais que, por falta de tempo e de pa­ciência, substituem a sua voz materna pela voz enfeitiçada da televisão? Os interesses comerciais, a instabilidade das relações dos pais, o fascínio pela fantasia e o abuso imoral da infância vergonho­samente transformada em objecto de especulação, levaram o fenómeno aos limites de uma histeria colectiva.

Os dados dizem que há 87 canais dedicados às crianças, que a difusão da televisão atingiu 70% das famílias e que os nossos filhos passam pelo menos quatro horas por dia colados ao seu ”ídolo”! Creio que a coisa mais sensata que nos resta fazer é criar uma mobilização massiva e inteligente da escola e da família para criar baluartes críticos e válidos contra este desvario generalizado. Como educador, gostaria de sublinhar dois dos perigos que podem afectar as crianças dominadas pelos multimédia. Primei­ro: a incapacidade, algum tempo depois, de distinguir à sua volta o real do virtual. Segundo: a espantosa sobrecarga de emoções incontidas e concentradas que explodem na sua psique frágil e ainda em processo de formação.

De modo mais cómodo para nós mas mais arriscado para eles, substituímos as indispensáveis fábulas e contos das nossas avós pelos desenhos animados e pelos espectáculos mais diversos e disparatados. Ver crescer pequenos homenzinhos e pequenas mulherzinhas a abarrotar de publicidade, de ficção, de videojogos é a pior des­graça que pode acontecer ao nosso país. Que diferença fará para a criança de cinco anos, imbecilizada pelo bombardeamento da televisão, matar o seu gato verdadeiro ou o seu gato de peluche? E ficamo-nos prudentemente pelos gatos!

Perfil do bom pai/mãe  (cont.)

 de quem é

De quem é este chapéu?

Era Verão outra vez.

Milly e Molly tinha terminado o piquenique quando um grande chapéu de palha castanho apareceu a voar pela praia.

— De quem será? — perguntou Milly.

— Anda, vamos descobrir — sugeriu Molly.

Não foi preciso perguntar aos dois meninos que cavavam buracos na areia. Viam-se as pontas dos seus chapéus.

O chapéu de palha não era deles.

Não foi preciso perguntar ao pescador, que estava sentado numa rocha. Ele tinha o boné bem enfiado na cabeça. O chapéu de palha também não era dele.

Não foi preciso perguntar à senhora que estava a encher o cesto com algas. Ela tinha a mão em cima do seu chapéu pois o vento queria levá-lo. O chapéu de palha também não era dela.

Não foi preciso perguntar às meninas que construíam castelos na areia. Elas tinham os chapéus presos com uma fita debaixo do queixo. O chapéu de palha também não era delas.

Não foi preciso perguntar às pessoas que apanhavam sol e mexiam os pés. Estavam debaixo de um grande chapéu-de-sol e não precisavam de proteger a cabeça. O chapéu de palha também não podia ser delas.

Não foi preciso perguntar ao senhor de bengala. Ele tinha o cabelo revolto a sair debaixo do seu gorro. Não era dele.

Não foi preciso perguntar aos surfistas. Eles tinham creme no nariz e os cabelos ao vento. De certeza que não era deles.

E dos quatro mergulhadores?

Na areia estavam quatro pares de botas mas apenas três chapéus!

Será que o chapéu de palha era de um deles?

Milly e Molly colocaram o grande chapéu de palha por baixo do quarto par de botas e correram para junto do seu cesto de piquenique.

No caminho para casa, passaram por várias pessoas, umas com chapéu, outras sem chapéu.

— Espero que tenhamos encontrado o dono certo — disse Milly.

Gill Pittar
Milly Molly – Tomo II
Rio de Mouro, Everest Editora, 2006

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