Um farol só meu

Um farol só meu

Se vieres a minha casa, da janela do meu quarto verás o mar, a praia e muitos barcos de pesca. Um deles, o mais bonito, é o do meu papá. O meu papá é pescador. Quando regressa, traz sempre muito peixe, e a minha mamã apressa-se a ir vendê-lo.

— As pessoas gostam de peixe fresquinho — diz ela.

Na sala, debaixo do quadro com os nós, está a minha fotografia preferida: o papá, a mamã, e eu no meio.

Por vezes, o meu papá parte durante vários dias, quando o peixe está muito longe, e eu sonho com o mar.

Às vezes são sonhos feios em que o mar está mau, e o meu papá está sozinho no barco… Eu acordo com muito, muito medo.

Hoje foi uma dessas noites; fui a correr ter com a minha mamã e contei-lhe o meu sonho mau. Ela falou-me dos faróis, como eles ajudam os pescadores, e deu-me um livro para ver, com muitas imagens de faróis.

Eu acho que ela também tem medo. Passei muito tempo a ver todas aquelas imagens: faróis grandes, faróis pequenos, faróis coloridos… Vocês sabiam que há pessoas que vivem em faróis?

Eu gostava de viver num farol, para ajudar o meu papá a voltar para casa. Vou construir eu mesma um farol! O maior e mais alto farol do mundo! Pedirei ajuda aos meus brinquedos preferidos e vamos todos trazer de volta o meu papá.

Os brinquedos ficaram contentíssimos com a novidade, mesmo o Ronaldo, o meu preguiçoso pato amarelo.

Incansáveis, durante horas arrastámos e sobrepusemos os cubos de madeira que me foram dados pela tia Joaninha. Já estava tão alto que saía pela janela.

Subi… Subi… passei pelas nuvens, e continuei a subir até chegar perto da estrela mais brilhante, aquela que a mamã disse que era só para mim… Pedi-lhe para se sentar no meu colo e ajudar-me. Ela sentou-se, e ajudou-me.

Estava agora em cima do meu farol, com a minha estrela ao colo.

Por muito longe que estivesse o meu papá, por muito escuro que fosse… não poderia deixar de ver a minha luz, o farol que eu tinha construído só para ele.

Se hoje o meu papá chegar a casa, da janela do meu quarto verá o mar, a praia e muitos barcos de pesca… E o meu farol de amor.

Francisco Cunha

Um farol só meu

Porto, Ambar, 2004

Adaptação

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