A coruja Julieta

Os animais nossos amigos

Porto, Editora Asa, 2000

A coruja Julieta

Julieta, a coruja, é teimosa como mula e só segue o que lhe manda o seu nariz. Por isso os seus pais passam a vida a dizer-lhe que ela faz tudo de pernas para o ar. Ao contrário das outras corujas, dorme de noite e brinca de dia.

O pai e a mãe bem se cansaram de lhe explicar que ela é um animal “noctívago” e por isso, como qualquer coruja que o seu nome não suja deve descansar enquanto o sol alumia para, mal a lua vem para a rua, estar alerta para a presa caçar, de garra crua.

Mas Julieta não quer saber e amua.

Os ponteiros do seu relógio trocaram o passo e quando os pais chegam da caçada, arcando no corpo muita maçada, para descansar, no tronco oco do velho salgueiro, é a vez de a Julieta largar o ninho, indo embora com a aurora.

A corujinha tem mais amigos em toda a floresta que pernas tem uma centopeia.

O papá e a mamã até arrancam as penas quando descobrem que a Julieta se dá muito bem com uma família de arganazes recém-instalados num extremo da floresta.

Uma desonra para uma coruja honesta!

É que toda a gente sabe que as corujas caçam os tais de arganazes, mais os musaranhos e outros animais dos mesmos tamanhos. Mas não, a menina Julieta só segue o que manda o seu nariz. Ela prefere contentar o bico com magros insectos e minúsculos vermes da terra, tornando-se companheira de brincadeira dos pequenos animais do campo. Uma vergonha maior que cegonha.

Ontem, alguém a viu num voar rasteiro ao prado, esvoaçando uma comprida fita presa nas suas patas, à qual se agarravam os pequenos arganazes da família Roiganaz, rindo a bandeiras despregadas. Que figura mais tola!

Até os laparotos do senhor e senhora Coelho quiseram fazer o seu baptismo do ar servindo-se da fita presa nas patas da coruja. Toda a gente levou as mãos à cabeça.

— Três caçapos para levantar voo é muita areia numa avioneta! — exclamou a Julieta, rindo.

Hoje de manhã, enquanto os seus pais ressonam no ninho, a Julieta toma um banho na companhia dos seus amigo musaranhos, enquanto escutam as lérias da pega Amélia.

De tarde, vamos encontrar a nossa amiga em grande tagarelice com a família Ratónio, que comenta comicamente o movimentado baptismo do ar dos intrépidos caçapos.

— Podemos fazer montanhas de amigos quando saímos de dia! — diz ela para os seus pais.

Ah! Deus assim quis: que Julieta só siga o seu nariz!

Um urso à caça

Um urso à caça

Esta história não é nenhum conto de fadas.

Era uma vez um ursinho a quem faltavam pêlos na cabeça.

A sério! Quando o urso veio ao mundo, tinha um pêlo maravilhoso no corpo todo. Só em cima, no cocuruto da cabeça, havia uma mancha redonda e despida.

— Oh, uma careca! — disse o pai. — De certeza que o pêlo ainda vai nascer. Tem tempo.

Mas não cresceu. Nem com o tempo.

Então, a mãe pôs-lhe umas raízes na careca: rábano, raízes de árvores, raízes de dente-de-leão, raízes de acanto.

— É das raízes que tudo nasce — dizia a mãe — portanto, isto há-de ajudar!

Mas não ajudou. A mãe esfregou com água da chuva.

— A água da chuva faz nascer tudo.

Nada.

Esfregou estrume de galinha.

— Os homens também o usam para as plantas crescerem.

Nada.

Então o irmão do urso cuspiu-lhe na pelada.

— Desculpa, mas teve de ser! — disse o irmão. — Onde eu cuspo, medra sempre alguma coisa.

Na cabeça do urso, contudo, não cresceu nada.

— Não é assim tão mau — disse a mãe. — Põe um gorro.

Mas o urso só usava o gorro quando estava frio. No Verão tirava-o, primeiro, porque tinha muito calor, e segundo, porque todos os outros ursos olhavam para ele com um olhar tão esquisito como quando lhe viam a careca.

— Faz tu alguma coisa! Um bom urso sabe sempre tirar-se de apuros — dizia o pai. — Caça um animal, arranca-lhe o pêlo e depois colamos-to na cabeça.

— Com cuspo — disse o irmão.

O urso saiu para o bosque e encontrou um tigre que bufava ferozmente e se preparava para lhe saltar. Zás! O urso saiu dali e foi a correr para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não. No bosque só estava um tigre e eu não quis caçá-lo. Não quero ficar com riscas na cabeça.

No dia seguinte, o urso voltou ao bosque para ir caçar e viu vir ao longe um lobo a lamber os beiços.

O urso fugiu o mais depressa que pôde e correu para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não, só encontrei um lobo e não quis caçá-lo. Tinha pêlo cinzento e branco e eu não quero parecer assim tão velho.

Na caçada seguinte, apareceu-lhe, de repente, uma raposa, de boca aberta. O urso foi mais rápido e conseguiu chegar inteiro a casa.

— Voltaste a não caçar nada? — perguntou o irmão.

— Não, só vi uma raposa e não quis apanhá-la. Cheirava a carne podre e eu não quero ter maus cheiros na cabeça.

— Esta é a minha última tentativa — disse o urso, no dia seguinte, ao partir para o bosque.

Não encontrou ninguém e foi-se embrenhando nele cada vez mais. Procurava nos matagais, rastejou para dentro dos arbustos, subiu a uma árvore. Aí, na segunda ramificação, estava um esquilinho a dormir, e o seu pêlo era da mesma cor do pêlo do urso.

— Ora aqui está! — disse o urso, esfregando as patas de contente. Levantou-se para fulminar o esquilo com um golpe. O esquilinho abriu um olho e piscou-lho amigavelmente e sem medo.

— Desculpa! — disse o urso. — Não quero que seja assim. Não quero ficar com remorsos.

Baixou a pata, estendeu-a ao esquilinho e desceu do ramo. Sentou-se no musgo, encostou-se à árvore e, como estava cansado, adormeceu também.

Chegou depois junto dele um arganaz, ou melhor, uma mãe arganaz com uma barriga muito gorda. Passou furtivamente pelo urso, rastejou-lhe pelo braço e pelo ombro até que chegou à cabeça.

— Olá! — exclamou ela. — Este lugarzinho parece ter sido feito para mim. Não é lá muito macio, mas à volta é quentinho.

Arrancou algum pêlo seu, com o qual almofadou a pelada, instalou-se e deu à luz os filhotes.

Quando o urso acordou, sentiu uma comichão esquisita na cabeça. Levou a pata à mancha branca – como ele lhe chamava – e viu que se encontravam lá um rato grande e quatro ratinhos que sentiu não terem pêlo. Levantou-se com muito, muito cuidado, e foi para casa pé ante pé.

A mãe, o pai e o irmão ficaram assombrados.

— Agora já tens pêlos na cabeça — disseram.

O urso passou a dormir de costas direitas, sentado numa cadeira, até os pequenos arganazes saírem da pelada, rastejarem atrás da mãe pelos ombros e pelo braço do urso e, passando pela perna dele, seguirem na direcção do bosque.

Aos poucos, o vento fio soprando da cabeça do urso o pelo do arganaz.

— Afinal, estou muito satisfeito com a minha careca — disse o urso. — Talvez alguém mais possa vir a precisar dela.

Hans Manz

Reinhard Michl (org.)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen

Hildesheim, Gerstenber Verlag, 2002
Tradução e adaptação

As cores do Outono

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A pintora Rosa Ratinha pintava quase todos os seus quadros no estúdio. Só no Outono é que saía para pintar ao ar livre. O Outono era a estação preferida de Rosa. Havia tantos matizes surpreendentes na paisagem!

Certa vez, num belo dia de Outono, a pintora embalou tela, cavalete e tintas e foi passear para junto de um tranquilo lago não longe de casa. Conhecia um lugar bonito e plano em cima de uma rocha de onde tinha vista para os bosques e montanhas ao fundo. Aí montou o cavalete com a tela e começou a pintar com pinceladas generosas.

Na árvore oca que estava por detrás dela, morava um gnomo da montanha que a observava enquanto pintava.

— Isto é que é um quadro esquisito! — disse ele, quando Rosa acabou de pintar. — Nem se vê o lago nem as montanhas. Como se chama este quadro?

— O quadro chama-se As cores do Outono — disse Rosa Ratinha. — Não se vê o lago nem as montanhas, é verdade. Só pintei o Outono, aquilo que sinto quando olho para esta paisagem.

— Ah, agora entendo — disse o gnomo. — É muito interessante.

De repente, levantou-se um vento forte que arrancou a tela do cavalete. Ela foi pelo ar a voar e desapareceu entre as árvores na margem do lago. Rosa Ratinha desceu a montanha e foi buscar o quadro. Tinha dois rasgões e havia muitas folhas, agulhas de pinheiro e pedrinhas coladas na tinta fresca.

— Que pena — disse o gnomo da montanha. — O quadro agora está estragado.

— De forma alguma! — exclamou Rosa Ratinha. — Agora é que está completo! O vento do Outono também participou na pintura e imortalizou-se no quadro com estes dois rasgões. E as folhas que estão coladas também são bem-vindas. Agora, o quadro tem uma história e só agora começou a viver!

 

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado

O autocarro na árvore

O autocarro na árvore

Certo dia, os ratinhos Felisberto e Afonso foram apanhados de surpresa por uma tempestade na montanha. Das nuvens caíam raios medonhos, o trovão ecoava terrivelmente entre as paredes da montanha, e começou a chover cada vez com mais força. Felisberto e Afonso encontravam-se naquele momento numa ribanceira íngreme. Não se via nenhum abrigo nas proximidades. Só mais ao fundo é que se erguia uma árvore grande e, por baixo dela, estava qualquer coisa amarela que, vista de longe, parecia ser um abrigo de montanha. Os dois ratinhos desceram a correr tão depressa quanto podiam em direcção à árvore. Ao aproximarem-se, repararam que o objecto amarelo que viram não era uma cabana, mas sim um autocarro velho. À janela estava um gato branco a fazer sinal aos dois ratinhos, muito excitado. Felisberto e Afonso conseguiram chegar ao autocarro mesmo a tempo. Mal entraram, a tempestade desabou.

O gato fechou rapidamente a porta e as janelas. O interior do autocarro estava mobilado como um quarto-cozinha. Ao fundo de tudo estava um fogão estreito, onde o gato tinha feito uma sopa de cogumelos. Felisberto e Afonso sentaram-se no sofá. Enquanto comiam a sopa, o gato contou-lhes como é que o autocarro tinha ido parar àquela árvore.

Há um ano atrás, o gato tinha comprado o autocarro, muito barato, num leilão. Queria ir dar a volta ao mundo de autocarro; este sempre fora o seu sonho. Mas o autocarro já estremecia por todos os lados e os travões não funcionavam lá muito bem. Foi ao passar por aquelas montanhas que se deu o acidente. Numa estrada muito íngreme, os travões falharam, o autocarro saiu da faixa de rodagem e começou a descer a encosta a toda a velocidade. A árvore grande travou-o mesmo antes do precipício. O gato tinha tido uma sorte incrível! O autocarro ficara tão bem preso na árvore, que não saía. Depois de se ter refeito do choque, o gato branco foi dar um passeio e, como gostou imenso da região, renunciou à sua viagem. Decidiu remodelar o autocarro e transformá-lo numa espécie de abrigo de montanha e ficar ali a morar.

Felisberto e Afonso também acharam que o gato tinha tirado o melhor partido da situação. Ficaram no autocarro até a tempestade ter passado.

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado

O dragão violeta

O dragão violeta

 

Era uma vez uma floresta enorme e muito antiga, onde moravam muitos animais, e todos viviam satisfeitos. Tinham tudo aquilo de que precisavam e não eram incomodados pelos homens, pois estes ainda não tinham descoberto esta floresta. Só evitavam a parte norte da floresta. Segundo uma antiga lenda, havia aí um terrível dragão cor-de-violeta que comia tudo o que lhe aparecia à frente. Nunca nenhum dos animais vira o dragão violeta mas, mesmo assim, não se aventuravam a ir à parte norte.

Na floresta viviam também muitos ursos com os seus filhotes. Um desses ursinhos era o Nestor. Nestor era mais pequeno do que os outros ursos da sua idade. Não conseguia correr tão depressa como os seus companheiros de jogo, na luta perdia sempre e, na subida às árvores, era sempre o último. Por isso, muitas vezes, os outros ursinhos, não queriam deixá-lo brincar. E, ainda por cima, riam-se dele.

Nestor era mais fraco do que os outros, é verdade, mas era muito corajoso.

Quando, certo dia, os ursinhos voltaram a não querer deixá-lo brincar com eles, saiu dali em direcção ao norte, onde morava o dragão violeta. Mas o ursinho nem estava a pensar no dragão. Após ter corrido muito, Nestor foi parar a uma bela clareira. Sentou-se em cima de uma pedra e pôs-se a reflectir na injustiça dos seus companheiros. De repente, ouviu-se um leve estalar no meio das árvores e a cabeça do dragão violeta apareceu por cima delas. O ursinho apanhou um valente susto ao ver o enorme animal. Mas o dragão violeta tinha uma cara tão amorosa, que Nestor perdeu o medo por completo. Ficaram a olhar um para o outro durante um bocado. Nestor percebeu que o dragão também se sentia só. Ergueu-se e tocou na ponta do nariz do dragão, que fungou baixinho e sorriu. Em seguida, encolheu o enorme pescoço e desapareceu por entre a copa das árvores.

O ursinho regressou a casa feliz. Será que devia contar aos amigos o encontro que tivera com o dragão? O mais certo era não acreditarem numa única palavra…

“Amanhã volto outra vez à clareira”, pensou Nestor. “Será que o dragão violeta vai aparecer?”

Só de pensar no encontro, Nestor já sorria!

Erwin Moser
Mario der Bär
Weinheim Basel, Parabel, 2005
Texto adaptado

A cama na árvore

A cama na árvore

A casa do ursinho Matias era uma árvore na margem de um lago. Morava lá há muito tempo, e dantes já pertencera a um texugo. Era uma casa muito aconchegada, que, além do mais, tinha três quartos confortáveis por debaixo da terra, entre as raízes da árvore. Assim, era fresquinha no Verão e quente no Inverno.

Certo dia, Matias recebeu visitas da Austrália! Era Curtis, o coala com quem ele se correspondia há muitos anos. Curtis ficou alojado num dos quartos debaixo da terra e achou tudo muito interessante.

Havia muitas coisas que eram completamente diferentes da Austrália. Todos os dias, Matias ia dar uma volta com ele para lhe mostrar as redondezas. Davam longos passeios pelo bosque e casa mas conversavam com todos os animais que lá viviam. A floresta agradou particularmente a Curtis, que apreciava o cheiro penetrante das bétulas e dos abetos. Uma vez, subiram a um monte e fizeram uma breve visita à família dos ursos castanhos. Depois foram visitar, mais acima, as marmotas, com quem Curtis simpatizou especialmente.

Quando se estava a aproximar o dia da partida, Matias quis fazer-lhe uma surpresa especial. No penúltimo dia de estadia de Curtis, Matias desmanchou a sua cama e montou-a entre os ramos da árvore. Curtis ajudou-o e não parava de perguntar a Matias o que estava a fazer, mas Matias guardou segredo e não disse nada. À noite, colocou na árvore dois recipientes com mel e pendurou uma lanterna na copa. Em seguida, convidou Curtis a subir e a deitar-se na cama ao lado dele. Cobriram-se e ficaram à espera.

Passado pouco tempo, começaram a chegar as primeiras borboletas. A luz e o cheiro doce do mel tinham-nas atraído. Matias e Curtis observavam, quietos e em silêncio, as maravilhosas borboletas.

Foi uma bela surpresa. O coala nunca tinha visto tantas borboletas e tão de perto!

Erwin Moser

Mario der Bär

Weinheim Basel, Parabel, 2005

Texto adaptado