O violinista que fazia dançar as estações

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Esta história passa-se na escola de uma pequena aldeia. Na sala dos mais pequenos, havia sete alunos. Todos DETESTAVAM ir às aulas.

Já vais perceber porquê quando te apresentar a professora deles, a Professora Figo-Seco. É claro que este não era o seu verdadeiro nome; era a alcunha que os alunos lhe tinham posto e garanto-vos que lhe assentava mesmo bem… Sempre de mau humor e com voz de bruxa, era ARQUINULA quando se tratava de explicar a matéria. Falava muito, muito, muito depressa e usava palavras muito, muito, muito complicadas. Os alunos não percebiam nada, não fixavam nada e, sempre que ela os interrogava, não sabiam obviamente nada. Então, a professora enervava-se e castigava-os.

E era cada castigo! Cada um mais pateta do que o anterior.

— Já para o quadro! Vais contar os pêlos de todas as vassouras!

E já agora, ouve esta:

— Vais cantar “Todos os Patinhos” com a cabeça enfiada no cesto dos papéis durante todo o recreio. Lá fora!

Certa vez, ousou mesmo pedir a uma menina:

— Vais limpar todos os macacos do nariz que encontrares debaixo das mesas.

Compreendes agora por que motivo estas pobres crianças detestavam a escola.

Um dia, um homem estranho chegou à aldeia…

Instalou-se numa pequena casa arruinada, no meio dos vinhedos, debaixo de um enorme castanheiro…

Nunca se tinha visto uma pessoa tão original por aquelas bandas! Era muito velho e percorria as ruas a tocar violino, fosse dia ou fosse noite, chovesse ou fizesse sol. Dava nas vistas com os seus calções enormes, o seu colete de pele de coelho e os seus cabelos prateados, arranjados às três pancadas! Toda a gente troçava do seu aspecto… Toda a gente, excepto os sete alunos da Professora Figo-Seco.

As crianças adoravam a música que o velhote tocava. E, ao segui-lo por todo o lado, tinham descoberto imensas coisas.

O violonista tocava SOZINHO e, no entanto, as crianças ouviam OUTROS instrumentos além do violino.

Mas, por muito que virassem a cabeça para todos os lados, não os viam. Os instrumentos eram invisíveis….

Eram sempre as mesmas melodias. Quatro ao todo. Cada uma desencadeava fenómenos diferentes.

Durante a primeira música, as crianças sentiam o perfume dos lírios do vale, enquanto milhares de pétalas de flor surgiam de todos os lados e se punham a voltear em torno do violinista.

Durante a segunda música, era o odor do feno recentemente cortado que fazia cócegas nas narinas… Centenas de borboletas vinham, em seguida, pousar nos ombros do velho. Batiam as asas muito depressa, como se estivessem a aplaudi-lo.

Durante a terceira melodia, o ar cheirava a maçãs, enquanto folhas secas e douradas vinham dançar em redor dos cabelos prateados do músico. Que bonito!

Por fim, durante a quarta melodia, caíam flocos de neve como se fosse Natal, e as crianças sentiam o cheiro das castanhas assadas.

Tanta magia também te teria maravilhado, não achas?

Um dia, na sala de aula, os alunos recitavam um sem-fim de lenga-lengas, uma das especialidades da professora, quando, de repente, Josefina exclamou:

— Ouçam, é a música das borboletas !

A menina deu um salto e, acompanhada pelos colegas, saiu a correr ao encontro do violinista, que acabara de passar diante da escola.

Se visses a cara da Professora Figo-Seco !

— Mas, mas… Aonde vão vocês ? Voltem já aqui, imediatamente ! E, como castigo, vão ter de copiar cem vezes « Não devo levantar-me durante a aula ». Cem vezes, não, TREZENTAS vezes! Não, MIL vezes !

Quanto mais a professora multiplicava os castigos, mais sufocada ficava, mais as suas narinas fumegavam, mais os seus olhos relampejavam… e mais depressa os alunos saíam da sala.

Ainda quis apanhá-los, mas eles já tinham desaparecido ao virar da esquina. Tinham-se volatilizado! Procurou-os por toda a aldeia : ninguém os tinha visto… Deviam ter seguido o violinista até à casa deste!

Devia ser isso!… Atravessou os vinhedos como um foguetão e encontrou o velhote sozinho, sentado à porta de casa, debaixo do castanheiro. Estava a tocar, como de costume, mas estava SOZINHO.

— Onde estão as crianças?

Aquela voz de feiticeira sobressaltou-o.

— QUE crianças ?

— Os meus alunos! O Paulo, o Tiago, o Marco, o António, a Ana, o Vicente e a Josefina. Foram todos atrás de si !

— Talvez tenham vindo ! Mas eu não os vi ! Nunca olho para trás! — disse, colocando o violino debaixo do queixo.

Mas onde se teriam elas metido?

A Professora Figo-Seco, acompanhada pelos pais dos alunos, procurou-os por toda a parte: por detrás da igreja, nos vinhedos, nos celeiros, na margem do rio, nas caves e até no cemitério! Procurou-os por todo o lado! TINHAM DESAPARECIDO! Era um autêntico mistério! Não estavam em lado algum… A inquietação dos adultos crescia. Sem saberem mais o que fazer, foram ter com o velho músico, que também desconhecia o paradeiro das crianças.

Já se preparavam para ir embora quando a Professora Figo-Seco apanhou com uma sandália cor-de-rosa no nariz.

Adivinha quem estava pendurado no enorme castanheiro por cima das cabeças dos adultos? O Paulo, o Vicente, a Ana, o Marco, o António, o Tiago e a Josefina. Foram todos descobertos porque a Ana deixou cair uma sandália.

Que confusão! Todos os pais queriam saber, ao mesmo tempo, o que lhes tinha acontecido…

O Tiago, o mais pequeno do grupo, embora não o mais tímido, respondeu:

— Viemos para aqui para ouvir música!

— Deixaram de ir à escola por causa disso?

— Claro! É muito melhor! Não gostamos de ir à escola e não queremos voltar lá.

— O QUÊ?

— Quero lá saber de “Não queremos   voltar”. DESÇAM  IMEDI ATAMENTE!

A voz grossa de um pai encolerizado fez subir os sete miúdos até ao ramo mais alto do castanheiro. E com que rapidez! Como se tivessem sido picados por mil vespas.

Embora não conseguissem vê-los, os adultos conseguiam ouvir as crianças:

— Não vamos voltar à escola, nunca mais!

Nunca mais… Nunca mais… Nunca mais…

Ora muito bem, eles não tinham vontade de voltar à escola. Já agora, aqui para nós, entre as lengalengas da Professora Figo-Seco e um concerto num castanheiro, o que escolherias tu? O concerto, claro!

Além do mais, a música tinha-os feito compreender que cada uma das quatro melodias do velho correspondia a uma estação do ano. Nem mais!

O perfume do lírio do vale e as pétalas de flores correspondiam à PRIMAVERA.

O cheiro do feno cortado e as borboletas correspondiam ao VERÃO.

As maçãs e as folhas secas correspondiam ao OUTONO.

As castanhas assadas e os flocos de neve correspondiam ao INVERNO.

Sabes como se chama esta música?

AS QUATRO ESTAÇÕES. O nome do músico genial que as compôs é VIVALDI. Antonio Vivaldi.

As sete crianças tinham decidido descer da árvore apenas com uma condição: os pais tinham de prometer nunca mais mandá-las à escola. De outro modo, ficariam no cimo do castanheiro toda a vida… se fosse preciso!

Os pais e as mães bem tentaram chamá-los à razão: disseram-lhes que toda a gente ia à escola, que era indispensável, obrigatório, etc., etc., mas eles não estavam interessados: NÃO VAMOS VOLTAR À ESCOLA, NUNCA MAIS! Repreenderam-nos, ameaçaram-nos, pregaram-lhes sermões, suplicaram… Nada a fazer: cada uma das crianças mostrava-se tão casmurra como três mulas juntas.

Era como se fossem um rebanho de mulas em cima de um castanheiro! Os pobres pais estavam FARTOS… E antes que as mulas os transformassem em cabras, decidiram voltar para casa.

Quanto ao “rebanho de mulas”, estava bem instalado para ver o pôr-do-sol. Naquele fim de tarde, as cores de fogo do astro-rei iluminaram o céu e todo o vale. As crianças nunca tinham visto um pôr-do-sol tão belo e de um lugar tão alto! Só que o espectáculo foi estragado pela chegada de nuvens grossas. Ficou tudo escuro e, de repente, a noite caiu.

O velho músico fechou a porta e as janelas e tudo ficou tão escuro que mais escuro não podia estar.

No cimo do castanheiro, as crianças começaram a sentir frio, depois fome, depois sono e depois medo…

Havia coisas estranhas a voltejar em torno dos cabelos de Josefina: seriam asas ou patas? Eram asas. Que animais eram estes? Morcegos?

O António e o Paulo observavam uma forma estranha que ia e vinha. Aproximou-se tanto que chegou mesmo a tocar-lhes. O que seria esta forma fria, viscosa e nojenta?

Por sua vez, o Vicente debatia-se com fios, com pêlos, com fios que mediam muitos metros e que teimavam em enrolar-se em torno dele. A quem pertenciam estes fios? A uma aranha gigante, gigante e peluda!

A Ana e o Marco estavam intrigados com um ramo grosso de árvore que se mexia e ondulava de forma estranha. Não era de certeza um ramo! Era o quê, então? Uma SERPENTE enorme com dentes afiados? Quanto ao Tiago, fechava os olhos quando já não podia suportar o olhar fluorescente de um enorme mocho e tapava os ouvidos para não o ouvir piar. Pobre Tiago: toda a noite tapou os olhos e os ouvidos sem cessar!

Algumas horas mais tarde, uma luz rosácea no horizonte anunciava o nascer do sol. FINALMENTE!

As aves da noite foram deitar-se e os pássaros do dia fizeram-se ouvir.

Pouco a pouco, as sombras bizarras, as coisas estranhas e os ruídos inquietantes desapareceram… Teriam eles sonhado? Teria sido o medo que os fizera imaginar tudo aquilo?

No entanto, e desta vez não era um sonho, havia uma forma imóvel que se conservava junto do castanheiro.

Seria uma animal? Um arbusto? Um homem? Não, não era um homem, era uma mulher. Estaria ali há muito tempo ou teria acabado de chegar? Quem era aquela mulher? Não consegues adivinhar? Era a Professora Figo-Seco. É verdade, ela mesma… Tinha ficado ali toda a noite.

Mal o sol se levantou, saiu fumo da chaminé do velho músico. Era sinal de que já estava acordado. E, com efeito, veio até à soleira da porta, empunhando o seu violino. Ele, que quase nunca falava, aproximou-se da Professora Figo-Seco.

— Já se perguntou, minha senhora, por que razão os seus alunos não gostam de ir à escola e porque me seguiram?

— Não faço ideia. Desde que o senhor chegou que eles deixaram ficar tudo. Nada os impediria de o seguirem.

— Não foi a MIM que eles seguiram, foi a MÚSICA. Se soubermos escutá-la, esta música tem certos poderes. Eles SABEM escutá-la.

— Mas as crianças têm de regressar à escola!

— Porque quer que elas voltem, se não encontram lá nada de que gostem?

Então, o velho sorriu, colocou o violino debaixo do pescoço e começou a tocar.

Passado pouco tempo, parou de tocar e foi até aos vinhedos… As crianças deslizaram pelos ramos do castanheiro e seguiram-no.

A professora Figo-Seco sentiu que uma mão segurava a sua: era a mão do Tiago. Pela primeira vez, um aluno ousava dar-lhe a mão…

Gostavas de saber aonde o violonista os levou? Levou-os de volta para a sala de aula. Só que, a partir daquele dia, tudo se transformou!

O Paulo, o Tiago, o Marco, o António, a Ana, o Vicente e a Josefina nunca mais quiseram faltar à escola. A Professora Figo-Seco começou a falar mais devagar e a escolher palavras mais simples para lhes explicar as matérias.

A aritmética, os ditados e as conjugações tornaram-se quase divertidos… Disse QUASE, porque não convém exagerar. Por vezes, contava-lhes histórias e fazia imitações que os punham a rir como doidos! A sua alegria dava VONTADE de aprender, VONTADE de se apaixonar, VONTADE de passear pelos livros. Até VONTADE de ir à escola! Como vês, a música transformou a professora deles por completo.

O velho músico bem dissera:

A MÚSICA TEM PODERES BELÍSSIMOS SE SOUBERMOS ESCUTÁ-LA.

E tu, queres escutá-la?

Marlène Jobert

Le vieil homme qui faisait danser les saisons

Issy-les-Moulineux, Éditions Glénat, 2004

Tradução e adaptação

Flora e o violino

Esta manhã, Flora chegou à estação do comboio. A grande estação da grande cidade.

Ontem, caminhou todo o dia para apanhar o comboio.

Viajou toda a noite.

Viajou, ou melhor, fugiu, porque há guerra no seu país.

Uma explosão assustadora, a casa em fogo, e ninguém para apagar o incêndio que começava.

Por isso, Flora enfiou à pressa alguma roupa na mochila, depois pegou no ursinho e não esqueceu a caixa com o violino. E com os pais, fugiu para longe da sua aldeia.

Quando descem do comboio, já estão noutro país. As pessoas têm um ar apressado, falam uma língua esquisita. Flora vê que fazem gestos mas não percebe o que dizem.

Sente-se perdida…

Felizmente umas pessoas muito generosas emprestaram uma casa aos pais de Flora. E na escola do bairro há um lugar para ela, na classe dos mais novos. Vai poder aprender francês, a língua esquisita que ouviu na estação.

No primeiro dia, o pai acompanha-a à escola.

Assim que a vêem, os meninos começam a fazer troça dela.

— Olha, tem os cabelos cor de laranja!

— E a cara cheia de sinais!

— Não é de cá! De onde é que tu vens?

— Olha os óculos! Eh, tiraste-os à tua avó, ou quê?

Todos se riem. Todos, menos Flora.

Esta manhã, Flora trouxe o seu violino. Depois das aulas vai à escola de música. Ao verem a caixa, os meninos voltam a troçar dela.

— O que é aquilo? A caixa da metralhadora?

— Não, é o cesto de ir ao mercado. Ela só come peras!

— Cuidado, ela escondeu um crocodilo lá dentro!

Todos se riem. Todos, menos Flora. Até fica cada vez mais triste mas ninguém se dá conta.

Ninguém, excepto António que, à saída da escola, se abeira dela.

— Vais para casa, Flora?

— Não, vou escola música.

— Fazer o quê? — pergunta António.

— Tocar violino…

— Queres que vá contigo?

Flora sorri e faz que sim com a cabeça.

Nesta escola ouve-se música por todo o lado, por detrás de cada porta. António reconhece o som de um piano, de um trompete e de uma flauta.

O professor da Flora é muito simpático e deixa o António ficar na sala, com a condição de não perturbar.

Flora toca bastante bem tanto a solo, como em duo com o professor. António escuta-os sem se mexer.

Um dia, na escola, as crianças estavam a fazer um desenho quando, de repente, grandes nuvens escuras cobrem o céu. Nuvens de tempestade, que deixam uma pessoa assustada. Os raios caem de todos os lados, o trovão ruge e estala como um chicote. Zás! Não há luz: foi um trovão que cortou a electricidade.

— Eu vou procurar velas, — diz a professora. — Fiquem tranquilos.

As crianças estão com muito medo. Gritam e escondem-se a chorar debaixo das mesas. Flora bem gostava de as acalmar. Mas como?

De repente tem uma ideia, uma ideia muito boa.

Muito devagar, tira o violino da caixa, depois o arco…

… Um… dois… três sons sobem na escuridão da sala de aula e balançam-se suavemente. Dir-se-ia uma canção de embalar. Depois, uma enfiada de notas forma uma dança. Como toca depressa, a Flora! Escolheu fazer o seu violino cantar uma toada do seu país. É alegre, triste, as duas coisas ao mesmo tempo. E graças a ela, todas as crianças esqueceram a trovoada.

Que pena! A electricidade voltou…

As crianças aplaudem.

— Obrigada, Flora, muito bem! — diz a professora. E depois acrescenta: — Para amanhã não há trabalhos de casa. Mas vão todos fazer um bonito desenho ou um poema para agradecer à Flora.

— Yupiii! — gritam os meninos. Agora todos querem ser amigos de Flora. Mas ela só tem um amigo: António. Ele acompanha-a todas as semanas à aula de música.

O professor de música deu ao António uma linda flauta.

— Experimenta tocar um bocadinho!

António experimentou e gostou muito do som da flauta. A partir de então, passou a tocar todos os dias.

Muito rapidamente, começou a tocar peças com Flora. Violino e flauta, flauta e violino, é muito divertido e tem uma certa magia…

— E se vocês fizessem um pequeno concerto na escola? — propõe o professor de música.

— Boa ideia! – exclama Flora. — E depois vamos ao hospital tocar para os meninos doentes. No meu país faz-se isso muitas vezes. A música ajuda a curar e a esquecer as preocupações.

— Que peças queres tocar, António?

— Uhm… As mais fáceis? Oh, e daí não, as difíceis também! Vou trabalhar todos os dias e fazer muitos progressos!

Os dois preparam então dez peças e, com a ajuda do professor, desenharam um cartaz muito bonito. Toda a escola vem ouvi-los. É um sucesso, um concerto magnífico! À saída, todos os meninos estão decididos a aprender a tocar um instrumento.

E depois?
Ora bem, Flora e António continuaram a tocar juntos.
PARA PRAZER DELES!
Viva a música!

Gerda Muller
Quand Florica prend son violon
Paris, L´école des loisirs, 2001
(texto adaptado)

Quando eu era rapaz

 

À medida que o escritor recorda a sua infância, descobres um jovem igual a ti e a tantos outros. O que acontece, por exemplo, quando se vai ao médico….e se é operado sem contar? E quando, para fugir do colégio, fingimos uma crise de apêndice?

Uma ida ao médico

Só tenho uma má recordação das minhas férias de Verão na Noruega. Estávamos em casa dos meus avós em Oslo, e a minha mãe disse:

Hoje à tarde vamos ao médico. Ele quer examinar o teu nariz e a tua boca.

Penso que tinha oito anos nessa altura.

O que se passa com o meu nariz e com a minha boca?

Nada de especial. Penso que tens adenóides.

O que é isso?

Não te preocupes. Não é nada.

Fomos ao médico a pé, e eu ia de mão dada com a minha mãe. Levámos meia hora a chegar. No consultório, sentaram-me numa cadeira de dentista. O médico tinha um espelho redondo fixado na testa e examinou o interior do meu nariz e da minha boca. Chamou depois a minha mãe à parte e ouvi-os segredar. Reparei no ar sombrio da minha mãe e vi que concordava com o que o médico dizia. O doutor pôs água a ferver num recipiente em alumínio e colocou um instrumento fino e brilhante, em aço, dentro do recipiente. Sentado na minha cadeira, reparei que a água entrava em ebulição, mas não me inquietei. Era demasiado pequeno para compreender o que estava para acontecer.

Uma enfermeira vestida de branco apareceu com um avental de borracha vermelha e uma pequena bacia em esmalte branco. Colocou o avental sobre o meu peito e apertou-o atrás do meu pescoço. Depois, pôs a bacia debaixo do meu queixo. A curvatura da vasilha adaptava-se perfeitamente ao meu peito. O médico inclinou–se para mim, com o instrumento na mão. Ainda hoje posso descrevê-lo perfeitamente. Era da espessura de um lápis e tinha várias facetas. Na extremidade, apresentava uma lâmina oblíqua. A lâmina era pequena, muito afiada e brilhante.

Abre a boca pediu o médico, em norueguês.

Recusei. Pensei que ele ia fazer qualquer coisa nos meus dentes e tudo o que se fazia aos dentes era muito doloroso.

São só dois segundos insistiu o doutor.

Falava-me com doçura e deixei-me seduzir pela sua voz. Abri a boca, como um imbecil. A lâmina minúscula brilhou como um relâmpago e desapareceu na minha boca. Colocou-se no fundo do meu palato e a mão que a segurava realizou quatro ou cinco movimentos circulares muito rápidos, o que fez com que uma massa de carne sanguinolenta se soltasse da minha boca e fosse aterrar na bacia.

Fiquei tão indignado que gritei um pouco. Estava tão horrorizado com os enormes pedaços de carne que pensei que o médico me tinha arrancado metade da cabeça.

Estas eram as tuas adenóides ouvi-o dizer.

Quase sufoquei. Tinha o palato em fogo. Peguei na mão da minha mãe e agarrei-a com todas as forças. Não acreditava que me pudessem fazer uma tal coisa.

Fica quieto aconselhou o médico. Vais ficar bem dentro de um minuto.

Ainda me saía sangue da boca, sangue esse que caía na bacia que a enfermeira segurava.

Cospe bem pediu-me ela. És um bom menino…

Vais respirar muito melhor pelo nariz depois disto garantiu o doutor.

A enfermeira limpou-me os lábios e lavou-me a cara com uma luva húmida. Desceram-me da cadeira e puseram-me de pé. Sentia-me um pouco tonto.

Vamos para casa disse a minha mãe, pegando na minha mão.

Descemos a escada e chegámos à rua. Fomos a pé para casa. Reparem que digo “a pé”. Nada de táxis ou de eléctricos. Andámos meia hora para chegar a casa dos meus avós. Quando chegámos, por fim, lembro-me de a minha mãe dizer:

Deixem-no sentar-se e descansar um pouco. Afinal de contas, acaba de ser operado.

Alguém pôs uma cadeira junto da poltrona da minha avó e sentei-me. A minha avó colocou uma das minhas mãos entre as suas.

Não é a última vez que vais a um médico. Com sorte, não te magoarão muito.

 

Isto passou-se em 1924. Nessa época, era normal tirar as amígdalas a uma criança sem anestesia. Pergunto-me o que pensariam vocês hoje, se um médico vos fizesse o mesmo.

Enjoar um lugar….

 

Durante todo o meu primeiro trimestre no colégio de St. Peter’s, senti enjoos do lugar. Os enjoos do lugar são como os enjoos de barco. Só se sabe quão duros são quando os temos. Parece que nos deram um pontapé no estômago e temos vontade de morrer. O único consolo é que os enjoos do lugar são como os enjoos de barco e curam-se instantaneamente. O primeiro desaparece mal se sai do recinto da escola e o segundo acaba quando o barco entra no porto. Fui tão infeliz no colégio nas duas primeiras semanas que decidi pregar uma partida para poder ir para casa, mesmo que só durante alguns dias. A minha ideia era fingir uma crise de apendicite fulminante.

De certeza que acharão idiota que um rapazinho de nove anos se ache capaz de um truque destes, mas eu tinha excelentes razões para tentar. Um mês antes, a minha meia-irmã, que tinha mais doze anos do que eu, tinha tido uma apendicite e eu tinha observado a forma como ela se comportava nos dias antes da operação. Reparara que ela se queixava sobretudo de uma intensa dor de barriga, do lado direito. Vomitava sem cessar, recusava comer e tinha febre.

Talvez gostem de saber que a minha irmã não foi operada numa sala de operações de um bom hospital, rodeada de luzes brilhantes e de enfermeiras vestidas de branco, mas na mesa da nossa salinha de jogos, pelo médico local e pelo seu anestesista. Nessa época, era comum o médico chegar a casa das pessoas com uma mala cheia de instrumentos, cobrir com uma toalha esterilizada a mesa mais cómoda e meter mãos ao trabalho. Nesse dia, fiquei escondido no corredor enquanto a operação durava. As minhas outras irmãs estavam comigo e sentíamo-nos fascinados pelos murmúrios dos médicos por detrás da porta fechada à chave, enquanto imaginávamos a doente com a barriga cortada em duas, como se fosse uma peça de carne. Até conseguíamos sentir o cheiro enjoativo do éter por debaixo da porta.

No dia seguinte, fomos autorizados a examinar o apêndice, que estava num bocal de vidro. Parecia um verme escuro, muito comprido. Perguntei à minha ama:

Tenho uma coisa destas na barriga, Nônô?

Toda a gente tem.

Para que serve?

Os caminhos do Senhor são insondáveis respondeu, como sempre fazia quando ignorava a resposta.

O que faz com que ele fique doente?

Os pêlos de uma escova de dentes respondeu sem hesitar.

Os pêlos de uma escova de dentes! exclamei. Como podem os pêlos de uma escova de dentes fazer mal ao apêndice?

Nônô, que a meus olhos era mais sábia do que Salomão, respondeu:

Quando um pêlo sai da tua escova de dentes e o engoles, vai para o teu apêndice e fá-lo apodrecer. Durante a guerra, os espiões alemães enfiavam-se nos nossos armazéns, munidos de caixas de escovas de dentes cujos pêlos estavam quase soltos. Foi por isso que milhões de soldados nossos tiveram apendicite.

Isso é mesmo verdade, Nônô? gritei.

Eu nunca minto, meu filho. Que te sirva de lição: nunca uses uma escova de dentes velha!

Assim é que, durante anos, ficava inquieto sempre que descobria um pêlo de escova de dentes na boca. Quando fui bater à porta, depois do pequeno-almoço, nem sequer tive medo da Vigilante.

Entre! ressoou a sua voz.

Entrei na sala, com uma mão crispada sobre o lado direito da minha barriga, avançando a passos vacilantes.

O que desejas? perguntou-me aos berros, e o vigor da sua voz fez tremer-me o peito como se fosse um pudim instantâneo.

Tenho dores! respondi, numa voz gemebunda. Tenho tantas dores aqui!

 Deves ter comido demais  gritou.  É o que acontece quando uma pessoa se empanturra de bolos todo o dia.

Há já dias que não como nada fingi. Não consigo engolir nada, Senhora Vigilante!

Deita-te na cama e baixa os calções! ordenou.

Deitei-me na cama e ela começou a apalpar-me violentamente a barriga com os dedos. Espiava atentamente os gestos dela e, quando ela apoiou a mão com força no sítio onde eu achava que ficava o apêndice, gritei de tal forma que os vidros tremeram.

Por favor, pare! Por favor, pare!

Usei, em seguida, o meu melhor trunfo:

Vomitei toda a manhã choraminguei e agora estou com dores no peito!

Vi-a hesitar.

Fica aqui que eu volto já.

Era uma mulher abrutalhada e maldosa, mas tinha feito estudos de enfermagem e tinha medo que fosse uma peritonite. O médico chegou em menos de uma hora, apalpou-me a barriga, gestos que eu acompanhava com os gritos da praxe. Depois enfiou-    -me um termómetro na boca.

Não tens febre. Deixa-me examinar-te de novo.

Ui! gritei na parte crucial.

O médico saiu da sala, acompanhado pela Vigilante. Esta voltou meia hora mais tarde e anunciou:

O Director telefonou à tua mãe e ela vem buscar-te esta tarde.

Não fiz qualquer comentário. Continuei deitado, fingindo estar muito mal, mas tinha o coração num sino. Atravessei o canal de Bristol de barco, de madrugada. Fiquei tão feliz por sair da escola que me esqueci de que estava “doente”. De tarde, fui examinado pelo Dr. Dunbar, no seu consultório em Cardiff, e usei as mesmas artimanhas. Mas este médico era mais competente e mais esperto do que o da escola. Depois de me apalpar a barriga e de ouvir os meus gritos, disse:

Veste-te e depois senta-te na cadeira.

Ele mesmo se sentou à secretária e fixou-me com severidade, embora sem maldade.

Estás a fingir, não estás?

Como sabe? balbuciei.

Porque a tua barriga está mole e normal. Se tivesses uma infecção, estaria dura e tensa. A diferença vê-se com facilidade.

Fiquei calado.

Tens saudades de casa?

Disse que sim, com um sinal da cabeça.

É normal, nos primeiros tempos. Tens de ser forte. Não deves querer mal à tua mãe por te ter mandado para um colégio interno. Fui eu que a convenci de que era o melhor para ti. Quanto mais depressa aprenderes a desembaraçar-te sozinho, melhor.

O que vai dizer ao Director? perguntei, a tremer.

Dir-lhe-ei que tinhas uma infecção intestinal grave que tratei com comprimidos respondeu a sorrir. Isso significa que deves ficar em casa durante dois ou três dias. Mas promete-me que não vais fazer isto outra vez. A tua mãe já tem problemas que cheguem sem ter de ir à escola a correr buscar-te.

Prometo que nunca mais volto a fazer isto!

 

 

 

Roald Dahl

Moi, Boy

Paris, Gallimard Jeunesse, 1997

(Excertos adaptados)

Tenho um tigre

Tenho um tigre

— Eu tenho um cão — diz Tobias.

— Eu tenho um porquinho-da-índia — diz Ana.

— E nós temos um gato! — exclama Sandra.

— E eu tenho uma tartaruga — diz Fernando.

— Nós temos peixes e um coelho! — exclama Marco.

— E eu tenho dois canários — diz Jorge.

— E eu tenho um hamster que se chama Fips — diz Catarina.

— O meu cão chama-se Bola.

— O meu porquinho-da-índia gosta de se esconder.

— O nosso gato brinca comigo.

— A tartaruga hiberna.

— Durante a noite, o coelho vai para debaixo da minha cama.

Todas as crianças falam numa grande confusão. Só Mário está sentado em silêncio a ouvir.

— E eu — diz de repente — eu tenho um tigre que dorme na minha cama.

— O Mário está maluco! — exclama Catarina.

As crianças desatam à gargalhada.

— Não acreditamos.

— Mas é verdade — diz Mário. — Amanhã vou trazê-lo para a escola. É de pano, foi a minha mãe que mo fez.

Traduzido e adaptado

Max Bolliger

30 Geschichten zum Verschenken

Lahr, Verlag Ernst Kaufmann, 1991

Quem é quem?

Quem é quem?

Dois leões estão a lutar em frente ao quadro.
Uma bruxa está sentada à secretária.
Um lobo está à espreita por baixo da caixa de areia.
Um palhaço toca trompete.
Um cozinheiro corre atrás de uma borboleta.
Um limpa-chaminés atira serpentinas pelo ar.
O Capuchinho Vermelho distribui bolinhos.
Um rato Mickey conta anedotas.
Um tigre apaixonou-se por uma cigana.
Um astronauta dá uma cambalhota.
Depois dançam todos à roda e cantam.
No meio, está um mago. É a professora. Ela quase não reconhece os alunos.
“Quem é quem?”, pensa ela.
Ainda bem que não é Carnaval todos os dias.

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Max Bolliger
30 Geschichten zum Verschenken
Lahr, Verlag Ernst Kaufmann, 1991
Tradução e adaptação