Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

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O ratinho Bemol Saltitante adorava música. Por isso, vivia dentro de um piano. Era um lugar amplo, elegante e quentinho, mas o que mais lhe agradava era que todos os dias podia ouvir música durante horas.

O dono do piano era um pianista que adorava a sua profissão, pelo que passava dias inteiros a tocar e tocar. Sonatas, rapsódias, partitas e outras peças de música ecoavam na enorme sala, e escapavam pelas janelas.

Bemol gostava de se sentar num cantinho tranquilo ao fundo da caixa de ressonância e desfrutar das baladas de amor.

Gostava também de dançar entre os abafadores quando o pianista tocava uma marcha.

O pianista estava radiante com o seu piano. Tinha um som estupendo e, surpreendentemente, não o afinava havia anos. O que o pianista não sabia era que, durante as noites, o pequeno Bemol se encarregava de esticar e afinar as cordas e de limpar o pó que se acumulava entre as teclas. Bemol gostava de ter a sua casa em boas condições.
Algumas noites, o ratinho divertia-se a patinar sobre a tampa do piano, outras passava-as lendo e decorando as partituras que o pianista deixava sobre a estante.

Os outros ratos que viviam na casa consideravam Bemol um louco. Em vez das pequenas frestas nas paredes, das caixas no sótão ou dos livros ao fundo da biblioteca, preferia viver num piano. Isso era de doidos. Além de que o risco de ser descoberto pelo pianista era enorme e, se tal acontecesse, o homem saberia que tinha ratos em casa, o que seria uma desgraça para todos.

O Conselho dos Ratos reuniu-se para tratar do assunto e pôr na ordem o rato rebelde.

— Bemol Saltitante — disse o rato mais velho da casa. — É decisão deste conselho que, a partir desta mesma noite, abandones o piano como tua residência. Pões toda a comunidade em risco e isso não podemos permitir. De modo que terás de viver aqui connosco.

Bemol tentou argumentar, mas o ancião interrompeu-o:

— Bemol, não se fala mais nisto, já está decidido. Contudo, preparámos-te uma das caixas mais cómodas da cave. É de madeira e está cheia de novelos de lã. Além disso, encontra-se na última prateleira, um óptimo sítio. Se queres ser um membro desta comunidade, terás de aceitar a nossa decisão.

Bemol podia estar louco, mas era um bom ratinho, de maneira que aceitou aquela decisão, pensando no bem de todos.

A caixa não podia ser melhor, cómoda e bem situada. Como forma de lhe desejarem as boas-vindas, outros ratos tinham-lhe deixado três pedacinhos de queijo. Mas Bemol estava triste, e como lhe fazia falta o seu piano!

Na primeira noite comeu um bocadinho de queijo e, com os outros dois, fez uns tampões para os ouvidos. Funcionou, não ouviu nada toda a noite e depressa adormeceu.

No dia seguinte, quando lhe deu a fome, comeu um dos tampões de queijo.

Devagarinho, as notas de uma preciosa melodia que chegavam da sala de música foram entrando pelo seu ouvido direito. Bemol sentiu uma imensa vontade de correr em direcção ao som, mas cerrou os dentes e tapou a orelha com a mão. Assim passou o dia inteiro, com uma mão e um pedaço de queijo a tapar os ouvidos.

Ao terceiro dia, Bemol comeu o último pedaço de queijo e, assim, ficou sem tampões. Logo chegaram aos seus ouvidos, dos confins da sala de música, as primeiras notas da Fantasia Kortakowsky, sem dúvida a obra musical mais bela e complexa alguma vez escrita para piano.

A sua primeira reacção foi tapar de novo as orelhinhas, mas, sem querer, começou a trauteá-la. Primeiro retirou uma mão, depois a outra e, sem poder evitá-lo, desatou a correr escada acima em direcção à sala de música.

Atravessou vários tabiques, subiu pela canalização e chegou até uma pequena fresta na parede da sala de música. E ali estava o pianista, a interpretar aquela peça maravilhosa.

— Tenho de chegar ali — pensou Bemol.

E, sem sequer parar para pensar, desatou a correr em direcção ao piano, arriscando-se a ser descoberto.

Mas Bemol teve sorte e chegou aos enormes pés do piano sem ser visto. O pianista estava concentrado, movendo vertiginosamente as mãos sobre as teclas. O ratinho trepou pelo piano e escondeu-se mesmo atrás da estante. Esse seria o lugar indicado para desfrutar do concerto. Que belo regresso a casa, na primeira fila a ouvir a Fantasia Kortakowsky.

A música era cada vez mais complexa; o pianista via-se e desejava-se para chegar a todas as teclas. O pequeno Bemol continuava atrás da estante, movendo os seus dedinhos sobre um teclado imaginário. Até que chegou o último andamento, o mais complicado. Nenhum pianista, depois de Kortakowsky, tinha sido capaz de o interpretar correctamente. Bemol respirou fundo e preparou-se para escutar a parte final. As notas multiplicaram-se por dez, cada vez mais rápidas, cada vez mais belas.

E, então, já no fim da escala mais difícil, aconteceu: uma nota fora de lugar soou como o chiar de uma porta no meio da melodia.

— Maldição! Não é assim! — gritou o pianista, dando um soco no teclado. — Jamais conseguirei alcançar estas notas.

Bemol ficou imóvel, cruzando os dedos enquanto repetia a escala mentalmente. Então, o pianista respirou fundo e disse:

— Está bem, vou tentar mais uma vez. E começou de novo o último andamento.

As suas mãos foram acariciando as teclas cada vez mais depressa. Em boa verdade, pareciam montes de borboletas voando enlouquecidas. Bemol, com os dedos cruzados, pensava em cada nota, em cada tecla, mesmo antes de o pianista as tocar. E, então, voltou a acontecer: duas notas trocaram de sítio e o resultado foi um som tão desagradável como um puxão de orelhas. Desta vez foi Bemol quem gritou:

— Maldição! — E, de imediato, tapou a boca assustado. Todavia o pianista não o ouvira. Tinha começado a deambular pela sala, murmurando aborrecido. Além disso, a voz dos ratos não é lá grande coisa.

O homem voltou a sentar-se, sussurrando:

— Muito bem, última tentativa.

Bemol continuava escondido, mas, quando as notas começaram a soar, não conseguiu conter-se. O pianista estava quase a chegar ao mesmo compasso que o fizera falhar e foi então que o ratinho saiu detrás da estante e, com um salto certeiro, foi cair exactamente sobre a nota que o pianista não conseguira alcançar.

Bemol não acreditava no que acabara de fazer. Estava em cima de uma tecla, de olhos tapados, à espera que um murro o fizesse em puré e, o que seria pior, acabara de pôr em sério risco os outros ratos. No entanto, perante a sua surpresa, o homem falou:

— Muito bem, ratinho! Importavas-te de repetir?

Bemol concordou rapidamente com um aceno de cabeça. O pianista começou novamente a tocar e o pequeno roedor saltava e saltava sobre as teclas exactas no momento certo.

Assim estiveram toda a tarde, tocando a dois, a peça mais complicada e bela alguma vez escrita para piano. Então, o homem compreendeu o segredo da Fantasia Kortakowsky: havia sido escrita para ser tocada por um pianista e um rato. E assim o fizeram a partir de então.

Então, o músico deixou de tocar e o ratinho pensou que seria o seu fim.

De modo que, se alguma vez tiverem a sorte de assistir a um recital de piano, prestem bem atenção ao ratinho que salta de tecla em tecla entre as mãos do pianista. Assim saberão que estão a tocar a Fantasia para Pianista e Rato de Kortakowsky.

António Amago
Bemol Saltitante, um ratinho ao piano
Matosinhos, Quidnovi Editora, 2006

O violinista que fazia dançar as estações

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Esta história passa-se na escola de uma pequena aldeia. Na sala dos mais pequenos, havia sete alunos. Todos DETESTAVAM ir às aulas.

Já vais perceber porquê quando te apresentar a professora deles, a Professora Figo-Seco. É claro que este não era o seu verdadeiro nome; era a alcunha que os alunos lhe tinham posto e garanto-vos que lhe assentava mesmo bem… Sempre de mau humor e com voz de bruxa, era ARQUINULA quando se tratava de explicar a matéria. Falava muito, muito, muito depressa e usava palavras muito, muito, muito complicadas. Os alunos não percebiam nada, não fixavam nada e, sempre que ela os interrogava, não sabiam obviamente nada. Então, a professora enervava-se e castigava-os.

E era cada castigo! Cada um mais pateta do que o anterior.

— Já para o quadro! Vais contar os pêlos de todas as vassouras!

E já agora, ouve esta:

— Vais cantar “Todos os Patinhos” com a cabeça enfiada no cesto dos papéis durante todo o recreio. Lá fora!

Certa vez, ousou mesmo pedir a uma menina:

— Vais limpar todos os macacos do nariz que encontrares debaixo das mesas.

Compreendes agora por que motivo estas pobres crianças detestavam a escola.

Um dia, um homem estranho chegou à aldeia…

Instalou-se numa pequena casa arruinada, no meio dos vinhedos, debaixo de um enorme castanheiro…

Nunca se tinha visto uma pessoa tão original por aquelas bandas! Era muito velho e percorria as ruas a tocar violino, fosse dia ou fosse noite, chovesse ou fizesse sol. Dava nas vistas com os seus calções enormes, o seu colete de pele de coelho e os seus cabelos prateados, arranjados às três pancadas! Toda a gente troçava do seu aspecto… Toda a gente, excepto os sete alunos da Professora Figo-Seco.

As crianças adoravam a música que o velhote tocava. E, ao segui-lo por todo o lado, tinham descoberto imensas coisas.

O violonista tocava SOZINHO e, no entanto, as crianças ouviam OUTROS instrumentos além do violino.

Mas, por muito que virassem a cabeça para todos os lados, não os viam. Os instrumentos eram invisíveis….

Eram sempre as mesmas melodias. Quatro ao todo. Cada uma desencadeava fenómenos diferentes.

Durante a primeira música, as crianças sentiam o perfume dos lírios do vale, enquanto milhares de pétalas de flor surgiam de todos os lados e se punham a voltear em torno do violinista.

Durante a segunda música, era o odor do feno recentemente cortado que fazia cócegas nas narinas… Centenas de borboletas vinham, em seguida, pousar nos ombros do velho. Batiam as asas muito depressa, como se estivessem a aplaudi-lo.

Durante a terceira melodia, o ar cheirava a maçãs, enquanto folhas secas e douradas vinham dançar em redor dos cabelos prateados do músico. Que bonito!

Por fim, durante a quarta melodia, caíam flocos de neve como se fosse Natal, e as crianças sentiam o cheiro das castanhas assadas.

Tanta magia também te teria maravilhado, não achas?

Um dia, na sala de aula, os alunos recitavam um sem-fim de lenga-lengas, uma das especialidades da professora, quando, de repente, Josefina exclamou:

— Ouçam, é a música das borboletas !

A menina deu um salto e, acompanhada pelos colegas, saiu a correr ao encontro do violinista, que acabara de passar diante da escola.

Se visses a cara da Professora Figo-Seco !

— Mas, mas… Aonde vão vocês ? Voltem já aqui, imediatamente ! E, como castigo, vão ter de copiar cem vezes « Não devo levantar-me durante a aula ». Cem vezes, não, TREZENTAS vezes! Não, MIL vezes !

Quanto mais a professora multiplicava os castigos, mais sufocada ficava, mais as suas narinas fumegavam, mais os seus olhos relampejavam… e mais depressa os alunos saíam da sala.

Ainda quis apanhá-los, mas eles já tinham desaparecido ao virar da esquina. Tinham-se volatilizado! Procurou-os por toda a aldeia : ninguém os tinha visto… Deviam ter seguido o violinista até à casa deste!

Devia ser isso!… Atravessou os vinhedos como um foguetão e encontrou o velhote sozinho, sentado à porta de casa, debaixo do castanheiro. Estava a tocar, como de costume, mas estava SOZINHO.

— Onde estão as crianças?

Aquela voz de feiticeira sobressaltou-o.

— QUE crianças ?

— Os meus alunos! O Paulo, o Tiago, o Marco, o António, a Ana, o Vicente e a Josefina. Foram todos atrás de si !

— Talvez tenham vindo ! Mas eu não os vi ! Nunca olho para trás! — disse, colocando o violino debaixo do queixo.

Mas onde se teriam elas metido?

A Professora Figo-Seco, acompanhada pelos pais dos alunos, procurou-os por toda a parte: por detrás da igreja, nos vinhedos, nos celeiros, na margem do rio, nas caves e até no cemitério! Procurou-os por todo o lado! TINHAM DESAPARECIDO! Era um autêntico mistério! Não estavam em lado algum… A inquietação dos adultos crescia. Sem saberem mais o que fazer, foram ter com o velho músico, que também desconhecia o paradeiro das crianças.

Já se preparavam para ir embora quando a Professora Figo-Seco apanhou com uma sandália cor-de-rosa no nariz.

Adivinha quem estava pendurado no enorme castanheiro por cima das cabeças dos adultos? O Paulo, o Vicente, a Ana, o Marco, o António, o Tiago e a Josefina. Foram todos descobertos porque a Ana deixou cair uma sandália.

Que confusão! Todos os pais queriam saber, ao mesmo tempo, o que lhes tinha acontecido…

O Tiago, o mais pequeno do grupo, embora não o mais tímido, respondeu:

— Viemos para aqui para ouvir música!

— Deixaram de ir à escola por causa disso?

— Claro! É muito melhor! Não gostamos de ir à escola e não queremos voltar lá.

— O QUÊ?

— Quero lá saber de “Não queremos   voltar”. DESÇAM  IMEDI ATAMENTE!

A voz grossa de um pai encolerizado fez subir os sete miúdos até ao ramo mais alto do castanheiro. E com que rapidez! Como se tivessem sido picados por mil vespas.

Embora não conseguissem vê-los, os adultos conseguiam ouvir as crianças:

— Não vamos voltar à escola, nunca mais!

Nunca mais… Nunca mais… Nunca mais…

Ora muito bem, eles não tinham vontade de voltar à escola. Já agora, aqui para nós, entre as lengalengas da Professora Figo-Seco e um concerto num castanheiro, o que escolherias tu? O concerto, claro!

Além do mais, a música tinha-os feito compreender que cada uma das quatro melodias do velho correspondia a uma estação do ano. Nem mais!

O perfume do lírio do vale e as pétalas de flores correspondiam à PRIMAVERA.

O cheiro do feno cortado e as borboletas correspondiam ao VERÃO.

As maçãs e as folhas secas correspondiam ao OUTONO.

As castanhas assadas e os flocos de neve correspondiam ao INVERNO.

Sabes como se chama esta música?

AS QUATRO ESTAÇÕES. O nome do músico genial que as compôs é VIVALDI. Antonio Vivaldi.

As sete crianças tinham decidido descer da árvore apenas com uma condição: os pais tinham de prometer nunca mais mandá-las à escola. De outro modo, ficariam no cimo do castanheiro toda a vida… se fosse preciso!

Os pais e as mães bem tentaram chamá-los à razão: disseram-lhes que toda a gente ia à escola, que era indispensável, obrigatório, etc., etc., mas eles não estavam interessados: NÃO VAMOS VOLTAR À ESCOLA, NUNCA MAIS! Repreenderam-nos, ameaçaram-nos, pregaram-lhes sermões, suplicaram… Nada a fazer: cada uma das crianças mostrava-se tão casmurra como três mulas juntas.

Era como se fossem um rebanho de mulas em cima de um castanheiro! Os pobres pais estavam FARTOS… E antes que as mulas os transformassem em cabras, decidiram voltar para casa.

Quanto ao “rebanho de mulas”, estava bem instalado para ver o pôr-do-sol. Naquele fim de tarde, as cores de fogo do astro-rei iluminaram o céu e todo o vale. As crianças nunca tinham visto um pôr-do-sol tão belo e de um lugar tão alto! Só que o espectáculo foi estragado pela chegada de nuvens grossas. Ficou tudo escuro e, de repente, a noite caiu.

O velho músico fechou a porta e as janelas e tudo ficou tão escuro que mais escuro não podia estar.

No cimo do castanheiro, as crianças começaram a sentir frio, depois fome, depois sono e depois medo…

Havia coisas estranhas a voltejar em torno dos cabelos de Josefina: seriam asas ou patas? Eram asas. Que animais eram estes? Morcegos?

O António e o Paulo observavam uma forma estranha que ia e vinha. Aproximou-se tanto que chegou mesmo a tocar-lhes. O que seria esta forma fria, viscosa e nojenta?

Por sua vez, o Vicente debatia-se com fios, com pêlos, com fios que mediam muitos metros e que teimavam em enrolar-se em torno dele. A quem pertenciam estes fios? A uma aranha gigante, gigante e peluda!

A Ana e o Marco estavam intrigados com um ramo grosso de árvore que se mexia e ondulava de forma estranha. Não era de certeza um ramo! Era o quê, então? Uma SERPENTE enorme com dentes afiados? Quanto ao Tiago, fechava os olhos quando já não podia suportar o olhar fluorescente de um enorme mocho e tapava os ouvidos para não o ouvir piar. Pobre Tiago: toda a noite tapou os olhos e os ouvidos sem cessar!

Algumas horas mais tarde, uma luz rosácea no horizonte anunciava o nascer do sol. FINALMENTE!

As aves da noite foram deitar-se e os pássaros do dia fizeram-se ouvir.

Pouco a pouco, as sombras bizarras, as coisas estranhas e os ruídos inquietantes desapareceram… Teriam eles sonhado? Teria sido o medo que os fizera imaginar tudo aquilo?

No entanto, e desta vez não era um sonho, havia uma forma imóvel que se conservava junto do castanheiro.

Seria uma animal? Um arbusto? Um homem? Não, não era um homem, era uma mulher. Estaria ali há muito tempo ou teria acabado de chegar? Quem era aquela mulher? Não consegues adivinhar? Era a Professora Figo-Seco. É verdade, ela mesma… Tinha ficado ali toda a noite.

Mal o sol se levantou, saiu fumo da chaminé do velho músico. Era sinal de que já estava acordado. E, com efeito, veio até à soleira da porta, empunhando o seu violino. Ele, que quase nunca falava, aproximou-se da Professora Figo-Seco.

— Já se perguntou, minha senhora, por que razão os seus alunos não gostam de ir à escola e porque me seguiram?

— Não faço ideia. Desde que o senhor chegou que eles deixaram ficar tudo. Nada os impediria de o seguirem.

— Não foi a MIM que eles seguiram, foi a MÚSICA. Se soubermos escutá-la, esta música tem certos poderes. Eles SABEM escutá-la.

— Mas as crianças têm de regressar à escola!

— Porque quer que elas voltem, se não encontram lá nada de que gostem?

Então, o velho sorriu, colocou o violino debaixo do pescoço e começou a tocar.

Passado pouco tempo, parou de tocar e foi até aos vinhedos… As crianças deslizaram pelos ramos do castanheiro e seguiram-no.

A professora Figo-Seco sentiu que uma mão segurava a sua: era a mão do Tiago. Pela primeira vez, um aluno ousava dar-lhe a mão…

Gostavas de saber aonde o violonista os levou? Levou-os de volta para a sala de aula. Só que, a partir daquele dia, tudo se transformou!

O Paulo, o Tiago, o Marco, o António, a Ana, o Vicente e a Josefina nunca mais quiseram faltar à escola. A Professora Figo-Seco começou a falar mais devagar e a escolher palavras mais simples para lhes explicar as matérias.

A aritmética, os ditados e as conjugações tornaram-se quase divertidos… Disse QUASE, porque não convém exagerar. Por vezes, contava-lhes histórias e fazia imitações que os punham a rir como doidos! A sua alegria dava VONTADE de aprender, VONTADE de se apaixonar, VONTADE de passear pelos livros. Até VONTADE de ir à escola! Como vês, a música transformou a professora deles por completo.

O velho músico bem dissera:

A MÚSICA TEM PODERES BELÍSSIMOS SE SOUBERMOS ESCUTÁ-LA.

E tu, queres escutá-la?

Marlène Jobert

Le vieil homme qui faisait danser les saisons

Issy-les-Moulineux, Éditions Glénat, 2004

Tradução e adaptação

Beethoven

Ann Rachlin; Susan Hellard

Beethoven

Porto, Campo das Letras, 199

Estava um silêncio fora do habitual no pátio das galinhas e Cecily Fischer, a irmã do padeiro, olhou à sua volta desconfiada. Nesse momento, as galinhas começaram a cacarejar de medo. Cecily atravessou depressa o terreiro e escancarou a porta do galinheiro.

— Ludwig! Ora bem! Agora sei quem é que tem andado a roubar-me os ovos!

— Não, não, Menina Fischer — mentiu o rapazinho. — O Kaspar atirou o meu lenço aqui para dentro e eu vim buscá-lo!

Ludwig van Beethoven vivia com o seu pai, mãe e os dois irmãos, Kaspar e Nikola, na casa do padeiro, no nº 934 da Rheingasse, em Bona, na Alemanha. Em 1774, era um rapazinho todo enxovalhado, de quatro anos de idade, com cabelo despenteado e unhas sujas.

O Ludwig ia à escola com os seus irmãos. Detestava as aulas. Estudava Francês, Italiano e Latim, mas tinha notas muito baixas. Na Matemática o pobre Ludwig era tão fraco na multiplicação que, se tinha de calcular quantos eram três vezes quatro, escrevia três quatros e adicionava-os!

O Kaspar e o Nikola eram muito bons alunos. Mas, quando se tratava de Música, ninguém era tão brilhante aluno como o Ludwig!

O Ludwig era tão pequeno quando começou a tocar cravo que tinha de se pôr de pé num banco para chegar ao teclado. Também aprendia a tocar violino. O seu pai, Johann, era cantor. Deu as primeiras lições ao Ludwig, mas era muito severo.

Ao chegar a casa, já tarde na noite, ia tirar o Ludwig da cama para praticar. Quando tentava tocar de memória, o pai ficava muito zangado!

— Que asneirolas estúpidas estás para aí a arranhar? — gritava. — Toca pela pauta, caso contrário nunca serás um músico a sério!

Por vezes, quando o pai estava com visitas, o Ludwig aproxima vá-se à socapa do cravo e tocava alguns acordes.

Nessas ocasiões, Johann perdia as estribeiras:

— O quê estás aqui a fazer? Vai-te embora se não queres levar um puxão de orelhas!

Mas até mesmo o seu mal-humorado pai tinha de admitir que o Ludwig estava a fazer grandes progressos. Em pouco tempo, o rapazinho já andava a aprender a tocar viola e órgão. E já era muito melhor músico do que o seu pai!

Quando o Ludwig fez sete anos, o pai decidiu que era chegada a altura de ele dar o seu primeiro concerto. Ouvira contar como, alguns anos antes, Leopold Mozart tinha levado em digressão Wolfgang, o seu filho genial, que tinha dado uma série de concertos.

— O Ludwig também há-de ganhar dinheiro! — disse ele.

O concerto realizou-se em 26 de Março de 1778. Todos os anúncios diziam que Ludwig tinha apenas seis anos de idade. Johann mentiu quanto à idade do seu filho para que as pessoas pensassem que Ludwig era tão esperto como Wolfgang Mozart.

Johann estava a fazer um buraco num ovo! Ludwig fez uma careta de nojo enquanto observava o pai a sorver o ovo cru e depois comer duas ameixas secas!

— Vai cantar hoje à noite — pensou Ludwig.

O seu pai comia sempre ovo cru e ameixas secas antes de cantar.

— Dá-me frescura à voz! — dizia ao seu jovem filho.

Quando começou a crescer, Ludwig apercebeu-se de que quase toda a gente que ele conhecia estava ao serviço do Arcebispo de Colónia. A vida no palácio do Arcebispo era muito faustosa, porque o Arcebispo era uma pessoa importante. Foi um dos poucos “Eleitores” que escolheram um novo imperador quando morreu o velho. Adorava boa comida, a caça e a música.

O Eleitor tinha a sua própria orquestra. O avô de Ludwig tinha sido o seu kappelmeister — mestre de capela — o chefe dos músicos da corte. O sonho de Johann era que Ludwig viesse também a ser kappelmeister.

Quando Ludwig tinha dez anos, Christian Gittlob Neefe passou a ser o novo organista do Eleitor. Este óptimo músico apercebeu-se de que Ludwig era um génio com necessidade de um professor calmo e compreensivo que o animasse a compor.

O senhor Neefe não tardou a declarar que o Ludwig era “um jovem génio de talento muitíssimo promissor. Certamente tornar-se-á um outro Wolfgang Mozart se continuar como começou!”. O Senhor Neefe nomeou Ludwig seu organista assistente.

Numa manhã bastante cedo, Ludwig foi despertado pelo galo a cantar no telhado por cima do quarto dos pais. Acordou o seu irmão Kaspar.

—- Está um galo no telhado, Kaspar. Parece bem gordinho! Vamos apanhá-lo!

Os dois rapazinhos desceram as escadas em bicos de pés e foram à cozinha do padeiro, onde encontraram um pedaço de pão.

No meio do terreiro, tentaram o galo com o pão.

— Aqui, galo cocoricó! Desce para aqui, desce!

O galo não resistiu e desceu ao terreiro para agarrar no pão.

— Apanhámos-te! — gritaram os dois rapazes.

Ao jantar nessa noite, os seus pais não faziam ideia quem tinha apanhado a ave de capoeira saborosa de que tanto gostaram.

— É altura de ir para o andar de cima, Mamã!

Os meninos estavam todos excitados. Era o aniversário da sua mãe e todos os anos o celebravam com um concerto. Enquanto a Mamã estava a descansar, punha-se uma cadeira especial debaixo de um dossel e decorava-se com folhas e flores. Por volta das dez horas estava toda a gente pronta e os músicos começaram a afinar os seus instrumentos.

— Já aí vem! Todos calados!

A Mamã desceu as escadas. Estava linda. Johann conduziu-a à sua cadeira especial. Os músicos começaram a tocar e o som da música maravilhosa espalhava-se pela vizinhança. Após o concerto, comeram e beberam. Depois, todos tiraram os sapatos e dançaram em meias, para não incomodar os vizinhos que estavam a dormir.

Ludwig estava sentado à janela do seu quarto, que dava para o terreiro. À sua frente encontravam-se os manuscritos das suas primeiras composições musicais importantes. Eram três sonatas para cravo. Tinha-as trabalhado durante várias semanas, reescrevendo longas passagens até finalmente se dar por satisfeito. Escreveu a dedicatória:

A Sua Eminência o Arcebispo Eleitor de Colónia, meu gracioso Soberano, composto por Ludwig van Beethoven, aos onze anos de idade.

— Tragam-me a lista de todos os músicos da minha orquestra!

Em 1784, havia um novo Eleitor em Bona. O Arquiduque Maximiliano era irmão do Imperador. Era um homem muito gordo que gostava de boa comida e de boa música.

— O que é isto? Johann van Beethoven tem uma voz já muito gasta! Dizes que o seu filho Ludwig é ainda jovem, mas muito capaz. Toca órgão, é? Estou desejoso de ouvir o jovem Ludwig tocar!

O Ludwig já não andava todo enxovalhado! Agora que era músico da corte, tinha de parecer muito arranjado e limpo. Usava uma casaca elegante, calções pelos joelhos, meias de seda, sapatos com laçarotes e um colete bordado com bolsos, que apertava com cordão de oiro genuíno. Tinha o cabelo aos caracóis dos lados e rabo-de-cavalo atrás. Até tinha uma espada num cinto de prata, que usava em ocasiões especiais.

Aos 16 anos, o Senhor Neefe decidiu que ele iria estudar com Mozart em Viena. Após uma longa viagem, Beethoven chegou a Viena em 7 de Abril de 1787. Alguns dias mais tarde encontrou-se com Mozart, que o convidou a tocar. Ludwig sentou-se ao cravo e tocou maravilhosamente. Mas Mozart não parecia muito impressionado.

— Bom, preparou bem essa peça — disse, num tom bastante frio.

— Posso fazer muito melhor do que isto! — gritou Ludwig. — Dê-me uma melodia e mostrar-lhe-ei o que posso fazer com ela!

Os dedos de Ludwig voavam sobre o teclado. Estava a tocar para o grande Wolfgang Mozart. Transbordava de inspiração. A melodia simples que Mozart lhe sugerira tornou-se uma obra-prima quando Beethoven a transformou numa composição maravilhosa. Mozart estava enlevado. Por fim, foi ter com uns amigos que estavam na sala ao lado.

— Aquele é Ludwig van Beethoven — disse. — Um dia, todo o mundo falará dele.

Ludwig van Beethoven tornou-se um dos compositores mais importantes de todo o mundo. Compôs mais de 600 peças, incluindo 9 sinfonias, cinco concertos para piano, um concerto para violino, uma ópera, 32 sonatas para piano e muitos quartetos de cordas, trios e obras de música coral. Beethoven compôs muitas destas obras-primas depois de ficar surdo. Entre as suas composições encontram-se a “Sonata ao Luar”, a Sinfonia “Pastoral” ( 6) e o “Hino da Alegria”, da sua Sinfonia nº 9. Morreu em 1827.

Flora e o violino

Esta manhã, Flora chegou à estação do comboio. A grande estação da grande cidade.

Ontem, caminhou todo o dia para apanhar o comboio.

Viajou toda a noite.

Viajou, ou melhor, fugiu, porque há guerra no seu país.

Uma explosão assustadora, a casa em fogo, e ninguém para apagar o incêndio que começava.

Por isso, Flora enfiou à pressa alguma roupa na mochila, depois pegou no ursinho e não esqueceu a caixa com o violino. E com os pais, fugiu para longe da sua aldeia.

Quando descem do comboio, já estão noutro país. As pessoas têm um ar apressado, falam uma língua esquisita. Flora vê que fazem gestos mas não percebe o que dizem.

Sente-se perdida…

Felizmente umas pessoas muito generosas emprestaram uma casa aos pais de Flora. E na escola do bairro há um lugar para ela, na classe dos mais novos. Vai poder aprender francês, a língua esquisita que ouviu na estação.

No primeiro dia, o pai acompanha-a à escola.

Assim que a vêem, os meninos começam a fazer troça dela.

— Olha, tem os cabelos cor de laranja!

— E a cara cheia de sinais!

— Não é de cá! De onde é que tu vens?

— Olha os óculos! Eh, tiraste-os à tua avó, ou quê?

Todos se riem. Todos, menos Flora.

Esta manhã, Flora trouxe o seu violino. Depois das aulas vai à escola de música. Ao verem a caixa, os meninos voltam a troçar dela.

— O que é aquilo? A caixa da metralhadora?

— Não, é o cesto de ir ao mercado. Ela só come peras!

— Cuidado, ela escondeu um crocodilo lá dentro!

Todos se riem. Todos, menos Flora. Até fica cada vez mais triste mas ninguém se dá conta.

Ninguém, excepto António que, à saída da escola, se abeira dela.

— Vais para casa, Flora?

— Não, vou escola música.

— Fazer o quê? — pergunta António.

— Tocar violino…

— Queres que vá contigo?

Flora sorri e faz que sim com a cabeça.

Nesta escola ouve-se música por todo o lado, por detrás de cada porta. António reconhece o som de um piano, de um trompete e de uma flauta.

O professor da Flora é muito simpático e deixa o António ficar na sala, com a condição de não perturbar.

Flora toca bastante bem tanto a solo, como em duo com o professor. António escuta-os sem se mexer.

Um dia, na escola, as crianças estavam a fazer um desenho quando, de repente, grandes nuvens escuras cobrem o céu. Nuvens de tempestade, que deixam uma pessoa assustada. Os raios caem de todos os lados, o trovão ruge e estala como um chicote. Zás! Não há luz: foi um trovão que cortou a electricidade.

— Eu vou procurar velas, — diz a professora. — Fiquem tranquilos.

As crianças estão com muito medo. Gritam e escondem-se a chorar debaixo das mesas. Flora bem gostava de as acalmar. Mas como?

De repente tem uma ideia, uma ideia muito boa.

Muito devagar, tira o violino da caixa, depois o arco…

… Um… dois… três sons sobem na escuridão da sala de aula e balançam-se suavemente. Dir-se-ia uma canção de embalar. Depois, uma enfiada de notas forma uma dança. Como toca depressa, a Flora! Escolheu fazer o seu violino cantar uma toada do seu país. É alegre, triste, as duas coisas ao mesmo tempo. E graças a ela, todas as crianças esqueceram a trovoada.

Que pena! A electricidade voltou…

As crianças aplaudem.

— Obrigada, Flora, muito bem! — diz a professora. E depois acrescenta: — Para amanhã não há trabalhos de casa. Mas vão todos fazer um bonito desenho ou um poema para agradecer à Flora.

— Yupiii! — gritam os meninos. Agora todos querem ser amigos de Flora. Mas ela só tem um amigo: António. Ele acompanha-a todas as semanas à aula de música.

O professor de música deu ao António uma linda flauta.

— Experimenta tocar um bocadinho!

António experimentou e gostou muito do som da flauta. A partir de então, passou a tocar todos os dias.

Muito rapidamente, começou a tocar peças com Flora. Violino e flauta, flauta e violino, é muito divertido e tem uma certa magia…

— E se vocês fizessem um pequeno concerto na escola? — propõe o professor de música.

— Boa ideia! – exclama Flora. — E depois vamos ao hospital tocar para os meninos doentes. No meu país faz-se isso muitas vezes. A música ajuda a curar e a esquecer as preocupações.

— Que peças queres tocar, António?

— Uhm… As mais fáceis? Oh, e daí não, as difíceis também! Vou trabalhar todos os dias e fazer muitos progressos!

Os dois preparam então dez peças e, com a ajuda do professor, desenharam um cartaz muito bonito. Toda a escola vem ouvi-los. É um sucesso, um concerto magnífico! À saída, todos os meninos estão decididos a aprender a tocar um instrumento.

E depois?
Ora bem, Flora e António continuaram a tocar juntos.
PARA PRAZER DELES!
Viva a música!

Gerda Muller
Quand Florica prend son violon
Paris, L´école des loisirs, 2001
(texto adaptado)