Voando para casa

Félix é um pássaro azul e amarelo proveniente do Brasil que vive com a família Baxter em Nova Iorque. A sua nova casa é uma enorme gaiola colocada junto de uma janela do 40º andar que a família habita.

Félix gosta dos Baxter e os Baxter gostam dele. Alimentam-no, falam com ele e apresentam-no a todos os seus amigos. Mas o pássaro não se sente feliz, porque quer regressar ao Brasil.

Todas as noites, Félix contempla o céu e observa a cidade inteira. Apesar de ser um lugar grande e excitante, não é a sua casa, embora seja o lar da família. O pássaro recorda as luas grandes e amarelas do Brasil, e lembra-se do último dia que passou na selva. Dos dois homens com chapéus brancos, da caixa grande, da longa viajem de avião, e da loja nova-iorquina chamada “O Paraíso das Aves”.
Félix fecha os olhos, deixa de ver a cidade e a neve e, diante de si, surgem as imagens da vida que levava e amava.
Quero ir para junto da minha família, pensa. Quero voar para casa, ir para a selva. Lá faz sempre calor e as árvores são verdes durante todo o ano.
Coloca a cabecita debaixo de uma asa e diz em voz alta:
— Um dia, um dia…
“Um dia” surge duas semanas depois. O Senhor Baxter abre a gaiola para dar de comer a Félix e ouve o telefone tocar.
— Podes atender, George? — pergunta a Senhora Baxter. — Estou a tomar banho.
— Está bem — responde o marido.
Quando o Senhor Baxter vai atender o telefone, deixa a gaiola aberta. Ao ver a oportunidade por que tanto ansiou, o pássaro voa para fora do andar. E, embora o ar seja frio e uma voz chame por ele, Félix não volta atrás.

Enquanto percorre a cidade, aproveita para observar as ruas e os edifícios. Uma menina que está num café com a mãe exclama:
— Olha para aquele pássaro, mãe!
Mas a mãe não a ouve e continua a ler o jornal.
Após uma hora de voo ininterrupto, Félix aterra na cabeça da Estátua da Liberdade.
— Donde és? — pergunta-lhe uma pequena ave cinzenta e branca.
— Sou do Brasil — responde Félix.
— E para onde vais? — quer saber a avezita.
— Vou para casa — responde o pássaro, levantando voo por entre o céu azul e frio.
Enquanto Félix se dirige para sul, Nova Iorque vai ficando para trás e o Oceano Atlântico toma conta de toda a paisagem.
Quando, ao entardecer, o sol começa a pôr-se, o céu tinge-se de vermelho, amarelo e azul. Ao contemplar tamanha beleza, o pássaro sente alegria, embora também sinta fome.
Pela primeira vez em dois anos, é livre, e esse sentimento dá- lhe forças para voar durante toda a noite.
Algum tempo depois começa a chover e o céu escurece. Em breve, Félix deixa de poder ver a lua a as estrelas.
Onde estarei agora, pergunta-se. Lembra-se da gaiola quentinha e duvida, por momentos, se o que está a fazer é o mais acertado. Ao olhar para baixo, para o mar, parece-lhe ver uma estrela na água escura. Mas, como é improvável que haja estrelas no mar, o mais certo é tratar-se de um navio. Um navio!
Félix voa em direção ao navio, que carrega centenas de peixes. Depois de comer vinte em cinco minutos, adormece. Ao amanhecer, vê um homem a olhar para ele e logo teme o pior. Porém, trata-se de alguém que apenas lhe quer tirar uma fotografia.
Mal Félix levanta voo, dá-se conta de que não está a chover e alegra-se por já não ter fome.

Dois dias mais tarde, ei-lo a sobrevoar o Perú, onde vê a cidade inca de Machu Picchu. Aqueles velhos edifícios em pedra parecem interessantes, pensa. Talvez possa descansar ali esta noite.
À medida que voa em direção aos monumentos, Félix vê um enorme pássaro com penas pretas e brancas, sentado sobre uma pedra.
— Olá! — saúda-o a ave. — Não és do Perú, pois não?
Félix conta-lhe a sua história.
— Estiveste durante dois anos metido numa gaiola em Nova Iorque?! — espanta-se a ave.
— Estive, mas agora vou para casa. Podes dizer-me como chego lá?
— Tenho um amigo na cidade do Rio, chamado Aca. Como ele conhece bem a selva, pode levar-te até lá.
E, assim, Félix voa até ao Rio, cujas ruas estão cheias de gente. Na cidade ouve-se música e veem-se pássaros nas árvores. Qual deles será Aca?
— Aca! — chama Félix.
— Estou aqui! — diz uma ave, que Félix não consegue ver.
Um rapaz avista Félix e pede ao pai:
— Pai, olha para aquele pássaro! Podes dar-mo? Por favor…
Félix não vê logo o rapaz ou o pai, porque está a olhar para os pássaros pousados nos ramos das árvores. Quando volta a chamar por Aca, sente uma mão quente que o agarra pelo pescoço.
— Socorro! — grita Félix, sacudindo as asas e as patas.

Com a ajuda de Aca, Félix consegue escapar e ambos levantam voo em direção ao céu.
Félix agradece-lhe e conta-lhe a sua história. Depois, iniciam juntos a viagem até à selva. Ao cair da tarde, avistam uma aldeia que Félix reconhece como a sua.
— A minha casa fica perto daqui. Fica mesmo…
A visão de muitos homens e máquinas emudece-o.
— Oh, não! Estão a construir uma nova estrada! — exclama Aca.
— Onde está a minha casa? — pergunta Félix, aflito. — E onde está a minha família?
Os dois pássaros sobrevoam a nova estrada e acabam por pousar numa árvore perto dali. Félix sente-se cansado e triste.
— Sinto muito — diz Aca, compassivo.
De repente, Félix avista uma pena azul e amarela a flutuar. Olha para cima e vê quatro aves pousadas nos ramos mais altos das árvores.
— Olha, Aca, é a minha família!
Quando voa em direção a elas e ouve um incrédulo “Félix, és tu?”, o pássaro responde:
— Sou! Cheguei a casa!

Stephen Rabley
Flying home
Harlow, Pearson Education Limited, 1998
(Tradução e adaptação)