A caminho das estrelas

Há tanto tempo que o pequeno Maximino queria ter um violino! Era o seu grande sonho… E hoje os pais deram-lhe um como prenda de anos…
Que alegria a sua ao ver o instrumento dentro do estojo!
Da prenda da tia Sofia, pelo contrário, não gostou. Um quadro… um quadro que de bonito não tinha nada! Estrelas num céu azul-escuro! No entanto, graças a esse quadro nada bonito, Maximino vai viver uma noite extraordinária, uma noite que nunca mais esquecerá. Mas chiu!… Ele ainda não sabe…
Está neste momento na cama a ouvir um disco com a mãe. Maximino sempre adorou aquele delicioso momento em que ela lhe explica a música em voz baixa.
— Estás a ouvir … agora, os violinos imitam o canto dos pássaros… O compositor chama-se Vivaldi. Escreveu um concerto para cada uma das quatro estações. Escuta bem, é fácil imaginar. Agora é a primavera… A natureza, ainda entorpecida do inverno, é acariciada pelos raios do sol… e começa a despertar lentamente…
Maximino deixa-se levar pelo sono…
— Dorme bem, meu querido! — murmura a mãe baixinho, entre dois beijos. Depois, arruma o violino, que ele quis segurar junto de si até ao último instante, e vai-se embora.
Mas o seu pequeno volta a chamá-la:
— Mamã, o que achas da prenda da tia Sofia?
A mãe olha para o quadro já pendurado na parede em frente da cama e, antes de fechar a porta, diz:
— De dia talvez não pareça interessante. Mas de noite…. se estiver escuro, fica fluorescente!
— FLUORESCENTE? O que é isso? Só quando está escuro, porquê?
Maximino apressa-se a apagar a luz e, de imediato… as estrelas do quadro começam a brilhar. Oh! É verdade, é mesmo lindo! Tão lindo lhe parece que quer passar a noite a olhar para elas. Mas custa-lhe manter os olhos abertos. As pálpebras ficam pesadas… pesadas… e parece-lhe ouvir música… É verdade, é um violino! Uma música de uma doçura infinita, que também tem algo de mágico… Mas de onde virá? Dir-se-ia que vem do quadro… de uma das estrelas, em cima à esquerda, aquela onde está um pequeno ser… Oh! É ele que está a tocar violino!
A melodia é magnífica. Maximino ouve maravilhado. O violinista pára, olha para ele e diz- lhe:
— Também faço hoje seis anos! Vem à minha festa. Estás convidado…
Depois, sem dar tempo a que Maximino se refaça da surpresa, ajusta o violino ao queixo e ataca outra peça, mas desta vez com uma vivacidade… espantosa! Maximino está estupefacto. Nunca imaginara que um menino da sua idade pudesse tocar tão bem! O violinista, adivinhando o que ele estava a pensar, diz:
— Aqui, todos sabemos tocar um instrumento! A nossa estrela é mágica. Se vieres, também saberás tocar imediatamente.
Ah! Saber tocar imediatamente! Ele bem gostaria, mas não está a ver como poderia chegar àquela estrela! Impossível!
— Olha que não. É muito fácil, uma vez que gostas de música — responde o violinista.
E curiosamente, sem que Maximino lhe tenha perguntado, explica-lhe como fazer para se juntar a ele:
— Apertas o violino contra o coração, fechas os olhos, concentras-te no local para onde queres ir e verás… o violino leva-te lá!
Maximino, emocionado, pega no violino, aperta-o contra o coração, fecha os olhos, e num instante, sente-se a elevar-se nos ares…
— Ei! — grita-lhe o pequeno violinista da sua estrela. — E, principalmente, não percas o violino, ou vais parar a casa da Crapata!
Maximino queria perguntar-lhe quem era essa Crapata, mas já vai demasiado alto no céu… e aquele vento leve que lhe acaricia o rosto e o cabelo é tão agradável! Ele que sonhara tantas vezes ter asas como um pássaro para sobrevoar a terra, agora… nem sequer precisa delas! Basta, como todos aqueles com quem se cruza no espaço, agarrar-se a um instrumento musical! Que meio de transporte formidável!
Mas, acima de tudo, Maximino está fascinado com as estrelas. Vistas da terra, pareciam minúsculas, mas aqui descobre que são mil vezes maiores, mais brilhantes, maravilhosas… Semelhantes a imensas flores luminosas… De repente, sente-se a cair, a cair, a cair, a cair…Oh, o violino! Já não o tem consigo! Perdeu o estojo! Desce a uma velocidade louca. As estrelas desaparecem uma a uma e a noite fica cada vez mais escura… Mas em breve a queda perde velocidade. Fica a planar, depois pousa delicadamente como uma folha morta.
Mas pousou em cima de quê?
Uma luz pálida ilumina o chão. E nesse chão, uma quantidade enorme de instrumentos de música, flautas, harpas, violinos, pianos, todos completamente partidos, desfeitos em mil pedaços!
— Ah! ah! ah! ah! ah! Um magricela! Aqueles que eu mais detesto… Ah! ah! ah! ah!
Maximino estremece. Aquela voz na escuridão… Quem será? Lembra-se da advertência do menino da Estrela a propósito de uma tal CRAPATA… Do chão ergue-se um torvelinho de poeira, de onde surge um imenso manto… Uma forma mexe-se no interior e quando por fim se revela, Maximino solta um grito de espanto… Aquela Crapata é gigantesca e… além disso… é feia… feia… é medonha! Esta Crapata é uma bruxa… E como todas as bruxas, tem uma voz horrível:
— Mais um idiota que gosta de música. Ah! ah! ah!
— Sim, a música é linda e alegre.
— Mas é precisamente isso que eu detesto, seu magricela. Odeio o que é belo e alegre! Quero destruir tudo o que há de belo e alegre no universo! A começar pela música e todos os que gostam dela! Ah! Esta música… Cada nota deixa-me os cabelos em pé, atravessa-me o cérebro, faz-me vomitar! Fico doida quando estes malditos sons chegam até mim…
Sem tirar os olhos do céu escuro, acrescenta:
— Espero que o teu estúpido violino não tarde! Quero desfazê-lo em mil pedacinhos, como fiz com todos os outros. E depois vais tu morrer… Ah! ah! ah! ah! ah!
Maximino está aterrorizado. De repente, Crapata começa a vociferar:
— Ali vem o teu brinquedo preferido! Aqui está! Ah! ah! ah! ah!
Lá muito longe um objeto que mal se vê cai lentamente. O rapazinho estremece. Um medo gélido apodera-se dele. Quanto mais se aproxima o violino, mais cresce o entusiasmo da bruxa má e, quando o consegue agarrar, os seus dedos recurvados fecham-se sobre ele. Então Maximino, num arremesso desesperado, tenta segurá-lo com todas as suas forças. Mas o nosso herói é demasiado pequeno para lutar contra a temível bruxa. No momento em que ela vai destruí-lo, explode, de repente, por cima da cabeça… uma trovoada de música tocada por uma orquestra de homens voadores.
Guiados pelo menino da Estrela, chegam mesmo a tempo… e com a única arma capaz de vencer Crapata… A MÚSICA! A energia daquele concerto de Vivaldi é demasiado alegre, demasiado insuportável para ela. Sem mesmo tentar resistir, solta Maximino e o seu violino para tapar as orelhas. A toda a pressa, o rapaz aperta o seu querido instrumento contra o coração, fecha os olhos, e imediatamente se vê projetado como um foguete para o meio da orquestra, já a caminho do mundo das estrelas.
Sempre a tocar, os músicos voam em seu redor.
Agora que está próximo do menino da Estrela, Maximino está muito perturbado pelo que descobre: o pequeno violinista assemelha-se a ele de uma forma estranha…. Tem exatamente o mesmo rosto, só os cabelos e os olhos é que são diferentes. Os seus cabelos são fios de ouro e os olhos são cor de violeta… Um violeta luminoso… como se fosse iluminado do interior… FLUORESCENTE… É isso, sim, tem olhos fluorescentes.
Ao observar o seu novo amigo, Maximino pergunta-se se a estrela ainda estará longe… gostava de já ter chegado, está a demorar, pois quer tanto começar a tocar!
— Gostavas de já ter chegado, queres começar a tocar! — repete muito alto o menino da Estrela. Depois, ao ver o ar espantado de Maximino, desata a rir.
— Se adivinho os teus pensamentos, é porque me pareço contigo.
Pouco tempo depois, todos chegam à Estrela da Música. De perto ainda é mais linda. No chão, cobertos de conchas nacaradas, os músicos do céu instalam-se à volta do pequeno terrestre. O menino de olhos cor de violeta estende-lhe o arco e Maximino, com a maior naturalidade do mundo, começa a tocar…
Inacreditável! As suas mãos fazem o violino cantar tão bem, que até as conchas se abrem mais para o ouvirem melhor… Um arrepio delicioso invade-o dos pés à cabeça e lágrimas de felicidade brilham como pérolas ao canto dos olhos. Depois, o menino dos cabelos de ouro convida-o para lanchar.
— Vais descobrir os melhores bolos de todo o universo. São croissants de lua, que se fazem aqui principalmente para os aniversários.
São, de facto, deliciosos. Maximino saboreia-os até ao último pedaço. Prova também bebidas da cor do arco-íris, donde se escapam minúsculas estrelas cadentes em todas as direções…
Depois, uma corrente de ar morno, afável, acompanhado de um perfume que ele reconhece, vem fazer-lhe cócegas no nariz. E aqueles beijinhos no pescoço, também os reconhece de imediato! E aquela voz… cada vez mais próxima que diz…
— Deve ser espantoso esse sonho, para não quereres sair dele!
O rapazinho põe-se de pé em cima da cama e lança-se nos braços da mãe.
— Maximino! Estás a ver estas migalhas nos lençóis? E ainda tens uma bolacha no bolso do pijama…
— Não é uma bolacha, é um croissant de lua!
— Chama-o como quiseres, mas despacha-te, para não chegares tarde à escola.
Antes de sair, a mãe acrescenta:
— E então, e o quadro?… Não é mais interessante de noite?
— Ora! — responde Maximino, fingindo que não se importa. Mas, mal a mãe saiu, piscou o olho ao menino da Estrela, como se lhe dissesse «até logo à noite»…

Marlène Jobert
En route pour les étoiles
Issy-les-Moulineaux, Éditions Atlas, 2007
(Tradução e adaptação)