Micha e o mistério da Páscoa – O último caminho (VI)

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O último caminho

Neste ano, tinha havido novamente muita afluência a Jerusalém para a Páscoa. Todos os anos era festejada para recordar a saída da “prisão” no Egipto e para agradecerem a Deus uma vez mais. Para muitos, aquela era uma boa oportunidade para visitar pais e familiares, por isso, naquela altura, havia muito mais gente na capital do que de costume.

Antes da grande festa começar, eram crucificados três condenados à morte. Já tinham sido levados dois criminosos para o local da sentença. Agora levavam Jesus, nas suas roupas esfarrapadas, pelas ruas da cidade até ao local. Ele arrastava-se com imensa dificuldade. Tinha de carregar a cruz onde ia morrer.

As ruas estavam orladas de pessoas. Havia algumas que insultavam e injuriavam Jesus. Outros, faziam troça dele. Mas também as havia que choravam. Tinham vindo para se despedir de Jesus. Estavam timidamente mais atrás, e só queriam que ninguém reparasse nelas. Homens, mulheres e crianças com olhos de choro, olhavam para o homem que já mal podia andar. A pesada cruz de madeira que levava às costas quase o fazia ir ao chão.

Micha estava entre os pais. Miriam e a mãe também lá estavam. Em silêncio e cheios de tristeza, olhavam para Jesus em silêncio, que vinha na sua direcção.

— O tio David também veio — sussurrou Micha baixinho, ao mesmo tempo que, com a cabeça, saudava imperceptivelmente Daniel, em frente com a família, do outro lado da rua.

Quando Jesus estava quase a chegar junto deles, tropeçou e sucumbiu. Com dificuldade ainda conseguiu apoiar-se um pouco com a mão. As traves da cruz caíram ao chão com grande estrondo.

Jesus tentou levantar-se outra vez mas não conseguiu. Ali estava, caído, desamparado no meio da multidão, sem forças e indefeso.

Parece que agora os soldados também tinham percebido que ele não conseguia continuar, que Jesus estava no fim. Levantaram a cruz e olharam à sua volta, como que procurando alguma coisa. Se Jesus não podia levar a cruz, então alguém tinha de carregá-la por ele. Alguém robusto e forte que aguentasse até ao local da sentença. Um homem forte estava, por acaso, ali perto. Correram para ele e tentaram persuadi-lo. Micha viu, com grande susto, que tinham escolhido um homem que estava ao lado do tio David. Sem cerimónias, os soldados arrastaram o homem até ao local onde Jesus sucumbira e ordenaram-lhe que pegasse na cruz aos ombros. Alguns soldados dirigiram-se novamente a Jesus e puxaram-no para cima. Mas tiveram de segurá-lo dos dois lados, pois sozinho já não era capaz.

A procissão prosseguiu, penosa e vagarosamente em direcção ao local da execução. À frente iam os soldados com Jesus entre eles. Seguia-se o homem com a cruz às costas. Logo atrás dele ia David. Parecia estar preparado para ajudar, caso o homem da cruz tivesse de pousá-la. E atrás dele, com passos lentos e graves, iam as pessoas que acompanhavam Jesus no seu último caminho.

Daniel, Ester e Micha estavam de mãos dadas. Quando chega-ram, o local encontrava-se de tal forma cheio de gente, que só conseguiram colocar-se muito atrás. As cruzes para os outros dois criminosos já estavam cravadas na terra. Só faltava a terceira. Mas, primeiro, ela foi colocada no chão com Jesus em cima. Queriam agora pregá-lo à cruz de pés e mãos. As pessoas recuaram. Só uma mulher, apoiada no braço de um homem, abriu caminho para a frente.

— Aquela é Maria — disse Marta em voz baixa. — A mãe de Jesus.

— João está a apoiá-la.

A voz de Rute tremia.

Ouviram-se marteladas impiedosas e cruéis. Gritos horríveis de aflição chegavam até eles. As lágrimas rebentaram dos olhos de Micha. Daniel agarrou-lhe a mão. — Anda, vamos embora — disse-lhe.

Micha olhou em redor à procura do pai. A multidão à sua volta era tal, que o tinham perdido.

Se se voltassem agora, veriam a cruz erguida e, na cruz, Jesus crucificado. Mas não olharam para trás. A chorar, regressaram à cidade. Quase não reconheciam o caminho à sua frente.

De repente, David apareceu ao lado deles.

— Vinde — disse ele. — Vamos todos juntos.

Viram então que ele também estava a chorar.

Rolf Krenzer
Micha und das Osterwunder
Stuttgart, Gabriel Verlag, 2003
Traduzido e adaptado