O papá urso foi embora

O papá urso foi embora

Naquela manhã, quando os três ursinhos traquinas acordaram da sua noite castanha, quiseram, como todos os dias, andar às cambalhotas, às cavalgadas e às cabriolas no lombo do papá urso.

Era para todos uma grande brincadeira ouvirem o pai a fingir que ralhava, meio a rosnar, com a sua voz de urso:

— Ai se vos apanho, seus ursinhos traquinas!

Nós, ursos, só temos o fim-de-semana para dormir. E o pai urso fingia que lhes dava um sopapo, um bofetão e uma grande patada. Os ursinhos traquinas fartavam-se de rosnar e rolavam no chão de tanto rir, o que era até uma maneira de massajarem as vértebras.

Mas, naquela manhã, quando os três ursinhos acordaram, encontraram a cama vazia e a mãe já a pé, olhando tristemente pela janela, como na história da princesa dos cabelos de ouro.

Mas aquilo não era nenhum conto de fadas.

— O vosso pai foi embora — disse a mãe ursa fungando.

E foi logo para a cozinha fazer crepes com mel.

— Ai sim? — pensaram os ursinhos. — Deve ter ido buscar o mel e o jornal. E algumas ervas para o almoço. E fazer as compras da semana.

E… esperaram todo o dia… Quando a noite estendeu o seu manto de estrelas, compreenderam que o pai urso não voltaria para casa naquela noite. Teria ido hibernar para outro lado? Para a Sibéria? Para onde o mel é mais aromático? Os ursinhos tinham perdido o ar traquina, à força de tanto fazerem perguntas. Teria encontrado no caminho alguma princesa encantada? É assim que entre os ursos se fala dos pais que se vão embora para seguirem um outro caminho, a Ursa Maior, por exemplo.

— Alguns partem para encontrar um pouco mais de fantasia, outros, para tomar ar durante um ou dois meses. Mas nunca ninguém foi embora por causa de um, de dois ou até de três ursinhos traquinas — respondeu-lhes de imediato a mãe ursa.

Se ela sentia vontade de dizer mal do pai urso, a verdade é que nunca o fez.

— Ele gosta muito de vós, sente imenso a vossa falta, eu sei — disse-lhes, olhando-os com os seus olhos castanhos orlados de vermelho.

Os dias continuavam a passar sem voltarem atrás.

Na toca, a vida já não era como dantes. Já não havia aquela voz grossa a acordá-los de manhã, nem aquelas grandes patas que os levavam à escola pela mão. Um pai, quando falta, faz muita falta. Os pêlos da barba mal cortados, as mãos grandes e quadradas, a voz grossa a ralhar, a barriga do pai urso que mexia quando ele se punha a rir, o cheiro a tabaco, os seus bocejos ruidosos que faziam tremer as paredes da toca, e até as grandes cóleras e as grandes zangas.

Os três ursinhos teriam dado tudo para receberem as boas palmadas do costume. Com as mães, a vida é cheia de doçura, de carinho, mas falta, sem dúvida, um pouco de força e de surpresa. Ninguém se atrevia a dizê-lo, mas era o que toda a gente pensava. Até que chegou uma altura em que se deixou de falar no assunto. Nunca mais se pronunciou a palavra “papá”. Sobretudo, porque bastava pronunciar uma só palavra iniciada por “pa” para que os olhos da mãe ursa começassem a ficar perigosamente vermelhos.

Deixaram então de dizer muitac oisa: “papá”, “papagaio”, “papaia”, “papar”, “paparico”, “paparoca”, mas também a palavra “paradoxo”, “parágrafo” e “passado”. Muitas palavras existiam começadas por “pa”! Na toca, deixou de se pronunciar uma grande parte do dicionário.

De tanto, tanto se esperar, o rosto do pai urso começou a ficar menos nítido aos olhos dos ursinhos traquinas. Nos seus sonhos, ele transformou-se no Peter Pan, no Rei Leão, em muitas outras personagens. O rosto do papá urso que ralhava desvanecia-se pouco a pouco.
Um dia, contudo, após tão longa espera, chegou uma carta à toca dos ursinhos traquinas. Depois daquela aventura, já havia passado muito, muito tempo, tanto, que um outro pai urso tinha ido viver lá para casa, os ursinhos tinham regressado às suas lendárias travessuras e os olhos da mãe ursa nunca mais tinham ficado vermelhos.

— Ursinhos! Venham depressa! Uma carta do vosso pai! — gritou a mãe ursa, que conhecia bem a ligação dos três ursinhos ao pai.

Meus três ursinhos queridos, escrevia o pai urso, sinto muito a vossa falta. Apareço sábado para vos visitar e espero que me perdoem. Só quero ver-vos e fazer-vos papas, papinhas, paparicos e paparocas. Contem comigo sábado de manhã.

Havias de ver a alegria dos três ursinhos traquinas. Porque eles sabiam muito bem que, mesmo que o pai urso não voltasse a viver na toca, o amor entre um pai e os seus ursinhos traquinas dura toda uma vida: toda uma vida de “palavras” a dizer, de “paparocas” a comer e de “passados” a refazer!