O violinista que fazia dançar as estações

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Esta história passa-se na escola de uma pequena aldeia. Na sala dos mais pequenos, havia sete alunos. Todos DETESTAVAM ir às aulas.

Já vais perceber porquê quando te apresentar a professora deles, a Professora Figo-Seco. É claro que este não era o seu verdadeiro nome; era a alcunha que os alunos lhe tinham posto e garanto-vos que lhe assentava mesmo bem… Sempre de mau humor e com voz de bruxa, era ARQUINULA quando se tratava de explicar a matéria. Falava muito, muito, muito depressa e usava palavras muito, muito, muito complicadas. Os alunos não percebiam nada, não fixavam nada e, sempre que ela os interrogava, não sabiam obviamente nada. Então, a professora enervava-se e castigava-os.

E era cada castigo! Cada um mais pateta do que o anterior.

— Já para o quadro! Vais contar os pêlos de todas as vassouras!

E já agora, ouve esta:

— Vais cantar “Todos os Patinhos” com a cabeça enfiada no cesto dos papéis durante todo o recreio. Lá fora!

Certa vez, ousou mesmo pedir a uma menina:

— Vais limpar todos os macacos do nariz que encontrares debaixo das mesas.

Compreendes agora por que motivo estas pobres crianças detestavam a escola.

Um dia, um homem estranho chegou à aldeia…

Instalou-se numa pequena casa arruinada, no meio dos vinhedos, debaixo de um enorme castanheiro…

Nunca se tinha visto uma pessoa tão original por aquelas bandas! Era muito velho e percorria as ruas a tocar violino, fosse dia ou fosse noite, chovesse ou fizesse sol. Dava nas vistas com os seus calções enormes, o seu colete de pele de coelho e os seus cabelos prateados, arranjados às três pancadas! Toda a gente troçava do seu aspecto… Toda a gente, excepto os sete alunos da Professora Figo-Seco.

As crianças adoravam a música que o velhote tocava. E, ao segui-lo por todo o lado, tinham descoberto imensas coisas.

O violonista tocava SOZINHO e, no entanto, as crianças ouviam OUTROS instrumentos além do violino.

Mas, por muito que virassem a cabeça para todos os lados, não os viam. Os instrumentos eram invisíveis….

Eram sempre as mesmas melodias. Quatro ao todo. Cada uma desencadeava fenómenos diferentes.

Durante a primeira música, as crianças sentiam o perfume dos lírios do vale, enquanto milhares de pétalas de flor surgiam de todos os lados e se punham a voltear em torno do violinista.

Durante a segunda música, era o odor do feno recentemente cortado que fazia cócegas nas narinas… Centenas de borboletas vinham, em seguida, pousar nos ombros do velho. Batiam as asas muito depressa, como se estivessem a aplaudi-lo.

Durante a terceira melodia, o ar cheirava a maçãs, enquanto folhas secas e douradas vinham dançar em redor dos cabelos prateados do músico. Que bonito!

Por fim, durante a quarta melodia, caíam flocos de neve como se fosse Natal, e as crianças sentiam o cheiro das castanhas assadas.

Tanta magia também te teria maravilhado, não achas?

Um dia, na sala de aula, os alunos recitavam um sem-fim de lenga-lengas, uma das especialidades da professora, quando, de repente, Josefina exclamou:

— Ouçam, é a música das borboletas !

A menina deu um salto e, acompanhada pelos colegas, saiu a correr ao encontro do violinista, que acabara de passar diante da escola.

Se visses a cara da Professora Figo-Seco !

— Mas, mas… Aonde vão vocês ? Voltem já aqui, imediatamente ! E, como castigo, vão ter de copiar cem vezes « Não devo levantar-me durante a aula ». Cem vezes, não, TREZENTAS vezes! Não, MIL vezes !

Quanto mais a professora multiplicava os castigos, mais sufocada ficava, mais as suas narinas fumegavam, mais os seus olhos relampejavam… e mais depressa os alunos saíam da sala.

Ainda quis apanhá-los, mas eles já tinham desaparecido ao virar da esquina. Tinham-se volatilizado! Procurou-os por toda a aldeia : ninguém os tinha visto… Deviam ter seguido o violinista até à casa deste!

Devia ser isso!… Atravessou os vinhedos como um foguetão e encontrou o velhote sozinho, sentado à porta de casa, debaixo do castanheiro. Estava a tocar, como de costume, mas estava SOZINHO.

— Onde estão as crianças?

Aquela voz de feiticeira sobressaltou-o.

— QUE crianças ?

— Os meus alunos! O Paulo, o Tiago, o Marco, o António, a Ana, o Vicente e a Josefina. Foram todos atrás de si !

— Talvez tenham vindo ! Mas eu não os vi ! Nunca olho para trás! — disse, colocando o violino debaixo do queixo.

Mas onde se teriam elas metido?

A Professora Figo-Seco, acompanhada pelos pais dos alunos, procurou-os por toda a parte: por detrás da igreja, nos vinhedos, nos celeiros, na margem do rio, nas caves e até no cemitério! Procurou-os por todo o lado! TINHAM DESAPARECIDO! Era um autêntico mistério! Não estavam em lado algum… A inquietação dos adultos crescia. Sem saberem mais o que fazer, foram ter com o velho músico, que também desconhecia o paradeiro das crianças.

Já se preparavam para ir embora quando a Professora Figo-Seco apanhou com uma sandália cor-de-rosa no nariz.

Adivinha quem estava pendurado no enorme castanheiro por cima das cabeças dos adultos? O Paulo, o Vicente, a Ana, o Marco, o António, o Tiago e a Josefina. Foram todos descobertos porque a Ana deixou cair uma sandália.

Que confusão! Todos os pais queriam saber, ao mesmo tempo, o que lhes tinha acontecido…

O Tiago, o mais pequeno do grupo, embora não o mais tímido, respondeu:

— Viemos para aqui para ouvir música!

— Deixaram de ir à escola por causa disso?

— Claro! É muito melhor! Não gostamos de ir à escola e não queremos voltar lá.

— O QUÊ?

— Quero lá saber de “Não queremos   voltar”. DESÇAM  IMEDI ATAMENTE!

A voz grossa de um pai encolerizado fez subir os sete miúdos até ao ramo mais alto do castanheiro. E com que rapidez! Como se tivessem sido picados por mil vespas.

Embora não conseguissem vê-los, os adultos conseguiam ouvir as crianças:

— Não vamos voltar à escola, nunca mais!

Nunca mais… Nunca mais… Nunca mais…

Ora muito bem, eles não tinham vontade de voltar à escola. Já agora, aqui para nós, entre as lengalengas da Professora Figo-Seco e um concerto num castanheiro, o que escolherias tu? O concerto, claro!

Além do mais, a música tinha-os feito compreender que cada uma das quatro melodias do velho correspondia a uma estação do ano. Nem mais!

O perfume do lírio do vale e as pétalas de flores correspondiam à PRIMAVERA.

O cheiro do feno cortado e as borboletas correspondiam ao VERÃO.

As maçãs e as folhas secas correspondiam ao OUTONO.

As castanhas assadas e os flocos de neve correspondiam ao INVERNO.

Sabes como se chama esta música?

AS QUATRO ESTAÇÕES. O nome do músico genial que as compôs é VIVALDI. Antonio Vivaldi.

As sete crianças tinham decidido descer da árvore apenas com uma condição: os pais tinham de prometer nunca mais mandá-las à escola. De outro modo, ficariam no cimo do castanheiro toda a vida… se fosse preciso!

Os pais e as mães bem tentaram chamá-los à razão: disseram-lhes que toda a gente ia à escola, que era indispensável, obrigatório, etc., etc., mas eles não estavam interessados: NÃO VAMOS VOLTAR À ESCOLA, NUNCA MAIS! Repreenderam-nos, ameaçaram-nos, pregaram-lhes sermões, suplicaram… Nada a fazer: cada uma das crianças mostrava-se tão casmurra como três mulas juntas.

Era como se fossem um rebanho de mulas em cima de um castanheiro! Os pobres pais estavam FARTOS… E antes que as mulas os transformassem em cabras, decidiram voltar para casa.

Quanto ao “rebanho de mulas”, estava bem instalado para ver o pôr-do-sol. Naquele fim de tarde, as cores de fogo do astro-rei iluminaram o céu e todo o vale. As crianças nunca tinham visto um pôr-do-sol tão belo e de um lugar tão alto! Só que o espectáculo foi estragado pela chegada de nuvens grossas. Ficou tudo escuro e, de repente, a noite caiu.

O velho músico fechou a porta e as janelas e tudo ficou tão escuro que mais escuro não podia estar.

No cimo do castanheiro, as crianças começaram a sentir frio, depois fome, depois sono e depois medo…

Havia coisas estranhas a voltejar em torno dos cabelos de Josefina: seriam asas ou patas? Eram asas. Que animais eram estes? Morcegos?

O António e o Paulo observavam uma forma estranha que ia e vinha. Aproximou-se tanto que chegou mesmo a tocar-lhes. O que seria esta forma fria, viscosa e nojenta?

Por sua vez, o Vicente debatia-se com fios, com pêlos, com fios que mediam muitos metros e que teimavam em enrolar-se em torno dele. A quem pertenciam estes fios? A uma aranha gigante, gigante e peluda!

A Ana e o Marco estavam intrigados com um ramo grosso de árvore que se mexia e ondulava de forma estranha. Não era de certeza um ramo! Era o quê, então? Uma SERPENTE enorme com dentes afiados? Quanto ao Tiago, fechava os olhos quando já não podia suportar o olhar fluorescente de um enorme mocho e tapava os ouvidos para não o ouvir piar. Pobre Tiago: toda a noite tapou os olhos e os ouvidos sem cessar!

Algumas horas mais tarde, uma luz rosácea no horizonte anunciava o nascer do sol. FINALMENTE!

As aves da noite foram deitar-se e os pássaros do dia fizeram-se ouvir.

Pouco a pouco, as sombras bizarras, as coisas estranhas e os ruídos inquietantes desapareceram… Teriam eles sonhado? Teria sido o medo que os fizera imaginar tudo aquilo?

No entanto, e desta vez não era um sonho, havia uma forma imóvel que se conservava junto do castanheiro.

Seria uma animal? Um arbusto? Um homem? Não, não era um homem, era uma mulher. Estaria ali há muito tempo ou teria acabado de chegar? Quem era aquela mulher? Não consegues adivinhar? Era a Professora Figo-Seco. É verdade, ela mesma… Tinha ficado ali toda a noite.

Mal o sol se levantou, saiu fumo da chaminé do velho músico. Era sinal de que já estava acordado. E, com efeito, veio até à soleira da porta, empunhando o seu violino. Ele, que quase nunca falava, aproximou-se da Professora Figo-Seco.

— Já se perguntou, minha senhora, por que razão os seus alunos não gostam de ir à escola e porque me seguiram?

— Não faço ideia. Desde que o senhor chegou que eles deixaram ficar tudo. Nada os impediria de o seguirem.

— Não foi a MIM que eles seguiram, foi a MÚSICA. Se soubermos escutá-la, esta música tem certos poderes. Eles SABEM escutá-la.

— Mas as crianças têm de regressar à escola!

— Porque quer que elas voltem, se não encontram lá nada de que gostem?

Então, o velho sorriu, colocou o violino debaixo do pescoço e começou a tocar.

Passado pouco tempo, parou de tocar e foi até aos vinhedos… As crianças deslizaram pelos ramos do castanheiro e seguiram-no.

A professora Figo-Seco sentiu que uma mão segurava a sua: era a mão do Tiago. Pela primeira vez, um aluno ousava dar-lhe a mão…

Gostavas de saber aonde o violonista os levou? Levou-os de volta para a sala de aula. Só que, a partir daquele dia, tudo se transformou!

O Paulo, o Tiago, o Marco, o António, a Ana, o Vicente e a Josefina nunca mais quiseram faltar à escola. A Professora Figo-Seco começou a falar mais devagar e a escolher palavras mais simples para lhes explicar as matérias.

A aritmética, os ditados e as conjugações tornaram-se quase divertidos… Disse QUASE, porque não convém exagerar. Por vezes, contava-lhes histórias e fazia imitações que os punham a rir como doidos! A sua alegria dava VONTADE de aprender, VONTADE de se apaixonar, VONTADE de passear pelos livros. Até VONTADE de ir à escola! Como vês, a música transformou a professora deles por completo.

O velho músico bem dissera:

A MÚSICA TEM PODERES BELÍSSIMOS SE SOUBERMOS ESCUTÁ-LA.

E tu, queres escutá-la?

Marlène Jobert

Le vieil homme qui faisait danser les saisons

Issy-les-Moulineux, Éditions Glénat, 2004

Tradução e adaptação