Quando os olhos da noite mudam de sítio

A Noite acordou. Ainda com os olhos ensonados, olhou pela janela para ver o tempo que fazia.

As nuvens grossas e cinzentas tapavam o céu, e a Lua, de tanto estar acordada, adormeceu profundamente.

Com aquele tempo, a Noite escolheu o vestido mais negro que tinha.

Sim, não julguem que a Noite é uma pobretana qualquer.

Se ela nos deixasse ver o seu guarda-roupa, ficaríamos deslumbrados com as variedades de tons negros dos seus vestidos.

Eu, que já lá entrei, vi, com uns olhos emprestados por uma candeia, os lindos vestidos que a Noite usava. Ao todo, eram sete e cada um tinha um tom negro diferente: negro-azulado, escuro-enluarado, breu-estrelado, preto-raiado de luz, enfarruscado-cinzento, pardo-madrugada e negro-sombrio.

Antes de sair de casa, a Noite foi ver-se ao espelho de um lago de águas serenas, para ver como lhe ficava o vestido. Mirou-se e remirou-se. Estava bonita. O vestido de negro-carvão assentava-lhe bem nos seus largos ombros arredondados. A Noite olhava e tornava a olhar para si e não se cansava de dizer baixinho:

— Que linda que sou! Que linda que sou!

Preparava-se para sair quando reparou que tinha um bocado de pó de nevoeiro colado ao umbigo. Pegou numa escova feita de pêlos de rajada de vento e escovou, escovou, até saírem as finas gotas de água que compunham o nevoeiro.

Mas, o que via ela agora? Dois buracos acesos que mais pareciam dois sóis pequeninos.

— Os meus olhos mudaram de sítio? — perguntou a si própria a Noite. — Deu a traça no meu vestido, foi o que foi! Tenho de comprar bolas de naftalina, para dar cabo desses bichos comedores de roupa! — disse a Noite muito aborrecida, por ter um vestido tão belo estragado.

Voltou a tirar o vestido para ver se ainda podia remendá-lo.

Grande surpresa a sua. Nem os olhos tinham mudado de sítio, nem a traça roera o vestido. Os pontinhos brilhantes eram, nem mais nem menos, os olhos de um menino assustado.

A Noite foi descendo, descendo, até entrar pelo vidro da janela de uma casa da cidade. Ao encontrar o menino de olhos abertos, perguntou com a sua voz silenciosa:

— Ainda estás acordado?

— Tenho medo da noite! — respondeu o menino, assustado e com os olhos cheios de lágrimas brilhantes.

— Medo de mim?! — insistiu a Noite.

— Sim, tenho medo de ti porque és medonha e é na escuridão que nascem os medos, os fantasmas, os papões e todos os bichos ruins. Quando tu vens, os sós ficam mais tristes e o teu silêncio dói muito.

— Olha que não. A cor negra é bela. É sim senhor! — afirmou a Noite. — É a primeira cor que conhecemos no princípio da vida. Lembras-te que cor havia quando estavas dentro da barriga da tua mãe? Eu lembro-me… ora deixa cá ver, era… era negra-negra. Dizem que, quando dormirmos o último sono, regressaremos ao ventre da mãe-terra e, aí, consta-se que é muito escuro. Eu ainda não sei se assim é, mas espero saber um dia. Já me viste com o meu vestido breu-estrelado? Se me vires bem, os teus olhos vão tomar banho num mar de estrelas brancas, amarelas e azuis. As estrelas, às vezes, vão de um lado para o outro e assistimos a uma chuva de riscos luminosos e ficamos todos molhados de luz.

E quando ponho o meu vestido negro-enluarado? As casas, as árvores e o mar não ficam da cor da  prata? Quando isso acontece, uma pedrinha da rua vale muito dinheiro porque é de prata fina. Já respiraste o silêncio da noite? Esse silêncio é uma nave espacial que te transporta, de mansinho, para o Planeta dos Sonhos. Nele, tu poderás ir aonde quiseres. Poderás visitar a Galáxia das Galinhas-com-Dentes ou dares mergulhos no Lago das Esmeraldas. E já reparaste que só com a minha serenidade consegues ouvir o riso das flores, a conversa dos teus brinquedos e a música do vento?

Aquela conversa continuou pela noite fora, o menino adormeceu no silêncio tranquilo da Noite e esta ficou feliz por poder usar o seu vestido negro-carvão sem buraquinhos de luz.

José Vaz

Quando os olhos da noite mudaram de sítio

Livraria Arnado, Coimbra