O macaquinho Bobô que não era tão bobo assim

O macaquinho Bobô que não era  tão bobo assim 

Os Bonobôs eram grandes macacos espertos, de rosto inteligente e olhos brilhantes. Aliás, de tanto ouvirem dizer que eram finos como macacos, os Bonobôs achavam-se todos engenhosos e sobredotados. Todos, excepto Bobô. Bobô era um pouco mais pequeno do que os outros, caminhava de cabeça baixa e não era lá muito bem sucedido na escola dos macacos. Talvez por estar muitas vezes com a cabeça na Lua.

Os colegas troçavam dele porque Bobô não sabia responder às perguntas mais simples, tais como: “Qual é o modo de locomoção mais rápido na floresta?” Ou então: “Quanto é duas bananas mais duas?”

De tanto ouvir dizer que era bobo e que não sabia nada, Bobô tinha-se tornado fraco a tudo. É, aliás, o que muitas vezes acontece. Ele lia nos olhos dos outros: “És bobo, és bobo! Mostra lá que és bobo!” E, como era obediente, fazia-lhes a vontade. Se tivesse lido nos olhos dos macacos, por exemplo, “Oh, como és forte!”, tudo seria totalmente diferente.

Quando alguém lhe fazia uma pergunta, Bobô lia a troça nos olhos dos outros, e sentia subir dentro dele uma onda de pânico. E uma vozinha estridente, vinda não se sabe de onde, gritava-lhe ao ouvido: “És um zero! Não sabes nada! És um zero! Não sabes nada!” Ficava tão perturbado, que por vezes até caía abaixo do coqueiro.

Quando voltava a empoleirar-se e ficava diante do Professor, baixava os olhos, baixava a cauda e não respondia nada. Então, ouvia-se o ataque de riso dos Bonobôs, todos em coro: “Ah, ah, ah! Ih, ih, ih”, que lhe perfurava os tímpanos e o coração.

E Bobô fugia, de liana em liana. O seu refúgio era no cocuruto da mais alta bananeira da savana. Segundo diziam, aquela bananeira tinha, no mínimo, cento e dez anos, e estava tão velha e tão seca que já não dava uma única banana. As próprias folhas estalavam como se fossem papiros. Bobô era o único que lhe ligava e a velha bananeira era a única que conhecia o segredo do pequeno macaco.

No cimo da árvore, Bobô tinha os seus pincéis, as suas tintas, as suas folhas de bananeira, o seu universo de pequeno pintor. E Bobô pintava, pintava. Quando desenhava, Bobô não ouvia a vozinha estridente que lhe perfurava os ouvidos: “Não vais ser capaz! És um zero! És um zero à esquerda!”. Mais nada a não ser a admiração da velha bananeira e o vento que sussurrava: “É tão bonito!”. Era bonito, mas era triste. Os seus quadros chamavam-se: Dia de cólera, Tufão devastador, Restos de arbusto, Angústia na savana , A multiplicação dos piolhos, A teoria da banana podre. Todos estes quadros existiam já na cabeça de Bobô antes de ele pensar em pintá-los. Enquanto pintava, Bobô respirava melhor. O peito dilatava-se-lhe. Tinha até a impressão de que podia voar como os pássaros. Como era bom desaparecer na natureza! Mas quando Bobô descia, os gritos estridentes dos outros macacos travessos voltavam a dilacerar-lhe os tímpanos. E, em dois segundos, era de novo Bobô, o bobo.

Bobô não se atrevia, é claro, a mostrar aos outros as suas obras. Troçariam ainda mais dele, fariam toda a chacota possível, e, assim, Bobô morreria de vergonha.

Um dia, como habitualmente na mudança das estações, o vento, que era tão travesso como um macaco, pôs-se a fazer das suas. Enfiou-se por entre as folhas da velha bananeira e fez cair, uma a uma, todas as pinturas de Bobô.

Bobô, que estava na escola a aturar a chacota dos outros, viu, uma a uma, as suas telas caírem da velha árvore… Angústia da banana podre, Tristeza na savana… Bobô julgou que ia morrer. Morrer de vergonha. Ficou de olhos fechados à espera da risota dos outros. Mas não ouvia nada. Quando voltou a abri-los, viu um espectáculo incrível: todos os macacos, pendurados pela cauda, contemplavam em silêncio os seus quadros. E nos olhos deles havia tristeza, raiva, suspiros: todos os sentimentos que Bobô tinha pintado se reflectiam agora nos olhos dos Bonobôs.

–– Foste tu que pintaste tudo isto? – perguntou o Professor, meneando a cabeça

–– Sim –– respondeu Bobô, que começou de novo a respirar bem.

Bobô sentia-se tão feliz que trepou de imediato para a sua velha bananeira e pintou Respiração, Dia de felicidade , Aroma de banana fresca.

E os quadros ficaram ainda mais belos do que antes. Decerto, porque fora nos olhos dos outros que ele tinha lido que os seus quadros eram belos.

“Quanto mais nos disserem que somos capazes, mais capazes seremos, de facto”, pensou Bobô, que estava longe de ser bobo.

Hoje, Bobô é o pequeno macaco mais importante da savana. Faz retratos por encomenda, e vêm macacos de muito longe frequentar os seus cursos de pintura.

Bobô nunca troça de ninguém. Porque sabe que cada um dos pequenos macacos tem uma determinada qualidade. Alguns são muito dotados na escola, outros são ases em futebol, outros têm jeito para desprenderem lianas, outros ainda são óptimos vendedores de bananas.

A mais feliz é a velha bananeira. Ela, a quem todos censuravam por já não dar uma única banana, começou a oferecer os mais belos tesouros do mundo! “Estão a ver, sou velha, chamam-me inútil… mais ou menos como Bobô. Mas guardo outros tesouros dentro de mim…”

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