A ratita Tita

A ratita Tita

Tita, a ratita, tem mãos de fada. Ela faz maravilhosas roupas a partir de quase nada. Mas, agora, já todos os ratinhos das redondezas estão servidos com as roupas que precisam. Por isso, Tita ficou sem trabalho.

— Tenho de ganhar a vida! — exclama ela, muito preocupada.

Então, resolve percorrer o campo, em busca de novos clientes. Enfrentando vento, chuva e neve, ela bate de porta em porta.

Que pouca sorte! Nenhum ratinho precisa de roupa nova.

— Tu fizeste-nos um formidável guarda-roupa, no ano passado. Ainda serve perfeitamente para passar outro Inverno.

— Porque é que só fazes roupas para ratinhos? — pergunta-lhe Heitor, o senhor toupeira.— Porque não fazes roupas para os outros animais?

Tita suspira profundamente. — Porque todos os outros animais são demasiado grandes para mim. Além disso, alguns vivem lá no alto das árvores e outros escondidos nas profundezas do solo… E nem vale a pena falar dos que metem medo.

No dia seguinte, a pequena ratita, amargurada, olha a sua máquina de costura, parada, e as suas agulhas de tricô, paradas, quando Heitor, o senhor toupeira, bate à porta.

— Encontrei a solução — diz, todo contente, o Heitor. — Apresento-te o meu amigo Samuel, o esquilo. Ele precisa de uma bela camisola quentinha. Podes subir para as minhas costas e, assim, tirar-lhe as medidas.

— Excelente ideia!

Tita sobe para as costas de Heitor e daí ela estende a sua fita métrica dum ombro ao outro do Samuel.

Depois começa a trabalhar. O tlac-tlac das suas agulhas pode ouvir-se durante toda a noite.

No dia seguite, Samuel exprimenta a sua nova camisola, cheio de orgulho. Tomás, o texugo, que anda por ali a passear, dirige-se para eles.

— Isso é o que eu chamo um cobertor portátil. Mas para mim gostava mais de um casaco…

Então, Tita trepa pelas costas de Heitor e Samuel, como se trepasse pelos degraus de uma escada, e consegue tirar as medidas do texugo.

— Ai! Ai! — queixa-se o texugo gordinho.— Pára de me empurrar.

— E tu, pára de te mexeres — ordena a Tita, com a boca cheia de alfinetes.

Tomás, o texugo, veste, agora, o mais espantoso casaco da floresta. E, todo vaidoso, não se cansa de o exibir para os seus amigos.

Até o lobo parece gostar do casaco… lá de longe.

— Bom trabalho — diz Paulino, o pica-pau, espreitando pelo seu buraco no tronco da árvore. — Se não tivesse as minhas patas tão frias, até vos batia palmas.

— Então encomenda-me um par de luvas — diz a Tita.

— És capaz de mas fazer? — pergunta Paulino, ansioso.

— Claro que sim! Desce daí…

— Não! Não posso descer. Estou habituado às alturas e, quando pouso no chão, fico logo enjoado!

A pequena ratita reúne a sua equipa. Ela trepa pelas costas do Tomás, depois para as do Samuel e, por fim, para as do Heitor, e daí consegue tirar as medidas às patas do pica-pau.

— Então e eu? — pergunta Moniz, o mocho. — Estou a precisar de um novo cachecol, antes que cheguem as noites frias de Inverno. Podeis chamar-me preguiçoso por não me apetecer voar até aí, mas durante o dia tenho de dormir.

— Deixa-te ficar aí! — diz a Tita. — Eu trato de tudo.

Paulino dá impulso à ratita e, assim, ela consegue chegar até ao ramo onde se encontra Moniz, o mocho, a quem pode, então, tirar as medidas.

Agora, a Tita está cheia de trabalho. A sua lista de clientes não pára de crescer. Toda a gente precisa de novas roupas. Até a doninha sonha com um vestido. O rato do campo encomenda um gorro. O tentilhão pede umas meias.

E todos os coelhinhos suspiram por umas calças jardineiras.

Tita trabalha dia e noite. Não lhe sobra um minuto. Ela abre a boca de sono a cada movimento da agulha e acaba por adormecer por entre as roupas.

Castro, o castor, encomenda um par de pijamas quentinhos.

Tita tem de ter muito cuidado para chegar à toca do castor, pois tropeça a cada passo, por causa do sono.

Com cuidado, o pica-pau Paulino estende-lhe um raminho para ela poder segurar-se.

De modo a que o castor Castro ande sempre quentinho e seco, Tita faz-lhe pijamas impermeáveis.

Mas o maior desafio é apresentado pela vaca Lili.

— Eu queria um robe confortável — diz ela —, com grandes botões.

Com a ajuda de Heitor, Samuel e Tomás,Tita sobe para as costas da vaca.

— Como vou medir à volta desta grande barriga? — interroga-se Tita.

— Vamos usar uma corda — diz o Heitor. — A Lili segura uma ponta da corda com os dentes e o mocho Moniz pode voar e puxar a outra ponta.

Mas, azar! A Lili não consegue parar de ruminar e larga a corda.Tita fica a balouçar, pendurada na corda.

Pouco tempo depois, já a vaca Lili pode apresentar-se no prado com o mais elegante robe que alguma vez os animais viram.

Certa manhã, o Heitor, preocupado, vai ter com a Tita.

— Falta-te fazer uma última peça de roupa — diz ele. — É do Lopo, o lobo!

— É impossível! — exclama a Tita.— Ele ainda me comia!

— O Lopo precisa desesperadamente dum chapéu. Se recusares fazer-lho, ele zanga-se e, então, é que te come mesmo!

Heitor tem razão. Por isso, a Tita vai ter com o lobo.

— Vossa Excelência deixa-me tirar-lhe as medidas sem me dar uma dentada? — pergunta ela.

Lopo acena logo que sim com a cabeça. Ele quer um chapéu confortável, não uma ratita com medo.

Embora a Tita não se sinta lá muito segura, ela acaba por ir chamar a sua equipa.

A tremer como varas verdes, o senhor toupeira, o esquilo e o texugo deixam-na subir pelas suas costas. O lobo mete tanto medo! Os dentes da Tita rangem à medida que ela trepa ao longo do seu perigoso focinho.

“Se ele tentar comer-me, espeto-lhe a agulha!”, pensa para os seus botões.

O lobo observa Tita com um brilho assustador no olhar enquanto ela lhe tira as medidas.

“Se não paro de tremer”, pensa ela, preocupada, “o chapéu vai sair com as medidas erradas e ele vai ficar furioso.”

A ratita nunca trabalhou em tão difíceis condições!

Finalmente, o chapéu está pronto.

— Deixa-me vê-lo! — diz o lobo, abrindo de tal forma a boca que ela pode ver-lhe os enormes dentes.

O lobo exprimenta, então, o chapéu, mas logo o tira da cabeça.

— Oh não! Ele não gosta do chapéu! — diz a Tita, receando a fúria do lobo.

Mas, para sua surpresa, o lobo inclina-se e faz uma vénia. — Os meus parabéns, ratita! — diz o lobo repeitosamente. — De agora em diante, serás a minha chapeleira exclusiva!

Os seus amigos rodeiam-na, suspirando de alívio.

Que grande sorte! Graças às suas pequeninas mãos de fada, a ratita Tita ganhou um grande admirador… com um sorriso assustador.

Nadine Walter
A ratita Tita
Maia, Edições Nova Gaia, 2004

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