Histórias para os mais pequeninos

… e para os menos pequeninos …


Um hóspede de fazer fugir

Aquele senhor não tinha nada bom aspecto. Havia qualquer coisa nele que intimidava. Talvez fosse da capa que usava sempre, quer de dia quer fosse noite. Talvez fosse do cabelo preto e lustroso, muito colado ao crânio e apartado em risco ao meio. Talvez fosse da dentição alva e impecável, onde sobressaíam dois caninos que metiam impressão…

Quando, na estalagem do senhor Pestana, este senhor impressionante pedia ao jantar:

— Um bife muito mal passado. Em sangue…

E ria-se, exibindo os tais caninos pontiagudos… Os outros hóspedes arrepiavam-se todos.

— V. Exª quer com acompanhamento de batatas ou de arroz? — perguntava, a medo, o senhor Pestana.

— Tanto faz – respondia o senhor de cabelo abrilhantinado. — Desde que seja em sangue… E não me trate por V. Exª. Prefiro que me trate por conde.

Nessa noite, os restantes hóspedes fecharam as portas dos quartos à chave e empurraram cómodas e maples que, encostados às portas, impedissem qualquer entrada indesejável. E não pregaram olho.

No dia seguinte, todos pediram as respectivas contas e saíram, num grande alarme.

— Podemos lá continuar numa casa onde está o conde Drácula, o terrível vampiro, chupa-sangue — diziam os hóspedes, despedindo-se apressadamente do senhor Pestana.

O dono da estalagem estava desolado. Ficava com a casa às moscas. Que prejuízo!

O senhor Pestana encheu-se de coragem e foi bater à porta do conde Drácula, que acordava tarde.

— Para o pequeno-almoço quero chá, leite e torradas — disse o conde, quando o senhor Pestana entrou.

Assim, em pijama, não parecia nada assustador.

— Não prefere um bifinho em sangue? — perguntou, desconfiado, o senhor Pestana.

— Ao pequeno-almoço, que horror! — exclamou o conde, repugnado.

— E para o almoço? — perguntou o senhor Pestana.

— Pode ser peixe grelhado, se houver — respondeu o conde.

— Fica o bife em sangue para o jantar… — concluiu o senhor Pestana.

— Chega de bife em sangue — riu-se o conde, sem que no riso sobressaíssem os dentes pontiagudos. — Isso foi só ontem, para o ensaio, a ver se surtia efeito.

O senhor Pestana não estava a perceber, mas o conde explicou. Ele era actor e, quando acabasse as férias, iria representar uma peça, onde desempenhava o papel de Drácula, o tal conde guloso do sangue das suas vítimas.

Trouxera os preparos para o seu desempenho e apurara-se a ensaiar. Só isso.

O senhor Pestana não achou graça. Quem o indemnizava da súbita perda de clientela, assustada pelo falso Drácula?

— Tudo se resolverá — disse o actor. — Hoje mesmo vou encher-lhe a estalagem com os restantes colegas da companhia.

Assim aconteceu. Mas como a peça era de terror, a sala de jantar da estalagem encheu-se de uma estranha população, vestida a rigor. Uns de vampiros, outros de fantasmas, um de Frankenstein e vários de monstros, numa alegre algazarra, poriam os cabelos em pé a quem, desprevenidamente, entrasse para jantar. Muito agitado, a servi-los, o senhor Pestana não se importava. Tinha a estalagem cheia. Isso é que era importante.

António Torrado

www.historiadodia.pt

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