Histórias para os mais pequeninos

… e para os menos pequeninos …


Evita roer as unhas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Evita roer as unhas

Evita roer as unhas,
que ficas com dedos feios
e as unhas onde as punhas,
espalhadas pelos passeios ?

Evita roer as unhas
que te podem fazer mal,
andam sujas, carcomidas,
como folhas de um jornal.

Evita roer as unhas
porque não sabem a nada
e as unhas onde as punhas,
numa gaveta fechada?

Evita roer as unhas,
pois não és um roedor,
deixa-as crescer à vontade,
faz-lhes lá esse favor.

Evita roer as unhas
porque não te fica bem;
sem as unhas não te coças
e coçar sabe tão bem.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003


As preocupações do Billy

As preocupações do Billy

Billy costumava andar preocupado.

O Billy preocupava-se com muitas coisas…

Preocupava-se com chapéus, e preocupava-se com sapatos.

O Billy preocupava-se com nuvens, e chuva e pássaros gigantes.

O pai tentava ajudar:

— Não te preocupes, rapaz — disse ele. — Nenhuma dessas coisas pode acontecer. É tudo imaginação tua.

A mãe também tentava ajudar.

— Não te preocupes, querido — dizia ela. — Nós não deixamos que nada te magoe.

Mas mesmo assim o Billy continuava preocupado.

A sua maior preocupação era ficar em casa de outras pessoas.

Uma noite, teve de ficar com a avó. Mas o Billy não conseguia dormir. Estava muito preocupado.

Sentiu-se um pouco idiota, mas por fim levantou-se e foi contar à avó.

— Que grande imaginação, querido — disse ela. — Quando eu tinha a tua idade também me preocupava. Tenho uma coisa para ti.

A avó foi ao quarto e voltou com uma coisa nas mãos.

— Estes são os bonecos das preocupações — explicou ela enquanto lhe mostrava uns bonequinhos coloridos do tamanho do dedo mindinho feitos de tecido. — Diz a cada um deles uma das tuas preocupações e põe-os debaixo da almofada. Eles preocupam-se por ti enquanto dormes.

O Billy contou todas as preocupações aos bonecos das preocupações.

E dormiu como um anjo.

Na manhã seguinte, o Billy foi para casa. Nessa noite, ele contou novamente todas as suas preocupações aos bonecos.

E dormiu como uma pedra.

Mas na noite seguinte o Billy começou a preocupar-se.

Ele não conseguia parar de pensar nos bonecos. Todas aquelas preocupações que ele lhes tinha dado…

Não lhe parecia justo.

No dia seguinte, o Billy teve uma ideia. Passou o dia a trabalhar na mesa da cozinha. Era um trabalho difícil e a princípio saía-lhe tudo mal e teve de recomeçar muitas vezes.

Mas por fim o Billy produziu algo muito especial…

Alguns bonecos das preocupações para os bonecos das preocupações.

Nessa noite, TODOS dormiram bem, o Billy e todos os bonecos das preocupações.

Anthony Browne
As preocupações do Billy
Lisboa, Kalandraka, 2006
adaptado


Ninguém gosta da lua!

Ninguém gosta da lua!

Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

— Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

— Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

A Lua baixou os olhos tristemente.

— Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

— Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

— Acontece que nem me dizem boa noite!

A Noite aclarou a garganta.

— Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

— Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

E a Lua continuava a choramingar.

— Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

A Noite ouvia atentamente.

— Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

— Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

A Noite prosseguiu:

— É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

— Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.


O pequeno vampiro apaixonado

O pequeno vampiro apaixonado

Numa noite de lua cheia, ao sair para o escuro, como sempre fazia para não ser visto, o pequeno vampiro encontrou uma menina vestida de cor-de-rosa a sair de uma casa. Era noite de Natal. A menina tinha os olhos radiantes de felicidade como todas as crianças naquela noite. Trazia o seu mais belo vestido, cor-de-rosa com folhos, e estava a dançar no passeio. O pequeno vampiro tinha os dentes pontiagudos, a pele macilenta e um rosto triste, e ali ficou, de olhos arregalados, a admirar a alegria dela.

Desde o primeiro momento em que a vira, o pequeno vampiro não parava de suspirar. Era uma dor de alma. Queria voltar a vê-la. Não para lhe fazer mal. Apenas para lhe dar um beijinho no pescoço, um beijinho muito, muito pequenino. Mas o que pode esperar um vampiro negro de uma menina cor-de-rosa?

À noite, aproximava-se da casa de Rosina, assim se chamava ela, tentando voltar a vê-la. Mas só conseguia avistar uma menina a lavar os dentes, uns lindos dentinhos brancos como pérolas de nácar, a pentear-se ou a passar uma luva pela sua linda pele. Ou a dormir sorrindo, na sua cama cor-de-rosa. E o vampiro lembrava-se dos seus dentes compridos, da sua pele macilenta, das mãos recurvadas, e pensava: “Um pouco de cor-de-rosa no meu coração cinzento faria um rosa acinzentado que seria muito bonito.”

E escondia-se dentro da sua caixa escura, que é uma forma de os vampiros exprimirem a sua tristeza. As faces pareciam papel enrugado, os olhos reflectiam a tristeza que lhe ia na alma. Colocou um letreiro na caixa: “Desgosto de amor”.

A mãe dizia-lhe:

— Não te preocupes, meu bichaninho. Isto já sucedeu a outros: o príncipe e a pastora, o guardador de ovelhas e a princesa, o gato e a ratinha. Porque não um vampiro e uma menina?

— Oh! — suspirava ele. Como é triste estar-se apaixonado! Naquela noite, mais valia ter partido uma perna! Mexe com tudo cá dentro e não se pensa noutra coisa! Gostava tanto de estar com ela, de lhe falar, de lhe pegar nas mãozinhas rosadas, de a ouvir rir, de lhe ver o brilho dos olhos…

E ficava encostado às paredes do prédio, à noite, a espreitar pela janela, só para ver uma pontinha do tule rosa, o esboço de um sorriso, um pouco de céu azul.

E o pequeno vampiro sonhava, no seu cantinho de céu escuro. Um dia haviam de casar, ela vestida de branco, a menina cor-de-rosa, com os cabelos cheios de flores. Ele levaria um lindo fato creme, e os seus dentes seriam como pérolas. Mas, quando acordava, a vida era como antes. E dentro da sua caixa, dava largas à tristeza.

Tentou diferentes tácticas. Um dia pintou a cara de cor-de-rosa, outro dia escondeu os dedos em forma de garra numas luvas de pele de cordeiro. Fechou a boca a sete chaves para tapar os dois grandes caninos. Uma outra vez, pôs um nariz de palhaço no rosto macilento, mas ficava com um ar tão triste que até fazia chorar. Outro dia ainda, o pequeno vampiro aproximou-se um pouco mais da janela de Rosina. Foi terrível. Ela estava a ter um sonho mau. Chorava enquanto dormia, e gritava. Ele pensou: “É o momento de eu entrar em cena. De qualquer modo, nunca serei pior do que o pesadelo que está a ter”.

O pequeno vampiro entrou no quarto no preciso momento em que ela ia gritar “Mamã!”. Ao vê-lo, arregalou os olhos.

— O que estás aqui a fazer? — exclamou ela. — Como conseguiste entrar no meu quarto?

— Não tenhas medo — disse o pequeno vampiro a tremer. — Eu não faço mal a ninguém. Sou um vampiro simpático. Estou aqui para te ajudar. Não tires nem o dente de alho nem o crucifixo.

A menina desatou a rir às gargalhadas. Ria-se e de que maneira! Até as lágrimas lhe vieram aos olhos.

— O teu disfarce não serve de nada. Não és nenhum vampiro, és um rapaz!

O pequeno vampiro estava mesmo admirado. Em vez de gritar, ela ria-se e dizia que ele era como os outros!

— Eu conheço-te. Às vezes cruzo-me contigo na rua, ou então foi em sonhos, já te vi nalgum sítio — diz a menina. — Quando dizes que és um vampiro, estás enganado. Os vampiros são feios e tristes. Não têm olhos brilhantes como tu.

O pequeno vampiro sentiu que estava a ficar corado, uma mistura de rosa e cinzento. A menina fez uma careta quando ele lhe disse que tinha a cara cinzenta como papel enrugado, e fê-lo aproximar-se do espelho!

— Tens de te bronzear um bocadinho, meu caro, para ficares mais corado. Deve ser de estares fechado em casa, longe dos outros. Volta amanhã, que vamos brincar no jardim, ao sol.

O rapazinho viu, com grande espanto, a sua imagem no espelho.

Era a primeira vez.

— Julgava que os vampiros não podiam ver-se ao espelho.

— Às vezes — disse a menina — julgamos que somos vampiros, feios e cinzentos, mas é só impressão nossa.

E deu-lhe um beijo no nariz.

No dia seguinte, o rapazinho e a menina brincaram juntos no jardim. O pequeno vampiro adquiriu uma linda cor de pele, olhos brilhantes e cheios de luz. E os dentes, curiosamente, começaram a encolher, a encolher… Pareciam pérolas!

— Vês, eu bem te disse. Vês como tinha razão!

E riram-se juntos.

Assim acaba a história do menino que se julgava um vampiro feio. Ou, talvez, a de um vampiro verdadeiro, que se transformou num rapazinho só porque gostava de uma linda menina rosadinha.


O papá urso foi embora

O papá urso foi embora

Naquela manhã, quando os três ursinhos traquinas acordaram da sua noite castanha, quiseram, como todos os dias, andar às cambalhotas, às cavalgadas e às cabriolas no lombo do papá urso.

Era para todos uma grande brincadeira ouvirem o pai a fingir que ralhava, meio a rosnar, com a sua voz de urso:

— Ai se vos apanho, seus ursinhos traquinas!

Nós, ursos, só temos o fim-de-semana para dormir. E o pai urso fingia que lhes dava um sopapo, um bofetão e uma grande patada. Os ursinhos traquinas fartavam-se de rosnar e rolavam no chão de tanto rir, o que era até uma maneira de massajarem as vértebras.

Mas, naquela manhã, quando os três ursinhos acordaram, encontraram a cama vazia e a mãe já a pé, olhando tristemente pela janela, como na história da princesa dos cabelos de ouro.

Mas aquilo não era nenhum conto de fadas.

— O vosso pai foi embora — disse a mãe ursa fungando.

E foi logo para a cozinha fazer crepes com mel.

— Ai sim? — pensaram os ursinhos. — Deve ter ido buscar o mel e o jornal. E algumas ervas para o almoço. E fazer as compras da semana.

E… esperaram todo o dia… Quando a noite estendeu o seu manto de estrelas, compreenderam que o pai urso não voltaria para casa naquela noite. Teria ido hibernar para outro lado? Para a Sibéria? Para onde o mel é mais aromático? Os ursinhos tinham perdido o ar traquina, à força de tanto fazerem perguntas. Teria encontrado no caminho alguma princesa encantada? É assim que entre os ursos se fala dos pais que se vão embora para seguirem um outro caminho, a Ursa Maior, por exemplo.

— Alguns partem para encontrar um pouco mais de fantasia, outros, para tomar ar durante um ou dois meses. Mas nunca ninguém foi embora por causa de um, de dois ou até de três ursinhos traquinas — respondeu-lhes de imediato a mãe ursa.

Se ela sentia vontade de dizer mal do pai urso, a verdade é que nunca o fez.

— Ele gosta muito de vós, sente imenso a vossa falta, eu sei — disse-lhes, olhando-os com os seus olhos castanhos orlados de vermelho.

Os dias continuavam a passar sem voltarem atrás.

Na toca, a vida já não era como dantes. Já não havia aquela voz grossa a acordá-los de manhã, nem aquelas grandes patas que os levavam à escola pela mão. Um pai, quando falta, faz muita falta. Os pêlos da barba mal cortados, as mãos grandes e quadradas, a voz grossa a ralhar, a barriga do pai urso que mexia quando ele se punha a rir, o cheiro a tabaco, os seus bocejos ruidosos que faziam tremer as paredes da toca, e até as grandes cóleras e as grandes zangas.

Os três ursinhos teriam dado tudo para receberem as boas palmadas do costume. Com as mães, a vida é cheia de doçura, de carinho, mas falta, sem dúvida, um pouco de força e de surpresa. Ninguém se atrevia a dizê-lo, mas era o que toda a gente pensava. Até que chegou uma altura em que se deixou de falar no assunto. Nunca mais se pronunciou a palavra “papá”. Sobretudo, porque bastava pronunciar uma só palavra iniciada por “pa” para que os olhos da mãe ursa começassem a ficar perigosamente vermelhos.

Deixaram então de dizer muitac oisa: “papá”, “papagaio”, “papaia”, “papar”, “paparico”, “paparoca”, mas também a palavra “paradoxo”, “parágrafo” e “passado”. Muitas palavras existiam começadas por “pa”! Na toca, deixou de se pronunciar uma grande parte do dicionário.

De tanto, tanto se esperar, o rosto do pai urso começou a ficar menos nítido aos olhos dos ursinhos traquinas. Nos seus sonhos, ele transformou-se no Peter Pan, no Rei Leão, em muitas outras personagens. O rosto do papá urso que ralhava desvanecia-se pouco a pouco.
Um dia, contudo, após tão longa espera, chegou uma carta à toca dos ursinhos traquinas. Depois daquela aventura, já havia passado muito, muito tempo, tanto, que um outro pai urso tinha ido viver lá para casa, os ursinhos tinham regressado às suas lendárias travessuras e os olhos da mãe ursa nunca mais tinham ficado vermelhos.

— Ursinhos! Venham depressa! Uma carta do vosso pai! — gritou a mãe ursa, que conhecia bem a ligação dos três ursinhos ao pai.

Meus três ursinhos queridos, escrevia o pai urso, sinto muito a vossa falta. Apareço sábado para vos visitar e espero que me perdoem. Só quero ver-vos e fazer-vos papas, papinhas, paparicos e paparocas. Contem comigo sábado de manhã.

Havias de ver a alegria dos três ursinhos traquinas. Porque eles sabiam muito bem que, mesmo que o pai urso não voltasse a viver na toca, o amor entre um pai e os seus ursinhos traquinas dura toda uma vida: toda uma vida de “palavras” a dizer, de “paparocas” a comer e de “passados” a refazer!


Uma noite barulhenta

Uma noite barulhenta

Estávamos a meio da noite e o Ratão dormia profundamente na sua grande cama.

O Ratinho estava ainda acordado na sua caminha.

“Ratão! Ratão!” chamou o Ratinho. “Estou a ouvir alguma coisa lá fora a uivar e a soprar.”

O Ratão abriu um olho e um ouvido.

“É apenas o vento” disse ele.

“Posso ir para a tua cama?” pediu o Ratinho.

“Não,” disse o Ratão. “Não há espaço para os dois.”

Virou-se para o outro lado e voltou a adormecer.

O Ratinho ficou deitado a ouvir o vento. Mas, de repente, por entre um uivar e um sopro, ouviu um…

TOC TOC TOC

O Ratinho desceu da cama, abriu a porta — mas só um bocadinho —, e espreitou lá para fora.

UUUuuu! continuava o vento, mas não viu ninguém lá fora.

“Ratão! Ratão!” chamou o Ratinho. “Estou a ouvir passos. Talvez esteja um ladrão no telhado.”

O Ratão levantou-se da cama e abriu as cortinas do quarto. “Olha,” disse ele, “é apenas um ramo a bater na janela. Volta para a tua cama.”

“Não posso ir para a tua?” perguntou o Ratinho.

“Não,” disse-lhe o Ratão, “tu mexes-te muito”.

O Ratinho ficou deitado na sua cama a ouvir o uivar do vento e o toc-toc do ramo a bater, quando alguém chamou,

“TUUUUUU! TUUUUUU!”

O Ratinho levantou-se outra vez. Desta vez foi espreitar debaixo da cama. Depois foi ver no armário e, sentindo-se muito assustado, gritou: “Ratão! Ratão! Penso que há um fantasma cá em casa, e anda à minha procura. Está sempre a chamar, tuuuuu, tuuuuuu!”

O Ratão suspirou e sentou-se na cama à escuta. “E apenas um Mocho,” disse o Ratão, “também está acordado, como tu.”

“Posso deitar-me na tua cama?” perguntou o Ratinho.

“Não,” respondeu o Ratão, “as tuas patas estão sempre frias.”

E o Ratão meteu-se debaixo dos cobertores e voltou a adormecer.

O Ratinho voltou para a cama e ficou ali deitado a ouvir o vento a soprar, o ramo a fazer toc-toc e o mocho a piar.

Mas… chhhiu!

Que barulho foi este?

“Ratão! Ratão! Estou a ouvir pingar. É um pinga-pinga. Deve estar a chover cá dentro.”

E o Ratinho saltou da cama e foi buscar o seu chapéu de chuva vermelho.

O Ratão levantou-se também da cama. Abriu a porta de casa e disse: “Cala-te, vento. Não faças barulho, ramo. Canta mais baixo, mocho.” Mas nenhum lhe deu atenção. Então o Ratão foi até à cozinha, fechou a torneira que pingava e arrumou o chapéu de chuva.

“Posso ir para a tua cama?” pediu o Ratinho.

“Não, ficas mais confortável e quentinho na tua própria cama, disse o Ratão, enquanto o levava ao colo para o quarto.

O Ratinho ficou deitado na cama a ouvir o vento a uivar, o ramo a fazer toc-toc e o mocho a piar. E quando já começava a sentir muito sono, ouviu de repente…

“ROOONC, ROOONC; ROOONNC!”

“Ratão! Ratão!” chamou o ratinho. “Estás a ressonar.”

Cansado, o Ratão levantou-se. Pôs os seus tapa-orelhas nos ouvidos do Ratinho. Pôs um clip no seu próprio nariz e voltou para a sua cama.

O Ratinho deitou-se e ficou a escutar… Nada! Estava tudo muito, muito, muito silencioso. Não conseguia ouvir o vento a uivar, nem o ramo a fazer toc-toc na janela, nem o mocho a piar e nem sequer o Ratão a ressonar. Estava tudo tão silencioso que o Ratinho sentiu que estava sozinho no mundo.

Tirou o tapa-orelhas dos ouvidos. Levantou-se da cama e tirou o clip do nariz do Ratão.

“Ratão! Ratão!” gritou, “sinto-me muito só!”

O Ratão afastou os cobertores.

“Está bem, vem lá para a minha cama,” disse ele. Então o Ratinho deitou-se junto dele. As suas patinhas estavam muito frias… e precisou apenas de umas poucas voltas na cama para adormecer profundamente.

O Ratão ficou ali deitado a ouvir o vento a uivar, o ramo a fazer toc-toc, mocho a piar e o Ratinho a fungar, e, pouco depois, ouviu os pássaros a acordar. Mas nem o Ratinho nem o Ratão ouviram o despertador tocar…

PORQUE ESTAVAM OS DOIS A DORMIR PROFUNDAMENTE!

Diana Hendry
Uma noite barulhenta
Lisboa, Minutos de Leitura, 2001


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Os génios do parque

Os génios do parque

O Paulo tivera uma nota má na escola e era o pior aluno da sua turma. Ele queria muito ter boas notas, mas não conseguia aprender o suficiente para isso. Preferia brincar, ver televisão ou simplesmente sonhar olhando para as nuvens.

Ao voltar para casa, o Paulo encontrou um lindo esquilo que lhe pediu se partia uma noz grande. O Paulo partiu a noz com o pé e entregou-a ao esquilo que lhe disse:

— Eu sou um génio do parque e, como tu foste amável comigo, vou ajudar-te com os teus estudos. Esta noite, lerás três vezes a lição e amanhã terás uma boa nota.

O Paulo agradeceu ao esquilo, voltou para casa e, bem sentado na sua secretária, leu três vezes a lição. No dia seguinte leu a lição na escola sem dificuldade e a professora deu-lhe uma boa nota.

No dia seguinte, o Paulo viu uma rã cheia de areia no caminho. Pegou nela e pousou-a delicadamente sobre uma grande folha de nenúfar no lago do parque.

— Eu sou um génio do parque — disse-lhe a rã. — Eu não podia saltar e tu ajudaste-me. Para te agradecer, vou ajudar-te nos estudos. Esta noite, lerás três vezes o texto e amanhã terás uma boa nota.

O Paulo voltou depressa para casa e leu três vezes o texto. No dia seguinte, o Paulo teve a melhor nota da turma e recebeu ainda felicitações por parte da professora.

Alguns dias mais tarde, um pequeno pintarroxo pediu ao Paulo que colocasse no seu ninho um pedaço de pão demasiado pesado para ele. O Paulo assim fez.

— Eu sou um génio do parque — disse-lhe o pintarroxo. — Como foste bondoso comigo vou ajudar-te na tua lição de geografia. Esta noite, lerás três vezes a lição e amanhã terás uma boa nota.

Como das outras vezes, o Paulo obedeceu ao pássaro e leu três vezes a sua lição e, como de costume, obteve uma boa nota.

Nos dias seguintes, o Paulo continuou a atravessar o parque sempre que voltava para casa, mas não encontrou mais nenhum génio. Apesar de tudo, para lhes agradar, continuou a ler, todas as noites, três vezes as suas lições e no fim do mês era já o melhor aluno da sua turma. A professora apresentou-o aos outros como exemplo de aluno aplicado e explicou a todos que é preciso ler as lições todos os dias para ter bons resultados.

Sempre que o Paulo vê um esquilo, uma rã ou um pintarroxo, pensa nos génios do parque e agradece-lhes por o terem encorajado a estudar. Agora, o Paulo já não precisa da ajuda deles, pois sente-se capaz de ter sucesso apenas com a sua força de vontade.

Mireille Saver

Histórias para sonhar
Porto, Civilização Editora, 2004


A noite em branco de Raimundo

Raimundo é um menino de sete anos. Anda na escola primária e está a aprender a ler e a contar. Aprende também a escrever e a escutar sem falar, quando a professora explica. Raimundo gosta muito de jogar futebol, de brincar às caçadinhas e de pegar no tabuleiro quando come na cantina. Não gosta que os grandes o empurrem no recreio nem de ir com a mãe às compras depois da escola. Quando for grande, quer ser fabricante de jogos de vídeo. Mas isso, só mais tarde. De momento, o que Raimundo mais quer é passar uma noite em branco. Uma noite em branco a sério, como fazem os adultos.

Um dia ouviu os pais falarem disso e, a partir daí, Raimundo não quer outra coisa. Hoje está mesmo decidido: vai viver a sua primeira noite em branco.

Raimundo sabe muito bem que não vai ser fácil. Se não, não era proibido às crianças. Deve ser perigoso. Mas como amanhã não há escola, Raimundo sente-se capaz de enfrentar todos os perigos. Já tem tudo preparado: um anoraque para o caso de a noite ser branca como a neve, um copo grande para o caso de ser branca como o leite, e até molas da roupa. É que um dia a mãe disse-lhe: “Raimundo, estás branco como um lençol!” Não percebeu lá muito bem o que é que aquilo queria dizer, mas não faz mal. Se a noite for branca como um lençol, ele terá de a dependurar. Raimundo pensou em tudo e não está a ver o que ainda possa fazer-lhe falta.

Durante o jantar, não pensa noutra coisa. E pensa de tal maneira, que até se esquece de comer. E como Raimundo costuma comer à glutão, a mãe fica preocupada:

— Está tudo bem, meu amor? Estás com um aspecto esquisito!

— Está tudo bem, mamã, só me sinto um bocadinho cansado.

— Terás febre? Ora chega aqui — diz ela, pegando nele ao colo.

Ai! Ai! Ai! Raimundo conhece bem aquele ar preocupado da mãe. Ela não pode pensar que ele está doente. Da última vez que teve febre, a mãe ficou ao pé dele até Raimundo adormecer, e veio várias vezes durante a noite ajeitar-lhe a roupa.

Para a sossegar, Raimundo começa a cantar e a dançar em redor da mesa.

— Não, mamã. Estão a ver? Não estou doente.

— Está bem, está bem — intervém o pai. — Parece que estás em forma. Vá, acaba lá de comer e vai para a cama!

Para não levantar suspeitas, Raimundo faz um pouco de teatro, como costuma fazer quando chega a hora de ir para a cama.

— Vamos lá, cavalheiro, fecha os olhos. Sonhos cor-de-rosa!

Depois o pai dá-lhe um beijo na testa e sai muito devagarinho.

Debaixo dos cobertores, Raimundo procura não se mexer. E não se mexe mesmo nada. Raimundo espera… espera… Boceja e espera. Tem a impressão de esperar horas. Em baixo, os pais discutem. “Mas então os adultos nunca mais vão para a cama?”, interroga-se ele. Ao fim de muito tempo, ouve-os subir as escadas. Desta vez, sim! Estava a ver que nunca mais chegava a hora. Oh, não, os pais ainda continuam a falar! Raimundo tem vontade de se levantar e de lhes dizer que se vão deitar. Pergunta-se como é que o pai e a mãe, que se vêem todos os dias, ainda têm tanta coisa a dizer um ao outro. Certamente é mais um dos segredos das pessoas crescidas!

Até que enfim: tudo parece calmo.

Raimundo levanta-se devagarinho. Fecha a porta do quarto e tira de debaixo da cama o copo, o anoraque e as molas da roupa. Agora está pronto: a noite em branco pode começar!

Em pijama, senta-se na cama e cruza os braços. Começa a ficar cansado e com os olhos a fecharem-se, mas não pode deixar-se adormecer. Então, põe-se a saltitar no quarto. Não muito alto para não acordar a casa toda.

Para passar o tempo, arruma no álbum os postais de animais e, de seguida, coloca os dinossauros por ordem de tamanho. Depois… começa a aborrecer-se.

Como ainda não sabe ler as horas, não sabe há quanto tempo está à espera. Uma hora? Duas horas? Seja como for, parece-lhe que já espera há mais de um ano. Mas Raimundo não é daquele tipo de rapazinhos que perdem logo a coragem. A noite em branco tem de ser merecida.

Primeiro, é preciso pensar. Uma vez que a noite em branco é para os adultos, não pode fazer brincadeiras de criança. Claro! Devia ter pensado nisso antes! É preciso arranjar uma actividade de gente grande.

É fácil! É… mas ao certo, ao certo, o que é que fazem os adultos quando passam uma noite em claro? Raimundo tenta recordar o que os pais lhe contaram.

Na verdade, eles não lhe contaram absolutamente nada. Nunca lhe disseram o que faziam.

Da última vez que os pais saíram, lembra-se de ter visto a mãe preparar-se. Vestiu uma saia vermelha muito bonita, muito comprida, mas, em vez de calçar sapatos, decidira calçar umas sapatilhas. Ficavam esquisitas com a saia; a mãe explicou-lhe que assim estava mais à vontade para dançar a noite toda. Pois bem, aqui está o que fazem os adultos para passar uma noite em branco: dançam! O problema é que Raimundo não sabe dançar. Às vezes, quando ainda era pequeno, andava à roda com a mãe, mas agora que já tem sete anos, não gosta muito disso. Na escola, as suas amigas dançam muitas vezes no recreio e cantam as canções que estão na moda; e para se armar em grande, Raimundo e os amigos fazem troça delas.

Esta noite, Raimundo lamenta não ter dançado também. Ajudava agora a passar a noite em branco. Mas isso também não deve ser um problema. Com um pouco de vontade, ele vai conseguir.

Raimundo liga o leitor de cassetes que lhe deram quando fez cinco anos. Põe-se a carregar nos botões todos, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, quando, de repente …reineta e maçã francesa; framboesa, framboesa vermelha… ecoou no quarto.

Raimundo até deu um salto para trás. A cassete pôs-se a tocar com o volume no máximo. Atira-se ao aparelho e desliga-o. Com coração aos saltos e o aparelho apertado contra o peito, fica à espera, mas, além do bater do coração, não se ouve mais nenhum barulho na casa.

“Isto das cassetes não é lá muito boa ideia”, diz Raimundo para consigo. Só há canções para bebés. Tem de encontrar canções como as que os pais ouvem no rádio. O rádio! É isso mesmo! No rádio passa música para os adultos!

Raimundo sai do quarto, atravessa o corredor em bicos de pés e entra no quarto de banho sem fazer barulho. A mãe adora ouvir música quando está a tomar banho. Desta vez, Raimundo tem cuidado para não pôr o som muito alto, e liga o rádio pequenino que está em cima do móvel, ao lado do lavatório.

Uma rapariga canta: A minha viiida é para te amar… nunca esquecerei os beijos apaixonados. “Não, esta não é lá grande coisa…”

De orelha colada ao rádio, Raimundo espera por outra canção. Desta vez começa forte. Um cantor grita qualquer coisa que Raimundo não entende. Deve ser inglês. Bem, pelo menos é diferente!

Raimundo serra os punhos – viu os primos grandes fazer assim – balança-se sobre um pé e sobre o outro e abana o rabo. A música vai um pouco mais rápido, mas Raimundo acha engraçado. Vira-se para o espelho, sorri, acha que não está nada mal. Depois, inclina-se para o lado e zás! Uma voltinha… Zás! Pega na escova dos dentes e põe-se a cantar. Vaze sclo flich tav… Não está a sair-se nada mal! Um jeitinho de cabeça para o lado, um saracoteio para a direita e zás! Uma voltinha! Aamo-teee, e a canção chega ao fim. Olha, afinal era francês. A seguinte é do mesmo estilo e Raimundo sente-se cada vez mais à vontade. Mas, de repente… ouve o ranger de uma porta. Lança-se sobre o rádio e desliga-o. Mas tarde demais. Ouve passos a aproximar-se e esconde-se a toda a pressa atrás do cortinado do duche.

De repente, a grande imagem do pai aparece no espelho por cima do lavatório. Raimundo tem vontade de rir ao ver-lhe a cabeça. Com os cabelos desgrenhados, o pai apoia-se na beira do lavatório, boceja ao esfregar a testa e olha para o rádio. Aproxima a cara do espelho e passa as mão pelos pêlos da barba! Como se acabasse de descobrir que tinha pêlos! Na sua idade, já devia estar habituado! Parece não só admirado mas até aborrecido com isso! Raimundo, pelo contrário gostava muito de ter pêlos, porque todos os heróis têm pêlos, toda a gente sabe disso! Se amanhã Raimundo chegasse à escola com barba grossa e preta, a Clementina já não se metia mais com ele!

Raimundo fica com vontade de rir ao imaginar a cara dos seus colegas.

Pronto. Finalmente, o pai sai do quarto de banho. Raimundo corre para o quarto e fecha a porta.

Uau! Talvez ainda não tenha visto a noite em branco mas, para já, está a ser mesmo muito engraçado! Tem pressa de voltar à escola na segunda-feira para contar tudo aos colegas.

A noite ainda não acabou… Bem, a dança foi um fracasso, e agora é preciso encontrar outra coisa. Raimundo dá uma volta pelo quarto. Os dinossauros: estão arrumados! O álbum de animais: está tudo pronto!

Sentado em pijama em cima da cama, Raimundo pensa, pensa… Quase que adormeceu! Ora deixa cá ver, pensa ele, o que é que os adultos podem fazer mais para passar uma noite em branco, além de dançarem?

Bebem champanhe, pois claro! Na última passagem de ano, os pais foram festejar e levaram uma garrafa de champanhe! Mas é evidente que Raimundo não vai beber champanhe! Um copo de leite, isso sim! Pega no copo que tinha preparado para a sua noite em branco e sai do quarto.

É a primeira vez que se aventura sozinho pela casa, durante a noite. Tem de descer as escadas às escuras, se não quer acordar os pais. Vá, coragem, Raimundo, a casa é a mesma quer esteja iluminada pela lua ou pelo sol.

Mas, ao fundo do corredor, Raimundo fica estarrecido de medo. Dá de caras com uma espécie de gigante com tentáculos, pronto a deitar-lhe as mãos ao pescoço!

Desta vez acabou tudo, nunca mais vai ter uma noite em branco, nunca mais vai ver o novo desenho animado do seu herói preferido, o Musculator Hypertronique, o regresso; nunca chegará a conhecer a irmã grande de Antonino que, segundo dizem, é super-bonita, nunca mais vai ganhar ao pai no xadrez… Vai acabar comido por um monstro. E aos sete anos, não tem graça nenhuma!

O monstro continua imóvel. De tal forma imóvel, que parece morto. Sim, morto, morto de medo, se calhar. Aos poucos, os olhos de Raimundo vão-se habituando à escuridão, e o monstro, visto mais de perto, parece cada vez mais um… um… candeeiro.

Não é um monstro. É aquele horrível candeeiro de pé alto que o tio ofereceu aos pais no ano passado. Com três grandes braços que saem de uma plataforma oval e, na extremidade de cada um, um grande globo prateado.

É a terceira vez, desde o início da noite, que Raimundo tem a impressão de que o coração lhe vai parar. E diz-se mesmo “ficar branco de medo”! É que a noite em branco pode ser isto: ter medo a noite toda. E assim seria muito menos divertido do que o previsto.

Passado o susto — afinal ainda tem possibilidade de vir a conhecer a irmã grande do Antonino – Raimundo desce as escadas e senta-se na cozinha para ganhar fôlego.

Afinal, é giro ser grande e não ter medo de passear pela casa fora, a altas horas da noite!

Abre o frigorífico e pega na garrafa do leite. Enche um copo grande, bebe, volta a encher, bebe de novo, e pergunta o que é que pode ir fazer a seguir.

Raimundo não sabe que horas são. Mas de uma coisa tem ele a certeza: nunca foi tão tarde para a cama. Pergunta-se o que mais poderá reservar-lhe ainda uma noite em branco!

De regresso ao quarto, Raimundo põe-se à janela. Trouxe um copo de leite e bebe-o a olhar para o jardim iluminado pela lua. Tudo parece tão calmo, tão tranquilo.

De repente, um grito na noite fá-lo arrepiar-se. É uma coruja! Mas o grito era tão lancinante que Raimundo entornou o leite todo pelo pijama abaixo! Não haja dúvida, passar uma noite em branco dá que fazer.

Como vai ele explicar à mãe o facto de o pijama estar todo molhado? Ela vai de certeza pensar que ele fez chichi na cama. Mas isso está fora de questão! Raimundo corre para o quarto de banho – agora já não tem medo nenhum de passear no escuro – e leva o secador de cabelo para o quarto.

Despe-se num ápice e, com as molas, prende o pijama na barra da cama e põe-se a secá-lo.

Ainda bem que ninguém o vê! Tem ar de malandro, no quarto, com o secador de cabelo na mão! Se a isso se chamasse “uma noite em vermelho” ainda poderia entender, porque naquele momento estava vermelho de vergonha.

Raimundo continua sem saber o que é uma noite em branco. E pior ainda, começa a sentir frio. Enfia o anoraque e senta-se aos pés da cama. O pijama continua húmido. Raimundo já começa a ficar farto! Toda aquela trabalheira para nada!

Um pouco desiludido, volta para a janela. Lá fora, a lua brilha e, ao fundo da rua, Raimundo vê uma luz branca…muito longe, pequenina. Repara melhor e concentra-se.

Sim, não está a sonhar, há de facto, ao longe, uma luzinha branca. Doido de alegria, Raimundo fixa-se no ponto luminoso. Fixa-o até lhe doerem os olhos, mas a luz não se mexe. Está lá, distante.

Se calhar é um candeeiro de rua. E daí, talvez não!

E se afinal fosse aquilo a noite em branco? Se fosse aquela luzinha que se vê quando está noite escura lá fora?

E porque é que não há-de ser? Raimundo não tem bem a certeza, mas parece-lhe que começa a ter sono. Estende-se na cama, com os braços cruzados debaixo da cabeça, como vê o pai fazer muitas vezes, e põe-se a pensar. E se ele decidisse, sozinho, como um adulto, que aquela luzinha era a sua noite em branco?

Para poder descobri-la passou por muitas provas. Aprendeu a dançar, a passear no escuro sem ter medo, a desenvencilhar-se sozinho, ficou um pouco mais crescido nesta noite, na sua noite em branco, que foi bem merecida!

E como uma noite em branco é uma espécie de segredo, aquela noite vai ser o seu segredo!

Ao adormecer, Raimundo decide que, quando for mais crescido, há-de voltar a fazer o mesmo, mas desta vez com um amigo, para partilhar um segredo a sério, e talvez para crescerem juntos!

Barnier Armelle
La Nuit Blanche de Raymond
Arles, Actes Sud Junior, 2004
Tradução e adaptação


Matilde não tem medo

Pouco passa das oito horas, e Carla, a irmã de Matilde, já dorme a sono solto. A mãe costuma deitá-la cedo e Carla adormece sem fazer grandes birras. Matilde acha que é por ser ainda bebé que ela não se interessa pelo que as pessoas crescidas fazem à noite.

Matilde, essa, não dorme. Em bicos de pés, esgueirou-se para o quarto de banho com o pretexto de ter uma grande vontade de fazer chichi. Mas a verdade é que gosta muito de ver a mãe a pintar-se diante do espelho, a desenhar cuidadosamente a boca com o baton. Matilde acha divertido e também gostava de experimentar.

Mas o pai chega e fá-la ir para a cama:

— Vamos lá, Matilde, rápido, vai deitar-te. A tua mãe e eu vamos chegar atrasados a casa da tia Sabina!

Também ele mudou de roupa para sair, e até fez a barba!

O pai pega em Matilde pela mão e leva-a até à entrada, junto do telefone.

— Percebeste bem? — pergunta-lhe, apontando com o dedo para um papel afixado por cima do telefone. O pai escreveu um número de telefone e ao lado pôs a fotografia da tia Sabina. Assim, Matilde não pode enganar-se. Sabe que aquele é o número de telefone da tia Sabina.

— Confiamos em ti. E lembra-te: se precisares de nós, telefonas para este número e em menos de dez minutos estaremos em casa.

— Está bem — repete Matilde. — Se eu precisar, telefono, e vocês vêm logo a correr. Mas não te preocupes: eu já sou grande e sei cuidar da mana, sobretudo quando ela está a dormir.

Já metida na cama, Matilde ouve a porta de casa fechar-se atrás dos pais. Finalmente partiram! Espreguiça-se de contente e enterra saborosamente a cabeça na almofada. Ao ouvir a respiração regular de Carla, que dorme profundamente no canto oposto do quarto, Matilde espera pelo sono que tarda em chegar. Hesita ainda um instante, mas depois decide levantar-se.

As persianas não estão descidas, mas o quarto está mergulhado na obscuridade. Só um ténue fio de luz passa pela porta entreaberta. Os pais deixaram acesa a luz de vigia da entrada.

Matilde escapa-se para a sala de visitas e vai instalar-se no grande e confortável sofá. Um sofá imenso, onde é muito agradável estender-se sem ser obrigada a partilhá-lo com o pai ou com a mãe.

Liga a televisão. Naquela noite vai poder ver o que quiser!

No ecrã também é noite. De repente, surge um homem em grande plano. Trepa pelo muro de uma casa, agarrando-se à grade que suporta uma videira. Matilde consegue ver-lhe o rosto de perto. Tem uma cara que mete medo, o olhar é mau, um esgar torce-lhe a boca:

— Não perdes pela demora — diz ele entre dentes. — Vou mostrar-te quem sou e prometo que nos vamos divertir!

— Deve ser um homem mau, alguém que está a preparar alguma coisa má — diz Matilde para si. De repente, deixa de ter vontade de ver televisão. Ela prefere não saber como é que este homem se vai dar a conhecer às pessoas que moram naquela casa. E a maneira como diz que se vão divertir não tem graça nenhuma. Não, mais vale ir dormir.

Salta do sofá, desliga a televisão e vai aninhar-se debaixo dos cobertores.

Na cama, Matilde não consegue afastar as imagens da televisão. Tenta adivinhar quem seria o homem. Um ladrão? Não, não quer saber, é melhor não pensar nisso, decide ela, escondendo a cabeça debaixo da almofada.

“Em nossa casa também há uma videira que trepa pela parede acima”, pensa ela por uma última vez. “Mas o pai proibiu-me de me agarrar à grade porque não é lá muito forte.”

Carla vira-se suavemente na cama sem acordar.

“Tem sorte de nunca ter dificuldade de adormecer”, pensa Matilde. “Assim, não lhe vêm à cabeça aqueles pensamentos que nos assaltam quando está tudo escuro e silencioso, e não nos deixam dormir.”

De repente, Matilde sobressalta-se. Acabou de ouvir um barulho de folhas, lá fora, mesmo junto à parede da casa!

Levanta-se devagarinho, senta-se na cama e põe-se à escuta.

Depois começa a rir baixinho. Enganou-se, era só o vento. Além disso, ouve-se o ribombar de uma trovoada a ralhar algures, muito longe. Não há que ter medo. O homem que viu trepar pela parede coberta de videira só existe na televisão.

E como ela desligou a televisão…

Mais sossegada, deita-se na cama, muito quentinha.

“Os moradores daquela casa, a da televisão, se calhar não tinham um cão”, pensou. “Porque se tivessem um, ele tinha ladrado. E quando um cão ladra, os ladrões ficam com medo e fogem a correr.”

“Por que é que aquelas pessoas não tinham um cão? E nós, por que é que não temos um cão?”, interroga-se Matilde. “Eu gostava muito de ter um. Um cão meigo e brincalhão, que me protegesse. Se tivesse um, passava a dormir lindamente!”

Matilde fecha os olhos e imagina como seria o seu cão.

Havia de ter o pêlo castanho, ondulado, e os olhos cor de avelã. De cada vez que a visse, viria a correr aos latidos. Lambia-lhe a mão com a língua rosada.

De repente, uma luz branca rasga a noite, seguida de um trovão.

Matilde assusta-se e senta-se na cama.

O clarão não durou mais do que uma fracção de segundo, mas pareceu-lhe ver um rosto do outro lado do vidro.

Um rosto parecido com o do homem da televisão. Tudo volta a ficar sombrio e silencioso.

No escuro, Matilde tenta raciocinar:
“És uma autêntica galinha, cheia de medo do vento e do barulho dos trovões. Chega!”, diz para si. “Pára de imaginar tolices!”

Como está com formigueiros nas pernas, atravessa o quarto para ter a certeza de que Carla continua a dormir.

Carla dorme serenamente, como se nada acontecesse. A calma da irmãzinha dá uma ideia a Matilde, uma ideia que a faz rir. Quando Carla tem medo, faz-se rodear dos seus peluches preferidos para se acalmar. Mas afinal por que não há-de ela fazer o mesmo?

No armário de Carla, Matilde procura às apalpadelas os seus dois cães pretos e o tigre, aquele que tem uma pata estragada.

Matilde vai até à janela com os três animais debaixo do braço. A trovoada foi ralhar para outro lado.

Redonda como uma bola, a lua brilha no céu. Matilde abre a janela e esconde o tigre debaixo da folhagem. Daquele sítio, ele pode guardar a casa. Com a pata partida, é incapaz de correr atrás dos maus.

Em seguida, Matilde atira os dois cães o mais longe possível para o jardim.

— Tomai bem conta da Carla! — recomenda-lhes Matilde.

Um dos cães aterra num canteiro de flores, o outro desaparece no escuro.

“Está muito bem assim”, pensa. “Nada melhor do que um bom esconderijo para apanhar os maus.”

Matilde torna a fechar a janela com cuidado. Já não era sem tempo, pois o temporal volta a atacar. Um relâmpago rasga o céu escuro aos ziguezagues, seguido de um grande trovão.

Metida na cama, Matilde imagina o homem da televisão a escalar a cerca que rodeia a casa. Depois, vê-o avançar em direcção ao caminho que leva à porta da entrada. Ele nem imagina que no escuro estão dois cães à espreita, prontos para defender Carla!

De repente, Matilde é assaltada por uma terrível dúvida. “Será que o homem tem medo de cães? E se os mata com a faca, ou se lhes prende as patas com uma corda, ou lhes ata um lenço à volta do focinho”, aflige-se ela, “quem é que vai defender a Carla?”

Num ápice, Matilde salta da cama e lança-se numa corrida para o quarto dos pais. Sabe que em cima da cómoda está guardada a colecção de soldadinhos de chumbo do pai. São soldados de chumbo que o pai dele lhe oferecera. Matilde não tem autorização de brincar com eles, nem sequer de lhes tocar. Mas agora já não é um jogo, é um assunto sério!

Matilde pega em tantos soldados quantos lhe cabem nas mãos e volta para o quarto. Coloca-os uns atrás dos outros, no parapeito da janela. Na primeira fila, alinha os cavaleiros. Sob a luz fria da lua não parecem muito confiantes. Os rostos parecem mais severos e os uniformes menos coloridos do que em pleno dia. Atrás dos cavaleiros, Matilde perfila os soldados com os canhões, e, atrás, os que empunham espadas e espingardas.

Passa revista ao exército e diz baixinho:

— O mau da televisão já pode vir. Vai ser bem recebido!

E volta para a cama, contente por ter pensado em tudo.

A tempestade voltou, com relâmpagos e trovões. Está cada vez mais perto e cada vez mais forte. Matilde tem vontade de chorar, mas repete, de punhos cerrados, que já é grande, que é a irmã crescida de Carla, que, essa sim, é ainda um pouco bebé.

Matilde torna a sentar-se na cama. Do outro lado do quarto, Carla continua a dormir calmamente. Que sorte tem em dormir assim! Será que ela tem frio?

Matilde atravessa o quarto em pezinhos de lã e, com cuidado, empurra a irmã contra a parede para fazer um lugar para ela. Depois deita-se encostada a Carla e abraça-a. Para a aquecer.

Um raio torna a iluminar o céu.

Desta vez Matilde não vê cara nenhuma à janela mas pensa que o homem deve ter retirado a cabeça a tempo para não ser visto.

Outro raio! Desta vez Matilde tem a certeza de que os cães ladraram, de que ouviu o tigre a rugir e a arranhar os ladrilhos, de que os soldados de chumbo gritaram todos “Ao ataque!”.

Chega-se mais para junto de Carla e aperta-a contra si, cada vez com mais força. Abana-a um bocadinho. Carla vira a cabeça e abre os olhos:

— Matilde — murmura meio ensonada. Sorri à irmã, volta a fechar os olhos e adormece com um suspiro de satisfação.

— Foi a trovoada que te acordou — sussurra Matilde, que abana Carla com um pouco mais de força.

Carla acorda completamente.

— Matilde — balbucia. — Matilde — continua mais alto e com mais força — tenho medo da trovoada; quero a mamã!

— Bem sabes que o papá e a mamã foram passar o serão a casa da tia Sabina.

— Mas eu quero vê-los — choraminga Carla. — O papá disse para telefonarmos se precisarmos deles.

Puxando-a pela mão, Matilde leva-a até junto do telefone.

Carla segura o papel com o telefone e a fotografia da tia Sabina, para que Matilde veja bem. Matilde marca, número a número, tecla a tecla, exactamente como treinou com os pais.

Primeiro, só ouve o sinal de chamar, depois alguém atende.
Matilde reconhece a voz da mãe.

— Estou? — inquieta-se a mãe. — És tu, Matilde? O que é que aconteceu?

Aliviada, Matilde explica:

— Mamã, aqui há trovoada. Há raios e trovões muito fortes que acordaram a Carla, e agora ela está a chorar. Está com muito medo.

— Dentro de poucos minutos estamos aí. Até lá, deita-te ao lado da tua irmã e abraça-a com força para a sossegares, querida. Tu não tens medo da trovoada. És uma menina crescida!

— Está bem, não te preocupes, que eu vou tratar da Carla — assegura Matilde antes de desligar.

Matilde leva Carla para o quarto, com cuidado.

Deita-se ao lado da irmã e abraça-a com carinho, sussurrando-lhe baixinho ao ouvido que tem de adormecer depressa. E que não deve ter medo da trovoada!

Mirjam Pressler
Mathilde n’a pas peur de l’orage
Actes Sud Junior, 1998
Tradução e adaptação


A boneca e o cavalo branco

Era uma vez uma fada que morava numa casa feita de nuvem por detrás das montanhas brancas. Essa fada apanhava os brinquedos que os meninos deitavam fora.
— Pobre cavalinho — disse, ao descobrir o pequeno cavalo branco caído no chão. — Vem comigo para minha casa. Quero cuidar de ti. Precisas de uma perna nova, de ferraduras, uma sela e arreios novos.
A fada penteou-lhe as crinas e escovou-lhe o pêlo até ele voltar a brilhar.
— E agora — disse — tens de conhecer os teus novos amigos.
— Boa tarde! — disse a boneca.
— Boa tarde! — disse também a raposa.
— De onde é que tu vens? — rugiu o urso.
— Um menino deitou-me fora — respondeu o cavalinho branco.
— A mim foi uma menina que me deixou ficar à chuva — disse o urso.
— Eu fiquei esquecida na praia! — exclamou a boneca.
— A mim, um menino perdeu-me na rua — disse a raposa.
Mas a fada sentia-se triste.
“A minha casa não é suficientemente grande para todos os brinquedos do mundo deitados fora, esquecidos e perdidos”, pensava ela.
— Temos de consolá-la! — disse o cavalinho. — Afinal, ela salvou-nos a todos.
— Exactamente! — disseram também o urso, a raposa e a boneca. — Temos de fazer alguma coisa.
— Eu conheço um prado com flores de estrelas — disse o cavalinho branco. — Podemos ir lá colher um ramo para a fada.
— Isso pode ser perigoso — disse a raposa. — O campo das flores é vigiado pela noite negra.
— Eu não tenho medo nenhum — disse o cavalinho branco.
— Eu também não tenho medo — disse a boneca, pondo a capa vermelha. Sentou-se em cima do cavalo e saíram os dois a galope.
A raposa abanava a cabeça.
— Eu conheço a noite — disse ela e, às escondidas, foi atrás deles.
— Eu — disse o urso — prefiro ficar em casa.
No campo das flores, o sol brilhava.
— Oh, que flores tão lindas! — exclamou a boneca, começando a colher o ramo. O cavalo branco descobriu erva tensa e água no ribeiro. Estavam tão entretidos, que se esqueceram do que a raposa lhes tinha dito.
De repente, diante deles, ergueram-se umas grandes asas negras.
— Quem está a tirar as minhas flores? — disse uma voz ameaçadora.
Era a noite.
A boneca e o cavalo branco quiseram fugir, mas já era tarde de mais. A noite tinha engolido não só as flores mas também o cavalo branco.
A boneca desatou a chorar e chamava por socorro. Apareceu então a raposa.
— Não tenhas medo — disse ela. — Eu conheço a noite. Ela parece perigosa, mas nós conseguimos ser mais fortes do que ela. Aliás, nem é preciso ter medo. Ela só nos cobre com as suas asas negras para nos deixar sonhar à vontade.
A boneca pensou na fada e na casa feita de nuvem, e o medo fugiu, juntamente com a noite. Ouviu então um tilintar suave. O cavalinho branco estava de volta e, no prado, as flores começaram novamente a florir.
O cavalinho branco, a raposa e a boneca regressaram a casa de madrugada. A fada esperava-os à porta.
— Estava à vossa espera — disse ela.
A boneca estendeu-lhe o ramo. A fada ficou muito contente e tomou-os a todos nos braços.

Max Bolliger, Helge Aichinger
Die Puppe auf dem Pferd
Zürich/München, Artemis Verlag, 1975
Texto adaptado


Alexandre

 in: Terra do Nunca, 29. Jan. 2006
Suplemento do Jornal de Notícias
(história adaptada)

Era uma vez um menino chamado Alexandre. Ele tinha um problema: quando estava a brincar, todas as crianças que andavam por perto, também queriam brincar com os seus brinquedos. Se o Alexandre estivesse a brincar com um carrinho, lá vinha a Mariana a chorar pelo carrinho. Se o Alexandre se interessava pela bola, a Mariana mudava logo de ideia. Cansava-se do carrinho e dizia que queria… adivinhem o quê?… A bola!

E o problema não era só com a Mariana. Quando o Alexandre lia um livro, o João interessava-se pelas figuras. Bastava que ele pagasse num daqueles brinquedos de montar, para que o Paulo chorasse de inveja. Um dia, o Alexandre estava a brincar no baloiço, quando chegou um menino duas vezes maior do que ele.

— Levanta-te daí que eu quero andar de baloiço! — disse o rapaz, que não era nada simpático.

Alexandre pensou contar à mãe, mas olhou à volta e não encontrou nem o pai, nem a mãe, nem a tia, nem a avó, nem o avô…

Sendo assim, recorreu à última arma que lhe restava: chorar. Chorou, chorou e chorou, até quase perder o fôlego. Mas adiantou de alguma coisa? O menino, comovido, cedeu o lugar no baloiço e até se ofereceu para empurrar?

Qual nada! O menino ficou foi furioso e fez tais caretas, que o Alexandre saiu a correr num pinote.

O Alexandre ficou tão triste, que se sentou sozinho a fazer beicinho para uma margarida do jardim.

Qual não foi a sua surpresa quando, de trás da margarida, saiu um homenzinho verde.

— Olá, homenzinho verde!

Ele estava tão curioso, que até se esqueceu de fazer beicinho…

— Olá — respondeu o homenzinho verde. — Posso saber porque estás a chorar?

— É que tenho um problema muito sério…

— Hum… e que problema é? — perguntou o homenzinho verde.

— É que eu quero brincar…

— Isso não me parece um problema — analisou o homenzinho verde.

— E não é. O problema é que, todas as vezes que eu escolho um brinquedo, aparece outro menino interessado nesse brinquedo.

— Hum… isso é um problema sério — admitiu o homenzinho verde.

— Sabes o que eu queria? Que todas as pessoas desaparecessem para eu poder brincar sozinho com todos os brinquedos. Podes fazer isso?

O homenzinho verde pensou. Coçou o queixo umas tantas vezes, até que respondeu:

— Está bem, pode ser.

No momento seguinte, o Alexandre olhou em volta e não viu mais ninguém. Não ouviu conversas nem o ganido metálico das bicicletas em movimento. Silêncio. Meio desconfiado, aproximou-se dos brinquedos. Sentou-se no baloiço e ficou à espera que aparecesse algum menino três vezes maior do que ele, interessado em baloiçar.

Mas, estranho… não apareceu nenhum menino maior e muito menos menor do que ele. O Alexandre aproveitou. Balançou até enjoar. Depois foi até ao escorregão e nem teve de se pôr na fila.

Para dizer a verdade, ele brincou com todos os brinquedos do parque.

Comeu chocolate e um algodão-doce do tamanho de uma melancia. E nem pagou porque, afinal de contas, não havia ninguém para lhe dar o troco.

Depois. Foi para casa e, como viu ninguém, pôs-se a brincar com tudo o que os pais o tinham proibido de mexer. Só ao fim de algum tempo percebeu que não havia ninguém nem em casa, nem na rua, ou no parque.

O Alexandre, então, pegou num jogo de dominó e tentou brincar. Mas tinha alguma graça, brincar sozinho? Não tinha, não. Isso é uma coisa que toda a gente que já jogou dominó sabe.

Tentou ainda outros brinquedos, mas era muito estranho brincar sozinho. Assim, lançou mão do seu último recurso: chorou, chorou e chorou, até que os seus olhos ficaram vermelhos.

Foi quando voltou a aparecer o homenzinho verde:

— Então? Já estás a chorar outra vez?

— É que não tenho ninguém com que jogar — respondeu o Alexandre.

— Mas é claro! Não querias que todas as pessoas desaparecessem?

— Mas não tem graça nenhuma brincar sozinho. Quer dizer… de vez em quando, tem, mas sempre, não. Podes fazer com que todas as pessoas voltem de novo?

— Sim, acho que pode ser feito — resmungou o homenzinho estalando os dedos.

No instante seguinte, o mundo ficou cheio de sons. O Alexandre podia ouvir os televisores ligados, as conversas, as crianças a brincar…

Sabem o que fez? Pegou no dominó e foi jogar com a Mariana.

Gian Danton


Quando os olhos da noite mudam de sítio

A Noite acordou. Ainda com os olhos ensonados, olhou pela janela para ver o tempo que fazia.

As nuvens grossas e cinzentas tapavam o céu, e a Lua, de tanto estar acordada, adormeceu profundamente.

Com aquele tempo, a Noite escolheu o vestido mais negro que tinha.

Sim, não julguem que a Noite é uma pobretana qualquer.

Se ela nos deixasse ver o seu guarda-roupa, ficaríamos deslumbrados com as variedades de tons negros dos seus vestidos.

Eu, que já lá entrei, vi, com uns olhos emprestados por uma candeia, os lindos vestidos que a Noite usava. Ao todo, eram sete e cada um tinha um tom negro diferente: negro-azulado, escuro-enluarado, breu-estrelado, preto-raiado de luz, enfarruscado-cinzento, pardo-madrugada e negro-sombrio.

Antes de sair de casa, a Noite foi ver-se ao espelho de um lago de águas serenas, para ver como lhe ficava o vestido. Mirou-se e remirou-se. Estava bonita. O vestido de negro-carvão assentava-lhe bem nos seus largos ombros arredondados. A Noite olhava e tornava a olhar para si e não se cansava de dizer baixinho:

— Que linda que sou! Que linda que sou!

Preparava-se para sair quando reparou que tinha um bocado de pó de nevoeiro colado ao umbigo. Pegou numa escova feita de pêlos de rajada de vento e escovou, escovou, até saírem as finas gotas de água que compunham o nevoeiro.

Mas, o que via ela agora? Dois buracos acesos que mais pareciam dois sóis pequeninos.

— Os meus olhos mudaram de sítio? — perguntou a si própria a Noite. — Deu a traça no meu vestido, foi o que foi! Tenho de comprar bolas de naftalina, para dar cabo desses bichos comedores de roupa! — disse a Noite muito aborrecida, por ter um vestido tão belo estragado.

Voltou a tirar o vestido para ver se ainda podia remendá-lo.

Grande surpresa a sua. Nem os olhos tinham mudado de sítio, nem a traça roera o vestido. Os pontinhos brilhantes eram, nem mais nem menos, os olhos de um menino assustado.

A Noite foi descendo, descendo, até entrar pelo vidro da janela de uma casa da cidade. Ao encontrar o menino de olhos abertos, perguntou com a sua voz silenciosa:

— Ainda estás acordado?

— Tenho medo da noite! — respondeu o menino, assustado e com os olhos cheios de lágrimas brilhantes.

— Medo de mim?! — insistiu a Noite.

— Sim, tenho medo de ti porque és medonha e é na escuridão que nascem os medos, os fantasmas, os papões e todos os bichos ruins. Quando tu vens, os sós ficam mais tristes e o teu silêncio dói muito.

— Olha que não. A cor negra é bela. É sim senhor! — afirmou a Noite. — É a primeira cor que conhecemos no princípio da vida. Lembras-te que cor havia quando estavas dentro da barriga da tua mãe? Eu lembro-me… ora deixa cá ver, era… era negra-negra. Dizem que, quando dormirmos o último sono, regressaremos ao ventre da mãe-terra e, aí, consta-se que é muito escuro. Eu ainda não sei se assim é, mas espero saber um dia. Já me viste com o meu vestido breu-estrelado? Se me vires bem, os teus olhos vão tomar banho num mar de estrelas brancas, amarelas e azuis. As estrelas, às vezes, vão de um lado para o outro e assistimos a uma chuva de riscos luminosos e ficamos todos molhados de luz.

E quando ponho o meu vestido negro-enluarado? As casas, as árvores e o mar não ficam da cor da  prata? Quando isso acontece, uma pedrinha da rua vale muito dinheiro porque é de prata fina. Já respiraste o silêncio da noite? Esse silêncio é uma nave espacial que te transporta, de mansinho, para o Planeta dos Sonhos. Nele, tu poderás ir aonde quiseres. Poderás visitar a Galáxia das Galinhas-com-Dentes ou dares mergulhos no Lago das Esmeraldas. E já reparaste que só com a minha serenidade consegues ouvir o riso das flores, a conversa dos teus brinquedos e a música do vento?

Aquela conversa continuou pela noite fora, o menino adormeceu no silêncio tranquilo da Noite e esta ficou feliz por poder usar o seu vestido negro-carvão sem buraquinhos de luz.

José Vaz

Quando os olhos da noite mudaram de sítio

Livraria Arnado, Coimbra


Uma nova casa

Uma nova casa

— Daqui a pouco vais voltar a sentir-te em casa — diz a professora, sentando Lisa ao lado de um rapaz de cabelo encaracolado.

Ele chama-se Ali.

— O Ali também está a habituar-se a nós. Ele é marroquino.

Lisa não consegue deixar de pensar no lugar vazio na sua antiga escola e tem de fazer um esforço para não começar a chorar.

Ainda bem que a professora não lhe pergunta nada e a deixa em paz toda a manhã.

Durante o caminho para casa sente medo e foge dali o mais depressa que pode. De repente, Ali aparece ao lado dela.

— Onde moras? — pergunta ele.

— Na Rua da Montanha, no prédio amarelo, no quinto andar.

Lisa aprendeu a morada de cor.

— Então somos vizinhos — diz Ali a rir-se.

Lisa não diz nada e Ali não se preocupa com isso.

Ao abrir a porta de casa, Bali, o gato, vem ao encontro dela. Começa a esfregar-se contra as pernas e a lamentar-se.

— Ele está a tentar habituar-se ao novo local — diz a mãe.

Traduzido e adaptado

Max Bolliger

30 Geschichten zum Verschenken

Lahr, Verlag Ernst Kaufmann, 1991


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Um farol só meu

Um farol só meu

Se vieres a minha casa, da janela do meu quarto verás o mar, a praia e muitos barcos de pesca. Um deles, o mais bonito, é o do meu papá. O meu papá é pescador. Quando regressa, traz sempre muito peixe, e a minha mamã apressa-se a ir vendê-lo.

— As pessoas gostam de peixe fresquinho — diz ela.

Na sala, debaixo do quadro com os nós, está a minha fotografia preferida: o papá, a mamã, e eu no meio.

Por vezes, o meu papá parte durante vários dias, quando o peixe está muito longe, e eu sonho com o mar.

Às vezes são sonhos feios em que o mar está mau, e o meu papá está sozinho no barco… Eu acordo com muito, muito medo.

Hoje foi uma dessas noites; fui a correr ter com a minha mamã e contei-lhe o meu sonho mau. Ela falou-me dos faróis, como eles ajudam os pescadores, e deu-me um livro para ver, com muitas imagens de faróis.

Eu acho que ela também tem medo. Passei muito tempo a ver todas aquelas imagens: faróis grandes, faróis pequenos, faróis coloridos… Vocês sabiam que há pessoas que vivem em faróis?

Eu gostava de viver num farol, para ajudar o meu papá a voltar para casa. Vou construir eu mesma um farol! O maior e mais alto farol do mundo! Pedirei ajuda aos meus brinquedos preferidos e vamos todos trazer de volta o meu papá.

Os brinquedos ficaram contentíssimos com a novidade, mesmo o Ronaldo, o meu preguiçoso pato amarelo.

Incansáveis, durante horas arrastámos e sobrepusemos os cubos de madeira que me foram dados pela tia Joaninha. Já estava tão alto que saía pela janela.

Subi… Subi… passei pelas nuvens, e continuei a subir até chegar perto da estrela mais brilhante, aquela que a mamã disse que era só para mim… Pedi-lhe para se sentar no meu colo e ajudar-me. Ela sentou-se, e ajudou-me.

Estava agora em cima do meu farol, com a minha estrela ao colo.

Por muito longe que estivesse o meu papá, por muito escuro que fosse… não poderia deixar de ver a minha luz, o farol que eu tinha construído só para ele.

Se hoje o meu papá chegar a casa, da janela do meu quarto verá o mar, a praia e muitos barcos de pesca… E o meu farol de amor.

Francisco Cunha

Um farol só meu

Porto, Ambar, 2004

Adaptação


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Tenho medo

Tenho medo

Quando estou com medo sinto-me como… uma gelatina a tremer num prato, um ratinho a tremer ao ver o gato, ou como se me tivesse aparecido uma aranha mesmo na frente do nariz.

Quando estou com medo… tapo os olhos com as mãos, enfio-me debaixo dos cobertores, escondo-me atrás do meu pai.

Há muitas coisas que me metem medo. Tenho medo de ir para o quarto sozinha… mas digo a mim própria para não ser parva; é claro que não está lá ninguém!

Tenho medo quando penso que há aranhas debaixo da cama. Mas qualquer aranha que encontre tem mais medo de mim!

Gosto de brincar às escondidas! E embora até dê saltos com os sustos que o meu pai me prega, quero brincar outra vez!

Tive mesmo medo no meu primeiro dia de escola… mas gostei tanto que nem queria ir para casa!

Da primeira vez que dormi em casa da Avó, tive medo. Mas a avó veio sentar-se ao pé de mim. Leu-me histórias até eu adormecer.

O meu irmão disse-me que o dentista era um horror e que eu não ia gostar nada, mas a dentista não me assustou nada. Até disse que eu tinha uns belos dentes!

Às vezes assusto-me quando vejo na televisão programas que me metem medo. Mas sei que é só a fingir!

Quando começo a ficar com medo… sinto-me melhor se cantar ou assobiar.

Sinto-me melhor se disser a mim própria para não ser parva, ou se fingir que sou uma valente super-mulher!

Sinto-me me melhor se falar com o meu ursinho, ou se me lembrar de que toda a gente às vezes tem medo, até mesmo os adultos!

O meu pai detesta andar na montanha russa. Diz que fica cheio de medo.

A minha mãe diz que tem medo de andar de avião. Prefere andar cá no chão.

Mas às vezes, quando temos medo… precisamos é de coragem!

E tu, o que é que fazes quando tens medo?

Brian Moses

Tenho medo

Lisboa, Editorial Caminho, 1994


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A grande viagem de Natália na noite branca

A grande viagem de Natália na noite branca

— Vamos, Natália! Para a cama!

“Oh, nããããão!”, pensou Natália. “Isso não!”

Caía a noite e Natália, a menina de quase sete anos, sentia o coração aos saltos. Como todas as noites, a inquietação e a dúvida deixavam-lhe o coração escuro como breu.

— Não gosto do escuro. Não gosto do escuro, não gosto do escuro — murmurava Natália, que todas as noites reclamava um grande copo de leite branco, dormia em lençóis brancos rodeada de bonecos brancos de pelúcia, com uma luz de presença. E, enquanto a noite ia descendo, Natália, com os olhos muito abertos e o coração escuro como breu, passava uma noite… totalmente branca, para fazer guerra à escuridão.

E Natália pensava: “O que se passa de noite enquanto durmo? E se um dia tudo parasse? Se o meu coração parasse de bater, se a terra decidisse meter-se debaixo do mar e tudo começasse a ir por água abaixo?”

Quando Natália fechava os olhos, sentia, bem no fundo de si mesma, aquele movimento de oscilação e de vertigem.

Então apressava-se a abri-los, pensando: “Se eu, Natália, conservar os olhos abertos, a Terra não deixará de girar.”

Uma noite, Natália ouviu um murmúrio, um sussurro, um rumor. Parecia um vestido de noiva todo branco.

— Natália — chamou uma voz muito suave. — Natália! Olha para mim.

Mas Natália não via nada… Nada a não ser o escuro, o branco das suas pelúcias, a luz de presença.

— Estou aqui… Sou eu, a Noite!

Natália arregalou os olhos. Um riso infinitamente doce ressoou nos seus ouvidos.

— Eu sou a Noite! Vim para fazer contigo uma pequena viagem. Vamos visitar juntas o mundo da Noite?

Natália, ao mesmo tempo maravilhada e receosa, deixou a Noite envolvê-la nos seus braços quentes e sentiu o corpo a ficar-lhe pesado. As pálpebras fecharam-se-lhe e ela elevou-se a seis mil pés acima da Terra! Era uma impressão bem estranha, porque, ao mesmo tempo que permanecia na cama, elevava-se nos ares, em cima do grande tapete voador na Noite.

Como a Terra era bela e serena vista do alto! Era luminosa e alegre como as bolas de uma árvore de Natal. No céu negro, Natália cruzou-se com um pequeno mercador de areia, que lançava às mãos cheias os seus grãos mágicos, gritando:

— Upa! Mais um para a cama! E upa! O pequeno Martim, para a cama! Upa! A pequena Helena!

Quando se cruzou com ele, Natália observou-o atentamente. O mercador olhou para Natália com os seus olhos brilhantes, agitando o pequeno punho com um ar interrogativo.

— Não, obrigada — disse a Noite. — Esta noite, estamos apenas de visita. Natália não vai dormir.

— Está bem — disse o pequeno mercador de areia, que prosseguiu com a sua tarefa: — E upa! Upa! Upa!

E ambas mergulharam mais profundamente na escuridão. Bem no fundo do céu, uma grande bola amarela tricotava, bocejando, um grande cachecol de noite. Ao lado dela, as pequenas estrelas saltitavam, rindo.

— Um pouco de silêncio! — resmungou a Lua. — É noite sobre a Terra! Um pouco de respeito por aqueles que estão a dormir!

— Esta lua parece-se com a minha avó — pensou Natália, que disse para consigo que a noite estava cheia de barulhos e de cores!

Viu um avião, depois um comboio, uma estrela cadente, um pequeno helicóptero da noite. Um pequeno marciano que tomava banhos de lua, mexendo os longos dedos dos pés, que pareciam feitos de borracha. Sobre um asteróide, um sábio penteava, suspirando, a sua barba branca de três quilómetros de comprimento, um carneiro observava uma rosa e sorria, ao mesmo tempo que uns homenzinhos azuis se dirigiam para a escola.

— Estás a ver tudo o que se passa enquanto dormes? A vida continua, mas é uma outra vida — disse-lhe a Noite.

Depois, começaram a aproximar-se da Terra, que parecia agora uma enorme bola sussurrante bem dependurada no céu. Ela respirava docemente durante o sono. De repente, um milhão de despertadores começaram a tocar ao mesmo tempo. Natália sobressaltou-se.

— Oh, são apenas os padeiros que se levantam para irem fazer o pão e os biscoitos de chocolate para as crianças.

E aproximando-se mais, viram centenas e centenas de crianças adormecidas, com um grande sorriso no rosto. Como era tranquila e feliz a expressão deles!…

— Os seus corações continuam a bater, é por isso que os lençóis se mexem. No seu corpo, o sangue continua a circular e até os olhos se movem debaixo das pálpebras, mas eles encontram-se no mundo dos sonhos. Nada se detém, tudo continua.

E a Noite olhou Natália bem nos olhos.

— Sabes que eu só durmo com um olho? A vida não pára durante o sono, toda a gente continua a respirar. Aliás — murmurou a Noite — se tu aguçares o ouvido quando estiveres na cama, podes ouvir o sussurrar da Noite. E até o murmúrio da Terra…

De regresso da sua viagem, Natália deu por si na sua cama, cheia de sono. Era bom pensar em todos aqueles que descansavam, e também naqueles que trabalhavam durante a noite, tranquilamente, suavemente, para o mundo poder avançar…

Depressa a noite se tornou tão agradável a Natália que ela dispensou a sua pequena luz de presença e os seus lençóis fluorescentes e tudo o que torna as noites brancas.

— Quero dormir no escuro. No escuro total — diz com convicção.

A mãe olha-a com olhos de espanto, perguntando-se o que se terá passado e porque terá Natália crescido tão de repente.

Natália, por sua vez, perguntou-se durante muito tempo se sonhara com aquela viagem com a Noite ou se ela existira realmente. Até ao dia em que deixou de se fazer essa pergunta. Porque o que contava agora é que ela adorava dormir…


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O macaquinho Bobô que não era tão bobo assim

O macaquinho Bobô que não era  tão bobo assim 

Os Bonobôs eram grandes macacos espertos, de rosto inteligente e olhos brilhantes. Aliás, de tanto ouvirem dizer que eram finos como macacos, os Bonobôs achavam-se todos engenhosos e sobredotados. Todos, excepto Bobô. Bobô era um pouco mais pequeno do que os outros, caminhava de cabeça baixa e não era lá muito bem sucedido na escola dos macacos. Talvez por estar muitas vezes com a cabeça na Lua.

Os colegas troçavam dele porque Bobô não sabia responder às perguntas mais simples, tais como: “Qual é o modo de locomoção mais rápido na floresta?” Ou então: “Quanto é duas bananas mais duas?”

De tanto ouvir dizer que era bobo e que não sabia nada, Bobô tinha-se tornado fraco a tudo. É, aliás, o que muitas vezes acontece. Ele lia nos olhos dos outros: “És bobo, és bobo! Mostra lá que és bobo!” E, como era obediente, fazia-lhes a vontade. Se tivesse lido nos olhos dos macacos, por exemplo, “Oh, como és forte!”, tudo seria totalmente diferente.

Quando alguém lhe fazia uma pergunta, Bobô lia a troça nos olhos dos outros, e sentia subir dentro dele uma onda de pânico. E uma vozinha estridente, vinda não se sabe de onde, gritava-lhe ao ouvido: “És um zero! Não sabes nada! És um zero! Não sabes nada!” Ficava tão perturbado, que por vezes até caía abaixo do coqueiro.

Quando voltava a empoleirar-se e ficava diante do Professor, baixava os olhos, baixava a cauda e não respondia nada. Então, ouvia-se o ataque de riso dos Bonobôs, todos em coro: “Ah, ah, ah! Ih, ih, ih”, que lhe perfurava os tímpanos e o coração.

E Bobô fugia, de liana em liana. O seu refúgio era no cocuruto da mais alta bananeira da savana. Segundo diziam, aquela bananeira tinha, no mínimo, cento e dez anos, e estava tão velha e tão seca que já não dava uma única banana. As próprias folhas estalavam como se fossem papiros. Bobô era o único que lhe ligava e a velha bananeira era a única que conhecia o segredo do pequeno macaco.

No cimo da árvore, Bobô tinha os seus pincéis, as suas tintas, as suas folhas de bananeira, o seu universo de pequeno pintor. E Bobô pintava, pintava. Quando desenhava, Bobô não ouvia a vozinha estridente que lhe perfurava os ouvidos: “Não vais ser capaz! És um zero! És um zero à esquerda!”. Mais nada a não ser a admiração da velha bananeira e o vento que sussurrava: “É tão bonito!”. Era bonito, mas era triste. Os seus quadros chamavam-se: Dia de cólera, Tufão devastador, Restos de arbusto, Angústia na savana , A multiplicação dos piolhos, A teoria da banana podre. Todos estes quadros existiam já na cabeça de Bobô antes de ele pensar em pintá-los. Enquanto pintava, Bobô respirava melhor. O peito dilatava-se-lhe. Tinha até a impressão de que podia voar como os pássaros. Como era bom desaparecer na natureza! Mas quando Bobô descia, os gritos estridentes dos outros macacos travessos voltavam a dilacerar-lhe os tímpanos. E, em dois segundos, era de novo Bobô, o bobo.

Bobô não se atrevia, é claro, a mostrar aos outros as suas obras. Troçariam ainda mais dele, fariam toda a chacota possível, e, assim, Bobô morreria de vergonha.

Um dia, como habitualmente na mudança das estações, o vento, que era tão travesso como um macaco, pôs-se a fazer das suas. Enfiou-se por entre as folhas da velha bananeira e fez cair, uma a uma, todas as pinturas de Bobô.

Bobô, que estava na escola a aturar a chacota dos outros, viu, uma a uma, as suas telas caírem da velha árvore… Angústia da banana podre, Tristeza na savana… Bobô julgou que ia morrer. Morrer de vergonha. Ficou de olhos fechados à espera da risota dos outros. Mas não ouvia nada. Quando voltou a abri-los, viu um espectáculo incrível: todos os macacos, pendurados pela cauda, contemplavam em silêncio os seus quadros. E nos olhos deles havia tristeza, raiva, suspiros: todos os sentimentos que Bobô tinha pintado se reflectiam agora nos olhos dos Bonobôs.

–– Foste tu que pintaste tudo isto? – perguntou o Professor, meneando a cabeça

–– Sim –– respondeu Bobô, que começou de novo a respirar bem.

Bobô sentia-se tão feliz que trepou de imediato para a sua velha bananeira e pintou Respiração, Dia de felicidade , Aroma de banana fresca.

E os quadros ficaram ainda mais belos do que antes. Decerto, porque fora nos olhos dos outros que ele tinha lido que os seus quadros eram belos.

“Quanto mais nos disserem que somos capazes, mais capazes seremos, de facto”, pensou Bobô, que estava longe de ser bobo.

Hoje, Bobô é o pequeno macaco mais importante da savana. Faz retratos por encomenda, e vêm macacos de muito longe frequentar os seus cursos de pintura.

Bobô nunca troça de ninguém. Porque sabe que cada um dos pequenos macacos tem uma determinada qualidade. Alguns são muito dotados na escola, outros são ases em futebol, outros têm jeito para desprenderem lianas, outros ainda são óptimos vendedores de bananas.

A mais feliz é a velha bananeira. Ela, a quem todos censuravam por já não dar uma única banana, começou a oferecer os mais belos tesouros do mundo! “Estão a ver, sou velha, chamam-me inútil… mais ou menos como Bobô. Mas guardo outros tesouros dentro de mim…”


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O menino sol que nunca queria ir dormir

O menino sol que nunca queria ir dormir

Há muito, muito tempo, há milhões de anos atrás, não existia nada à face da terra… Nada de nada! Nem mesmo pessoas ou animais. Em contrapartida, o céu já era habitado: o Sol, a Lua, as estrelas… Já lá estavam todos. Naqueles tempos, eram ainda muito novos, caprichosos, malucos e, por vezes, mal-educados. Sobretudo o Sol! Passava o tempo a passear os seus raios novos e ofuscantes, todo orgulhoso por ser o mais luminoso, o mais cintilante! Aborrecia toda a gente com os seus raios, o seu calor e a sua luz.

— Pára de brilhar! Fazes-nos mal aos olhos! — diziam as nuvens.

— Apaguem-no! Não consigo fechar os olhos! — resmungava a Lua.

— Ah, estes jovens! Julgam que podem fazer tudo! — protestavam as estrelas mais velhas.

— Nunca estás quieto? — suspirava a Terra, extenuada.

— É sempre de dia! Nem podemos fechar os olhos! — diziam as pequenas estrelas, que, como todas as crianças, precisavam de dormir.

Todos os habitantes do Céu, cansadíssimos, irritados, tristonhos, começaram a pensar no que fazer ao menino Sol para ele brilhar menos: fechá-lo num armário escuro, pôr-lhe graxa preta…

— Isto não pode continuar! — trovejava a Trovoada. — Temos de encontrar uma solução.

E teve logo uma ideia, que contou à Lua e às estrelas.

A Trovoada teve então uma conversa com o menino Sol.

— Solzinho, tivemos uma ideia. Vais brilhar entre nós algumas horas e, depois, ala!… vais brilhar para o outro lado da Terra. Assim, fazes algumas horas connosco e algumas horas com o outro lado. Enquanto lá estiveres, eles divertem-se e nós dormimos. E enquanto estiveres entre nós, são eles a descansar. Assim, não precisas de parar e toda a gente ficará satisfeita!

O menino Sol saltou de alegria face à ideia de ter duas casas e, sobretudo, amigos em todo o lado.

A partir daí passou a haver noite na terra, para grande felicidade dos seus habitantes, que podem assim repousar. Foi nessa altura, aliás, que os homens apareceram, dizendo que, com um pouco de Sol durante o dia e um pouco de escuro à noite, a vida seria bem agradável na Terra.

Sabe-se que, à noite, o Sol nunca chega a desaparecer totalmente, mas que está simplesmente do outro lado da Terra, a viver a sua segunda vida, na sua segunda casa, à espera de voltar. É por isso que nunca se deve ter medo do escuro.


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A ratita Tita

A ratita Tita

Tita, a ratita, tem mãos de fada. Ela faz maravilhosas roupas a partir de quase nada. Mas, agora, já todos os ratinhos das redondezas estão servidos com as roupas que precisam. Por isso, Tita ficou sem trabalho.

— Tenho de ganhar a vida! — exclama ela, muito preocupada.

Então, resolve percorrer o campo, em busca de novos clientes. Enfrentando vento, chuva e neve, ela bate de porta em porta.

Que pouca sorte! Nenhum ratinho precisa de roupa nova.

— Tu fizeste-nos um formidável guarda-roupa, no ano passado. Ainda serve perfeitamente para passar outro Inverno.

— Porque é que só fazes roupas para ratinhos? — pergunta-lhe Heitor, o senhor toupeira.— Porque não fazes roupas para os outros animais?

Tita suspira profundamente. — Porque todos os outros animais são demasiado grandes para mim. Além disso, alguns vivem lá no alto das árvores e outros escondidos nas profundezas do solo… E nem vale a pena falar dos que metem medo.

No dia seguinte, a pequena ratita, amargurada, olha a sua máquina de costura, parada, e as suas agulhas de tricô, paradas, quando Heitor, o senhor toupeira, bate à porta.

— Encontrei a solução — diz, todo contente, o Heitor. — Apresento-te o meu amigo Samuel, o esquilo. Ele precisa de uma bela camisola quentinha. Podes subir para as minhas costas e, assim, tirar-lhe as medidas.

— Excelente ideia!

Tita sobe para as costas de Heitor e daí ela estende a sua fita métrica dum ombro ao outro do Samuel.

Depois começa a trabalhar. O tlac-tlac das suas agulhas pode ouvir-se durante toda a noite.

No dia seguite, Samuel exprimenta a sua nova camisola, cheio de orgulho. Tomás, o texugo, que anda por ali a passear, dirige-se para eles.

— Isso é o que eu chamo um cobertor portátil. Mas para mim gostava mais de um casaco…

Então, Tita trepa pelas costas de Heitor e Samuel, como se trepasse pelos degraus de uma escada, e consegue tirar as medidas do texugo.

— Ai! Ai! — queixa-se o texugo gordinho.— Pára de me empurrar.

— E tu, pára de te mexeres — ordena a Tita, com a boca cheia de alfinetes.

Tomás, o texugo, veste, agora, o mais espantoso casaco da floresta. E, todo vaidoso, não se cansa de o exibir para os seus amigos.

Até o lobo parece gostar do casaco… lá de longe.

— Bom trabalho — diz Paulino, o pica-pau, espreitando pelo seu buraco no tronco da árvore. — Se não tivesse as minhas patas tão frias, até vos batia palmas.

— Então encomenda-me um par de luvas — diz a Tita.

— És capaz de mas fazer? — pergunta Paulino, ansioso.

— Claro que sim! Desce daí…

— Não! Não posso descer. Estou habituado às alturas e, quando pouso no chão, fico logo enjoado!

A pequena ratita reúne a sua equipa. Ela trepa pelas costas do Tomás, depois para as do Samuel e, por fim, para as do Heitor, e daí consegue tirar as medidas às patas do pica-pau.

— Então e eu? — pergunta Moniz, o mocho. — Estou a precisar de um novo cachecol, antes que cheguem as noites frias de Inverno. Podeis chamar-me preguiçoso por não me apetecer voar até aí, mas durante o dia tenho de dormir.

— Deixa-te ficar aí! — diz a Tita. — Eu trato de tudo.

Paulino dá impulso à ratita e, assim, ela consegue chegar até ao ramo onde se encontra Moniz, o mocho, a quem pode, então, tirar as medidas.

Agora, a Tita está cheia de trabalho. A sua lista de clientes não pára de crescer. Toda a gente precisa de novas roupas. Até a doninha sonha com um vestido. O rato do campo encomenda um gorro. O tentilhão pede umas meias.

E todos os coelhinhos suspiram por umas calças jardineiras.

Tita trabalha dia e noite. Não lhe sobra um minuto. Ela abre a boca de sono a cada movimento da agulha e acaba por adormecer por entre as roupas.

Castro, o castor, encomenda um par de pijamas quentinhos.

Tita tem de ter muito cuidado para chegar à toca do castor, pois tropeça a cada passo, por causa do sono.

Com cuidado, o pica-pau Paulino estende-lhe um raminho para ela poder segurar-se.

De modo a que o castor Castro ande sempre quentinho e seco, Tita faz-lhe pijamas impermeáveis.

Mas o maior desafio é apresentado pela vaca Lili.

— Eu queria um robe confortável — diz ela —, com grandes botões.

Com a ajuda de Heitor, Samuel e Tomás,Tita sobe para as costas da vaca.

— Como vou medir à volta desta grande barriga? — interroga-se Tita.

— Vamos usar uma corda — diz o Heitor. — A Lili segura uma ponta da corda com os dentes e o mocho Moniz pode voar e puxar a outra ponta.

Mas, azar! A Lili não consegue parar de ruminar e larga a corda.Tita fica a balouçar, pendurada na corda.

Pouco tempo depois, já a vaca Lili pode apresentar-se no prado com o mais elegante robe que alguma vez os animais viram.

Certa manhã, o Heitor, preocupado, vai ter com a Tita.

— Falta-te fazer uma última peça de roupa — diz ele. — É do Lopo, o lobo!

— É impossível! — exclama a Tita.— Ele ainda me comia!

— O Lopo precisa desesperadamente dum chapéu. Se recusares fazer-lho, ele zanga-se e, então, é que te come mesmo!

Heitor tem razão. Por isso, a Tita vai ter com o lobo.

— Vossa Excelência deixa-me tirar-lhe as medidas sem me dar uma dentada? — pergunta ela.

Lopo acena logo que sim com a cabeça. Ele quer um chapéu confortável, não uma ratita com medo.

Embora a Tita não se sinta lá muito segura, ela acaba por ir chamar a sua equipa.

A tremer como varas verdes, o senhor toupeira, o esquilo e o texugo deixam-na subir pelas suas costas. O lobo mete tanto medo! Os dentes da Tita rangem à medida que ela trepa ao longo do seu perigoso focinho.

“Se ele tentar comer-me, espeto-lhe a agulha!”, pensa para os seus botões.

O lobo observa Tita com um brilho assustador no olhar enquanto ela lhe tira as medidas.

“Se não paro de tremer”, pensa ela, preocupada, “o chapéu vai sair com as medidas erradas e ele vai ficar furioso.”

A ratita nunca trabalhou em tão difíceis condições!

Finalmente, o chapéu está pronto.

— Deixa-me vê-lo! — diz o lobo, abrindo de tal forma a boca que ela pode ver-lhe os enormes dentes.

O lobo exprimenta, então, o chapéu, mas logo o tira da cabeça.

— Oh não! Ele não gosta do chapéu! — diz a Tita, receando a fúria do lobo.

Mas, para sua surpresa, o lobo inclina-se e faz uma vénia. — Os meus parabéns, ratita! — diz o lobo repeitosamente. — De agora em diante, serás a minha chapeleira exclusiva!

Os seus amigos rodeiam-na, suspirando de alívio.

Que grande sorte! Graças às suas pequeninas mãos de fada, a ratita Tita ganhou um grande admirador… com um sorriso assustador.

Nadine Walter
A ratita Tita
Maia, Edições Nova Gaia, 2004


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O sono e o sonho

O Sono e o Sonho

A noite tem dois filhos: um chamado Sono e o outro chamado Sonho. Gosta, quando o tempo está frio, de os agasalhar debaixo do manto de veludo negro que, umas vezes, enfeita com estrelas brilhantes e, outras, com nuvens carrancudas.

O Sono e o Sonho, como todos os irmãos, têm as suas brigas e aborrecimentos. E porquê? Ora, por tantas razões! Mas a principal é esta: é que o Sono gosta de dormir a bom dormir e o Sonho tem o hábito de aparecer pelo meio a meter-lhe fantasias na cabeça.

Quando isso acontece, a mãe, que gosta que a tratem apenas por Noite, sem dona nem senhora atrás do nome, aparece, faz uma festa na cabeça de cada um, dá razão aos dois e depois aconselha:

— Agora vamos dormir, porque amanhã é dia de trabalho.

De quem os dois irmãos não gostam nada é de um primo que têm chamado Pesadelo, porque é feio, irritante, e tem o costume de contar histórias de arrepiar, que deixam os dois muito trémulos debaixo do manto da Noite.

Um dia destes, o Sono e o Sonho decidiram pregar uma partida ao primo Pesadelo. Sabem como? Fingiram que estavam a dormir muito descansados e deixaram-no aproximar-se. Quando ele se preparava para lhes contar uma daquelas histórias de pôr os cabelos em pé, saltaram os dois da cama com lençóis brancos na cabeça, mascarados de fantasmas, e pregaram um tremendo susto ao primo mal-encarado, que passou muitos meses sem aparecer.

Nesse dia, a Noite cobriu-se com o seu manto de estrelas brilhantes e dormiu até de manhã com os dois filhos enroscados e felizes a seu lado.

José Jorge Letria

Histórias do Sono e do Sonho

Editorial Desabrochar, 1990


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Boa noite, Tita

Boa noite, Tita

Estava na hora de Tita ir para a cama e, depois do Avô lhe ler uma história, ela aninhou-se debaixo da sua colcha fofinha. Mas, por muito que andasse às voltas na cama, que se mexesse e voltasse a mexer, que resmungasse e refilasse, não conseguia adormecer.
— Avô! — chamou ela — Tenho medo!
O Avô foi logo a correr ao quarto de Tita para ver o que se passava.
— Não consigo adormecer, Avô! — disse Tita. — Está escuro e lá fora há barulhos que metem medo!
— Não precisas de ter medo, Tita! — sorriu o Avô, fazendo-lhe uma festinha. — O escuro não faz mal a ninguém! Na cama estás protegida e muito quentinha — e, tendo dito isto, voltou a sair do quarto.
Mas, nesse momento, deve ter vindo uma rabanada de vento, pois ouviu-se um barulhento TUM TUM TUM! na janela. Tita deu um salto.
— Avô! — chamou.
Num instante, o Avô apareceu outra vez à porta:
— Que “tum tum tum!” foi este, Avô? — perguntou Tita.
Então o Avô levou Tita à janela e mostrou-lhe o que estava lá fora.
— Olha! — disse Tita. — Afinal o barulho foi só o vento a empurrar o ramo da árvore contra a janela!
E nessa altura, ouviu-se outro som.
Era um HU HU, que se ouvia ao longe. Então, Tita ficou mesmo cheia de medo!
— Não sabes qual é a ave que pia assim, Tita? — perguntou o Avô.
— É a coruja? — perguntou Tita.
— Sim! — exclamou o avô. — Todas as noites a Mãe Coruja sai do ninho para voar pelos campos fora.
Nessa altura ouviu-se outro som.
Era um AU AU AU!
— Conheço este som — disse Tita. — É um cão!
Os barulhos já não eram assustadores, quando se sabia o que eram.
— Não, Tita — disse o Avô. — Isso não é um cão. À noite, os cães dormem. Mas as raposas fazem um som parecido com o dos cães. A raposa sai da toca todas as noites e anda pelos campos. Mas estás em segurança, Tita. Nenhuma raposa vai entrar cá em casa.
— Vamos prestar atenção a ver se ouvimos mais barulhos — disse Tita, e o Avô concordou.
Dentro em pouco, ouviram um valente SPLÁS! que vinha do regato que passa perto da horta.
— Aquilo é um pássaro? — perguntou Tita.
— Oh, não, Tita — disse o Avô. — Quase todos os pássaros estão a dormir, durante a noite. Aquilo é uma lontra. Ela sai da toca dela, todas as noites, e mergulha no ribeiro para tomar uma banhoca.
Agora, Tita já estava a gostar de ouvir os barulhos da noite, mas sentia-se cansada. No entanto, prestou muita atenção e ouviu um TRUC TRUC TRUC! Que vinha da beira da floresta.
— São coelhos? — perguntou ela, a abrir a boca, cheia de sono.
— Ah, não, Tita! — disse o Avô. — Os coelhos abrigam-se nas tocas durante a noite. Aquilo são outros bichos que andam de noite. São texugos. Se olhares muito bem, consegues vê-los, junto à horta.
Tita olhou para os texugos e em seguida voltou para a cama.
Agora, que já sabia o que eram os barulhos, não tinha medo deles.
— Obrigada por teres vindo, Avô! — disse ela.
O Avô fechou a janela e sorriu.
— Está bem, Tita — disse ele. — Não quero que tenhas medo; por isso não te vai acontecer mal nenhum quando eu estiver contigo.
Mas, quando o Avô se inclinou para lhe dar um chi-coração e um beijo de boa noite, o que acham que ele viu?
Ora, viu Tita, muito sossegadinha, a dormir como uma pedra.
— Boa noite, Tita! — disse o Avô. — Dorme bem!
E sabem que mais? Foi exactamente isso que a Tita fez: dormiu a noite toda, sem medo nenhum!

Dugald Steer
Boa noite, Tita
Porto, Ambar, 2004

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