Histórias para os mais pequeninos

… e para os menos pequeninos …


Evita roer as unhas – J. J. Letria

Não posso voltar a fazer estas asneiras…

Evita roer as unhas

Evita roer as unhas,
que ficas com dedos feios
e as unhas onde as punhas,
espalhadas pelos passeios ?

Evita roer as unhas
que te podem fazer mal,
andam sujas, carcomidas,
como folhas de um jornal.

Evita roer as unhas
porque não sabem a nada
e as unhas onde as punhas,
numa gaveta fechada?

Evita roer as unhas,
pois não és um roedor,
deixa-as crescer à vontade,
faz-lhes lá esse favor.

Evita roer as unhas
porque não te fica bem;
sem as unhas não te coças
e coçar sabe tão bem.

José Jorge Letria
Porta-te bem!
Porto, Ambar, 2003


As preocupações do Billy

As preocupações do Billy

Billy costumava andar preocupado.

O Billy preocupava-se com muitas coisas…

Preocupava-se com chapéus, e preocupava-se com sapatos.

O Billy preocupava-se com nuvens, e chuva e pássaros gigantes.

O pai tentava ajudar:

— Não te preocupes, rapaz — disse ele. — Nenhuma dessas coisas pode acontecer. É tudo imaginação tua.

A mãe também tentava ajudar.

— Não te preocupes, querido — dizia ela. — Nós não deixamos que nada te magoe.

Mas mesmo assim o Billy continuava preocupado.

A sua maior preocupação era ficar em casa de outras pessoas.

Uma noite, teve de ficar com a avó. Mas o Billy não conseguia dormir. Estava muito preocupado.

Sentiu-se um pouco idiota, mas por fim levantou-se e foi contar à avó.

— Que grande imaginação, querido — disse ela. — Quando eu tinha a tua idade também me preocupava. Tenho uma coisa para ti.

A avó foi ao quarto e voltou com uma coisa nas mãos.

— Estes são os bonecos das preocupações — explicou ela enquanto lhe mostrava uns bonequinhos coloridos do tamanho do dedo mindinho feitos de tecido. — Diz a cada um deles uma das tuas preocupações e põe-os debaixo da almofada. Eles preocupam-se por ti enquanto dormes.

O Billy contou todas as preocupações aos bonecos das preocupações.

E dormiu como um anjo.

Na manhã seguinte, o Billy foi para casa. Nessa noite, ele contou novamente todas as suas preocupações aos bonecos.

E dormiu como uma pedra.

Mas na noite seguinte o Billy começou a preocupar-se.

Ele não conseguia parar de pensar nos bonecos. Todas aquelas preocupações que ele lhes tinha dado…

Não lhe parecia justo.

No dia seguinte, o Billy teve uma ideia. Passou o dia a trabalhar na mesa da cozinha. Era um trabalho difícil e a princípio saía-lhe tudo mal e teve de recomeçar muitas vezes.

Mas por fim o Billy produziu algo muito especial…

Alguns bonecos das preocupações para os bonecos das preocupações.

Nessa noite, TODOS dormiram bem, o Billy e todos os bonecos das preocupações.

Anthony Browne
As preocupações do Billy
Lisboa, Kalandraka, 2006
adaptado


Ninguém gosta da lua!

Ninguém gosta da lua!

Naquela noite, a lua levantou-se mal disposta. Pôs as mãos na cintura e protestou:

— Chega! Já chega! Estou faaaaaarta!!!!

Choramingou tanto, tanto, que acabou por acordar a Noite, que dormia.

— Que algazarra! — disse a Noite escura bocejando. — Se continuas com isso, em vez de ajudares as crianças a adormecer, vais acabar por acordá-las! Mas não estejas triste! O teu trabalho é muito agradável: vês como vai o mundo e se as crianças se portam bem, deitadas nas suas caminhas.

A Lua baixou os olhos tristemente.

— Estou farta de que não gostem de mim. Quando ele nasce, toda a gente olha para o Sol! Mas quando tu desces o teu grande casaco azul e eu apareço…

— Sim, o que acontece? — perguntou a Noite, encolhendo os ombros.

— Acontece que nem me dizem boa noite!

A Noite aclarou a garganta.

— Talvez os adultos te esqueçam, mas quando chegas, as crianças, essas, recebem-te como se fosses uma princesa! Quando chegas, elas exclamam: “Olha, é a Lua!”

— Oooooh…. — suspirou a Lua, que, decididamente, naquela noite não tinha vontade de brilhar. — Nos dias em que estou bem cheia, elas até me confundem com… com um candeeiro!

E a Lua continuava a choramingar.

— Ninguém sabe o quanto eu trabalho… As próprias crianças pensam que não sirvo para nada. Quando me desenham, é sempre ao cantinho da folha, e a dormir! Mas eu nunca durmo! Olho por elas enquanto dormem. Às vezes até lhes faço uma festinha, mas elas só sentem uma comichãozinha na testa e não imaginam que sou eu!

A Noite ouvia atentamente.

— Também a mim me vêem sempre a dormir. Diz-se “Nasce o dia ” e “Cai a noite”, como se eu caísse em cima do mundo. Mas não é verdade! Sou muitíssimo útil. Sem mim, as pessoas esgotariam as forças a correr ao longo do dia, sem parar nem um segundo. Graças a mim (e a Noite inchou o peito), as pessoas recuperam energia durante a noite e podem tornar a brincar no dia seguinte!

— Não há ninguém como eu — realçou a Lua — para fazer crescer as flores, as sementes e também as crianças! Eu protejo-as, embalo-as, e é durante o sono que elas crescem.

A Noite prosseguiu:

— É verdade. Nada pára durante a noite. Tudo continua, mas mais baixinho. O sangue que circula nas veias, as flores que continuam a respirar, as borboletas que batem as asas…

A Lua abanou a sua grande cabeça redonda.

— Por que é que as crianças protestam no momento de irem para a cama? Fico tão triste! Por vezes, ouço-as dizer: “Não, mamã! Não quero ir para a cama!”

A Lua calou-se e a Noite calou-se também. Ambas sonhavam com um dia próximo, em que as crianças as desenhassem bem no meio da folha e diriam: “Que bom! São horas de ir para a cama! Depressa, mamã! Quero ouvir a minha amiga Lua a cantar-me uma canção de embalar…”

E a Lua e a Noite sorriam no grande céu azul, pensando nesse dia feliz em que as crianças iriam saborear a doçura da Noite e o calor da Lua.


O pequeno vampiro apaixonado

O pequeno vampiro apaixonado

Numa noite de lua cheia, ao sair para o escuro, como sempre fazia para não ser visto, o pequeno vampiro encontrou uma menina vestida de cor-de-rosa a sair de uma casa. Era noite de Natal. A menina tinha os olhos radiantes de felicidade como todas as crianças naquela noite. Trazia o seu mais belo vestido, cor-de-rosa com folhos, e estava a dançar no passeio. O pequeno vampiro tinha os dentes pontiagudos, a pele macilenta e um rosto triste, e ali ficou, de olhos arregalados, a admirar a alegria dela.

Desde o primeiro momento em que a vira, o pequeno vampiro não parava de suspirar. Era uma dor de alma. Queria voltar a vê-la. Não para lhe fazer mal. Apenas para lhe dar um beijinho no pescoço, um beijinho muito, muito pequenino. Mas o que pode esperar um vampiro negro de uma menina cor-de-rosa?

À noite, aproximava-se da casa de Rosina, assim se chamava ela, tentando voltar a vê-la. Mas só conseguia avistar uma menina a lavar os dentes, uns lindos dentinhos brancos como pérolas de nácar, a pentear-se ou a passar uma luva pela sua linda pele. Ou a dormir sorrindo, na sua cama cor-de-rosa. E o vampiro lembrava-se dos seus dentes compridos, da sua pele macilenta, das mãos recurvadas, e pensava: “Um pouco de cor-de-rosa no meu coração cinzento faria um rosa acinzentado que seria muito bonito.”

E escondia-se dentro da sua caixa escura, que é uma forma de os vampiros exprimirem a sua tristeza. As faces pareciam papel enrugado, os olhos reflectiam a tristeza que lhe ia na alma. Colocou um letreiro na caixa: “Desgosto de amor”.

A mãe dizia-lhe:

— Não te preocupes, meu bichaninho. Isto já sucedeu a outros: o príncipe e a pastora, o guardador de ovelhas e a princesa, o gato e a ratinha. Porque não um vampiro e uma menina?

— Oh! — suspirava ele. Como é triste estar-se apaixonado! Naquela noite, mais valia ter partido uma perna! Mexe com tudo cá dentro e não se pensa noutra coisa! Gostava tanto de estar com ela, de lhe falar, de lhe pegar nas mãozinhas rosadas, de a ouvir rir, de lhe ver o brilho dos olhos…

E ficava encostado às paredes do prédio, à noite, a espreitar pela janela, só para ver uma pontinha do tule rosa, o esboço de um sorriso, um pouco de céu azul.

E o pequeno vampiro sonhava, no seu cantinho de céu escuro. Um dia haviam de casar, ela vestida de branco, a menina cor-de-rosa, com os cabelos cheios de flores. Ele levaria um lindo fato creme, e os seus dentes seriam como pérolas. Mas, quando acordava, a vida era como antes. E dentro da sua caixa, dava largas à tristeza.

Tentou diferentes tácticas. Um dia pintou a cara de cor-de-rosa, outro dia escondeu os dedos em forma de garra numas luvas de pele de cordeiro. Fechou a boca a sete chaves para tapar os dois grandes caninos. Uma outra vez, pôs um nariz de palhaço no rosto macilento, mas ficava com um ar tão triste que até fazia chorar. Outro dia ainda, o pequeno vampiro aproximou-se um pouco mais da janela de Rosina. Foi terrível. Ela estava a ter um sonho mau. Chorava enquanto dormia, e gritava. Ele pensou: “É o momento de eu entrar em cena. De qualquer modo, nunca serei pior do que o pesadelo que está a ter”.

O pequeno vampiro entrou no quarto no preciso momento em que ela ia gritar “Mamã!”. Ao vê-lo, arregalou os olhos.

— O que estás aqui a fazer? — exclamou ela. — Como conseguiste entrar no meu quarto?

— Não tenhas medo — disse o pequeno vampiro a tremer. — Eu não faço mal a ninguém. Sou um vampiro simpático. Estou aqui para te ajudar. Não tires nem o dente de alho nem o crucifixo.

A menina desatou a rir às gargalhadas. Ria-se e de que maneira! Até as lágrimas lhe vieram aos olhos.

— O teu disfarce não serve de nada. Não és nenhum vampiro, és um rapaz!

O pequeno vampiro estava mesmo admirado. Em vez de gritar, ela ria-se e dizia que ele era como os outros!

— Eu conheço-te. Às vezes cruzo-me contigo na rua, ou então foi em sonhos, já te vi nalgum sítio — diz a menina. — Quando dizes que és um vampiro, estás enganado. Os vampiros são feios e tristes. Não têm olhos brilhantes como tu.

O pequeno vampiro sentiu que estava a ficar corado, uma mistura de rosa e cinzento. A menina fez uma careta quando ele lhe disse que tinha a cara cinzenta como papel enrugado, e fê-lo aproximar-se do espelho!

— Tens de te bronzear um bocadinho, meu caro, para ficares mais corado. Deve ser de estares fechado em casa, longe dos outros. Volta amanhã, que vamos brincar no jardim, ao sol.

O rapazinho viu, com grande espanto, a sua imagem no espelho.

Era a primeira vez.

— Julgava que os vampiros não podiam ver-se ao espelho.

— Às vezes — disse a menina — julgamos que somos vampiros, feios e cinzentos, mas é só impressão nossa.

E deu-lhe um beijo no nariz.

No dia seguinte, o rapazinho e a menina brincaram juntos no jardim. O pequeno vampiro adquiriu uma linda cor de pele, olhos brilhantes e cheios de luz. E os dentes, curiosamente, começaram a encolher, a encolher… Pareciam pérolas!

— Vês, eu bem te disse. Vês como tinha razão!

E riram-se juntos.

Assim acaba a história do menino que se julgava um vampiro feio. Ou, talvez, a de um vampiro verdadeiro, que se transformou num rapazinho só porque gostava de uma linda menina rosadinha.

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