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Como estragar um filho – regras básicas 11/12

Junho 18, 2009 por contadores.destorias

António Mazzi
Como estragar um filho em dez jogadas
Lisboa, Paulus Editora, 2006

(excertos adaptados)

Anterior: 9/10

11. Faça-lhe crer que a vida é um paraíso

É cada vez mais difícil para mim compreender o suicídio de Fran­cisco, um rapaz de dezoito anos, de Ostia, apesar da abundante do­cumentação. Deixo de lado, voluntariamente, tudo o que respeita à prepa­ração de vinte minutos de vídeo e às várias premeditações para que o suicídio fosse bem sucedido. Detenho-me porém, no segundo dos três motivos que deveriam justificar o gesto louco. Francisco escreve: “O primeiro motivo permanecerá um segredo pessoal que ninguém saberá jamais. O segundo é que quero parar de sofrer. O terceiro é que, uma vez que mais cedo ou mais tarde todos morrem, não tenho medo de antecipar este processo.”

Encontro no segundo a chave de leitura deste doloroso epi­sódio. Volto, por isso, a uma antiga tese minha, que reencontro cada vez mais nos jovens de hoje: a profunda fragilidade que apresentam face ao esforço de uma vida verdadeira, feita de der­rotas e de vitórias, de limitações, esperas e outras dificuldades normais… Os filhos crescem, sobretudo nos primeiros anos da infância, convencendo-se demasiado que a vida é um paraíso terrestre, feita mais de brinquedos que de dores, mais de caprichos que de deveres.

Criámo-los como se criam as plantas na estufa. Tudo estava bem enquanto os mecanismos da estufa produziam essa atmos­fera artificial que permitia aos nossos filhos sentirem-se bem, in­dependentemente do mérito e do esforço. Quando a adolescên­cia os convida a sair desta atmosfera superprotegida com desejo de liberdade e de autonomia, acontece de tudo. A frase mais perturbadora do último gesto da vida deste rapaz de dezoito anos resume‑se às duas palavras do segundo motivo: “Quero parar de sofrer”. Traduzida numa linguagem mais acessível e verdadeira, significa interpretar a vida de cada dia como um sofrimento insuportável.

Se não deixarmos depressa, nós, adultos, de cuidar dos nossos filhos como pequenas plantas de estufa, episódios como este du­plicarão, perante o nosso desconcerto e incredulidade. Esquecemos cada vez mais que a educação supõe o treino para o esforço, o apoio para enfrentar as derrotas, a paciência e o diálogo ininterrupto, a proposta de gestos solidários e a libertação de tudo quanto possa fazer interpretar a vida como uma peça de teatro, um folhetim ou uma simples telenovela.

12. Deixe-o colado à televisão toda a tarde

A delicada relação entre os menores e a televisão não é ape­nas um problema, é “o problema dos problemas”. Não sei se os mass media encantam mais os pais se os filhos. Muitas vezes não são os pais que, por falta de tempo e de pa­ciência, substituem a sua voz materna pela voz enfeitiçada da televisão? Os interesses comerciais, a instabilidade das relações dos pais, o fascínio pela fantasia e o abuso imoral da infância vergonho­samente transformada em objecto de especulação, levaram o fenómeno aos limites de uma histeria colectiva.

Os dados dizem que há 87 canais dedicados às crianças, que a difusão da televisão atingiu 70% das famílias e que os nossos filhos passam pelo menos quatro horas por dia colados ao seu ”ídolo”! Creio que a coisa mais sensata que nos resta fazer é criar uma mobilização massiva e inteligente da escola e da família para criar baluartes críticos e válidos contra este desvario generalizado. Como educador, gostaria de sublinhar dois dos perigos que podem afectar as crianças dominadas pelos multimédia. Primei­ro: a incapacidade, algum tempo depois, de distinguir à sua volta o real do virtual. Segundo: a espantosa sobrecarga de emoções incontidas e concentradas que explodem na sua psique frágil e ainda em processo de formação.

De modo mais cómodo para nós mas mais arriscado para eles, substituímos as indispensáveis fábulas e contos das nossas avós pelos desenhos animados e pelos espectáculos mais diversos e disparatados. Ver crescer pequenos homenzinhos e pequenas mulherzinhas a abarrotar de publicidade, de ficção, de videojogos é a pior des­graça que pode acontecer ao nosso país. Que diferença fará para a criança de cinco anos, imbecilizada pelo bombardeamento da televisão, matar o seu gato verdadeiro ou o seu gato de peluche? E ficamo-nos prudentemente pelos gatos!

Perfil do bom pai/mãe  (cont.)

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