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Leãozinho, o redondinho

Janeiro 23, 2008 por contadores.destorias

Leãozinho, o redondinho

Na família, ninguém lho tinha ainda dito, mas a verdade é que Leãozinho já era suficientemente crescido para se ver ao espelho e avaliar o que via. E Leãozinho via que estava um pouco redondinho. Num concurso de gorduchos, obteria sem dificuldade a medalha de ouro, com as felicitações do júri. Nos seus sonhos mais sombrios, Leãozinho imaginava-se, em calções, nos Jogos Olímpicos dos pesos pesados, a apalpar as suas oito pregas de barriga (tinha-as contado). Imaginava o júri, composto por gigantes, a entregar-lhe uma taça:

— O vencedor é… Leãozinho, o redondinho!

Começou a detestar-se, da raíz dos cabelos à ponta dos pés, passando pelo seu nome, que achava horrível. Quando se cruzava com um espelho, olhava-se bem de frente e punha a língua de fora. Olhos nos olhos, dizia coisas horríveis a si mesmo. Insultava-se, dizendo:

— Grande gordo! Miserável atarracado!

Quando se é um pouco gordo ou diferente dos outros, e quando sentimos tristeza por essa diferença, os outros tiram proveito disso. Os colegas de Leãozinho troçavam dele. No recreio, diziam-lhe:

— Corre, Leão, que te faz emagrecer!

Sabes bem que basta sermos um pouco diferentes (mais pequenos, mais altos, mais magros ou mais gordos) para que todos reparem em nós. O que Leão temia eram as aulas de ginástica, porque era preciso despir-se e pôr-se em calções. Mas de que ele tinha medo, acima de tudo, era do momento em que os capitães escolhiam as suas equipas de futebol. Era sempre o último a ser escolhido. Ele e Hugo, o magricelas de óculos, a quem chamavam “serpente com lentes”. Um gordo e um magro formam uma equipa estranha. Quando a professora dizia:

— Falta escolher o Leão e o Hugo. Quem escolhe o Leão? E quem escolhe o Hugo?

Hugo resmungava sempre porque, apesar de ser magro, sabia jogar. Leão ficava calado. Nem sequer lhe apetecia falar. Tinha riscado as palavras “gordo” e “magro” do seu vocabulário e corava sempre que falavam de alguém que fosse musculoso. Sentia-se complexado e, como os colegas sabiam isso, ainda o arreliavam mais. A sua vida tinha-se tornado um inferno! Por uma ou duas vezes quis deixar de almoçar. Mas, quando regressou a casa às quatro horas, devorou três quartos de uma baguette, barrada com manteiga de amendoim. À noite, dizia sempre que não tinha fome e ia deitar-se de barriga vazia. Mas, mesmo assim, não conseguia emagrecer! Tentou apertar os pneus da barriga com muita força, a ponto de sentir dores. Dizia para consigo: “À força de os apertar, acabarão por desaparecer.”

Um dia, a mãe encontrou-o a fazer isso. Sentiu um aperto no seu coração de mãe, e as lágrimas inundaram-lhe os olhos. Sentiam pena do filho, ela e o pai. Um sábado, este pegou num velho álbum de fotografias e mostrou-o ao filho:

— Olha só como eu era aos dezassete anos! Um autêntico magricela.

— Tinhas sorte! — suspirou Leãozinho.

O pai riu-se com gosto.

— Sorte? Era magro como um pepino. Até me chamavam “desajeitado” ou “Pepino, o fino”. Quantas vezes o ouvi! Sentia-me muito infeliz. Sonhava ter preguinhas na barrinha e músculos por todo o lado. Dizia para comigo mesmo: “Os mais fortes são os mais rechonchudos”.

Leão começou a rir. O pai continuou:

— Comi e fartei-me de comer até ficar doente. Mas continuei a ser “Pepino, o fino”. Um dia pensei que não estava certo que fossem os outros a decidir se eu era demasiado pequeno ou demasiado magro. Sentia-me bem com o meu corpo. Se fosse como tu, filho, pensaria que sou bem constituído. Nunca diria “Sou o mais gordo”, mas antes “Sou o mais forte”. Mete isso na tua cabeça e vais ver que todos te vão querer na sua equipa. Aliás, se jogarem ao braço de ferro, aposto que és tu que ganhas.

Leão ouviu o pai com atenção. Os outros que dissessem o que quisessem, mas ele não se insultaria mais diante do espelho. Voltou a brincar e a rir. Agora pensava: “É verdade que sou bem forte!” Os colegas deixaram de fazer troça dele. E sabes que mais? Tornou-se campeão de futebol!

* 

 

Desde muito cedo que as crianças têm necessidade de medir forças, de fazer parte de um grupo. Desde o infantário que vivem no contexto de uma certa norma social. Querem sapatilhas de marca, T-shirts de uma dada cor, os cadernos de uma certa papelaria… Cedo começam a depender do olhar do outro, o que torna as diferenças físicas ainda mais visíveis e sujeitas a críticas: “Olha mamã, aquele menino não cresceu!”

As crianças têm também um sexto sentido para saber o que magoa o outro. Quando vêem que as suas “flechas” atingem o alvo, aumentam os “ataques” e o número de “atacantes”. É assim que se fabricam os bodes expiatórios e as vítimas.

Somos todos diferentes. Alguns têm orelhas de abanico, outros têm dentes de coelho, outros ainda metem os joelhos para dentro. Mas o corpo transforma-se ao longo da vida, o pato transforma-se em cisne, a lagarta em borboleta.

Às vezes, a diferença é demasiado óbvia e os outros tiram partido dela. Quanto mais a diferença é visível, mais nos tornamos alvo de troça. É fácil, demasiado fácil.

Com frequência, as crianças que não se sentem suficientemente fortes ou suficientemente amadas juntam-se para fazerem troça de uma outra. É uma forma de sentirem que fazem parte de um grupo. Não é pessoal, embora a criança que é alvo desse grupo o sinta profundamente.

Diga ao seu filho que se trata de uma situação temporária, que na idade dele passou por episódios semelhantes. Diga-lhe que pense de forma positiva, que não preste demasiada atenção aos que os outros dizem dele. Se deixar de se mostrar afectado, os outros deixarão de o apoquentar.

Publicado em casa, complexos, comportamentos, crianças, diferença, diálogo, educação, escola, família, histórias com animais, infantário, medos infantis, mudança, pais e educadores, pedagogia, psicologia | Sem comentários ainda

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