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As duas casas de Josefa

Janeiro 23, 2008 por contadores.destorias

As duas casas de Josefa

A campainha da escola já tocou. Começaram as férias. No recreio, Manuela, Carolina e Josefa falam do Verão que se avizinha. Qual delas irá ter as melhores férias? Quem irá ter a casa mais bonita?

— Este ano vou para a Bretanha — disse a Manuela. — Vamos andar de barco, e talvez façamos esqui náutico.

— Este ano passamos o Verão no sul de França − conta Carolina.

Josefa fica calada. Este ano, pela primeira vez, irá passar o Verão entre duas casas: a da mãe e a do pai.

A mãe decidira:

— Como o pai e eu já não nos entendemos e estamos sempre a discutir, irás passar este Verão em duas casas diferentes: a casa azul, do teu pai, e a casa amarela, a nossa.

A mãe acariciou docemente os cabelos de Josefa.

— Vou confessar-te uma coisa: apaixonei-me. Encontrei uma pessoa de quem gosto muito.

Josefa suspira e sonha. No ano anterior também ela podia dizer “Vamos. Vamos os três a Itália, a Roma.” Mas, este ano, tudo mudou.

Na casa amarela, cheia de sol, haverá risos e luz, paredes brancas, frescas e grandes, e pás em metal vermelho. E na casa azul? Um pai triste, livros, barcos, e vendedores de sonhos para ajudar a esquecer a mãe. Quando pensa nisso, Josefa fica com o coração pesado.

Carolina acorda-a do seu sonho.

— E tu, Josefa? O que vais fazer este ano?

Josefa sorri.

— Eu? Eu tenho muita sorte! Este ano vou passar as férias em duas casas. Primeiro, vou passar uns dias na casa azul, junto ao mar, na Grécia. Depois, apanho o avião e vou para a casa amarela, onde vive a minha mãe, que está de novo apaixonada. Vou conhecer uma nova amiga: a filha do namorado da minha mãe.

— Duas casas de férias! Dois aviões! Uma nova amiga! Tens muita sorte!

— Lá isso tenho — disse Josefa num tom de voz importante. — E sabem porque tenho ainda mais sorte? Porque faço coisas diferentes com cada um deles. Com a minha mãe, faço escalada, ando de bicicleta, e caço borboletas. Com o meu pai, ando de barco e faço canoagem. O meu pai é um verdadeiro marinheiro.

— Tens mesmo sorte! A Josefa é quem tem mais sorte! — decretou a Carolina.

Josefa sorri. De facto, por que razão não seria ela a mais feliz?

Sonha então com a casa azul e com a casa amarela. E com as duas juntas. Josefa pensa que se misturarmos azul e amarelo ficamos com verde. Verde como a esperança. Ninguém pode tirar-lhe a casa verde que habita o seu coração e na qual Josefa adormece.

*

Depois de os pais terem decidido separar-se, chegam as primeiras férias passadas em sítios diferentes. A separação faz-se sentir mais nesta altura. Seja claro: se a situação de separação é definitiva, não dê aos seus filhos falsas esperanças. Se a separação não está ainda consolidada, não se admire com perguntas do tipo: “Quando vamos ver o pai/a mãe?” Faça com que a comunicação entre os seus filhos e o pai/a mãe não se quebre. Deixe-os escrever cartas, postais, enviar mensagens de correio electrónico, faxes, etc.

Não tenha ilusões quanto à forma como os seus filhos vão receber os novos companheiros dos pais. Evitem apresentá-los como “substitutos”. Como toda a gente, as crianças precisam de um tempo de adaptação.

Diga-lhe que a decisão de passarem férias separados não teve a ver com ele, que compreendem a sua tristeza. Assegure-lhe que não estará muito longe dele. Combine escreverem-se todos os dias, ou de dois em dois dias. Até podem fazer uma colecção de postais, com os desenhos dele sobre tudo o que descobrir em férias. Quando se encontrarem de novo, vão ter muito para contar.

Publicado em casa, comportamentos, crianças, diferença, diálogo, educação, escola, família, infantário, medos infantis, mudança, pais e educadores, pedagogia, psicologia, relacionamento, separação, viagens | Tagged separação | Sem comentários ainda

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